Ttulo: A Cor da Paixo.
Autor: Sveva Casati Modignani.
TTULO ORIGINAL: ROSSO CORALLO.
Dados da Edio: Asa Editores, Porto, 2006.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores Cunha.
Correco: Virgolina Carpentier.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de pgina: rodap.

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SVEVA CASATI MODIGNANI
A COR DA PAIXO
TRADUZIDO DO ITALIANO POR
REGINA VALENTE
ASA
TITULO ORIGINAL: ROSSO CORALLO
2006, Sperling
1 edio: Novembro de 2006
Depsito legal n 246201/06
ISBN 972 41-4901-3
Reservados todos os direitos

ASA Editores, 8.A.
SEDE
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Dedicado a Nullo

AGRADECIMENTOS
Li a biografia de uma famosa empresria de Milo, Ada Grecchi (Una vita 
di corsa, Koin), e inspirei-me livremente nela para contar o percurso 
profissional de Liliana Corti, protagonista de A Cor da Paixo. Agradeo 
 Dra. Grecchi, advogada, o facto de ter apresentado os pormenores 
tcnicos de uma carreira.
Com Luciano Lanza, director de Libertaria e autor do livro-inqurito 
Bombe e delitti, redescobri aqueles difceis anos setenta. Muito 
obrigada.
Como sempre, na pesquisa histrica fui ajudada pela minha amiga Annamaria 
Andreini Arisi. Estou-lhe igualmente grata.
Um agradecimento a Manlio Bevilacqua, que percorreu uma vez mais a zona 
de Porta Romana.
Agradeo a todas as minhas amigas da Sperling, que me acodem e me amparam 
carinhosamente, sempre e em toda a parte.
Este romance  tambm fruto do apoio afectuoso e do profissionalismo de 
Donatella Barbieri, que acompanha passo a passo o nascimento das minhas 
histrias fornecendo-me conselhos preciosos e fazendo intervenes teis. 
Agradeo-lhe do corao.

VIA MASCAGNI
O despertador tocou s seis horas da manh. Liliana travou-o 
imediatamente para no perturbar o sono do marido. Deslizou para fora da 
cama e saiu do quarto sem fazer barulho. O contacto dos ps descalos com 
o mrmore do pavimento f-la estremecer enquanto atravessava o vestbulo 
para desactivar o alarme. Depois entrou na casa de banho. A gua tpida 
do chuveiro deu-lhe alguma energia, sem conseguir dissipar a tenso 
acumulada nos dias anteriores. Tambm naquela noite tinha dormido poucas 
horas, e com a ajuda de um calmante. Vestiu um roupo macio e, com uma 
toalha pequena, esfregou o cabelo curtssimo, escuro. Calou os chinelos 
de veludo e foi at  cozinha. Levantou as persianas e abriu a janela. 
Minnie, a gata, deu um salto de cima do balco, onde gostava de passar a 
noite, aterrou aos ps dela e, arqueando a espinha, comeou a esfregar-se 
contra as suas pernas. O ar carregado de humidade daquela manh quente de 
Julho invadiu o aposento, anulando a frescura do ar condicionado. Liliana 
deu um biscoito a Minnie, enquanto preparava o habitual caf americano, 
comprido e abundante, que foi tomar na varanda.
Observou os pssaros que esvoaavam a chilrear pelo meio das rvores do 
jardim, l em baixo, para l do qual se estendia a via Mascagni onde, em 
volta do camio da limpeza, os lixeiros conversavam em voz alta. O cu 
opaco anunciava mais um dia trrido. No era o ar abafado do Vero de 
Milo que oprimia Liliana, mas sim a lembrana daquela mensagem que tinha 
encontrado alguns

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dias antes, bem  vista, em cima da secretria do escritrio. Poucas 
linhas, escritas em letra de imprensa: VAIS PAGAR CARO, VAIS PAGAR TUDO, 
SERVA DO ESTADO. Uma estrela e a assinatura BRIGADAS VERMELHAS concluam 
o texto.
A estratgia da tenso espalhava-se no pas com atentados a jornalistas, 
empresrios, intelectuais, magistrados, sindicalistas e grandes 
directores de empresas.
Liliana leu aquelas palavras e empalideceu. Depois foi ao gabinete do 
director da Collenit, a empresa para a qual trabalhava como directora de 
pessoal, e mostrou-lhe o papel.
Ele recorreu  polcia, que constatou a autenticidade da ameaa e 
destinou a Liliana uma segurana armada. H trs dias que dois polcias a 
escoltavam para todo o lado com um carro de servio.
Liliana acabou de saborear o caf, voltou a entrar na cozinha e fechou a 
janela. O ar condicionado fez-se sentir imediatamente. Foi at ao quarto 
de vestir e sentou-se ao toucador. Ao lado do telefone havia uma moldura 
com a fotografia de Stefano, o filho de onze anos que estava na praia com 
a av, a tia Rosellina e os primos, filhos do seu irmo Pucci. Observou-
a, pensativa, depois levantou o auscultador e marcou o nmero da villa de 
Forte dei Marmi, na Versilia. Sabia que a me se levantava cedo, de 
manh. Com efeito, atendeu ao primeiro toque.
- O teu filho ainda est a dormir. E os outros tambm, felizmente - 
disse.
- O que  que ests a fazer, me? - perguntou Liliana.
- Estou a preparar as sanduches para o almoo na praia e, quando as 
crianas se levantarem, vou resmungar, vou distribuir umas sapatadas e 
vou implicar com a tua irm Rosellina, que  uma mandriona. Espero ver-te 
a ti e  famlia toda no fim-de-semana - respondeu, com o ar severo de 
sempre, sem ousar perguntar-lhe a razo daquele telefonema a uma hora to 
inslita. Geralmente s se falavam ao fim do dia, quando Liliana dava as 
boas-noites a Stefano.
- Tenho saudades do meu menino - sussurrou Liliana.
- No inventes histrias. Se assim fosse, estavas aqui, ou ento ele 
estava contigo em Milo. A verdade  que quiseste tornar-te uma mulher de 
poder, em vez de te contentares com um bom trabalho que te permitisse 
estar perto do teu filho - censurou.

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Era a acusao que a me lhe repetia h anos, enquanto Liliana se 
obstinava a querer demonstrar que uma mulher pode construir uma carreira 
sem descurar a famlia.
- Est bem, me - rematou, e prosseguiu: - Diz ao Stefano que estou a 
dentro de dois dias e que gosto muito dele.
- O amor demonstra-se com actos, no com palavras - interveio Sandro 
atrs dela, no momento em que pousava o auscultador.
Ela olhou para a imagem do marido no espelho. Vestia um roupo de seda 
estampada e tinha ainda o cabelo cinzento despenteado. Era um homem no 
muito alto, magro, com um olhar doce e reflexivo. Tinha cinquenta e cinco 
anos, mais dezassete do que ela, e era a nica pessoa de quem Liliana 
aceitava observaes e crticas, sempre calmas, sem reagir. Tambm desta 
vez no replicou.
Espalhou no rosto um creme hidratante, ao mesmo tempo que ele lhe pousava 
as mos nos ombros e se inclinava para lhe dar um beijo no cabelo.
- s to bonita, e eu sou um velho estpido loucamente apaixonado por ti 
- sussurrou-lhe.
Os grandes olhos cor de mbar de Liliana brilharam de ternura.
-  verdade - respondeu, a sorrir.
- O qu? - perguntou ele, acariciando-lhe o pescoo.
- Que eu sou bonita e que tu s o meu estpido velho marido
- tentou brincar, sem conseguir esconder uma nota de ansiedade na voz. - 
Mas que sentido teria a minha vida sem ti? - perguntou-lhe, virando-se 
para o olhar nos olhos.
- s vezes penso que podias ter arranjado um companheiro mais jovem e 
brilhante - observou ele.
O toque da campainha da rua impediu Liliana de lhe responder.
- Os teus paladinos chegaram - anunciou Sandro.
Eram os polcias que a vinham buscar para a levarem at  via Paleocapa, 
aos escritrios da Collenit.
- Manda-os entrar, por favor, enquanto eu acabo de me vestir.
O marido assentiu. Quando ia a sair do quarto de vestir, dedicou-lhe um 
sorriso de encorajamento. - Est sossegada, minha pequenina, tambm desta 
vez te vais safar.
Sandro tinha razo. A vida tinha-a submetido a muitas provas, muito 
duras, que Liliana superara enfrentando-as com coragem
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e determinao. Mas nunca tinha recebido uma ameaa de morte. Poucos dias 
antes de encontrar a mensagem das Brigadas Vermelhas, o director de 
pessoal de uma grande empresa tinha sido morto pelos brigadistas com um 
tiro de pistola quando ia a sair do metropolitano. Pela primeira vez na 
sua vida, Liliana sentia medo e no sabia como reagir.
Despiu o roupo e vestiu um tailleur de linho azul que realava a sua 
silhueta esguia. Olhou-se no espelho: estava pronta para enfrentar o dia.
Foi ao escritrio e recolheu os documentos sobre os quais tinha estado a 
trabalhar durante a noite, para formular uma srie de propostas a 
discutir com os representantes sindicais.
Quando estava a meter os papis na pasta, o telefone tocou.
- Sim? - disse com uma voz hesitante.
- Como ests? - Era o pai.
- Nunca estive to bem - mentiu. - E tu? - perguntou.
- Liguei-te para te fazer uma proposta: vamos  praia, ter com os 
meninos. Pedi dois dias de frias, por isso podemos meter-nos j ao 
caminho. No  uma ptima ideia? - perguntou Renato Corti. Sabia que a 
filha estava em perigo e tentava afast-la de Milo.
-  difcil recusar uma proposta to aliciante - respondeu Liliana.
- Ento vamos embora.
- Pai, estou a acabar uma negociao extenuante com os sindicatos. Se 
hoje tudo correr como espero, consigo encerrar a questo. No me posso ir 
j embora.
O pai suspirou.
- Pai, ouviste-me?
- Gosto muito de ti - disse ele, e acrescentou: - Os teus anjos da guarda 
j chegaram?
- Esto  minha espera no vestbulo.
- Liliana, no baixes a guarda. Os lobos maus so capazes de tudo para te 
despedaarem.
- Est sossegado, pai, eu estou bem protegida. Um beijo.
- Tem um bom dia - respondeu Renato.
Pouco depois Liliana estava no elevador com os guarda-costas e 
recapitulava o esquema que se tinha proposto seguir nas negociaes com 
os sindicatos.

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Precedida por um dos polcias - o outro estava ao lado dela - atravessou 
o trio do edifcio e chegou  porta que se abria sobre um curto lano de 
escadas. O carro blindado estava parado junto ao passeio e o motorista 
mantinha o motor ligado.
No andava ningum por ali.
Do outro lado da rua, apenas um lixeiro que tinha acabado o seu trabalho 
enfiava o apanhador no contentor de lixo, que estava aberto.
Liliana saiu com o polcia, que mantinha a porta aberta, e desceram os 
dois rapidamente os poucos degraus da escada. Ouviu um grito - Para o 
cho! - e trs tiros de pistola seguidos. Deu por ela deitada no 
passeio, esmagada pelo corpo do polcia que lhe gritava: - Fique quieta!
O falso lixeiro que tinha disparado saltou para cima de uma motoreta que 
apareceu de repente, conduzida por um homem de carapuo, e partiu a 
grande velocidade.
Liliana sentiu uma dor lancinante na perna esquerda que a fez perder os 
sentidos.
Tinha acontecido tudo em poucos segundos.

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SiTO DELLA GUASTALLA
Portanto, foi atingida por trs projcteis - constatou o professor Nelson 
De Vito, que a tinha escutado em silncio.
- S dois, Sr. Professor: um trespassou-me a barriga da perna e o outro 
esmigalhou-me o pernio. O terceiro matou o polcia que ia  minha 
frente. Quando recuperei os sentidos estava numa ambulncia que me 
transportava para a clnica, de sirene ligada, e eu a gritar com dores - 
explicou Liliana, enquanto deslizava a mo pela perna esquerda, sulcada 
por uma cicatriz muito fina. E acrescentou: - A recordao daquela 
violncia acompanha-me j h mais de vinte anos.
O professor Nelson De Vito, um homem de sessenta anos, de rosto gorducho 
e olhos azuis muito vivos, era um excelente psiquiatra. Filho de um 
jornalista napolitano e de uma pediatra inglesa, tinha nascido em 
Londres, onde os pais viviam e trabalhavam. Depois da licenciatura em 
Medicina, foi para os Estados Unidos fazer a especializao em 
Psiquiatria e ali ficou a trabalhar em vrios hospitais. Em Boston 
conheceu Maria, uma rapariga italiana, com quem se casou.
Cinco anos atrs tinha vindo a Itlia com a mulher para dar assistncia 
ao pai, que estava a morrer numa clnica de Milo. E nunca mais 
regressou. Arranjou uma casa na via San Barnaba e abriu um consultrio no 
Sito della Guastalla. Era um homem metdico e tranquilo que dedicava o 
seu tempo ao estudo, aos doentes e aos afectos familiares.

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s sete horas da tarde de um dia glido de Fevereiro, enquanto a cidade 
festejava o Carnaval, acabou de se despedir de um jovem em grave 
depresso. Depois de limpar cuidadosamente o cachimbo e organizar os seus 
apontamentos, olhou em volta para verificar se estava tudo em ordem. Era 
um bonito consultrio: tinha as paredes revestidas de estantes, luzes 
difusas, um pequeno div de couro, duas poltronas confortveis forradas 
de veludo azul e uma grande secretria antiga com alguns papis 
rigorosamente empilhados. Estava tudo direito. A seguir ligou o telemvel 
e meteu-o no bolso do casaco. Naquele momento ouviu um som de passos que 
provinha do vestbulo. Rita, a secretria, tinha sado s seis horas, 
depois de ter mandado entrar o ltimo paciente do dia. O professor saiu 
da diviso e encontrou-se frente a frente com uma desconhecida. A mulher, 
j no muito jovem, decididamente bonita, alta, magra, envolvida num 
casaco de peles claro, fitava-o com uns olhos inquietos. O cabelo curto, 
cinzento, com grandes traos brancos, deixava o rosto a descoberto.
- Boa-noite - disse-lhe.
A porta do elevador, que dava directamente para o vestbulo, estava 
entreaberta e pensou que a mulher se tivesse enganado no andar.
- O senhor  o professor De Vito? - perguntou a mulher. Portanto, a 
visitante inesperada no se tinha enganado: procurava-o mesmo a ele. 
Nelson anuiu.
- O consultrio est fechado, minha senhora - anunciou.
- Eu sei. O porteiro disse-me. No entanto, preciso absolutamente de falar 
consigo - replicou a mulher.
- Telefone na segunda-feira de manh para a minha secretria e pea para 
lhe marcar uma sesso - acrescentou Nelson.
- J fiz isso. A sua secretria props-me uma data impossvel: Maio. 
Estamos em Fevereiro e eu no posso esperar tanto tempo. Preciso da sua 
ajuda agora - insistiu.
Nelson dedicou-lhe um sorriso afectuoso.
-  a signora... - perguntou, deixando a interrogao em suspenso.
- Desculpe, nem sequer me apresentei. Chamo-me Liliana Corti
- e estendeu-lhe a mo, que Nelson apertou. Logo a seguir tirou

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o casaco de peles e pousou-o num cadeiro, como se o mdico a tivesse 
convidado a ficar.
Naquele momento, libertou-se dela o perfume quase imperceptvel de uma 
flor muito comum no campo ingls, a primavera. Lily of the Moor, pensou 
Nelson, o mesmo perfume de Evelyn, a sua me, que tinha nascido e 
crescido numa aldeia da Cornualha, para onde voltara depois da morte do 
marido.
O professor pensou que a mulher estava  espera dele em casa e que tinha 
de se despachar porque naquela noite, como todas as sextas-feiras, havia 
convidados para o jantar. No entanto, o olhar sofredor de Liliana e 
aquele perfume familiar levaram-no a ficar. Fechou a porta do elevador e 
disse: - Faa o favor, signora - indicando-lhe o consultrio com um gesto 
largo.
Enquanto a mulher atravessava o aposento, Nelson reparou no seu andar 
ligeiramente vacilante.
Liliana trazia um pullover azul-celeste e uma saia justa, cor de tabaco, 
que sublinhava o corpo elegante e as pernas bem modeladas. Sentaram-se um 
em frente ao outro, dos dois lados da secretria. -
Ela olhou-o nos olhos durante muito tempo, em silncio. Depois disse: - 
No consigo dominar a minha vida. Sinto-me como um navio que est prestes 
a afundar, derrubado pelas ondas do mar em tempestade.  uma angstia 
terrvel, que me corta a respirao.
- H quanto tempo sofre desse distrbio? - perguntou o mdico.
- Os primeiros ataques de pnico tive-os logo a seguir ao atentado. A 
angstia j me persegue h uma vida.
E contou-lhe a emboscada das Brigadas Vermelhas.
- O seu telefone est a tocar - avisou Liliana, interrompendo o que 
estava a dizer.
- Daqui a pouco vai parar - tranquilizou-a o professor.
No gabinete de Rita entrou em funes o gravador de chamadas. Nelson 
tinha a certeza de que era a mulher a tentar ligar-lhe, preocupada por 
ele no ter ainda regressado a casa. Dali a pouco tocaria o telemvel, 
pensou. Por isso desligou-o. Nunca atendia o telefone durante as sesses 
com os seus pacientes, e Liliana tinha entrado na lista das pessoas a 
tratar. Tirou da gaveta da secretria uma folha impressa, na qual inseriu 
o nome da nova paciente, e que a seguir lhe entregou.

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- Devido  lei sobre a privacidade,  necessrio que tome conhecimento 
destas clusulas estpidas e que me autorize a tratar o
seu caso.
Liliana apressou-se a assinar.
- Sou advogada. Conheo este texto de cor - explicou, enquanto lhe 
restitua a folha. E continuou a contar. - Formei-me com vinte e trs 
anos. Tinha muita pressa em queimar etapas para ajudar os meus pais, que 
tinham feito muitos sacrifcios para me porem a estudar, a mim e aos meus 
irmos. Eram operrios. Olhe, veja isto - disse, mostrando um pattico 
relogiozinho de ouro que tinha no pulso, em contraste com o precioso 
diamante amarelado que brilhava no dedo anelar. - Foi a minha me que mo 
deu e acho que para isso teve de abdicar de muitas coisas. Tinha eu ento 
treze anos.

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CORSO LODI
Ernestina e os quatro filhos estavam sentados  volta da mesa da cozinha, 
coberta com uma toalha de oleado aos quadradinhos azuis e brancos. O 
jantar era arroz branco, temperado com folhas de salva salteadas em 
manteiga, e pur de batata. Era uma comida saborosa e econmica, que 
saciava toda a gente.
As crianas comiam em silncio. Sentiam a preocupao da me que, de vez 
em quando, olhava para a cadeira vazia do marido.
No silncio da cozinha ouvia-se o tilintar dos talheres, o tiquetaque do 
relgio em cima do balco e o crepitar do carvo no fogo que aquecia, 
para alm da cozinha, uma pequena casa de banho e dois quartos: o de 
Ernestina e do marido e o das filhas, Liliana e Rosellina. Os rapazes, 
Giuseppe e Palmiro, cujos nomes tinham sido escolhidos pelos pais em 
honra de Di Vittorio e de Togliatti, (1) dormiam na cozinha em duas camas 
de desarmar que durante o dia ficavam encostadas a uma parede.
Para aliviar a tenso, Liliana declarou:
- Gostava de ser rica para poder devorar costeletas  milanesa e vitela 
assada. J estou farta de massa, de arroz e de batatas.
Liliana era a mais velha dos quatro filhos. Tinha treze anos e estudava 
com excelentes resultados. Os irmos respeitavam-na e temiam-na um pouco, 
porque s vezes era mais severa do que a me. Naquele momento tinha 
exprimido um desejo partilhado por todos.

1 Nome de dois heris antifascistas italianos. (N. da T.)

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Ernestina saltou como uma mola e, atravs da mesa, deu-lhe uma bofetada 
que despenteou os cabelos escuros da filha.
- O teu protesto  um insulto a mim e ao teu pai, e um pssimo exemplo 
para os teus irmos - censurou-a, com menos convico do que quando lhe 
tinha batido.
Ernestina sentia-se culpada por no conseguir controlar o seu permanente 
estado de angstia. Estava sempre inquieta por causa do marido, que 
definia como uma cabea quente. Renato Corti era um bom pai e um 
companheiro fiel, mas a fbrica, o sindicato e a Casa do Povo eram os 
seus interesses primordiais. No perdia um comcio, marchava na primeira 
fila nas manifestaes e distribua panfletos em frente aos portes e nos 
vestirios da empresa onde trabalhava. Por isso, Ernestina vivia sempre 
no terror de vir a ter um marido desempregado ou, pior ainda, preso 
durante uma das muitas manifestaes em que participava.
Renato trabalhava na Righetti-Magnani desde a segunda metade dos anos 
trinta. Ali conhecera Ernestina e foi amor  primeira vista. Casaram-se  
pressa, pouco antes do nascimento de Liliana. Quando a Itlia entrou em 
guerra, ele no foi recrutado porque os seus dois irmos mais velhos 
estavam j a combater. Em vez disso, foi obrigado a trabalhar naquela 
fbrica, que produzia material blico. Ela confeccionava espoletas para 
as bombas, ele torneava as cpsulas dos projcteis.
Na fbrica, Renato tinha aderido a um comit que incitava os operrios a 
diminuir a produo destinada ao exrcito alemo. Se fosse descoberto, 
seria deportado para a Alemanha. Ernestina sabia disso e tremia de medo.
- Maldito o dia em que te deixei agarrar-me no meio dos caixotes! E 
depois tive de casar contigo! - desabafava, quando estavam ss.
- Mas gostaste! Gostaste e de que maneira - replicava ele, inchado de 
orgulho.
Renato era um rapago, forte e bonito. Ela enlouquecia de satisfao 
entre os seus braos. Ele, enquanto a mantinha apertada e a cobria de 
beijos, contava-lhe os seus sonhos de paz, de festa e de abundncia. 
Ernestina acreditava. Mas eram apenas alguns instantes de felicidade 
naqueles anos de guerra, com um marido que tinha a coragem de fazer greve 
numa cidade invadida pelos nazis. Depois

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a guerra terminou. Foram dias de euforia, mas a abundncia acabou por 
nunca chegar. Ela teve quatro filhos e Renato continuou a anunciar-lhe um 
mundo melhor.
Agora estava incomodada por ter dado uma bofetada a Liliana e sorriu-lhe 
como se quisesse desculpar-se.
No entanto, foi a filha que murmurou: - Desculpa, me.
Ernestina abanou a cabea e levantou-se da mesa. Cobriu os ombros com um 
xaile e foi at  varanda espreitar para o ptio,  espera de ver o 
marido chegar.
Naquele dia tinha havido uma greve geral contra o governo, convocada por 
todos os sindicatos. Os polticos no poder continuavam a ignorar os 
pedidos dos operrios, que reclamavam uma maior equidade salarial, e 
favoreciam os patres. Renato, como muitos dos seus companheiros, tinha 
participado numa manifestao de protesto e ela no ia ficar sossegada 
enquanto no o visse regressar. At porque, em caso de desordem, a Celere 
2, criada em
1949, usava bastes para dispersar os manifestantes e Renato j tinha 
sido atingido mais do que uma vez.
Enquanto ali estava, ansiosa, apoiada ao corrimo, Ernestina sentiu uma 
mo pousar-lhe no ombro.
- V l, me, anda para casa. O pai deve estar a chegar - disse Liliana.
- Estou sempre nervosa. E isso no  bom nem para ti nem para os teus 
irmos - sussurrou ela.
- Ns no ligamos a isso - disse a filha, para a tranquilizar.
Ernestina observou as janelas iluminadas que davam para o
ptio. Naquele prdio viviam, com as respectivas famlias, um alfaiate, 
uma costureira, um funcionrio dos caminhos-de-ferro, um jardineiro e um 
enfermeiro do centro de sade. Tudo pessoas honestas e tranquilas. A 
nica cabea quente era o seu marido, pensou com raiva.
- Vamos para casa, me. Aqui a gente gela - insistiu Liliana.
- Est bem, vamos l entrar - suspirou, resignada.
Ernestina trabalhava nove horas por dia numa fbrica de malhas onde tinha 
arranjado emprego logo depois do nascimento de

2. Corpo policial armado usado sobretudo para reprimir manifestaes. (N. 
da T.)

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Rosellina, a ltima dos seus filhos. Quando regressava a casa, tratava 
deles e do trabalho domstico. Mas no era o cansao fsico que a deixava 
nervosa. Era antes o sentir-se prisioneira de uma situao sem sada. 
Tinha acreditado num futuro tranquilo ao lado de Renato, um homem 
extraordinrio que, porm, nunca lhe garantiria nenhuma estabilidade.
Na cozinha, Giuseppe estava a levantar a mesa. Tinha dez anos e 
desempenhava de boa vontade as pequenas tarefas domsticas.
Ernestina voltou a pr o jantar do marido em cima do balco. J eram 
quase nove horas.
- Agora vo todos dormir - ordenou.
- Eu quero esperar pelo meu pai - protestou Rosellina.
Tinha cinco anos, era muito engraada e toda a famlia lhe dava mimo.
Ernestina no admitia que os filhos lhe desobedecessem. Por isso fulminou 
a pequena com um olhar carregado e ela dirigiu-se rapidamente ao seu 
quarto. A me sorriu-lhe e meteu-lhe um rebuado na mo.
Os rapazes armaram as camas e, naquele momento, Renato escancarou a porta 
de casa. Tinha uma face inchada, que lhe alterava as linhas harmoniosas 
do rosto, e do gorro de l que lhe cobria a cabea aparecia a ponta de um 
adesivo. Os lbios, porm, estavam entreabertos num sorriso radiante. 
Tinha o olhar vitorioso de um heri que triunfou numa dura batalha. Abriu 
os braos como se quisesse apertar a famlia inteira contra o peito.
- Como  que est a minha tribo? - perguntou, feliz.
Ernestina respirou de alvio. Logo depois, a angstia que a tinha 
atormentado transformou-se em raiva.
- Vocs os dois, daqui para fora - ordenou aos filhos, indicando a porta 
do seu quarto.
Assim que os rapazes fecharam a porta, avanou para o marido e atingiu-o 
com uma bofetada pesada na face s. Renato no fez nada para se esquivar 
 agresso, mas foi rpido a agarrar-lhe o pulso. Levou aos lbios a mo 
da mulher e beijou-a.
- Deixei-te preocupada, lamento muito. Mas apanhei uma cacetada que me 
fez ver estrelas, minha querida Ernestina - disse-lhe, a sorrir.
Ela libertou a mo da do marido e virou-lhe as costas.
- Sentes-te mal? - perguntou, num tom rude.

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- Tenho sede - respondeu ele, sentando-se  mesa.
- Queres comer?
- No tenho fome. S quero gua fresca.
Ela levou-lhe um copo de gua, tirou-lhe o gorro de l e afagou com 
ternura o curativo que lhe cobria a testa.
- Bateram-te outra vez - sussurrou. E acrescentou: - Ests a arder, como 
se tivesses febre.
- s muito bonita, Ernestina. E eu estou muito, muito apaixonado por ti. 
Quero-te tanto que at me d vontade de chorar - disse baixinho.
F-la sentar nos seus joelhos e apertou-a nos braos com muita fora.

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Liliana deitou-se. O quarto que dividia com Rosellina dava para a 
varanda. Era um aposento muito espartano que continha, para alm das duas 
camas de ferro pintado, uma mesa-de-cabeceira e um armrio velho para 
pendurar os vestidos. Ernestina tinha tentado torn-lo mais acolhedor, 
forrando as paredes com papel florido.
A rapariga estava preocupada com o pai. Achava que aquele homem forte, 
bonito e sorridente devia ser dono do mundo. Mas no era assim. Liliana 
colocava a si prpria questes para as quais no encontrava uma resposta, 
e no conseguia conciliar o sono.
Levantou-se da cama e, em bicos de ps, foi  cozinha beber um copo de 
gua. Palmiro, que todos tratavam por Pucci, e Giuseppe dormiam 
profundamente. Atravs da porta fechada do quarto dos pais via-se um fio 
de luz. Ouviu a me que, em voz baixa, dizia a Renato:
- Ests a ver? Trinta e oito e meio. com um febro destes, amanh no 
podes ir trabalhar. - E acrescentava, com um tom afectuoso: - V l, bebe 
o vinho quente. Vai-te fazer suar e a febre desaparece.
- Tenho frio. Pe-me mais um cobertor em cima - pediu o pai.
- Tens os ps gelados. vou esfreg-los com fora, para ver se aquecem.
Liliana sentiu que se tinha imiscudo na intimidade dos pais. Voltou 
rapidamente ao quarto e enfiou-se na cama, por baixo da coberta 
acolchoada. Recordou a ternura com que a me cuidava do

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marido: nunca era assim to meiga com os filhos. E com esta comparao 
adormeceu, finalmente.
Quando a me a sacudiu para a acordar, achava que tinha dormido apenas 
alguns instantes, embora fossem j seis e meia da manh.
- vou trabalhar - anunciou Ernestna. - Recomenda aos teus irmos que 
faam pouco barulho porque o pai est a dormir e eu no tive coragem de o 
acordar. Ontem  noite estava com febre. Antes de ires para a escola, 
passa em casa do Fermo e diz-lhe que venha c dar uma vista de olhos.
Liliana anuiu e levantou-se da cama. Depois de se ter lavado, vestiu a 
saia de flanela cinzenta s pregas e uma camisola com todos os tons do 
azul-escuro ao azul-claro que a me lhe tinha confeccionado com restos de 
fios da fbrica de malhas. Escovou os cabelos e apertou-os com uma 
bandelete de metal dourado. Depois foi acordar Pucci e Giuseppe.
Giuseppe era uma criana tranquila e simptica. Gostava de brincar com 
uma boneca que Liliana tinha abandonado h muito tempo e fazia-lhe roupas 
criativas com papel amarrotado, demonstrando um notvel bom gosto. Pucci, 
pelo contrrio, tinha j revelado o seu aguado esprito mercantil e 
trocava com os colegas de escola fisgas e outros objectos, que construa 
sozinho, por livrinhos de cowboys e estojos de lpis.
Pucci e Giuseppe respeitavam a irm mais velha, que nunca repetia duas 
vezes a mesma ordem. Por isso, quando os acordou, recomendando-lhes que 
fizessem pouco barulho para no incomodar o pai, eles deslizaram para 
fora das camas e arrumaram-nas em silncio. Depois de se lavarem e 
vestirem, sentaram-se  mesa em frente s tigelas cheias de leite que 
Liliana tinha aquecido para eles.
As vossas pastas esto prontas? - perguntou a irm, enquanto acabava de 
espalhar a manteiga nas fatias de po.
ucci e Giuseppe anuram.
Depois Liliana tratou de Rosellina, que foi ter com os irmos  cozinha 
para tomar o pequeno-almoo.
Quando acabaram de levantar a mesa, vestiram os casacos e saram todos 
juntos. Giuseppe e Pucci tinham de levar Rosellina  creche antes de irem 
para a escola. Liliana, por sua vez, subiu ao terceiro andar e bateu  
porta de Fermo, o enfermeiro. Foi uma senhora idosa, a me, quem veio 
abrir.

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- O meu pai no est bem. Ser que pode pedir ao Fermo para ir l v-lo?
- Ele acabou de chegar do turno da noite. O que  que o Renato tem? - 
perguntou a mulher, curiosa.
- No sei - disse a rapariga, dividida entre a preocupao com o pai e o 
receio de chegar tarde  escola.
- Ontem, durante a manifestao, foi muita gente parar  Urgncia - 
acrescentou a mulher, repetindo aquilo que tinha acabado de ouvir do 
filho. - Tambm bateram ao teu pai? - perguntou.
Liliana anuiu. O enfermeiro, chamado pela me, assomou  porta do quarto 
e ouviu o pedido de Liliana.
No bairro, toda a gente estava convencida de que Fermo era melhor do que 
um mdico. Ia ver os doentes, dava injeces e media a tenso, tratava as 
feridas e sugeria remdios. Era um homem muito generoso. Gostava de tocar 
guitarra e de recordar a mulher que, seis meses depois do casamento, 
tinha sido morta por um tiro perdido, no fim da guerra.
- Eu trato do Renato. vou tomar um caf e j deso - disse  rapariga.
Liliana foi para a escola com o corao mais leve. Era uma excelente 
aluna e naquela manh a professora interrogou-a em Matemtica, dando-lhe 
a nota mxima.
No fim das aulas, ao regressar a casa, foi fazendo como sempre projectos 
para o futuro. Muitas das suas colegas gostariam de vir a ser actrizes ou 
bailarinas, mas ela sonhava ser a directora de uma grande biblioteca, 
como aquela onde tinha estado recentemente por causa de uma pesquisa 
sobre os himenpteros. Ou ento via-se na pele de uma corajosa 
exploradora que descobria um territrio desconhecido no corao da 
frica. Naquela manh pensou que gostaria de se tornar uma poderosa 
personagem poltica para eliminar a injustia social, como o pai a 
definia.
Liliana apercebia-se da diferena que existia entre ela e algumas das 
suas colegas, que usavam casacos elegantes, tinham aulas de dana, iam ao 
cinema e ao teatro e faziam esqui e patinagem. Os pais iam busc-las  
escola de carro. O pai dela apenas lhe podia oferecer uma viagem de 
bicicloeta.
Mergulhada nestes pensamentos chegou a casa e, enquanto

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atravessava o ptio, ouviu algum cham-la de cima. Era a me de Fermo, 
que estava debruada no corrimo da varanda.
- Levaram o teu pai para o hospital - disse, e acrescentou:
- No te preocupes, o meu filho est com ele. Vai  Urgncia, que 
encontras l a tua me. Ns tratamos dos teus irmos - concluiu a mulher.

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Para chegar ao hospital, Liliana apanhou o elctrico e depois fez ainda 
um longo percurso a p. Tinha o corao num tumulto e esforava-se por 
no chorar. A ideia de que o pai podia estar a sofrer ou, pior, de que 
podia morrer, enchia-a de tristeza. Enquanto caminhava, continuava a 
repetir a sua prece: Jesus, ajuda o meu pai a viver.
Quando chegou ao hospital, seguiu as indicaes do pessoal e entrou num 
corredor comprido que terminava na porta envidraada do bloco operatrio. 
Foi ali que viu a me. Estava com trs homens e falava com um mdico que 
tinha vestida uma bata verde comprida. Correu ao encontro dela e chamou-
a:
- Me!
Ernestina abraou-a e sussurrou: - Est tudo bem. O Sr. Professor acabou 
agora mesmo de operar o pai.
- Assim de repente? Porqu? - perguntou Liliana.
Os trs homens - dois colegas de trabalho de Renato e Attilio, um 
delegado sindical - tranquilizaram-na: - Est sossegada. O teu pai vai 
ficar como novo.
O mdico explicou que o golpe na cabea que tinham feito a Renato no dia 
anterior lhe causara uma ligeira hemorragia. Durante a noite a situao 
agravara-se e, quando Fermo o foi ver, Renato tinha perdido os sentidos. 
Levara-o ento para o hospital, onde foi operado imediatamente.
- Aquela gente vai ter de pagar o que fez ao Renato - sublinhou Attilio.

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- Aquela gente, como voc lhe chama,  uma gente desgraada a quem mandam 
bater a outra gente desgraada - comentou o mdico, amargamente.
- Posso ver o meu marido? - perguntou Ernestina, que no tinha grande 
vontade de ficar a ouvir frases que conhecia de cor, nem de se estar a 
queixar.
- S durante uns minutos. Mas depois v para casa, ter com os seus 
filhos. Ele est em boas mos - declarou o cirurgio.
- Embrulharam-no como uma mmia - comentou, preocupada, depois de ter 
visto Renato. E acrescentou: - Eu no saio daqui enquanto ele no 
acordar.
Assim Liliana regressou a casa sozinha e no se espantou ao descobrir que 
a mquina da solidariedade tinha entrado imediatamente em funcionamento. 
A costureira levara um tacho de almndegas, o dono do pomar tinha deixado 
ficar um cesto de laranjas e em cima da mesa da cozinha havia pacotes de 
bolachas e tabletes de chocolate. Ela agradeceu a todos e entendeu que 
no se devia aproveitar de tanta generosidade. Era perfeitamente capaz de 
tratar dos irmos.  noite, quando se sentaram  volta da mesa, foi 
bombardeada com perguntas. Pucci, Giuseppe e Rosellina estavam muito 
excitados com aquele acontecimento, que fazia deles os heris do prdio, 
felizes com a abundncia de comida, mas sobretudo ansiosos por saber o 
que tinha acontecido ao pai.
- O que  um hematoma? O que significa remov-lo? Se eu cair do baloio e 
bater com a testa tambm me abrem a cabea? Se o pai morrer, ns ficamos 
rfos? Se ele sarar, v-se a marca da ferida? Amanh podemos no ir  
escola?
Liliana estava exausta com aquele interrogatrio obstinado e acolheu com 
alvio o regresso da me, que parecia mais tranquila. Ernestina explicou 
que Renato estava acordado e lcido. Deixou-se cair numa cadeira e 
decidiu que, naquela noite, Pucci e Giuseppe iam dormir com ela na cama 
grande.
Depois perguntou: - H alguma coisa que se coma? - Estava em jejum desde 
manh.
Liliana ofereceu-lhe as almndegas, que tinha mantido quentes.
- E agora, o que vai acontecer? - perguntou, por sua vez, sentando-se em 
frente  me depois de os irmos terem ido dormir.

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A pergunta comportava uma srie de consideraes que Ernestina j tinha 
feito e repetiu  filha. Renato era uma espinha na garganta dos patres, 
que privilegiavam operrios menos combativos. Depois de um episdio to 
grave, ia haver alguma tenso na fbrica. A direco iria fazer de tudo 
para o afastar, talvez at oferecendo-lhe uma boa indemnizao. Mas 
Renato no queria uma indemnizao. Pretendia antes um salrio mais 
adequado ao custo de vida, que era cada vez mais alto. - O sindicato 
protege-o e o chefe de seco estima-o. Sabe que o teu pai  um homem 
justo e honesto. Tenho a certeza de que far os possveis para ele no 
perder o emprego. Pelo menos, espero - concluiu Ernestina.
Liliana assentiu. Aquela conversa tranquila no silncio da cozinha, 
enquanto a me depenicava uma almndega e ela esfarelava uma bolacha, 
deixou-a descansada.
- O meu pai  uma rocha - sussurrou.
- Mas a rocha tambm se desfaz, s vezes - observou Ernestina. E 
prosseguiu: - Neste momento temos viradas para ns as atenes de toda a 
gente, s que as pessoas cansam-se depressa e esquecem. Os nossos 
problemas, pelo contrrio, mantm-se. No entanto, temos de fazer fora e 
continuar em frente. No temos outra possibilidade. Pelo menos para j - 
disse Ernestina. E acrescentou:
- Mas eu vou fazer tudo para que tu a possas ter. Prometo-te.
Levantou-se da mesa e foi abra-la.
Naquela noite, quando estava quase a adormecer, Liliana elaborou um novo 
projecto para o seu futuro: quando fosse grande ia ser advogada e ia 
servir-se da lei para defender os fracos das prepotncias dos poderosos.

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CORSO Da PORTA ROMANA
Parabns, Liliana! Fizeste uma ptima traduo. Agora repete-me os verbos 
irregulares, comeando por to be - pediu Angelina Pergolesi.
A rapariga disse-os todos, sem uma nica hesitao.
Na salinha de estar rococ das senhoras Pergolesi, iluminada por um 
plido sol invernal, Liliana sentia-se feliz por ampliar os seus 
conhecimentos. No liceu que frequentava ensinavam apenas uma lngua 
estrangeira: o francs.
O acaso tinha-a levado a conhecer uma senhora idosa, pequena e magra, que 
vivia com a me no primeiro andar de um edifcio de finais do sculo XIX 
ao fundo do Corso di Porta Romana, a pouca distncia do lugar onde 
Liliana morava. Ao regressar da escola, a rapariga tinha-se cruzado 
muitas vezes, por acaso, com aquela mulher pequenina e elegante que 
trazia pela trela um grande co peludo, preto e branco. Quando o animal 
via Liliana, tentava atirar-se a ela a ladrar.
- No tenhas medo. O Buck s quer brincar - disse-lhe a mulher um dia, 
revelando um acentuado sotaque estrangeiro. Liliana, mais sossegada, 
estendeu uma mo hesitante e afagou a cabea do co. Ele emitiu uma srie 
de latidos festivos.
- Gosta de ti - afirmou a mulher, satisfeita.
Assim, dia aps dia, atravs de algumas trocas de palavras, Liliana ficou 
a saber que a mulher se chamava Angelina Pergolesi, e tinha nascido e 
crescido na Amrica, em Brooklyn, onde a me
se refugiara para escapar ao marido, um italiano com quem tinha vivido 
durante alguns anos em Milo e que a signorina Pergolesi definiu como 
irreverente.
- Quando a minha me atravessou o Atlntico para regressar aos Estados 
Unidos, j me levava no ventre, mas ela no sabia. Tinha j dois filhos, 
os meus irmos. O mais velho, o Cesare, vive ainda em Brooklyn e  pastor 
da Igreja Anglicana, como o tio. O outro, o Mrio, est em Toronto, no 
Canad, e  muito rico. Negoceia em peles.  uma longa histria, Liliana 
- sussurrou-lhe um dia, com ar misterioso.
A ideia das aulas de Ingls surgiu um pouco por acaso. Eram gratuitas, 
obviamente, e tinham lugar ao domingo  tarde.
O convvio com as senhoras Pergolesi, me e filha, era muito estimulante 
para a rapariga, que aprendia uma nova lngua estrangeira e, sobretudo, 
entrava em contacto com maneiras de viver e de pensar muito diferentes 
das da sua famlia. Nunca se cansava de ouvir a tagarelice das duas 
senhoras. Em particular, fascinavam-na as histrias da me Pergolesi, que 
usava uma linguagem muito viva e imitava as vozes das pessoas de quem 
falava.
Agora, depois de ter repetido os verbos irregulares, Liliana sentiu o 
aroma intenso do chocolate quente que Luisella, a empregada, servia 
pontualmente s cinco horas da tarde.
- So horas do lanche - anunciou Angelina.
Liliana pousou a gramtica e o caderno.
- Liga o rdio - pediu Angelina, quando saiu da sala.
Os Corti no tinham rdio. Mas as senhoras Pergolesi tinham um aparelho 
magnfico, dotado tambm de um gramofone que se enquadrava perfeitamente 
na decorao excessiva da salinha. quela hora, a rdio transmitia um 
programa de msica ligeira que Liliana nunca conseguia ouvir porque, com 
o anncio do chocolate, comparecia tambm a velha signora Pergolesi. Com 
um tilintar de pulseiras, sentava-se no meio do sof e comeava a 
conversar.
- Ouvi dizer que o teu pai voltou do hospital - comeou, naquele dia. E 
apressou-se a pedir notcias.
- Est muito bem. Daqui a uma semana volta a trabalhar. Foi uma aventura 
complicada, mas ele no chegou a perder a boa disposio - disse Liliana.
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- Quando se  jovem tem-se sempre vontade de rir e de brincar. Eu tambm 
era assim, ou pelo menos fui assim at aos dezasseis anos, quando o 
engenheiro Pergolesi colheu a flor da minha virtude e fui obrigada a 
casar com ele. Isso no o impediu de continuar na boa vida, se  que me 
entendes. Ele justificava-se dizendo que eu era uma mulher enfadonha. 
Entretanto, com vinte anos j tinha dois filhos e ele punha-me uns cornos 
to compridos que chegavam ao tecto. Os cornos pesam, querida Liliana. 
Por isso decidi pr o oceano entre mim e ele. Quem podia imaginar que eu 
j estava grvida da Angelina? Que, de resto,  igual ao pai. Quero dizer 
fisicamente, no em temperamento.  rica em boas qualidades, mas ficou 
sempre uma menina.  claro que a culpa  toda do pai, que lhe deu muito 
mimo. - A velha senhora recuperou flego e continuou: - Quando estvamos 
na Amrica, eu era jovem e bonita e  claro que no me faltaram 
pretendentes. No imaginas os cimes que a Angelina tinha deles! Era 
caprichosa e insuportvel. Agora somos duas velhotas, alis trs, 
considerando a Luisella, e pegamo-nos por tudo e por nada. Que mais 
podemos fazer? Esperamos pelo domingo, porque tu trazes um toque de 
juventude a este asilo. Tudo por culpa do engenheiro Pergolesi, que foi  
Amrica reclamar os filhos ao fim de vinte anos de separao. Eu estava 
bem na residncia paroquial do meu irmo Alfredo.  verdade que tinha de 
aguentar a mulher dele, a Florence, uma inglesa de Dorset de nariz 
empinado, mas de qualquer maneira era a irm do pastor e desempenhava um 
papel de relevo na comunidade anglicana de St. Paul. Em suma, o Cesare e 
o Mrio, os nossos dois filhos, quando o pai disse: 'Vamos voltar para 
Itlia', fizeram-lhe um manguito. A Angelina, porm, abandonou-se nos 
braos daquele pap desconhecido, como se fosse o Salvador, e tanto disse 
e tanto fez que fui obrigada a regressar. Por isso tive de aguentar o 
fascismo, a guerra, as evacuaes e mais alguns cornos at que um enfarte 
fulminou o meu marido, em 1944. Fiquei em Milo com a Angelina, que 
consegue dar um sentido aos meus dias.
- Aqui est o chocolate - gritou Angelina, ao mesmo tempo que empurrava 
para dentro da sala o carrinho de lato e mogno, Posto com panos e 
guardanapos imaculados, chvenas Rosenthal de porcelana branca, uma taa 
de p cheia de biscoitos perfumados e a chocolateira de prata com uma 
pega comprida de bano.

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- No sentem um toque especial no aroma do chocolate? Hoje acrescentei 
uma pitada de canela. Em ingls, cinnamon, querida Liliana - explicou 
Angelina, enquanto servia a primeira chvena  me.
- Sabes, estava a contar  nossa jovem amiga todas as loucuras que 
fizeste para seguir o teu pai at Itlia - disse a velha senhora.
- Me, por favor! Essas coisas no interessam  Liliana. No  verdade, 
querida? - protestou Angelina. Depois virou-se para a me: - A verdade  
que a tia Flo estava farta de te aturar e o tio Alfredo disse ao pai: 
Por favor, leva-ma embora. Esta  que  a verdade.
Entre as duas senhoras comeou uma daquelas habituais conversas que 
divertiam imenso Liliana.
- Olha, ests a ouvir?  tudo por minha culpa. Mas com o teu pai estavas 
em lua-de-mel! Sempre cmplices, sempre a tramar alguma coisa contra mim 
- acusou a me. Depois, com um tom vagamente mundano, voltou-se para 
Liliana: - Um dia tu tambm devias ir  Amrica. Esto l os nossos 
parentes todos e so uma tribo.
Angelina ficou logo entusiasmada.
- Assim que estiveres em condies de te exprimir correctamente em 
ingls, eu escrevo ao meu irmo Mrio, que vai ficar muito feliz por te 
receber. A sobrinha dele, a Beth, tem a tua idade. Tambm vais conhecer o 
outro sobrinho, o Brunetto, que  um cantor famoso em todo o Midwest. - E 
acrescentou: - Depois do lanche vou-te levar a casa com o Buck, que vai 
ficar todo contente por dar um passeio.
Pouco depois saram juntas e dirigiram-se ao corso Lodi. Dos dois lados 
da rua havia montes de neve suja e compacta. No cu, o sol apagava-se por 
entre uma neblina pouco densa.
- Acha mesmo que, um dia, eu vou poder ir  Amrica? - perguntou Liliana, 
quando estavam j perto do prdio onde vivia.
- Vais at ao fim do mundo, se quiseres. No haver nenhum caminho que te 
esteja vedado - afirmou Angelina, convicta.
Despediram-se e Liliana entrou em casa. A me estava a passar os lenis 
a ferro em cima da mesa da cozinha. Fermo acompanhava  guitarra Renato, 
que interpretava, com uma excelente voz de bartono, uma cano dos 
anarquistas: Addio Lugano Bella. Rosellina

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escutava, aninhada junto ao fogo. Pucci e Giuseppe ainda estavam no 
ptio a brincar com os amigos.
- Quando eu for grande, vou at ao fim do mundo - anunciou Liliana  
famlia.
Renato parou de cantar e a me ficou com o ferro no ar. Rosellina 
perguntou: - Onde  esse fim do mundo?
- Isso mesmo, onde ? - perguntou Renato.
-  muito longe daqui.  em Filadlfia, no Midwest, em Nova Iorque, no 
Plo, na China e sabe-se l mais onde. vou viajar em grandes navios e 
avies. vou falar todas as lnguas do mundo e ser amiga de gente famosa - 
afirmou com nfase Liliana.
- No tenho a certeza de fazer bem em deixar-te frequentar a casa 
daquelas duas senhoras da alta sociedade, que te enchem a cabea com 
essas patranhas - disse Renato.
- Tu, que s uma pessoa que vive de sonhos, ainda tinhas a pretenso de 
que a tua filha fosse diferente de ti? - censurou Ernestina, e 
acrescentou: - A Liliana quer melhorar. Devias ter orgulho nisso.
- vou l para dentro estudar - declarou Liliana, mais do que nunca 
determinada a realizar os seus sonhos.

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- J s uma senhora - constatou Ernestina, ao ver as cuecas que Liliana 
lhe mostrava.
Era Primavera. A me estava a fazer a sopa de massa e feijo, a que 
juntara um pouco de toucinho frito cortado em cubinhos. Estavam sozinhas 
na cozinha, invadida pelo sol que entrava pela janela aberta. Ernestina 
gostaria de se estender mais sobre aquele assunto, sobretudo para pr a 
filha em guarda relativamente s consequncias que esta nova condio 
comportava. Mas no sabia como se exprimir.
- Tenho algumas colegas que j tiveram as regras e que se armam imenso. 
Eu agora tambm me posso armar? - perguntou Liliana.
- Se te apetecer. Mas tens pouco para te gabar. Nem vale a pena fazer-te 
a lista dos problemas que poders vir a ter daqui para a frente, porque 
de qualquer maneira vais descobri-los sozinha - rematou a me.
- Queres assustar-me? - observou a filha.
Ernestina olhou-a nos olhos com ternura e depois abraou-a.
- Minha querida, conheces-me suficientemente bem para saberes que no 
tenho nenhuma inteno de te assustar. Estou s emocionada por te ver 
crescer to depressa e to bem. - Afastou-a de si e foi ao quarto buscar 
um embrulhinho atado com uma bonita fita de veludo vermelho.
-  um presente que te comprei no ano passado - explicou,

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enquanto o entregava  filha. - Chegou o momento de to dar: todas as 
senhoras tm um relgio de ouro no pulso.
As crianas e o pai entraram de repente na cozinha, fazendo terminar 
aquela breve intimidade entre me e filha.
Uns dias depois, num sbado  tarde, Angelina Pergolesi chamou Liliana do 
ptio.
- Se a tua me autorizar, venho propor-te umas horas de distraco - 
disse.
Ernestina concordou e Liliana apressou-se a ir ao encontro dela.
- Tenho de ir  via Orefici - anunciou Angelina. E prosseguiu: - O meu 
irmo Mrio mandou-me um rico mao de dlares, que eu troquei por liras. 
Vamos s compras.
Liliana trazia um vestido azul com um casaco do mesmo tecido, 
confeccionados por Ernestina, que sabia cortar e coser melhor do que uma 
costureira. A grande fita de seda branca s pintinhas azuis, que avivava 
o decote, era uma ideia de Giuseppe. O irmo tinha um talento natural 
para desenhar roupa feminina. Liliana, pelo contrrio, s fazia asneiras 
quando a me lhe metia na mo uma agulha e uma linha.
- O bom Deus fez alguma confuso - lamentava-se Ernestina a falar com 
ela. - Deu ao teu irmo um dom que devias ter tu. Receio que quando for 
grande venha a ser alfaiate, em vez de estudar Medicina, como eu 
gostaria.
Agora Liliana caminhava ao lado de Angelina Pergolesi em direco  
piazza del Duomo.
- Ests muito elegante - constatou Angelina.
- You too, Miss Pergolesi - respondeu Liliana, que se sentia muito 
orgulhosa dos seus progressos com o ingls e aproveitava todas as 
oportunidades para o demonstrar.
Tambm Angelina estava graciosa, com um vestido de crepe de l azul-claro 
e um casaco a sete oitavos aos quadrados grandes em tons de rosa e 
glicnia.
- Como se diz em ingls a palavra menstruao? - perguntou Liliana de 
repente.
- Periods.  plural - explicou Angelina; e logo a seguir os seus lbios, 
pintados com um bton claro, abriram-se num largo sorriso: - Ests a 
dizer-me que...
A rapariga anuiu.

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- Mas isso  fantstico! Neste momento j s uma young lady. Dentro de 
pouco tempo vais ter muitos pretendentes e ento poders escolher o teu 
boyfriend.
- Por amor de Deus, que a minha me no a oua dizer essas coisas. Ela  
muito rgida, um bocadinho antiquada, em suma - disse Liliana, corando.
- A minha me tambm era e continua a ser ainda hoje.  claro que, quando 
eu era nova, s se podia sair com um rapaz depois dos dezoito anos. De 
qualquer maneira, nunca tive nenhum pretendente, por um lado porque nunca 
fui bonita, por outro pelo facto de o meu irmo ser pastor, o que era uma 
espcie de barreira intransponvel, e finalmente porque a minha me teria 
desencorajado quem quer que fosse. Sempre castigou a minha feminilidade 
de todas as maneiras possveis, obrigando-me at a vestir roupas 
grotescas. Acho que me queria proteger das desiluses. Os meus irmos 
chamavam-me o patinho feio. S vivi o amor atravs das histrias das 
minhas amigas.
Liliana ficou comovida ao aperceber-se da nostalgia e da amargura de 
Angelina em relao a uma vida no vivida. Chegaram  via Orefici.
- A minha me no sabe que o Mrio, de vez em quando, me manda dinheiro 
para eu gastar como me apetecer. Agora vamos ao cabeleireiro. Vamos 
cortar e arranjar o cabelo, as duas - decidiu, com uma alegria quase 
infantil.
- No posso aceitar que me pague o cabeleireiro. Fao-lhe companhia 
enquanto se pe bonita - declarou Liliana.
- Invejo o teu orgulho. Eu toda a vida fui de tal maneira vida de 
atenes que sempre aceitei aquilo que me ofereciam, sem qualquer 
conteno - confessou Angelina. E acrescentou: - Mas no me podes impedir 
de te dar uma prendinha para festejar a tua entrada na idade adulta.
A rapariga aceitou com entusiasmo um minsculo bouquet de rosinhas de 
organza branca para espetar na lapela do casaco. Depois compraram um 
creme de rosto para oferecer  signora Pergolesi, cortes de veludo 
colorido, cordezinhos de seda e pompons, strass e missangas com os quais 
Angelina confeccionava bolsinhas de noite que enviava s suas numerosas 
parentes americanas.
- No gostava de voltar a Nova Iorque? - perguntou Liliana.

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- Sabes, receio que j no seja a cidade que eu conheci. E para
alm disso tinha de deixar a me sozinha, porque ela no est em 
condies de enfrentar uma viagem to longa. Nunca teria a coragem de 
fazer isso. Devo confessar-te que olho para o meu futuro com muita 
aflio. A minha me tiraniza-me,  verdade, mas no consigo imaginar a 
minha vida sem ela.
Liliana entendia-a. Nem ela seria capaz de sobreviver sem Ernestina.
- Os pais tambm so importantes - observou a rapariga. E acrescentou: - 
A senhora no conhece o meu.  extraordinrio, faz lembrar um antigo 
guerreiro que combate de mos nuas contra um exrcito armado at aos 
dentes. Porque ele est em guerra desde sempre, para defender os seus 
ideais.
- A srio? E quais so? - perguntou a senhora, curiosa.
- O meu pai defende que todos os homens tm os mesmos direitos e os 
mesmos deveres perante a lei. Por isso combate as prepotncias e as 
injustias dos patres que exploram os trabalhadores.
- Eu trabalhei com o meu pai na empresa dele e no acho que os empregados 
fossem explorados - comentou Angelina.
- Isso s quer dizer que a senhora estava do outro lado da barricada - 
respondeu com entusiasmo Liliana, que repetia aquilo que ouvia o pai 
dizer.
- Que palavres! As barricadas, em ingls barricades, erguem-se quando h 
guerra. Ns, felizmente, agora estamos em paz e vivemos num pas 
democrtico onde o empresrio e o trabalhador podem discutir os seus 
problemas - explicou Angelina.
- No me parece que apanhar bastonadas na cabea e ir parar ao hospital, 
como aconteceu ao meu pai, seja uma discusso democrtica - insistiu 
Liliana.
- Olha, querida, a democracia  um exerccio difcil para um pas como o 
nosso, que durante vinte anos sofreu uma ditadura. Temos de aprender a 
p-la em prtica a pouco e pouco. Eu lembro-me que, quando na empresa do 
meu pai os trabalhadores ameaavam uma greve, ele ia ter com eles e 
perguntava quais eram as suas reivindicaes. O pai ouvia-os, depois 
negociava e, quando podia, satisfazia-lhes os pedidos. Entendia as suas 
razes, como eles entendiam as dele. Era um dilogo democrtico, em suma. 
E nunca ningum fez greve - explicou Angelina.
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- Os operrios do seu pai defendiam os interesses deles, no os de toda a 
classe - replicou Liliana prontamente.
- Talvez tenhas razo. Eu sempre vivi numa redoma. Para alm disso, hoje 
em dia os jovens como tu sabem muitas mais coisas do que eu, que j sou 
velha. Mas h alguma coisa de novo que eu gostava de te ensinar. Tenho 
dois bilhetes para um concerto no teatro Dal Verme. Temos de nos 
despachar se quisermos chegar a tempo - disse Angelina.
Liliana teria preferido ir ao cinema, mas no ousou replicar.
O grande cartaz, em frente ao teatro, anunciava a execuo da Simple 
Symphony de Benjamin Britten. Liliana admirou a elegncia da sala e do 
pblico e ficou fascinada com aquela msica lmpida, maravilhosa, que lhe 
tocou o corao.
No caminho de volta, Angelina falou-lhe daquele compositor ingls.
- Escreveu esta sinfonia quando tinha doze anos.
- Era mais novo do que eu. Mas ele era um gnio - constatou Liliana.
- Tu s muito inteligente e isso deve bastar-te - afirmou Angelina.
Quando entrou em casa, Ernestina olhou-a com ar de reprovao.
- Achas que so horas de chegar?
- J sabias com quem eu estava - respondeu ela, irritada.
- Mas no onde estavas. s muito pequena para me fazeres estar em cuidado 
- resmungou a me.
- Tenho tantas coisas para aprender que tu nem imaginas - afirmou a 
filha, com uma voz firme.
Ernestina reparou no raminho de rosas de organza espetado na lapela do 
casaco. Olhou pensativa para a filha e perguntou-lhe:
- Mas onde  que tu queres chegar? Lembra-te de que a ambio  uma arma 
do diabo.
- Sabes, me, espera-me um caminho longo, muito longo - respondeu Liliana 
com um nfase.
Ernestina escondeu um sorriso. Depois fez-lhe uma festa e disse: - Tem 
cuidado para no acabares como aquele desgraado que procurou durante 
toda a vida, pelo mundo fora, aquilo que tinha em casa.

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SITO DELLA GUASTALLA
Enquanto Liliana falava, o professor De Vito ia tomando notas. A 
violncia parecia ter marcado a vida daquela mulher: as bastonadas da 
polcia contra o pai, as balas dos terroristas contra ela. Para alm 
disso, o conflito entre as personalidades opostas dos pais tinha criado a 
Liliana muitos problemas psicolgicos que foi tentando compensar com um 
aflitivo desejo de afirmao.
O psiquiatra sorriu-lhe e disse: - Vemo-nos na segunda-feira.
- J acabmos? - lamentou Liliana.
- Continuamos a conversa para a prxima vez - assegurou o mdico, 
enquanto se levantava para a acompanhar  porta.
- Faz-me bem falar consigo. A confuso permanece, mas sinto-me melhor - 
afirmou Liliana, antes de entrar no elevador.
Nelson regressou ao consultrio e telefonou  mulher.
- Ests bem? - perguntou a signora De Vito, preocupada.
- Estou ptimo. Tive de atender uma pessoa que no est bem e por isso 
no atendi a tua chamada. Estou vergonhosamente atrasado. Pede desculpa 
aos nossos amigos. Chego daqui a poucos minutos - prometeu.
O psiquiatra olhou para o relgio: eram oito e vinte e cinco. Levantou 
novamente o auscultador e telefonou  me.
- Aconteceu alguma coisa, querido? - perguntou Evelyn, sobressaltada. 
Habitualmente Nelson telefonava-lhe ao domingo  tarde,  hora do ch.

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- Tenho uma paciente nova que usa o teu perfume. Saiu agora e apeteceu-me 
ouvir a tua voz - explicou Nelson.
- Obrigada, meu filho. Um destes dias vou-te visitar - prometeu Evelyn, 
comovida.
Na adolescncia, Nelson tinha-lhe dado muitos problemas, porque vivia de 
uma forma muito transgressora. Perdeu dois anos de escola e foi precisa 
toda a firmeza da me para o convencer a retomar os estudos. Os sucessos 
posteriormente obtidos pelo filho como mdico e estudioso acabaram por a 
compensar relativamente quele perodo difcil e atormentado.
Depois de ter falado com a me, Nelson fechou o consultrio e foi-se 
embora. Saiu para a rua coberta de serpentinas e confetti, para o meio 
dos jovens que por ali andavam a rir e a besuntar-se com espumas 
coloridas.
Quando entrou em casa, os convidados estavam prestes a sentar-se  mesa.
- Peo-vos desculpa pelo atraso - disse, enquanto os cumprimentava. Eram 
os Marra, um casal de velhos amigos, ambos neurologistas, que tinham 
conhecido no Boston Medical Center no tempo em que Nelson era director do 
servio de neuropsiquiatria.
A empregada serviu uma lasanha com pesto e um ptimo vinho siciliano.
Depois chegou  mesa o famoso rolo de carne da signora De Vito, que os 
convivas conheciam bem.
Comeou ento o habitual minuete entre a dona da casa, que se desculpava 
pela monotonia da sua cozinha, e os convidados, que enalteciam a 
delicadeza dos sabores.
O jantar terminou com um grande prato de doces de Carnaval: sonhos 
recheados de creme de pasteleiro, fritos estaladios e filhs com passas. 
Mais tarde a dona da casa serviu na sala de estar um ch de tlia 
aromatizado com anis estrelado. Depois, enquanto Nelson e o seu amigo 
Marra enchiam os cachimbos, as senhoras fumaram um cigarro, ao mesmo 
tempo que trocavam informaes sobre os saldos do momento. Os dois 
homens, entretanto, comentavam uma pesquisa recente sobre os estados 
depressivos.
- A depresso  o grande mal da nossa poca e constitui a resposta ao 
bem-estar econmico da sociedade ocidental. Nos stios

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onde se luta pela sobrevivncia, a depresso est menos presente - 
observou Marra.
- No sculo XIX afectava sobretudo as mulheres da classe mais abastada e 
chamava-se melancolia. Hoje os homens tambm sofrem de depresso, 
sobretudo os jovens - disse Nelson, recordando o rapaz de vinte anos que 
andava em tratamento havia alguns meses.
- Estou a tratar uma rapariga que  um caso extremamente complexo. Como 
psiquiatra, tu podias fazer muito por ela - props Marra.
- Tenho alguns casos bem encaminhados, a chegar ao fim. Eu aviso-te 
quando for altura de ma mandares.
- Ser possvel que vocs no consigam falar de outra coisa que no seja 
trabalho? - intrometeu-se Ceclia Marra, apoiada por Maria De Vito.
-  s porque vocs no nos ligam - disse Nelson, amavelmente.
O casal De Vito passou um fim-de-semana caseiro, entre leituras de livros 
e jornais, o almoo dominical num restaurante e a arrumao de uma 
estante a abarrotar de livros. Discutiram sobre quais seriam para 
conservar e quais deitariam fora. Ela tendia para uma eliminao 
drstica, ele para a conservao absoluta. Como sempre, encontraram uma 
soluo intermdia.
Nelson voltou a ver Liliana Corti na segunda-feira de tarde, s sete 
horas.
- Como correu o seu fim-de-semana? - perguntou-lhe, quando ela se sentou 
 sua frente.
- No muito bem, mas talvez tenha identificado uma das causas da minha 
angstia. Estou num ponto crucial da minha vida porque deixei de 
trabalhar, concluindo assim uma carreira de sucesso que me impediu, no 
entanto, de parar para reflectir sobre mim mesma. S agora me pergunto 
que sentido tem a minha existncia, como se todos estes anos passados 
sempre a perseguir novos objectivos de trabalho no tivessem sido vividos 
por mim mesma, mas em funo dos outros. Nem sequer sei quem so. Ter 
valido a Pena afligir-me tanto para chegar aqui?
- Vamos procurar juntos a resposta para as suas questes - respondeu 
Nelson, para a encorajar.

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JARDINS PBLICOS DE PORTA VENEZIA
Aos dezanove anos Liliana teve finalmente o seu primeiro boyfriend. 
Chamava-se Danilo, tinha mais cinco anos do que ela e frequentava a 
faculdade de Filosofia na universidade estatal. Nessa mesma universidade, 
Liliana inscrevera-se no primeiro ano de Direito. Encontraram-se na 
livraria. Ela acabava de adquirir um livro sobre Direito Romano e Danilo 
estava a pedir ao empregado um romance muito vendido naquele perodo: O 
Leopardo. Liliana j o lera, porque a signorina Pergolesi lho tinha 
emprestado.
- Ls a primeira pgina e nunca mais o largas at ao fim.  uma histria 
fantstica - declarou, num impulso.
- Ora v l tu! Estava mesmo  espera da tua opinio para o comprar - 
respondeu Danilo, olhando-a com arrogncia.
Era pouco mais alto do que ela, tinha uma melena rebelde em cima da testa 
ampla, um tom de pele claro e uns olhos azuis muito vivos. Vestia uma 
gabardina verde-tropa e tinha na mo o carto que dava direito a desconto 
na compra de livros.
Liliana corou violentamente.
- Mas por que  que eu no me meto na minha vida? - sussurrou, irritada 
consigo mesma.
- Ainda cheiras a liceu - comentou ele, com um sorriso de superioridade.
Liliana j estava habituada s piadas depreciativas dos velhos em 
relao aos caloiros. Enquanto ele acendia um cigarro, ela

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conseguiu ler o nome e a data de nascimento no carto que tinha na mo.
-  pena - disse, devolvendo-lhe o sorriso depreciativo.
O vermelho do rosto tinha desaparecido e a rapariga j reencontrara a 
desenvoltura habitual.
-  pena o qu? - perguntou ele.
- Tens um olhar inteligente e fazes comentrios de uma banalidade 
confrangedora. Mas, se calhar, tem tudo a ver com o facto de, com vinte e 
quatro anos, ainda no teres acabado o curso - afirmou.
Deu meia-volta e dirigiu-se  porta.
Sentia-se muito orgulhosa da sua resposta e tambm do impermevel 
Pirelli, cor de tabaco, que vestira naquele dia pela primeira vez.
Liliana tinha batalhado durante muito tempo com a me para o conseguir.
- Mas que necessidade tens tu de um impermevel? O teu pai e eu nunca 
tivemos nenhum e crescemos na mesma - respondeu a me perante o pedido da 
filha.
- Vocs no andaram na universidade. Eu ando e no quero fazer m figura 
junto das outras alunas - contraps, determinada.
Por fim, Ernestina conseguiu arranjar um bom desconto na loja da Pirelli-
Bicocca. Foram as duas, me e filha, comprar aquela preciosa pea de 
vesturio. Quando Liliana a vestiu, Ernestina olhou com orgulho para a 
filha, to bonita e to elegante. Assim, alm do impermevel, ofereceu-
lhe tambm um leno de seda com flores muito garridas sobre um fundo 
branco.
Liliana no pagou a matrcula na universidade porque terminou o liceu com 
uma mdia muito alta. Cobria as suas pequenas despesas dando explicaes 
de Matemtica e de Latim s crianas da zona que frequentavam o liceu.
Agora Liliana ia a sair da livraria com uma passada marcial, sentindo nas 
costas o olhar de Danilo.
Ele alcanou-a e ps-se ao lado dela.
- Sabes que tens imensa graa? - comeou.
- O mesmo no posso eu dizer de ti - respondeu ela, sem abrandar o passo.
- Sentes-te a rainha de Sab mas no passas de uma mida - continuou ele, 
ao mesmo tempo que acendia outro cigarro.

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- Por que  que fumas tanto? - perguntou Liliana.
- Porque no sei o que hei-de fazer s mos - respondeu. E acrescentou: - 
Como  que te chamas?
- Liliana. E tu Danilo. Li no teu carto.
Tinha chegado  paragem do elctrico e parou.
Danilo era um bonito rapaz e agradava-lhe bastante, mas ela acabava de 
dar o melhor de si para o levar a fugir. com efeito, ele olhou para ela 
com uns olhos de gelo, girou nos calcanhares e afastou-se. Ela encolheu 
os ombros, resignada. Mais cedo ou mais tarde, era sempre assim que 
acabavam as suas relaes com os rapazes. Entrou no elctrico e 
encontrou-o ao seu lado. Olhou para ele, perplexa.
- Vou-te levar a casa. Posso? E no me digas que conheces o caminho - 
disse ele.
Danilo deixou-a  porta de casa.
- Vemo-nos amanh.  mesma hora, na mesma livraria - declarou pouco antes 
de ir embora.
Comeou assim uma srie de encontros feitos de escaramuas e golpes de 
florete a que Danilo, s vezes, no conseguia responder. Falou-lhe de si: 
os pais morreram quando ele era pequeno e vivia em Varese, numa velha 
casa com jardim, com a av que o tinha criado e o mantinha a estudar. 
Para ganhar algum dinheiro, ensinava Italiano e Histria aos alunos de 
uma escola privada, em Milo. Um dia convidou-a para comer um cachorro 
num caf da piazza Beccaria. Depois foram a p em direco a San Babila e 
dali seguiram pelo corso Venezia. Entraram nos jardins pblicos e 
percorreram as alamedas cobertas por um tapete de folhas douradas. 
Sentaram-se num banco, perto do zoo, e Danilo abraou-a, puxando-a para 
si. O grito de um velho elefante e o soluo de uma foca serviram de fundo 
ao seu primeiro beijo.
- Estou louco por ti - sussurrou Danilo, com um tom levemente enftico.
- A quantas raparigas j disseste isso? - perguntou Liliana.
- A poucas, para falar verdade. No tenho assim tanto tempo Para manter 
relaes sentimentais. Nem tanto dinheiro.
- Ento estamos quites.
- O que fazes ao domingo?
- Aprendo Ingls com a signorina Pergolesi. E tu?

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- vou  Casa da Cultura, em San Babila, onde se discute poltica. Somos 
todos socialistas.
- Que estranho, julgava que eras um liberal. Tens todo o ar do 
conservador que se est nas tintas - provocou-o.
- Nem podia ser. Os liberais so todos filhos do pap.
- Pois eu sou comunista. O meu pai tem uma longa histria de militncia e 
de luta - explicou Liliana.
- Mais uma razo para vires comigo  Casa da Cultura, pois assim podes 
rever as tuas convices polticas. Ns, socialistas, tomamos posio 
sobre os acontecimentos da Hungria e condenmos severamente a represso 
russa, enquanto vocs, comunistas, ficaram calados e fizeram os possveis 
e os impossveis para a justificar.
Liliana recordou as palavras do pai quando rebentou em Budapeste a 
insurreio popular anti-sovitica, sufocada pelos tanques russos.
- Aquilo que os soviticos fizeram na Hungria  uma vergonha. Mas se o 
mundo quer progredir, tem, de qualquer maneira, de virar  esquerda.
Por isso disse a Danilo: - Os socialistas e os comunistas so primos e, 
entre parentes, nem sempre corre bom sangue. Mas estamos os dois do lado 
certo. Vou contigo  Casa da Cultura. Mas agora tenho de te deixar.
Para estar com ele tinha desmarcado duas explicaes, mas f-lo de nimo 
leve.
Chegou a casa a voar sobre uma nuvem de ouro. Danilo tinha-a abraado 
quase a tremer e ela sentira uma espcie de inebriante poder sobre ele. 
Nunca tinha feito nada para agradar aos rapazes. Detestava aquelas 
estpidas, ridculas coqueterias das amigas. Ela queria agradar por 
aquilo que era e finalmente um rapaz tinha-lhe dito Estou louco por ti. 
Tinha imediatamente de contar aquilo a algum que no fosse a me nem 
aquelas coscuvilheiras das colegas da universidade. Ia contar  signorina 
Pergolesi.
Entrou na cozinha. Pucci e Rosellina estavam a fazer os deveres e mal a 
cumprimentaram.
- Onde est o Giuseppe? - perguntou Liliana.
- Est ali - disse Pucci, indicando o quarto dos pais.
A porta estava fechada. Abriu-a e viu o irmo sentado na beira da cama 
dos pais com um colega de liceu. Estavam a beijar-se.

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CORSO LODI
Liliana voltou a fechar a porta imediatamente. Aquilo que acabava de ver 
tinha-a desnorteado. Observou Pucci e Rosellina, que continuavam 
tranquilamente a fazer os deveres, alheios quilo que estava a acontecer 
no quarto ao lado. Pensou ento nos pais. Como teriam eles reagido se 
tivessem apanhado Giuseppe nos braos de um colega de escola?
Naquele momento os dois rapazes entraram na cozinha, visivelmente 
embaraados. Liliana voltou-se para o amigo de Giuseppe: - Vais-te 
embora, no vais? - Mais do que uma pergunta, era uma ordem peremptria.
O rapaz anuiu, mantendo os olhos no cho.
- Eu vou com ele - disse o irmo, que se preparava para seguir o amigo.
- No, tu ficas em casa - afirmou Liliana, com um tom que no admitia 
contestao. Depois voltou-se para Pucci e Rosellina: Por hoje chega de 
trabalhos de casa. Podem ir para o ptio brincar.
Agora estava sozinha com Giuseppe, que no se sentia com coragem para a 
enfrentar e continuava de costas voltadas, a mexer no lava-loua.
- Deves com certeza ter alguma coisa para me dizer - disse, perante o 
silncio do irmo.
Giuseppe tinha dezasseis anos. Frequentava o curso complementar do liceu, 
na rea das artes, com um excelente aproveitamento.

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Era muito bonito, falava pouco, ria raramente e tinha um cuidado quase 
obsessivo com a sua imagem.
Liliana nunca o tinha observado com particular ateno. Era simplesmente 
um dos seus irmos. No entanto, de cada vez que precisava de fazer a 
bainha de uma saia, ou de comprar um vestido novo, dirigia-se a ele, que 
ficava sempre satisfeito por poder ajud-la.
Quando Giuseppe fez quinze anos, Ernestina disse-lhe: - Agora j s 
grande. O teu pai e eu pagamos-te os estudos. Quanto ao resto, tens de te 
governar sozinho. - E Giuseppe arranjou um trabalho: trs tardes por 
semana, no atelier de um alfaiate na via Lamarmora. Mexer em tecidos, 
fios e tesouras era a sua paixo e o dinheiro que ganhava bastava-lhe 
para ir ao cinema ou para comprar alguma coisa que lhe apetecesse.
Ernestina no estava nada entusiasmada com aquele trabalho.
- A tua irm d explicaes, enquanto tu pregas botes e forros. Pagamos-
te o liceu, ests em artes, podias dar aulas de desenho
- dizia-lhe.
- Me, os midos no andam em explicaes de desenho - defendia-se ele.
Chegados quele ponto, a me gritava: - Eu j sei como isto vai acabar! 
Vais dar em alfaiate e eu vou deitar fora um monte de dinheiro para ter 
um filho que corta e cose.
Agora Giuseppe voltou-se, com os olhos brilhantes de chorar.
- No me humilhes - disse baixinho.
- Se h algum aqui que se sente humilhada, sou eu - respondeu Liliana. - 
Ainda estou sem flego por causa daquilo que vi em cima da cama da me e 
do pai.
- Sinto muito - sussurrou ele.
Sentou-se  mesa e pousou a cabea entre as mos.
- Primeiro fazes a porcaria e depois dizes-me que sentes muito? - 
provocou ela, dominada pela clera.
- No era porcaria, Liliana. No sei como hei-de dizer-te, mas eu sou... 
sou... sou diferente dos outros rapazes, e tenho muita pena.
- Ests a dizer-me que s um... invertido? - A ltima palavra foi apenas 
sussurrada e, logo a seguir, Giuseppe desatou num pranto desesperado.

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A homossexualidade era considerada como uma depravao da qual nem se 
devia falar.
No liceu, Liliana teve uma professora de Histria e Filosofia que 
referira a homossexualidade dos Gregos e dos Romanos, de muitos artistas 
famosos, assim como de guerreiros e poetas. A professora tinha explicado 
que homossexualidade  uma palavra que deriva do grego e indica a 
tendncia para encontrar o prazer sexual com uma pessoa do mesmo sexo. A 
homossexualidade, em suma,  uma maneira de ser, conclura.
- Pois , e eu sinto-me orgulhoso por no ser assim - exclamou um colega 
de turma de Liliana, suscitando a hilaridade geral.
O assunto ficou assim encerrado, com uma gargalhada. Mas agora Liliana 
no tinha nenhuma vontade de rir. As lgrimas do irmo destroavam-lhe o 
corao. Aproximou-se dele e abraou-o.
- Giuseppe, ajuda-me a perceber - disse-lhe.
- Como  que eu te consigo explicar? Achas que me sinto feliz por ser 
diferente dos outros? Sempre fui assim, desde pequeno, e sofro desde 
sempre por causa da minha diferena, que carrego com um sentimento de 
culpa. Escondo-a at daqueles como eu, e so mais do que tu imaginas. O 
Gino  o meu nico amigo, o nico com quem me consegui abrir, porque ele 
tambm vive este drama em silncio - desabafou. Soluava sem parar no 
ombro da irm.
Liliana gostaria de recordar as sensaes extraordinrias que o beijo de 
Danilo tinha despoletado nela, fazendo-a construir castelos nas nuvens, 
sobre as asas da sua feminilidade que comeava a desabrochar. Mas tinha 
de medir foras com um drama que no sabia como abordar.
Enquanto mantinha o irmo apertado nos seus braos, disse apenas: - V se 
arranjas maneira de a me no saber.
Giuseppe limpou as lgrimas, assoou o nariz e arranjou foras Para 
sorrir.
A me j sabe h algum tempo. E acho que o pai tambm sabe.

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Rosellina e Pucci abstiveram-se de contestar a ordem de Liliana, apesar 
de no terem ainda acabado os trabalhos de casa e de saberem que o ptio 
estava interdito  brincadeira antes das cinco da tarde.
Havia mais de um ano que a administrao do condomnio apenas autorizava 
a utilizao daquele espao durante duas horas: das cinco s sete da 
tarde.
Tinha havido uma sublevao dos pais contra aquela disposio absurda, 
que os impedia de controlar os filhos num espao protegido. Os inquilinos 
mais idosos, no entanto, receberam-na com alvio, porque as crianas 
faziam barulho e por diversas vezes tinham partido vidros e vasos com a 
bola.
O prdio do corso Lodi pertencia a uma grande sociedade imobiliria que, 
com uma srie de proibies, tentava h muito tempo tornar mais difcil a 
vida dos inquilinos para os levar a mudar de casa. Efectivamente, no 
lugar daquele edifcio, construdo na segunda metade do sculo XIX, 
queria levantar um prdio moderno, com rendas adequadas e lucros maiores. 
Por isso, alm da limitao relativa ao ptio, tinha sido proibido usar a 
fonte para lavar roupa, transportar as bicicletas pelas escadas e 
estender roupa nas varandas.
Os inquilinos tiveram de se habituar ao novo regulamento e as crianas 
encontraram outros stios para brincar. Muitos tinham comeado a 
frequentar o centro paroquial, que dispunha de um

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campo de jogos, outros iam para uma viela, no muito longe do prdio, 
onde havia runas de algumas casas bombardeadas durante a guerra e um 
grande terreno parcialmente ocupado por um acampamento de ciganos. Ali as 
crianas podiam fazer barulho sem incomodar ningum.
Agora, enquanto desciam as escadas, Pucci disse a Rosellina:
- Vamos  viela ver os coelhos.
Pucci tinha catorze anos e no gostava da escola. Contentava-se em ter 
uma positiva esticada em todas as disciplinas, s mesmo para satisfazer 
os pais. Mas era inteligente, tinha muitos interesses e uma inclinao 
natural para o comrcio.
Ao sbado trabalhava no caf e tabacaria que ficava por baixo de casa, 
onde lavava chvenas e copos, e recebia do patro uma pequena 
gratificao que metia numa lata.  noite, antes de se deitar, controlava 
o seu capital, que atingira j as cinco mil liras. Aquele dinheiro 
permitir-lhe-ia realizar o seu projecto.
Tudo comeara durante o Vero, na viela, ao encontrar um coelho, a tremer 
numa das casas em runas. Apanhou-o e levou-o para casa, para grande 
alegria de Ernestina, que o preparou estufado com legumes.
No dia seguinte, Pucci pensou que, onde havia um coelho, podia haver 
mais. Iniciou uma pesquisa sistemtica mas discreta, porque no queria 
que os amigos descobrissem, e foi premiado. Por entre os escombros de uma 
casa arruinada descobriu uma famlia de coelhos que ali vivia 
tranquilamente. Comeou de imediato a construir uma gaiola com tbuas de 
madeira e uma rede metlica que ali encontrou. Emtretanto ia apanhando 
ervas no campo e levava-as aos animais que, embora um pouco assustados, 
aceitavam de boa vontade aquela comida suplementar.
Quando terminou a gaiola, e antes de l fechar os coelhos, pensou que 
tinha de encontrar um lugar seguro para a colocar e percebeu que 
precisava de um scio de confiana. Lembrou-se do velho Anacleto, um dos 
inquilinos do prdio, que cultivava hortalia para uso domstico num 
canto do campo, dando assim um sentido aos seus dias de reformado.
Um dia, Pucci abordou-o.
- Precisamos de ter uma conversa de homem para homem - disse-lhe.

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O velho, que j ultrapassara os oitenta anos e conhecia Pucci desde que 
ele tinha nascido, fez um esforo para no se rir. Assumiu um ar grave e 
respondeu: - Sou todo ouvidos.
Estava uma bela manh de Vero e Anacleto, de camisola sem mangas e 
cales, tinha acabado de sachar a sua pequena horta e estava a acender 
um cigarro.
- Tenho uma famlia de coelhos com duas fmeas grvidas. Constru uma 
gaiola grande para os meter e agora precisava de um lugar seguro para a 
guardar - explicou o rapaz.
- Claro - anuiu Anacleto, curioso com aquela conversa.
- Tu tens uma cabana na horta e a minha gaiola ficava mesmo bem l dentro 
- disse Pucci, de um flego.
Anacleto j se tinha apercebido h uns dias que Pucci andava a tramar 
alguma coisa porque, enquanto tratava da horta, o via apanhar erva com um 
ar circunspecto. Sem contar com o facto de Ernestina lhe ter falado do 
coelho com que se tinham banqueteado. Agora anua, divertido, e esperava 
a continuao daquela conversa.
-  claro que tu tambm vais receber a tua parte - disse Pucci.
- No gosto da carne de coelho - disse o velho, pausadamente. - Nos 
tempos de guerra o homem do avirio vendia coelhos sem cabea e eu sempre 
suspeitei de que fossem gatos. Agora, se tivesse de comer um coelho, ia 
achar que estava a comer um gato. E eu adoro gatos - declarou.
- Mas no s obrigado a com-los. S precisas de os guardar dentro da tua 
cabana - insistiu Pucci.
- Mas na cabana eu tenho as minhas ferramentas. No h espao para uma 
gaiola - afirmou.
- Querendo, arranja-se espao.
- Pois,  preciso querer. - Estava divertido a ver o rapazinho cozinhar 
em banho-maria.
- Ento? - Pucci tinha na manga um s de trunfo para convencer Anacleto a 
aceitar, mas s o ia jogar se fosse indispensvel.
- vou pensar nisso - disse o velho, em tom lacnico, enquanto aspirava 
com evidente satisfao o fumo do cigarro.
Pucci tossiu e espalhou uma baforada de fumo com a mo. O velho era um 
osso duro de roer e ele tinha mesmo de jogar a ltima cartada.
- Podamos ficar scios - props com uma voz dolente, como

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quem arranca um pedao de corao. - A gaiola e os coelhos so meus. Eu 
arranjo a comida e fao a limpeza. Tu pes  disposio a cabana e, 
quando chegar o momento, matas e limpas os animais. Podemos vend-los a 
um preo inferior ao do talho e tu metias ao bolso vinte por cento dos 
lucros.  uma proposta honesta.
Anacleto sorriu. No tinha pensado nem por um instante em pedir dinheiro 
a Pucci para o ajudar a realizar o seu projecto. Mas divertia-se a 
conduzir aquelas negociaes.
- Na tua opinio, quem  que te ia comprar os coelhos? perguntou.
- Todas as mulheres do nosso prdio e tambm as das casas vizinhas. J 
apalpei o terreno. Se tudo correr bem, como eu espero, no princpio do 
Inverno j no vai chegar s uma gaiola. E no Natal, em vez do capo, no 
corso Lodi vai-se comer coelho - explicou Pucci, com entusiasmo.
- Mas tu no sabes que todas as carnes tm de ter o selo da inspeco de 
higiene municipal? Tu ias ter um negcio ilegal? - declarou.
- O meu pai diz que por detrs de todas as grandes fortunas se esconde um 
crime. Eu vou tornar-me o maior criador e comerciante de coelhos e a 
ilegalidade deste perodo inicial ser o meu crime. Pacincia! vou correr 
o risco, porque a sorte ajuda os audazes.
- Eu tambm tinha de arriscar, se me tornasse teu scio - objectou 
Anacleto.
A discusso entre o velho e o rapaz continuou durante um bom pedao. 
Anacleto referiu at uma ordem recente da cmara, proprietria daquele 
campo, que obrigava os seus ocupantes a deix-lo livre dentro de dois 
anos, porque era uma rea destinada  construo.
- Quando me tirarem a cabana, onde  que vamos meter os teus coelhos?
- Daqui a dois anos j eu arranjei outra soluo. Entretanto vou ter de 
parte dinheiro suficiente para construir gaiolas novas - afirmou Pucci.
Anacleto, rico em anos e sabedoria, estava convencido de que o grandioso 
projecto do pequeno Corti no teria sucesso nenhum. Mas no queria priv-
lo de um sonho e por isso assumiu seriamente

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o papel de scio minoritrio e decidiu negociar da melhor maneira a sua 
percentagem.
- Vinte por cento  muito pouco. J sei que, quando fores para as aulas, 
eu  que vou ter de tratar dos teus animais. Por isso proponho quarenta.
Pucci deitou as mos  cabea, afirmando que aquilo era um pedido 
excessivo. Chegaram a um acordo de trinta por cento. A criao de coelhos 
comeou e Pucci conseguiu at fazer um acordo com o dono do pomar, que se 
disps a oferecer cenouras e hortalia estragada para engordar os 
animais.
Nos meses seguintes as coelhas tiveram filhos, algumas crias morreram mas 
outras cresceram muito bem, e agora havia j perto de vinte animais quase 
prontos para serem vendidos. Assim, enquanto se dirigia  viela com a 
irm, Pucci disse-lhe: - Quero ver como  que esto os meus bichos.
- Mas temos de nos despachar, porque daqui a pouco fica escuro e quando a 
me chegar do trabalho tem de nos encontrar em casa, com os deveres 
prontos - declarou Rosellina.
Porm, quando chegaram a casa a me j tinha regressado, de pssimo 
humor. Estava a ralhar com Liliana e com Giuseppe porque no tinham posto 
a mesa nem sabiam onde estavam os irmos mais novos.
Assim que os viu, deu uma bofetada a cada um, gritando: - J tenho 
problemas que me cheguem, s me faltava tambm ter de me preocupar com a 
vossa irresponsabilidade.
Nenhum dos filhos ousou perguntar-lhe o que sucedera.

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A botija de gs j est mesmo no fim. Vai  cave buscar a nova - ordenou 
Ernestina a Giuseppe.
- Tem mesmo de ser agora? - protestou o filho. Estava exausto, depois da 
conversa com Liliana.
- Vamos ver se consegues cozer as batatas com o bafo. Era uma boa 
poupana - retorquiu. Passou uma mo pela testa e acrescentou a meia-voz: 
- Hoje cheguei ao fundo da minha pacincia.
- Foi para o quarto e fechou a porta atrs de si.
Rosellina e Pucci acabaram os trabalhos de casa em silncio, enquanto 
Liliana comeou a descascar batatas. Estava bastante preocupada com 
Giuseppe e no queria ficar ainda mais angustiada por causa dos problemas 
da me.
Na fbrica de malhas, Ernestina tinha passado das mquinas  seco de 
projectos e havia j um ano que estudava e desenhava novos modelos. No 
entanto, continuava a ter um contrato como aprendiza e o salrio no era 
efectivamente adequado ao trabalho que fazia. Quando conversava com 
Liliana, a filha dizia-lhe: - Tens de te despedir.
- E tu achas que  fcil arranjar outro emprego? Olha  volta e vais ver 
quantos desempregados h por a. O salrio do teu pai  bom, mas ns 
somos muitos e precisamos do meu ordenado - replicava a me.
Liliana sentia-se sempre culpada, porque gostaria de poder ajudar

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a famlia mas tinha ainda pela frente quatro anos de universidade antes 
de se formar e arranjar um emprego.
Entretanto, enquanto Liliana lavava as batatas, a me regressou  
cozinha.
- Hoje apareceram de surpresa na fbrica os da Inspeco do Trabalho - 
disse. - Foi uma rica pancada para aqueles dois trapaceiros.
Referia-se a Leo e a Marta Scanni, pai e filha, proprietrios da empresa.
- O porteiro avisou-os imediatamente. A patroa comeou a correr por todos 
os lados como uma louca e a dar ordens. Eu estava a ver umas amostras de 
l e ela berrou-me: O que  que est a a fazer? V j para baixo e 
sente-se a uma mquina! No sei se ests a perceber, eles no podiam 
descobrir que eu desenho modelos tendo um contrato de operria aprendiza. 
A Marta Scanni at obrigou duas empregadas que no esto em situao 
regular a fecharem-se na casa de banho e escondeu outras duas nos 
caixotes da l. Que humilhao! De qualquer maneira, os da Inspeco no 
so burros e fizeram uma acta de dez pginas. - E acrescentou: - No 
digas nada ao teu pai, que at lhe d um ataque, coitado do homem.
Giuseppe entrou na cozinha com a botija de gs nova.
- Vocs esto os dois com uma cara que no me agrada nada
- observou a me, olhando para os dois filhos mais velhos. Tinha 
regressado a casa mais cedo do que o previsto e encontrou Giuseppe e 
Liliana numa conversa cerrada, sentados  mesa, um em frente ao outro. 
Estava demasiado irritada com aquilo que tinha acontecido na fbrica para 
fazer perguntas. Mas agora queria saber. - O que foi que vos aconteceu? - 
perguntou.
Nenhum dos dois respondeu. Ela no insistiu e comeou a cozinhar. Naquela 
noite iam comer esparguete com molho e bolinhos de batata.
s sete e meia chegou tambm Renato e sentaram-se todos  mesa.
- Fui eleito delegado sindical - anunciou, com pouco entusiasmo.
- Ento passaste a ser ainda mais importante - comentou Pucci, cheio de 
orgulho.

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- Isso quer dizer que, se agora te vemos pouco, daqui em diante vamos 
ver-te ainda menos - resmungou Ernestina, que sabia o quanto os filhos 
sentiam a necessidade de uma maior presena do pai.
Renato fora promovido a chefe de seco alguns meses antes. Tinha havido 
uma mudana estratgica por parte dos directores, pois sabiam que um 
contestatrio bem remunerado  mais conciliador. Mas Renato gozava da 
estima dos colegas de trabalho e assim o sindicato promoveu uma mudana 
noutro sentido, propondo-o como delegado. Fora eleito naquela tarde por 
unanimidade. Por isso, a partir daquele momento deveria conciliar as 
exigncias dos trabalhadores com as da entidade patronal, seguindo as 
directivas do sindicato e confrontando-se de uma forma responsvel com a 
direco da empresa. Uma tarefa difcil e delicada. Para alm disso, 
Ernestina acabava de o censurar pela sua ausncia junto da famlia. 
Deveria portanto conciliar as exigncias do trabalho, as sindicais e as 
familiares.
- Mas eu no sou um equilibrista - protestou Renato.
A mulher, enternecida, dedicou-lhe um sorriso de encorajamento.
- No te preocupes, vai correr tudo bem. Sempre foste um cavalheiro e 
vais continuar a s-lo. E esse  o melhor exemplo que podes dar aos teus 
filhos - afirmou.
Liliana, Pucci e Rosellina estavam muito excitados com aquela novidade.
Giuseppe, porm, mantinha o olhar fixo no prato e no participava da 
euforia dos irmos.
- Posso contar  minha professora que agora s delegado sindical? - 
perguntou Rosellina.
- Claro. Apesar de no haver nenhuma razo para te gabares. Acredita em 
mim, pequenina - respondeu Renato com ternura.
Quando se levantaram, Liliana e Giuseppe tiraram a mesa, Pucci e 
Rosellina trataram de lavar a loua, Ernestina comeou a remendar meias e 
Renato foi para o quarto ler a acta de uma reunio sindical.
Algum bateu  porta e logo a seguir apareceu o velho Anacleto.
Vinha com a respirao pesada e um ar grave.
- Desculpem o incmodo. Preciso de falar com o Pucci - disse.

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- O que tiveres para lhe dizer a ele, podemos ouvir ns todos - declarou 
Ernestina, enquanto pousava a agulha e o fio.
- Roubaram os coelhos - anunciou o velho, com um fio de
voz.

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A notcia espalhou-se em poucos minutos e o furto dos coelhos 
transformou-se imediatamente num drama, no s para a famlia Corti e 
para Anacleto mas tambm para todo o prdio. Renato foi o promotor de uma 
caa ao ladro  qual aderiram todas as crianas.
No ptio realizou-se uma espcie de conselho de guerra. Pucci, Rosellina 
e Anacleto expuseram os factos.
Os dois pequenos Corti tinham mudado a palha das gaiolas entre as quatro 
e as cinco da tarde. Pouco antes das seis, quando j estava escuro, 
Anacleto foi fazer a sua habitual visita de controlo aos coelhos e 
encontrou as gaiolas vazias. Acendeu a lanterna e inspeccionou o terreno 
em volta da cabana, observando diversas pegadas. Tinham desaparecido 
tambm os sacos de juta que cobriam as gaiolas durante a noite, para 
proteger os animais do frio. Era evidente que os ladres os usaram para 
meter os coelhos e para os transportar. - Tudo isso aconteceu entre as 
cinco e as seis da tarde - concluiu Anacleto.
Naquele momento Rosellina lembrou-se de ter visto, depois de sair da 
cabana com Pucci, duas ciganas com quatro crianas a pouca distncia 
deles.
Renato deu um beijo na testa da filha.
- s um anjo, pequenina - sussurrou com um sorriso radiante - - Agora 
sabemos onde havemos de ir procurar os coelhos.

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- Se me tivesses dito isso, eu ficava l a tomar conta - censurou Pucci.
Renato e Anacleto puseram um bon na cabea e avanaram todos juntos em 
direco ao acampamento dos ciganos. As crianas estavam todas muito 
excitadas com aquela aventura,  excepo de Pucci. Ferido de morte no 
seu esprito empresarial, sentia-se aniquilado pela frustrao.
Chegaram perto do acampamento dos ciganos, iluminado por algumas 
fogueiras. Avanaram em silncio, enterrando os ps na erva hmida, at 
que descobriram os nmadas reunidos em volta de uma grande fogueira, num 
espao que ficava em frente a trs carroas em muito mau estado. Ouviram 
as suas vozes alegres e, quando se aproximaram, viram aquilo que restava 
do grande sonho de Pucci: os coelhos alimentados e criados com tanto 
empenho estavam enfiados nos espetos e o fogo ia-os tostando. Pararam, 
petrificados. Renato apertou com fora a mo do filho.
- Lamento muito - sussurrou-lhe.
- Patifes malvados! - praguejou Anacleto.
- So porcos, gatunos e maus - disse um rapazinho.
- Patifes malvados - repetiu Anacleto, e acrescentou: - Era mesmo preciso 
dar-lhes uma boa lio.
Renato estava furibundo, mas imps a calma a todo o grupo.
- Para j vamos abord-los e logo vemos como reagem - decidiu, avanando 
em direco aos ciganos. Os outros seguiram-nos. Dois ces, que estavam 
junto da fogueira, comearam a ladrar. A alegria ruidosa extinguiu-se e 
os ciganos observaram espantados aqueles homens e aqueles rapazes que se 
aproximavam.
Renato fez sinal  sua gente para parar.
- Os coelhos que esto a assar so do meu filho e algum de vocs os 
roubou - declarou, com uma voz firme.
Um dos ciganos, que tinha a mesma compleio macia de Renato, uns olhos 
escuros como a noite e uns bigodes negros, afrontou-o: - Como  que podes 
ter a certeza de que fomos ns que os roubmos?
- Os meus filhos viram duas das vossas mulheres com umas crianas  volta 
da cabana - explicou Renato.
O cigano desatou a rir.

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Quem rouba um coelho  um ladro, quem rouba um reino  um prncipe. Uns 
acabam na cadeia e outros num trono. O que podemos ns fazer? - 
perguntou.
- No estamos aqui para discutir filosofia - explicou Renato.
Uma mulher idosa destacou-se do grupo dos ciganos, aproximou-se de 
Rosellina e observou-a durante muito tempo. Depois disse:
- Tambm tu, um dia, vais ser ladra, mas vo-te aplaudir como uma 
princesa.
- No lhe ligues - interveio o cigano. - Ela lia o futuro, mas agora est 
velha... Sentem-se connosco e partilhamos a refeio.
- Ns no queremos dividir convosco aquilo que  nosso. Tm de pedir 
desculpa ao meu filho. Estes animais eram dele e criou-os com cuidado e 
com esforo. E vocs privaram-no de um sonho.
Pronunciou estas palavras com firmeza e Pucci sussurrou: Obrigado, pai. 
J est bem assim. Agora vamos para casa.
O cigano baixou a cabea em frente ao pequeno Corti e disse num sussurro: 
- Eu e a minha famlia lamentamos o que aconteceu. No te queramos fazer 
mal, s tnhamos fome.
Os homens e os rapazes olharam para aquela gente que vivia de 
expedientes, num estado de precariedade absoluta. A raiva transformou-se 
em compaixo.
Pucci estendeu a mo ao cigano, que a apertou entre as suas.
- Dividam connosco aquilo que era vosso - props o homem.
Pucci olhou para o pai e declarou:
- No fundo, eu criei-os para eles acabarem no fogo.
Foi assim que se juntaram todos para partilhar pedaos de coelho 
estaladios. S faltava o velho Anacleto, que dissera:
- Eu vou-me embora. S o cheiro do coelho j me d volta ao estmago.
Rosellina estava ao lado do pai e, a certa altura, sussurrou-lhe:
- Pergunta  velha o que queria ela dizer com aquilo de eu vir a ser 
ladra e me chamarem princesa.
- Tambm ouviste explicar que ela est um bocado tola da cabea - 
respondeu Renato.
A velha, como se tivesse ouvido a pergunta da rapariga, aproximou-se 
deles e disse a Renato:
- D-me a tua mo direita.
Renato estava a comer uma coxa de coelho e respondeu:
- No me agrada a ideia de conhecer o futuro antes de tempo.

77

- Anda l, pai, d-lhe a mo - pediu Rosellina.
Renato, para no desgostar a filha, estendeu a mo, que a velha observou.
- Tens uma mulher bonita que te ama e quatro diamantes que so os teus 
filhos. A morte j tentou apanhar-te, mas depois fugiu, deixando-te s 
umas arranhadelas... - No acabou a frase. Largou a mo de Renato, deu 
meia-volta e foi embora.
Quando o grupo do corso Lodi regressou a casa, j era noite.
Pucci, estendido na sua cama, sussurrou ao irmo Giuseppe:
- A partir de amanh vou comear a estudar com todo o meu empenho. Ser 
comerciante  demasiado arriscado.
Rosellina, da sua cama, perguntou a Liliana:
- O que  que tu achas que a cigana viu no meu futuro?
- No viu nada. Aquela gente vive de supersties e de conversa. Dorme, 
que  melhor - rematou a irm.
Na grande cama conjugal, Renato beijou a testa de Ernestina e sussurrou-
lhe: - s muito bonita. E os nossos filhos so diamantes puros, como 
disse uma velha.
- E tu s uma eterna criana - respondeu a mulher, enternecida, enquanto 
lhe afagava o rosto.

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Ernestina levou para a mesa o tpico prato dos domingos de Inverno, 
polenta e salsichas, recebido com alegria por Renato e pelas crianas.
Sentou-se e olhou para eles enquanto se serviam. Eram saudveis, fortes e 
honestos e tinham bem enraizado o sentido do dever. Era realmente uma 
rica famlia, pensou. No entanto, no estava tranquila.
Renato preocupava-a por causa do seu cargo sindical, que se tornava cada 
vez mais trabalhoso e difcil. Naqueles meses, o governo tinha proposto 
um programa de reformas sociais que agradaram aos trabalhadores mas que 
foram hostilizadas pelos empresrios. As correntes polticas de direita, 
para alm do mais, tinham admitido a criao de prmios antigreve, o 
que despoletara a fria dos trabalhadores mais intransigentes. Surgiram, 
ento, conflitos no interior das fbricas e os sindicalistas, como 
Renato, encontravam-se entre a espada e a parede, devendo sugerir calma 
aos espritos mais acesos e chamar  reflexo os mais acomodados.
Ernestina estava sempre a repetir ao marido: - Tem cuidado, expes-te 
demasiado. Um dia ainda te crucificam.
- Tu j nasceste pessimista - respondia Renato.
Ernestina tambm estava preocupada com os filhos, a comear Por Liliana, 
que tinha deixado de passar as tardes de domingo com as senhoras 
Pergolesi. Agora saa com Danilo, de quem Ernestina no gostava. Nunca o 
vira, mas atravs das poucas palavras da filha

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tinha traado um quadro negativo. - Uma pessoa que aos vinte e quatro 
anos vive  custa da av e ainda no se formou no me inspira confiana 
nenhuma - dizia-lhe.
-  um filsofo. No liga a certas coisas - defendia-o Liliana.
Ele anda a gozar com ela, pensava Ernestina, sem ter a coragem de lho 
dizer. No sabia em que ponto estavam as relaes entre eles e isso 
tambm era uma fonte de preocupaes. Liliana no se abria com a me e 
ela temia o pior. Dizia ao marido:
- Se ela fica grvida, o que  que ns fazemos? Adeus estudos! Tem de 
casar e todos os sacrifcios que fizemos vo ao ar. - Renato respondia-
lhe com um sorriso: - Tu tambm te casaste porque estavas grvida e 
afinal as coisas no te correram assim to mal.
Giuseppe era outra grande fonte de preocupaes. Estudava com empenho e 
com ptimos resultados. No entanto era um solitrio e a me lia nos seus 
olhos uma tristeza que a fazia sofrer. J h algum tempo que havia 
percebido que aquele filho nunca seria um homem como os outros e pensava 
com dor no seu futuro. Mais cedo ou mais tarde as suas diferenas 
acabariam por se tornar do domnio pblico e temia o escrnio de que ele 
ento seria vtima. Vencendo todas as reticncias, acabou por falar com o 
mdico de famlia.
- No h uma cura para os casos como este? - perguntou -lhe.
O mdico abanou a cabea e abriu os braos. - Conforme-se, minha senhora 
- disse-lhe. - No se fica homossexual por doena. No o considere uma 
vergonha, nem se culpabilize por isso. A nica coisa que pode fazer  
querer bem ao seu filho, assim como ele .
- Se ao menos fosse feliz! - sussurrou Ernestina.
Tambm Pucci estava a mudar. J no era o estrina de outros
tempos. Depois do roubo dos coelhos tinha sossegado e at comeado a 
estudar com empenho, mas os resultados eram muito fracos. S brilhava em 
Matemtica; quanto ao resto, era um desastre. Os professores diziam-lhe 
que tinha muito pouca capacidade de concentrao, apesar de a natureza o 
ter dotado de uma inteligncia viva. - Deve ser por estar naquela idade 
difcil - desculpava-o Ernestina junto aos professores, mas entretanto 
torturava-se com a preocupao.

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No se sentia satisfeita nem sequer com Rosellina, que estava a ficar 
cada vez mais vaidosa. Quando entrava alguma novidade em casa - o 
telefone, a televiso, o carro que Renato tinha comprado
- Rosellina ia gabar-se de casa em casa. No havia maneira de a levar a 
ser mais modesta e comedida. Talvez lhe tivessem dado demasiado mimo em 
casa. Aquela rapariga de onze anos, linda como uma estatueta de 
porcelana, corria o risco de se quebrar no primeiro impacto com os 
problemas da vida. Falava, ria e gesticulava como se estivesse sempre num 
palco. Ernestina receava que ela nunca viesse a ser uma mulher slida e 
resistente.
As salsichas, grelhadas com salva e cozidas em molho de tomate, 
espalhavam pela cozinha um perfume intenso. Enquanto todos saboreavam 
aquela comida apetitosa, Ernestina no se decidia a comer.
- No ests bem? - perguntou Renato, que a mantinha debaixo de olho desde 
que se sentara  mesa e reparara no seu olhar ausente.
Para alm das preocupaes relativas  famlia, Ernestina tinha tambm um 
problema pessoal que deveria partilhar com o marido, mas ainda no se 
decidira a faz-lo.
- Estou ptima - mentiu, e sorriu-lhe.
- Devias sorrir mais vezes porque, sempre que o fazes, at a casa sorri - 
disse o marido. - Digo bem, meninos? - continuou, solicitando o consenso 
dos filhos, que responderam distraidamente com uma rosnadela vaga.
- Hoje h salada de fruta - anunciou Ernestina. E continuou:
- Graas ao Pucci. Ontem, enquanto vocs andavam no sei onde a divertir-
se, ele esteve a trabalhar no pomar e o dono recompensou-o com um rico 
cesto de fruta - explicou a me.
Desta vez, quase como se tivessem combinado antes, os irmos disseram em 
coro: - Obrigado, Pucci! Obrigado, me! - Depois riram-se todos ao mesmo 
tempo.
Mas Ernestina no conseguiu deixar-se contagiar pela alegria geral.
A seguir ao almoo, Liliana escapuliu-se de casa com um ar furtivo. A me 
despediu-se dela, dizendo: - Pensa bem antes de fazeres algum disparate.

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Tambm Giuseppe se preparou para sair, depois de se ter assegurado que o 
n da gravata estava perfeito e os cabelos bem penteados.
- E tu, onde vais? - indagou Ernestina, apesar de j saber que se ia 
encontrar com aquele colega de liceu que tinha os mesmos problemas que 
ele.
- vou ver a Torre Velasca com um amigo meu - disse o rapaz. E explicou ao 
pai: -  uma construo absolutamente revolucionria em relao  
arquitectura tradicional.
Renato virou-se para a mulher: - Quiseste que ele estudasse? Aqui est o 
resultado: vai visitar casas para ricos, enquanto que seria bem melhor 
que na escola lhe ensinassem a ver como so as casas dos trabalhadores.
Do ptio chegaram vozes de crianas que chamavam Pucci e Rosellina. Os 
dois deram um beijo aos pais. Iam para o centro paroquial.
Agora marido e mulher estavam ss. Renato abriu um mao de cigarros e 
estendeu-o  mulher, que recusou.
- Vamos fazer um caf? - props.
- Estou cansada. Vou-me estender na cama. Mas se fizeres para ti, tambm 
tomo um bocadinho - disse, enfiando-se no quarto.
No tinha tocado na comida. Havia j alguns dias que exibia um rosto 
cansado e o seu nervosismo contagiava toda a gente. Renato, que a 
conhecia bem, tinha a certeza de que andava a esconder alguma coisa.
Preparou o caf para ele e para ela e serviu-lho no quarto. Sentou-se na 
cama ao lado dela e disse-lhe com ternura: - Ento, contas-me o que se 
passa contigo?
- Inscrevi-me no sindicato.
- S isso? Era inevitvel que o fizesses - disse o marido.
- No cantes vitria, porque no escolhi o teu sindicato. Escolhi o dos 
padres.
- No tem importncia, minha querida.
- Tive de o fazer para convencer as outras operrias a inscreverem-se 
tambm. So quase todas jovens, como sabes, vm do Veneto e vivem nas 
freiras. Consideram o sindicato um instrumento do diabo, mesmo que no 
seja o dos comunistas. Rezaram muitos rosrios com as freiras para pedir 
perdo ao Senhor por aquela

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deciso que, como felizmente perceberam, era inevitvel. O copo estava 
cheio, at para elas. No sei onde arranjei foras para as convencer a 
todas, mas consegui. - E contou-lhe dos intervalos do almoo no ptio da 
fbrica, todas juntas, sentadas no cho, com as costas encostadas ao muro 
da fbrica a tirar as sanduches do saco. Quanto mpeto naqueles 
pensamentos sussurrados, quanta esperana para conseguirem fazer valer os 
seus direitos!
- Tive um grande professor durante vinte anos e, graas a ti, encontrei 
as palavras certas para as acordar. Nenhuma delas se queixou, nunca. No 
sindicato nem queriam acreditar que eu levava tantos novos pedidos de 
inscrio. Pedimos e obtivemos contratos normais para todas elas e uma 
qualificao justa para cada uma. Ao fim de oito anos consegui a passagem 
de aprendiza a empregada. No te parece uma rica vitria?
-  extraordinrio! - exclamou Renato, abraando-a.
- Agora espera para saberes o resto - disse a mulher, deixando-o gelado. 
E prosseguiu: - Ontem foi-nos entregue uma comunicao a todas: fomos 
despedidas em massa, porque a empresa vai fechar. Daqui por um ms, 
sessenta mulheres vo ficar sem trabalho. E sabes de quem  a culpa?  
minha, Renato - desabafou, e desatou num pranto.

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Naquele domingo, Liliana saiu a correr para ir a casa das senhoras 
Pergolesi e no para se encontrar com Danilo, como gostaria.
Na noite anterior tinha recebido um telefonema de Miss Angelina, que no 
via h trs semanas.
- Amanh vens-me visitar? - Mais do que uma pergunta, era uma splica.
- Claro - respondeu Liliana, sentindo-se culpada por aquelas inmeras 
ausncias. Um ms antes tinha ido a correr a casa dela para lhe contar a 
sua histria de amor com Danilo. Angelina partilhou daquela excitao, 
mas fez-lhe tambm algumas recomendaes. - Pe-te em guarda, querida. Os 
homens s vezes so um bocado malandros e tu ainda s muito ingnua - 
disse-lhe.
Depois Liliana desapareceu, limitando-se a alguns telefonemas de 
circunstncia. Danilo ocupava-lhe os pensamentos e o tempo livre. 
Angelina Pergolesi tinha percebido, mas no estava zangada. Naquela 
noite, ao telefone, disse-lhe: - No tragas o caderno. No vai haver 
aula.
- Ainda bem, porque no tive tempo para traduzir o Chaucer
- respondeu.
Uma vez que o seu ingls era quase perfeito, a signorina Pergolesi 
decidiu que Liliana devia abordar seriamente a literatura anglo-saxnica 
e comear pelo poeta Geoffrey Chaucer.

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Liliana aceitou como um desafio aquela difcil traduo de versos 
escritos no sculo XIV num ingls arcaico. Mas desde que Danilo tinha 
aparecido na sua vida at aquele exerccio estimulante abandonara.
Assim, naquele domingo percorreu o corso di Porta Romana. Iria encontrar-
se com o namorado depois da visita  casa das senhoras Pergolesi.
Angelina estava de sentinela na varanda e, quando a viu em frente ao 
porto, disse-lhe: - No toques. Eu j vou abrir.
- Tm a campainha avariada? - perguntou a rapariga, assim que chegou ao 
p da signorina Pergolesi.
A professora levou o indicador aos lbios, convidando-a a baixar a voz. 
Tinha perdido o olhar alegre e parecia mais velha. Em bicos de ps, 
chegaram as duas  sala de estar. Sentaram-se no sof e Liliana 
pressentiu o gelo de uma m notcia que estava prestes a ser comunicada.
- A sua me... - sussurrou.
A signorina Pergolesi tirou do bolso um lencinho de batista branca, 
delicadamente bordado, secou uma lgrima e sussurrou:
- Est a morrer. - Foi um pranto ligeiro, pudicamente silencioso.
- Sinto muito - sussurrou a rapariga, sinceramente abalada com aquela 
notcia. - O que aconteceu? - perguntou.
Angelina limpou os olhos, dobrou o leno e apertou-o na mo.
- A me vai partir e deixa-me sozinha. E eu no sei como vou enfrentar os 
dias que me restam sem ela. Nunca tinha pensado que este momento pudesse 
chegar, porque a considerava imortal. Desde h algum tempo estava a ficar 
um pouco estranha: j no implicava comigo. Um dia at me fez uma festa. 
Comeou a andar de um lado para o outro pela casa, em silncio, arrumava 
as gavetas e no comia. Por mais que a Luisella e eu a questionssemos, 
ela apenas sorria e dizia: Est tudo bem. Mas afinal estava tudo mal. 
Quando chamei o nosso velho mdico de famlia para a ver, ele declarou: 
No encontro nenhuma patologia. A senhora est bem, apesar de a presso 
estar um pouco baixa e o corao um pouco cansado. Vou-lhe receitar um 
medicamento para o corao e, se realmente no quer comer, obrigue-a a 
beber. D-lhe um bom sumo de laranja, com bastante acar. A me 
estendeu-se na cama para ser vista pelo mdico e a partir da nunca mais 
se quis levantar. Ontem 

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tarde caiu num sono profundo e nem eu nem a Luisella conseguimos acord-
la. Chammos o mdico: disse que est em coma. E  tudo, querida.
- Por que no me telefonou logo? - perguntou Liliana.
- Tens a universidade, as explicaes, a tua primeira histria de amor. 
Que direito tinha eu de perturbar tudo isso? No entanto, ontem  noite 
achei que tinhas de saber e liguei-te. S disse a ti. Os nossos parentes 
americanos ainda no sabem. vou inform-los quando chegar o momento, mas 
no vo ficar muito perturbados com a notcia. Alguns deles nem sequer a 
conheceram. Esta velha senhora, que durante tantos anos viveu na Europa 
distante, no representa nada para eles. Para mim, no entanto,  o nico 
ponto firme de toda a minha vida.
Liliana afagou-lhe um ombro.
- Obrigada, querida - sussurrou Angelina.
- Posso v-la? - perguntou a rapariga.
- Mas  claro, se quiseres. S te peo que no faas barulho. O mdico, 
que saiu daqui h pouco, diz que j no sente nada e que  s uma questo 
de horas. Mas eu acho que a me ainda tem o ouvido apurado e os rudos 
podem incomod-la. Escolheu no continuar a viver. Sabe-se l porqu! 
Estvamos to bem juntas, ela e eu - sussurrou, ao mesmo tempo que 
avanava  frente dela em direco ao quarto, onde a velha empregada 
estava sentada ao lado da doente.
A me Pergolesi dormia um sono profundo. Os cabelos brancos e ondulados 
eram uma aurola de seda em volta do rosto plido que exprimia uma 
espantosa serenidade.
- Gostava de lhe fazer alguma companhia - sussurrou Liliana, que tinha 
esquecido completamente o encontro com Danilo.
Luisella e Angelina trocaram um olhar e deixaram-na s. Liliana inclinou-
se sobre a doente e acariciou-lhe a testa. Tal como Angelina, tambm ela 
pensou que talvez a velha senhora estivesse consciente daquilo que a 
rodeava, mas no queria saber de nada, porque se preparava para enfrentar 
uma grande viagem em direco a um mundo misterioso. Liliana recordou as 
histrias coloridas da velha signora Pergolesi, que falava das luzes de 
Nova Iorque, das multides ao longo das grandes avenidas, das filas de 
automveis a

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buzinar, do subway que corria nos subterrneos da cidade transportando 
milhes de passageiros, dos homens Sandwich que percorriam os passeios 
a fazer publicidade s marcas de muitos produtos, Aos rios de cerveja que 
corriam nos bares para alegria daqueles selvagens que no conheciam a 
refinada elegncia de um bom copo de vinho. Narrara-lhe um mundo 
resplandecente, catico, modernssimo e exuberante e fizera-a sonhar. Por 
isso lhe estava profundamente grata. A velha senhora tinha-lhe dado muito 
e apenas lhe pedira em troca a sua capacidade de ouvir.
- Obrigada por tudo, querida signora Pergolesi - sussurrou Liliana, 
afagando-lhe uma mo.
A senhora suspirou e a sua respirao apagou-se.
- Foi-se embora - disse Liliana, por entre lgrimas, assomando  porta da 
cozinha onde Angelina e a empregada estavam a preparar o chocolate.

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Estavam todos a dormir, em casa, excepto Liliana que, sentada na cama, 
andava ainda s voltas com os livros. Estudava para os seus primeiros 
exames. No era tarefa fcil para uma matrcula em Direito. Mas ela 
estava absolutamente determinada a queimar etapas, empurrada pelo orgulho 
da primognita que deve servir de exemplo aos outros irmos.
Passava j das onze horas quando a me entrou em casa em bicos de ps, 
regressando de uma extenuante reunio com os patres da fbrica de 
malhas.  notcia do fecho da empresa Ernestina reagira com a sublevao 
de um verdadeiro pandemnio que tinha sido noticiado pelos jornais e at 
pela televiso. Organizou manifestaes e comcios em frente  fbrica, 
com a interveno de delegaes de operrios de outras unidades fabris. 
Era evidente que, na realidade, os Scanni no tencionavam fechar a 
fbrica, que era uma empresa florescente, com um volume de negcios 
considervel. Pretendiam apenas substituir o pessoal sindicalizado por 
novos operrios que no criassem problemas. Mas no tinham previsto que 
aquela estratgia pudesse desencadear uma reaco to imponente. Havia j 
muitos dias, portanto, que Ernestina dividia o seu tempo entre o trabalho 
e as reunies com o sindicato e os Scanni. Durante anos tinha criticado o 
envolvimento do marido e agora encontrava-se na mesma situao.
- Devias descansar - sussurrou a Liliana, assomando  porta

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do quarto.
Rosellina dormia profundamente e no acordaria nem mesmo se levantassem a 
voz.
- Tu tambm, me - respondeu Liliana, fechando o livro.
- Pois, eu tambm - suspirou Ernestina, ao mesmo tempo que se sentava na 
beira da cama.
- Como  que correu? - perguntou a filha.
- Vamos ver. Agora temos as festas e at depois dos Reis no vai 
acontecer mais nada - rematou.
- Eu gostava de passar o fim de ano fora da cidade - disse Liliana.
- com aquele Danilo, suponho - precisou a me.
- Supes bem.
Ernestina fez uma careta de desapontamento.
- Depois falamos - disse, enquanto se levantava.
-  melhor falarmos agora, porque amanh  o ltimo dia do ano e eu 
queria sair de tarde - insistiu a filha.
- Se eu te disser que no, tu ficas zangada. Se te disser que sim, vou 
ficar preocupada at tu voltares. No podias arranjar um namorado mais de 
confiana?
- Me, eu estou apaixonada pelo Danilo e aborrece-me que tu o julgues mal 
- lamentou-se.
- Tens umas palas nos olhos, como todos os apaixonados. Mas eu estou 
demasiado cansada para entrar em discusses. Faz o que entenderes, mas 
exige respeito e no te esqueas de que os homens,  excepo do teu pai, 
so um bando de patifes.
No dia seguinte Liliana apanhou o comboio para Varese, na plena convico 
de que a me no era capaz de compreender Danilo, o homem com quem havia 
de partilhar a vida, porque era o nico capaz de fazer vibrar as cordas 
da sua feminilidade, de lhe dedicar pequenas e maravilhosas atenes e de 
lhe sussurrar: Liliana, s to bonita, e que quando a beijava a fazia 
sentir-se exactamente como se estivesse no paraso. Danilo esperava-a na 
estao de Varese. Foi ao encontro dela quando desceu do comboio e 
ofereceu-lhe uma rosa. Liliana montou com ele na Lambretta, atravessaram 
a cidade e chegaram a casa da av. Era uma graciosa vivenda Liberty, na 
rua que ia at ao Sacro Monte, com um grande jardim  volta.

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A av, uma velha senhora curvada pela artrose, tinha sido funcionria 
municipal. Estava reformada h anos e agradecia a sorte de ter visto o 
neto ser poupado no acidente de automvel em que tinham morrido o filho e 
a nora. Recebeu Liliana com o sorriso e os modos altivos das senhoras de 
outros tempos.
- Esteja  vontade, menina - disse-lhe, enquanto a fazia entrar numa 
salinha de estar minscula e triste com as paredes revestidas por uma 
tapearia vermelha escura salpicada de pequenas flores amarelas, um sof 
e duas poltronas antigas, uma estante cheia de pequenos objectos de 
porcelana e fotografias emolduradas dos parentes mais queridos penduradas 
nas paredes.
- Chame-me Liliana, por favor - disse a rapariga. - E trate-me por tu - 
acrescentou, aceitando o convite para se sentar.
Na pequena mesa em frente ao sof estava uma garrafa de vermute, trs 
clices e um prato de biscoitos.
- Nasci no sculo XIX e era uma espcie de revolucionria naquela altura, 
porque fui trabalhar numa poca em que todas as mulheres de origem 
pequeno-burguesa ficavam em casa a tricotar. Sabe que tive alguma 
dificuldade em arranjar marido por causa do meu trabalho? Tome um 
calicezinho de vermute, tenho muito gosto nisso. Portanto, queria 
explicar-lhe que no  fcil para mim tratar com muita confiana uma 
rapariga que acabo de conhecer. O meu pai era secretrio dos condes 
Bettola, que tinham grandes propriedades para estes lados. De vez em 
quando, raramente, levava-me a visitar a villa. Eu era ainda uma criana 
e o luxo daquela casa ofuscava-me. Imagine que o conde e a condessa, j 
idosos, se tratavam por voc, exactamente como fazia Giacomo Leopardi com 
o pai e com a me. Sempre li muito, ainda agora continuo a ler, mas ao 
fim de algum tempo comeo a misturar as palavras e o cansao impede-me de 
continuar. Por isso, signorina Liliana, vai desculpar-me se continuo a 
trat-la por voc. Mas isso no significa que no seja bem-vinda. Molhe o 
biscoito no vermute, se gostar. Como o meu Danilo j lhe disse, levo uma 
vida muito retirada. S saio para fazer as compras de casa e assim 
encontro alguns velhos conhecidos. Cumprimentamo-nos, falamos um pouco 
dos nossos achaques e fico a saber de algum que morreu. Felizmente tenho 
o meu neto e isso mantm-me viva.  noite jantamos juntos, de manh 
acordo-o e preparo-lhe o pequeno-almoo. Depois ele vai para Milo e eu

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trato da casa e da roupa dele. No tenho tempo para me aborrecer. Quando 
ele acabar aquele bendito curso e arranjar uma rapariga s direitas para 
casar, ento eu descanso - concluiu a senhora.
Liliana escutou, plida, aquele rio de palavras. De vez em quando 
observava Danilo de soslaio. Ele tinha fechado os olhos, como se 
estivesse a dormir, e parecia feliz. Perguntou a si prpria como havia de 
responder, mas a av libertou-a daquele embarao porque, depois de ter 
esvaziado gulosamente o seu clice de licor, recomeou a falar.
- Nunca permiti ao meu Danilo que trouxesse amigos aqui para casa, e 
muito menos raparigas. No entanto, o meu neto falou-me muito bem de si, e 
uma vez que um bom dia se v logo de manh devo dizer-lhe que o seu 
aspecto me tranquiliza. Reparei que no se pinta e isso j  um bom 
sinal, nos tempos que correm. Sei que estuda com bom aproveitamento e 
isso  mais um sinal positivo. O Danilo  socialista, como o meu defunto 
marido, de quem tem o nome. Tambm o nosso Senhor era socialista. Sabia? 
Os comunistas no me agradam: so gente sem Deus e no tm nenhum 
respeito pela moral. O meu Danilo e eu respeitamos muito a moral. 
Signorina Liliana, tambm respeita a moral, no  verdade? Portanto, 
seria embaraoso uma menina dormir debaixo do mesmo tecto que um jovem. 
Sei que esta noite vo  festa de passagem de ano dos Conforti, que so 
uma famlia muito estimada. Para mim o fim de ano  um dia como os outros 
e por isso vou dormir. Se a signorina Liliana quiser descansar umas 
horas, antes de ir para a festa, poder faz-lo neste sof. Agora vou 
deix-los sozinhos, enquanto preparo o jantar. Uma coisa ligeira, porque 
vo ter oportunidade de jantar condignamente em casa dos Conforti.
Juntou no tabuleiro biscoitos e clices, fechou  chave o vermute no 
armarinho das bebidas e saltitou em direco  cozinha, deixando Liliana 
perplexa.
Danilo abriu os olhos e sorriu-lhe.
- Esta  a minha av - disse.
- E no precisas de dizer mais nada - respondeu ela.
Danilo foi at ao sof, ps-se atrs dela e enfiou as mos grandes e 
tpidas no decote da camisola da rapariga. Acariciou-lhe os seios e 
sussurrou: - As minhas mos amam-te.

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- Por que  que no podemos ficar sozinhos? - perguntou Liliana.
- Vamos ficar, daqui a poucas horas. Os Conforti no do festa nenhuma. 
Esto todos na montanha, mas o filho, que  meu amigo, deixou-me as 
chaves de casa. Por isso contenta-te em comer uma sopinha de massa, um 
pedao de frango cozido com pur de batata e pudim de baunilha. D os 
parabns  av pelo jantar, ela fica feliz - aconselhou-a.
Os Conforti tinham um grande apartamento no ltimo andar de um palcio 
senhorial no centro de Varese. Desafiando o frio, foram at l de 
Lambretta. Liliana ficou encantada com o luxo e a elegncia daquela casa. 
Danilo conduziu-a com um passo seguro atravs de um labirinto de 
corredores at uma sala de estar. Havia estantes de livros ao longo das 
paredes, amplos divs forrados de veludo verde-escuro, flores frescas nas 
jarras e candeeiros com enormes abat-jours de seda branca.
- Esta sala  toda para ns, at amanh de manh - anunciou Danilo.
Liliana abriu uma porta que j estava entreaberta. Viu uma casa de banho 
revestida de mrmores e espelhos.
- Quem so estes Conforti? - perguntou a rapariga.
- Industriais, h vrias geraes.
- J aqui estiveste mais vezes?
- Todas as semanas,  sexta-feira  noite, quando venho dar explicaes 
de Grego e Latim ao filho mais novo, o Francesco. O irmo mais velho  o 
meu melhor amigo. Falei-lhe de ti e, antes de partir com a famlia para 
Crans-sur-Sierre, deu-me as chaves de casa. Queria que a nossa primeira 
noite fosse memorvel - explicou, enquanto tirava a camisola.
- Como  que tinhas assim tanto a certeza de que eu ia aceitar passar a 
noite contigo? - O seu batimento cardaco tinha assumido uma repentina 
acelerao e sentiu uma onda de calor no rosto.
- Porqu? Se calhar no  assim? - afirmou Danilo, com um sorriso.
Tinha tirado os sapatos e as meias e, descalo, saiu da sala para voltar 
a aparecer pouco depois com uma garrafa de champanhe e duas taas de 
cristal.

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- Nunca estive com ningum at hoje. Por que razo havia de fazer amor 
precisamente contigo? - perguntou-lhe Liliana, que tinha recuperado o seu 
controlo.
- Porque s a minha namorada - respondeu ele.
Foi at junto dela e comeou a desapertar a blusa de malha cinza-prola. 
O toque suave daquelas mos f-la arrepiar.
Liliana estava apaixonada e s desejava abandonar-se nos braos dele, 
como fantasiava havia j vrias semanas, mas a segurana descarada de 
Danilo era uma nota fora do tom que no fazia parte dos seus sonhos.
- Quero tomar um banho. Nunca vi uma banheira que parece uma piscina - 
decidiu.
Afastou Danilo, entrou na casa de banho e abriu as torneiras. Num nicho 
comprido, escavado no mrmore, viu uma srie de frascos de vidro que 
continham sais de banho de vrias cores. Escolheu os de alfazema e deitou 
um punhado na gua.
Despiu-se e, quando ia a entrar na banheira, sentiu a presena de Danilo 
atrs dela. Sabia que tinha um corpo bonito e no lhe desagradava a ideia 
de que ele a visse nua.
- Meu Deus, s to bonita - sussurrou o rapaz.
Liliana estendeu-se dentro de gua e olhou para o namorado. Tinha nas 
mos duas taas de champanhe. Ela sorriu e estendeu um brao cheio de 
espuma.
- O meu nctar, por favor - ordenou, com uma voz lnguida. Depois 
explodiu numa gargalhada e disse: - Estamos a representar uma cena de 
filme medocre.
Danilo estendeu-lhe o copo e ela despejou-o na banheira.
- Nunca me vais apanhar por embriaguez - afirmou. - Mas dou-te 
autorizao para te despires e para entrares nesta piscina. Achas que a 
tua av me ia condenar? - provocou.
- Qual av? - brincou ele.
Deslizou para dentro da banheira, em frente a ela. Acariciaram-se ento, 
olhando-se nos olhos e desejando-se como se no existisse mais nada no 
mundo para alm da necessidade que sentiam de pertencerem um ao outro.
Danilo beijou-a, sussurrando: - A minha boca ama-te, as minhas mos amam-
te, o meu corpo ama-te.
- E tu, amas-me? - perguntou ela.

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- Eu quero-te, Liliana.
Aquela foi a sua primeira, extraordinria e irrepetvel noite de amor, 
com a qual saudaram o ano velho e baptizaram o ano de 1959.
Pela cidade rebentavam fogos-de-artifcio, brilhavam fogueiras nas 
colinas e a alegria explodiu no corao de Liliana.
Na manh seguinte, Danilo foi lev-la  estao. No quis ir despedir-se 
da av. Achou que se aquela velhota terrvel a olhasse nos olhos ia logo 
perceber tudo e acabaria por a pr na rua. Apanhou o comboio que partia 
para Milo, sozinha. A euforia daquela noite diluiu-se em melancolia e 
teve alguma dificuldade em conter as lgrimas.

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SITO DELLA GUASTALLA
Poderia parecer uma primeira vez quase perfeita - comentou o professor De 
Vito. E continuou: - Tinha a idade certa para uma relao sexual e teve-a 
com um homem que amava, deixando bem claro que no seria uma vtima 
sacrificial.
- Est a ver a ma da Branca de Neve? Era bonita, luzidia e  primeira 
dentada parecia deliciosa. Mas estava envenenada. Foi assim com o Danilo, 
que usou a forma mais matreira para me transformar numa vtima.
- Por hoje, a sesso acaba aqui - interrompeu Nelson, olhando para o 
relgio que trazia no pulso.
Liliana levantou-se, apertou-lhe a mo e foi-se embora.
Nelson limpou cuidadosamente o cachimbo, arrumou a secretria e saiu do 
consultrio. Era Maro e o ar cheirava a Primavera.
Quando entrou em casa, a signora De Vito e Sir Pitt, o co, receberam-no 
alegremente, como sempre. Sentou-se na sala de estar e a mulher preparou-
lhe o habitual sumo de tomate.
Por que casaste comigo? - perguntou Nelson de repente.
Porque te amava, querido - respondeu tranquilamente.
- No tivemos filhos - constatou Nelson.
- Tu no querias. Eu j te tinha a ti e ao teu co.
- E no tens pena? - perguntou Nelson.
- Por mim correu bem assim, querido. Queres que te descasque um pistacho?
Nelson recordou a rapariga radiosa que frequentava um curso
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de Literatura Romnica, que cantava com uma voz extremamente doce canes 
italianas, acompanhando-as  guitarra, e que uma noite o convidou para 
comer uma massa em sua casa. No sou grande cozinheira, disse-lhe 
ento. A massa estava pssima, mas pediu uma segunda dose, no para lhe 
agradar, mas porque adorava qualquer coisa que fosse feita por ela.
Descascou alguns pistachos, enquanto acabava de beber o sumo de tomate. A 
empregada anunciou que o jantar estava na mesa. O mdico levantou-se e 
beijou com ternura a testa da mulher.
- Amo-te - sussurrou-lhe.
Naquele momento pensou em Danilo, o namorado de Liliana Corti, que no 
tinha conseguido dizer-lhe aquela palavra to simples. Ela devia ter 
fugido imediatamente. Se o tivesse feito, talvez a sua vida tivesse sido 
diferente.
Quando Liliana voltou a apresentar-se no consultrio de Nelson, iniciou a 
sesso dizendo: - Gostava de lhe falar daquele fruto bichado e do veneno 
que me deixou no corao.

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CORSO LODI
Liliana recebeu uma carta de Beth Pergolesi, de Nova Iorque. A 
correspondncia entre ela e a sobrinha de Miss Angelina durava j h 
alguns anos e era-lhe muito til para manter vivo o seu ingls. Beth 
tinha-lhe muitas vezes referido o desejo de ir a Itlia para conhecer a 
tia.
Agora, porm, escrevia: Sabes bem como a Angelina se sente s depois que 
a me a deixou. Por isso decidiu vir viver connosco, na cidade onde 
nasceu. Por que no vens com ela? Seria uma ocasio nica para nos 
conhecermos, finalmente. Podias c ficar muito tempo, porque a casa  
grande, h espao que chegue...
Liliana tinha aberto o envelope fino de correio areo enquanto subia as 
escadas de casa e comeou a ler. Parou a meio da subida. No sabia nada 
sobre aquela deciso de Miss Angelina. De facto, no tinha notcias dela 
havia mais de um ms, porque estivera muito empenhada em preparar a tese 
de licenciatura e em decifrar o comportamento infantil de Danilo. Agora 
ficara a saber que a signorina Pergolesi ia mudar a sua vida. Em vez de 
continuar a subir, deu meia-volta, desceu as escadas a correr e dirigiu-
se apressadamente a casa da sua professora.
- So trs horas. A signorina Angelina ainda est a descansar - disse 
Luisella, que lhe abriu a porta.
-  verdade - disse Liliana, que j sabia que, depois da morte da me, 
Angelina fazia uma pequena sesta a seguir ao almoo. Aquela

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pausa de uma ou duas horas servia-lhe para abreviar os seus dias de 
mulher s.
- Entre. Vou-lhe fazer um caf - sugeriu a velha empregada.
A rapariga sentou-se  mesa da cozinha, tamborilando os dedos sobre o 
mrmore.
- O que se passa? Parece-me um bocadinho nervosa - constatou Luisella, 
enquanto punha a cafeteira ao lume.
A signorina Pergolesi apareceu  porta.
- Que bom ver-te! - exclamou, feliz.
Liliana levantou-se de um salto e abraou-a.
- Recebi uma notcia que me chegou do outro lado do oceano, enquanto eu, 
que estou a poucos metros daqui, devia ter sabido mais cedo - disse, com 
ar de censura, mostrando a carta de Beth.
A velha senhora sorriu.
- A Luisella vai-nos levar o caf  sala. Anda, querida, vamos para l - 
disse, avanando  frente dela em direco  sala de estar, que ficava ao 
fundo do corredor.
- Ento, conte-me l quando foi que decidiu ir embora de Itlia - pediu a 
rapariga, enquanto se sentava ao lado dela no sof.
- Sabes, h j um tempo que eu tencionava regressar ao stio onde nasci - 
comeou Angelina.
- Sim, mas dos pensamentos aos actos... - observou Liliana.
- Tive pelo meio o tempo da reflexo - concluiu a senhora. E continuou: - 
Confesso-te que, quando a me me faltou, pensei que finalmente ia poder 
viver como uma adulta consciente, em vez de ser a velha criana submetida 
 orientao materna. Estou satisfeita comigo prpria porque me tenho 
desenrascado bastante bem. Mas os anos tambm passam para mim e a 
Luisella est cada vez mais cansada.
- E tenho o direito de me reformar - afirmou a mulher, que acabava de 
entrar na sala para servir o caf.
- Por isso decidi reunir-me com o que resta da minha famlia materna - 
afirmou Angelina. E prosseguiu: - Ia falar-te sobre isso quando nos 
encontrssemos, at porque tenho uma proposta para te fazer.
- Ir consigo aos Estados Unidos?  a coisa que mais desejo, mas nem 
pensar. vou defender a tese daqui a duas semanas e logo a seguir vou-me 
pr  caa de um emprego - explicou a rapariga.
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- No  disso que se trata. Gostaria de vender este apartamento e 
pergunto a mim mesma se a famlia Corti no estaria interessada em 
compr-lo - disse Angelina.
Os Corti, como todos os outros inquilinos do prdio do corso Lodi, 
receberam uma ordem de despejo e deviam deixar a casa at fim do ano. 
Tentaram protestar contra aquela deciso, mas os proprietrios foram 
irredutveis. Algumas famlias tinham j encontrado uma nova casa, e 
outras, como os Corti, inscreveram-se numa cooperativa que estava a 
construir naquela altura uma srie de prdios ao fundo da via Ripamonti.
- Vamos ter de aguentar um emprstimo de trinta e cinco anos - lamentou-
se Ernestina.
- J hei-de estar morto antes de o conseguir pagar por inteiro - disse 
Renato.
Ningum estava contente por ir viver num grande prdio annimo, numa zona 
perifrica. Mas era inevitvel, porque as rendas dentro da cidade eram 
demasiado elevadas. A proposta da signorina Pergolesi suscitou o 
entusiasmo de Liliana, mas era inaceitvel.
-  a coisa mais bonita que me podia dizer - exclamou a rapariga. - Mas a 
senhora conhece as nossas condies. No nos podemos dar ao luxo de ter 
um apartamento como este. Muito obrigada, de qualquer maneira, por ter 
pensado em ns.
- No ponhas esse ar resignado, no  nada teu, e ouve-me. Como sabes, 
no preciso de dinheiro. Por isso, podiam pagar-me a mim a prestao que 
iam pagar  cooperativa. Todos os meses eu recebia uma espcie de penso 
vitalcia para as minhas pequenas despesas. No te parece uma proposta a 
considerar?
Naquela noite Liliana conversou com a famlia sobre o assunto, quando 
estavam todos reunidos  volta da mesa para jantar.
- Tem mais ar de oferta do que de compra - observou Renato.
- Se aceitssemos, algum podia pensar que demos o golpe do ba a uma 
senhora sozinha. E depois eu no me vejo naquele edifcio to elegante - 
observou Ernestina.
- Pois eu vejo-me l perfeitamente - afirmou Rosellina.
Se os meus companheiros soubessem que comprei uma casa no corso di Porta 
Romana, iam pensar que roubei. No pode ser,
Liliana. E depois, a cooperativa j nos atribuiu o apartamento - rematou 
Renato.

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- As casas na periferia nascem como cogumelos e, como h muita procura, 
os preos sobem todos os dias. Se revendssemos a nossa quota, de acordo 
com os valores de hoje, fazamos negcio. E os teus companheiros, pai, 
nunca iam pensar que roubaste, porque te conhecem bem - observou Liliana.
- Quando parte a signorina Pergolesi? - perguntou Ernestina.
- Em Setembro. Tambm nos deixa a moblia, excepto alguns quadros que vai 
mandar para a Amrica - explicou Liliana.
- H sempre tempo para dizer que no. Vamos pensar, Renato - decidiu 
Ernestina.
Naquela noite, antes de adormecer, Rosellina disse  irm:
- Esperemos que a me e o pai aceitem a proposta da tua professora. 
Imaginas como seria bom viver num prdio de gente fina? No vejo a hora 
de contar isto s minhas amigas.

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Todos os domingos Liliana fazia aquilo que, durante a semana, fazem os 
estudantes que vivem fora da cidade. Apanhava o comboio das nove no 
piazzale Cadorna, em Milo, e uma hora depois descia na estao de 
Varese, onde Danilo a esperava. Iam juntos para casa da av, que falecera 
dois anos antes. Para Danilo, aquele luto foi uma tragdia. Durante 
muitas semanas manteve-se afastado de toda a gente, recusando-se a estar 
com quem quer que fosse. Foi precisa toda a pacincia de Liliana para o 
convencer a sair do isolamento em que se refugiara. Telefonava-lhe todas 
as noites e escutava os seus silncios, enquanto Ernestina comentava: - 
Ele  doido. Se tivesses um mnimo de bom senso, deixava-lo ficar.
A av morreu depois de Danilo ter acabado o curso e comeado a dar aulas 
de Histria e Filosofia numa escola particular de Varese. Nessa altura, 
como se tivesse acabado de cumprir a sua tarefa, foi-se embora deste 
mundo depois de ter prevenido o neto: - Tens de encontrar uma mulher 
serena que saiba tratar de ti e que te d filhos.
Quando Danilo lhe repetiu aquelas palavras, Liliana perguntou: - Por que 
foi que a tua av nunca me aceitou?
O namorado fez os possveis e os impossveis para lhe demonstrar que no 
era assim, que a av a estimava muito, mas no conseguiu convenc-la. A 
velha senhora tratara-a sempre como uma estranha e, uma vez que no 
perdia nenhuma oportunidade para lhe repetir que uma rapariga s direitas 
nunca se entrega antes do casamento, Liliana nunca esteve sozinha com 
Danilo na villa, Liberty. Quando

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queriam estar ss, encontravam-se na casa de algum amigo complacente.
Naqueles quartos, sempre diferentes, Liliana sentia-se pouco  vontade. 
Depois de fazerem amor, ele adormecia e ela ficava acordada a interrogar-
se sobre o futuro dos dois. Nos momentos de intimidade, Danilo 
sussurrava-lhe palavras muito ternas, mas sempre que ela se referia a 
qualquer projecto para uma vida em comum ele calava-se ou mudava de 
assunto. Nesses momentos, Liliana dizia para si prpria: Manda-o para o 
diabo. Mas no suportava a ideia de o perder.
- Sinto-me uma pecadora - lamentou-se uma vez, depois de terem feito 
amor.
- Mas tu s uma pecadora - replicou Danilo, em ar de brincadeira.
- Se eu peco, tu pecas tambm.
- O homem nunca peca, nestas coisas - respondeu, seguro de si.
- Tu por acaso s socialista? Por acaso s uma pessoa que defende que o 
homem e a mulher tm direitos iguais? s um conservador vesgo, um 
machista que considera as mulheres como vtimas sacrificiais - respondeu, 
irritada.
- E tu, sers tu por acaso uma rapariga moderna, dona de ti e das tuas 
escolhas, como me quiseste convencer desde que nos conhecemos?
Discutiram, mas no domingo seguinte Liliana aceitou encontrar-se outra 
vez com ele numa casa desconhecida. Amava-o e no conseguia imaginar a 
sua vida sem ele. Bastava que Danilo lhe desse a mo, a levasse a passear 
nos bosques e a atordoasse com palavras para que os seus medos se 
desvanecessem.
A seguir  morte da av, Liliana estava convencida de que Danilo ia 
mudar, ia crescer, ia finalmente tornar-se um homem. O primeiro passo foi 
a entrada de Liliana na villa Liberty, nas encostas do Sacro Monte. Mas 
essa foi a nica novidade: Danilo no tinha mudado.
Naquele domingo, Liliana levou consigo uma cpia da sua tese de 
licenciatura para mostrar a Danilo. Sentia-se orgulhosa do seu trabalho, 
que lhe tinha custado meses de estudo e de cansao. Esperava que Danilo 
quisesse folhe-la, se no mesmo l-la por inteiro. Precisava da sua 
aprovao, at porque o tema tinha a ver com

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o direito do trabalho e, ao abord-lo, Liliana fizera referncia a 
algumas ideias base do socialismo.
Quando o comboio parou na estao de Varese, Danilo no estava l  
espera dela. Telefonou-lhe e ele atendeu com uma voz ensonada:
- Que horas so?
- So dez, como todos os domingos - respondeu ela, irritada.
- Espera a. Enfio o sobretudo e vou ter contigo a correr - respondeu-
lhe, para a sossegar.
Liliana saiu da estao e olhou em volta. A pequena praa comeava a 
animar-se, o sol estava j alto nos montes em volta da cidade e o frio 
fazia-a lacrimejar. Viu o FIAT 600 de Danilo surgir de uma rua lateral, 
dar a curva para contornar a praa e estacar numa estridncia de traves 
ao lado do passeio onde ela esperava.
Danilo estava despenteado, tinha o rosto ensombrado pela barba do dia 
anterior e, por baixo do sobretudo, trazia ainda o pijama de flanela s 
riscas azuis e brancas. Sentou-se ao lado dele e sorriu-lhe.
- Desculpa - comeou ele, enquanto lhe dava um beijo apressado na face. E 
continuou: - Esta noite tomei um comprimido porque no conseguia dormir. 
Ainda estou atordoado.
- No dormias porque estavas impaciente por me ver? - brincou Liliana. E 
acrescentou: - Ou talvez estivesses preocupado porque perguntavas a ti 
mesmo: Ser que a rapariga do meu corao vem ou no vem?
Ele emitiu uma rosnadela incompreensvel e arrancou a grande velocidade. 
Quando chegaram a casa, Liliana, como todos os domingos, lavou os pratos 
e as panelas empilhados no lava-loia, apanhou a roupa espalhada por todo 
o lado, esvaziou o cinzeiro e arejou os quartos, enquanto Danilo tomava 
banho. Depois preparou o pequeno-almoo e chamou-o. Ele foi ter com ela  
cozinha. Trazia umas pantufas e um roupo de felpo. Liliana deitou-lhe o 
caf com leite na chvena, barrou as torradas com manteiga e mel, depois 
sentou-se do outro lado da mesa e acendeu um cigarro.
- Tu no comes? - perguntou ele.
- S vou tomar uma chvena de caf. J tomei o pequeno-almoo em Milo e 
estou de dieta - respondeu.
- Porqu? No tens uma ponta de gordura a mais.

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- Mais vale prevenir. E agora diz-me o que  que no te deixava dormir.
- Pensamentos - respondeu ele, ao mesmo tempo que trincava uma fatia de 
po estaladio.
- Sou todo ouvidos - insistiu ela.
- Tu s demasiado bonita, demasiado perfeita, demasiado inteligente para 
uma pessoa como eu - explicou Danilo.
O rdio, a tocar baixinho, transmitia um preldio de Chopin.
- Gostava que te ouvissem os teus alunos, aterrorizados com o professor 
de Filosofia - brincou.
- Perguntaste-me em que  que eu estava a pensar e eu disse-te. No te 
mereo, Liliana - rebateu.
- Sabes, uma destas noites fui ao cinema. Vi um filme em que o 
protagonista, um traidor infame, dizia  namorada, que estava 
apaixonadssima por ele: No te mereo. A pobre no percebia que, com 
aquelas palavras, ele a estava a despachar. Mas tu, meu querido, no me 
queres deixar. Portanto, acaba com esses disparates.
Danilo no respondeu e continuou a comer.
Liliana nunca se sentia completamente  vontade naquela casa. Tinha 
sempre a impresso de que a av a observava com o seu olhar inquiridor. 
Uma vez mostrou-lhe a caderneta da faculdade. A av examinou a avaliao, 
uma srie ininterrupta de excelentes notas, e comentou, desapontada: - 
Que sentido faz uma rapariga querer ser advogada? Coitado do homem que 
casar com ela, porque nunca ser uma boa esposa nem uma boa me. Uma 
mulher deve saber estar no seu lugar: um degrau abaixo do homem.
Recordou aquele episdio enquanto Danilo acabava o pequeno-almoo. A 
seguir, ele foi para a sala e ela foi atrs.
- Na quarta-feira vou defender a minha tese. Vo l estar os meus pais, a 
signorina Pergolesi e os meus irmos. Ficava contente se tu tambm fosses 
- disse-lhe, ao mesmo tempo que lhe estendia um grande livro encadernado. 
- Queres dar uma vista de olhos? - perguntou.
Ele pegou na tese, pousou-a em cima da mesinha e no respondeu.
- Ento? - perguntou a rapariga.
- J sabes que  quarta-feira estou todo o dia na escola - disse Danilo.

108

Estava enterrado na poltrona da av, com a cabea apoiada no encosto, 
sobre um delicado pano de renda branca que lhe fazia de aurola. Liliana 
achou-o cmico e sorriu, sufocando a desiluso. Estava preparada para a 
sua ausncia porque, tal como a av, o namorado no lhe perdoava o 
dinamismo, a sua capacidade extraordinria de aprender e, sobretudo, o 
facto de ter concludo a universidade to depressa e com notas to altas.
- Depois vamos ao Alemagna, na piazza Duomo. A minha me reservou uma 
salinha s para ns. Podia ser uma oportunidade para conheceres a minha 
famlia que, finalmente, vai ver como  bonito o meu namorado - disse, 
com entusiasmo.
- Tambm l vai estar a costureirinha? - perguntou Danilo, enquanto 
acendia um cigarro.
Liliana estremeceu. O namorado referia-se a Giuseppe que, depois de 
acabar o liceu na rea das artes, tinha sido contratado como estilista 
pela fbrica de malhas onde trabalhava Ernestina. Desenhara uma nova 
linha de malhas para senhora, que se vendera muito bem, incrementando a 
facturao da empresa.
Liliana tinha contado a Danilo tudo sobre a sua famlia, sem esconder a 
homossexualidade de Giuseppe. Falou dele com delicadeza e afecto, 
descrevendo os longos anos de sofrimento escondido e, finalmente, a 
aceitao da sua diferena. Pensava que Danilo, pessoa culta e 
inteligente, tivesse percebido melhor do que os outros as dificuldades 
daquele irmo que ela amava tanto. Porm, ele acabava agora de o insultar 
inutilmente, sem motivo.
- Ests a ser ordinrio - observou, com amargura.
- Desculpa l se no empreguei palavras mais delicadas para te perguntar 
pelo teu irmozinho adorado - respondeu ele.
Levantou-se da poltrona e saiu da sala. Liliana estava sem pinta de 
sangue. Ouviu-o subir as escadas, ao mesmo tempo que dizia: - vou outra 
vez para a cama. Se te apetecer, j sabes onde me encontras.
Ela ficou petrificada. Acendeu um cigarro e fumou-o at ao fim. Depois 
enfiou o casaco comprido e o gorro de l, e pegou na carteira e na tese. 
Saiu para a rua, fechando atrs de si uma porta que nunca mais voltaria a 
abrir.

109

Liliana conseguiu apanhar o comboio do meio-dia, que estava j em 
movimento, porque um dos passageiros manteve a porta aberta e lhe 
estendeu a mo, agarrando-a pelo pulso com firmeza.
- Muito obrigada - disse ela, ofegante devido quela corrida desenfreada. 
- No ia conseguir sem a sua ajuda - acrescentou, enquanto recuperava o 
flego.
- Conseguiu tudo sozinha - respondeu o seu salvador. - Tem uma passada de 
corredor profissional - continuou, admirado.
Liliana observou-o. O homem tinha um rosto sereno, que inspirava 
confiana. Vestia um sobretudo cor de caramelo, de bom corte, e o 
colarinho da camisa era de uma brancura ofuscante. Liliana avanou com 
ele pelo corredor,  procura de um assento livre, e apercebeu-se de que 
tinha entrado numa carruagem de primeira classe.
- Obrigada, mais uma vez - disse, voltando-se para o desconhecido. E 
continuou: - vou ter de o deixar, porque tenho um bilhete de segunda 
classe.
- Est cansada - observou o homem. - Instale-se, que ningum a vai 
incomodar.
Sentaram-se num compartimento vazio, um em frente ao outro, e Liliana 
sentiu o perfume delicado de uma colnia masculina que o pai tambm 
usava. O homem tirou do bolso do sobretudo um jornal, abriu-o e, antes de 
comear a ler, perguntou-lhe: - Est tudo bem?

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- Hoje est a ser um dia pssimo para mim - respondeu com sinceridade.
O homem sorriu e ofereceu-lhe o jornal.
- Obrigada - recusou a rapariga. - Prefiro no acrescentar aos meus 
problemas os problemas dos outros.
Ele comeou a folhear o jornal. Passou o revisor e Liliana pagou a 
diferena para a primeira classe.
A certa altura o homem levantou os olhos da pgina que estava a ler e 
comentou:
- Tem razo, o mundo est realmente cheio de desgraas. Aqui vem a 
dramtica reportagem sobre os danos causados por um maremoto apocalptico 
no Mar do Norte. Seiscentas vtimas entre Bremen e Hamburgo, sem contar 
com as fbricas, as casas e os edifcios destrudos. Quantas crianas 
tero morrido nesta tragdia? - comentou.
Liliana no fez qualquer observao. Percebia que o homem tentava 
distraa-la dos seus pensamentos sombrios, mas ela estava oprimida pela 
amargura, pela desiluso, pela raiva daqueles anos perdidos com Danilo.
Quando chegaram a Milo e saram do comboio, o homem dirigiu-lhe um 
sorriso de encorajamento e disse:
- Desejo-lhe, de todo o corao, um bom domingo. - Afastou-se com um 
passo rpido e ela chegou  concluso que no queria regressar a casa. 
Por isso, dirigiu-se ao centro da cidade. Havia um pequeno restaurante 
vegetariano, na via Dante. Entrou, pediu um ovo estrelado, mas no 
conseguiu comer tudo. Voltou para a rua, varrida por um vento gelado, e 
continuou at  catedral. O corso Vittorio Emanuele estava repleto de 
grupos de rapazes e raparigas, mulheres elegantes cuidadosamente 
maquilhadas e famlias com crianas alegres ou chorosas. Um chins 
oferecia gravatas aos transeuntes, um vendedor ambulante anunciava 
brinquedos e um cego, sentado num banco, tocava acordeo e esperava que 
algum lhe comprasse um bilhete de lotaria.
Liliana olhou em volta e invejou todas aquelas pessoas que gozavam o 
domingo. Sentia em cima dos ombros um fardo que a esmagava. Concluiu que 
Danilo tinha pegado nela como quem colhe uma flor num caminho do monte e 
que, depois de a ter tido nas mos durante quatro longos anos, a deitara 
fora como quem se liberta de qualquer coisa que j no serve para nada. 
Naquele momento, pela

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primeira vez, percebeu que no corao de Danilo apenas havia lugar para a 
arrogncia e para uma auto-estima transbordante que o impedia de amar e 
de ser feliz.
- Ol, Liliana.
O cumprimento partira de um homem imponente, com o rosto gorducho como o 
de um menino. Vinha em direco a ela na companhia de mais duas pessoas. 
Era Bruno D'Azaro. Os outros dois eram Giovanni Santi e Marina Serpieri. 
Conhecia-os desde o tempo em que tinha comeado a frequentar a Casa da 
Cultura. Bruno era o lder dos jovens socialistas de Milo, Giovanni era 
um dirigente do partido e Marina a sua companheira.
- Onde deixaste o Danilo? - perguntou Bruno.
Andava perto dos quarenta anos e tinha casado com uma excelente rapariga 
da sua terra, a Siclia.
- Est em Varese - respondeu.
- Ento, hoje ests por minha conta - decidiu Bruno, enquanto lhe dava o 
brao. A mulher estava sempre em casa, com as crianas, enquanto ele 
coleccionava breves e apaixonados namoros, mas s com mulheres de 
formas opulentas. Liliana no era o seu tipo.
- Almomos na Galeria e vamos ao Zucca tomar caf - disse Marina.
Liliana deixou-se levar por aquele trio de amigos brilhantes, orgulhosos 
por serem figuras emergentes na cena poltica italiana daqueles anos, 
dominada por Fanfani, que recentemente formara o primeiro governo com o 
apoio externo dos socialistas.
Sentaram-se numa salinha, no andar de cima do caf, e trocaram 
comentrios jocosos numa conversa muito viva. Liliana seguia-os com 
alguma dificuldade e, de vez em quando, Bruno afagava-lhe uma mo, com um 
ar paternal.
A certa altura, Gianni e Marina despediram-se e foram embora. Ela ficou 
sozinha com Bruno.
- Ento, o que se passa contigo? - perguntou, olhando-a nos olhos.
Usava uns vistosos culos de mope de armaes negras e os seus olhos 
azuis, penetrantes e meigos, pareciam escavar-lhe a alma-
- A minha histria com o Danilo acabou - admitiu, contrariada. E 
precisou: - Um falhano doloroso.
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- O Danilo julga-se aparentado com Deus, mas no passa de um cretino. 
Ser possvel que uma rapariga inteligente como tu s tenha percebido 
isso agora? - E continuou: - Eu conheo-o bem.  uma pessoa sem espinha 
dorsal, que anda sempre  procura de algum que o ampare. Nunca sair da 
mediocridade e  fraco at nesse papel, porque tem muita presuno. 
Enquanto que tu, Liliana, nasceste vencedora.
- Os vencedores no sofrem derrotas - confessou Liliana, com amargura.
- Isso  o que tu pensas. Olha para o nosso mundo poltico. H uns poucos 
de homens extraordinrios que foram derrubados uma srie de vezes mas que 
voltaram sempre a levantar-se e regressaram  ribalta mais fortes do que 
antes. A convico das nossas prprias ideias e a honestidade moral 
vencem sempre. No te esqueas disso.
- Obrigada, Bruno - disse, ao mesmo tempo que se levantava da mesa.
Chegou ao corso Lodi e, enquanto subia as escadas de casa, desejou que a 
me a abraasse e lhe dissesse: Finalmente esta maldita histria acabou. 
J era altura de deixares de perder tempo com uma pessoa que no sabe 
apreciar-te.
E apercebeu-se de que Danilo j pertencia ao passado.

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Desde que acabou a histria com o Danilo, a tua filha est intratvel - 
lamentou-se Ernestina.
- Reage conforme pode  primeira desiluso da vida dela - disse Renato.
-  uma casmurra. Se me tivesse ouvido logo, agora no estava a sofrer 
tanto - observou a mulher.
- Ela seguiu os seus sentimentos, que eram muito mais fortes do que os 
teus conselhos.
O casal Corti tinha ido ao cinema Corvetto ver um filme interpretado por 
Sophia Loren, actriz de quem Ernestina gostava muito. Agora, enquanto 
regressavam a casa, devagar, ela esquecera j a descontraco daquela 
tarde dominical para se deixar novamente afogar nas inquietaes 
habituais, nas quais tentava envolver o marido. Mas era quase impossvel 
arranhar o optimismo de Renato-
Naquele perodo, com efeito, pela primeira vez ao fim de muitos anos, 
todas as foras sindicais tinham chegado a um acordo para atingir alguns 
objectivos importantes: o salrio, o emprego, a reduo do horrio de 
trabalho e o respeito pelas qualificaes profissionais.
Renato sentia-se feliz com aquela aliana e a ansiedade da mulher no 
conseguia estragar o seu bom humor. Por isso disse-lhe:
- Tu tambm j tiveste a idade dela, lembras-te?
- E foi desde a que perdi a minha paz, para me meter com um malandro 
como tu.

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- Ento devias estar satisfeita com a Liliana, que despachou aquele 
Danilo, acabou o curso com uma nota fantstica e arranjou um emprego - 
respondeu ele.
- Num escritrio de advogados que no me convence nem um bocadinho - 
lamentou-se a mulher.
Ernestina recordava as palavras do reitor que, aps a discusso da tese, 
lhe dissera:  pena que a sua filha seja uma mulher. Se fosse um homem, 
com a sua inteligncia e a sua preparao podia ter um futuro muito 
brilhante. Aquela declarao, pronunciada por um homem de cultura, 
irritara-a.
De qualquer modo, Liliana encheu-se de brios e arranjou um emprego 
remunerado, ao contrrio de muitos jovens licenciados, que entravam nos 
escritrios de advogados como estagirios sem ordenado.
- Ser que houve algum momento da tua vida em que te sentisses satisfeita 
com alguma coisa? Nunca nada est bem para ti!
Renato perdeu a pacincia e levantou a voz.
- Por favor, no vamos fazer uma cena no meio da rua - suplicou-lhe. E 
continuou: -  verdade, nunca estou satisfeita, mas no  por minha causa 
que as coisas no correm como eu gostaria. Olha para o Pucci: depois de 
ter o diploma de contabilista, o que  que ele vai fazer? Achas que vai 
arranjar trabalho, com este desemprego todo que por a anda?
- O Pucci  um vulco de ideias e, se no tiver trabalho, h-de saber 
invent-lo - sossegou-a.
- E a Rosellina? No tem a inteligncia da Liliana e anda sempre com a 
cabea no ar. S pensa nos vestidos, nos bailes e nos rapazes. Sabe de 
cor uma quantidade de canes estpidas e s quer saber do twist.
- E o que  isso? - perguntou Renato, curioso.
-  uma dana que est agora na moda. Havias de ver como se maneia, 
sempre parada no mesmo ladrilho do cho. Dana e canta,
desaustinada: Guarda come dondolo, con le gambe ad angolo. Tem  volta 
no sei quantos apaixonados, com quem passa horas ao telefone para se 
esquecer deles ao fim de alguns dias. Diz que vai tirar um curso de 
professora para ficarmos contentes, mas o que ela quer  ser cantora. 
Achas isto normal?
- J acabaste? - perguntou o marido.

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- Digamos que sim - respondeu Ernestina.
- Mas eu acho que no, porque ainda no me falaste do Giuseppe.
A mulher calou-se. Se os outros filhos a faziam irritar, Giuseppe fazia-a 
sofrer pela sua diferena, que lhe criava muitos problemas. Contudo, nos 
ltimos tempos parecia mais tranquilo. Ernestina tinha conseguido segur-
lo debaixo da sua asa protectora e trabalhavam juntos na fbrica de 
malhas, mas apercebia-se de que aquele emprego no era o ideal para ele. 
Giuseppe tinha inclinao para a pintura e, segundo ela, podia vir a 
tornar-se um grande cengrafo. A pergunta do marido, no entanto, no se 
referia ao trabalho.
Havia algum tempo, de facto, que o filho tinha deixado a casa dos pais, 
depois de ter explicado  me: - Tenho um companheiro com quem me sinto 
bem, apesar de ter o dobro da minha idade.  um conceituado decorador de 
interiores e mora numa casa lindssima, no corso Magenta. Estamos felizes 
juntos. Por isso vou viver com ele, mas sem fazer muito alarido.
Ernestina ajudou-o. Limitou-se a informar a famlia de que Giuseppe 
ficaria em casa de um colega durante a mudana para o corso di Porta 
Romana.
Renato sabia perfeitamente que a verdade no era aquela e agora pedia  
mulher mais explicaes. No tinha sido fcil, tambm para ele, aceitar a 
diferena daquele filho to reservado e to pacato. Tinha-o observado 
durante anos, enquanto crescia, e percebera quais eram os problemas de 
Giuseppe. Quando acabou o liceu, na rea das artes, o pai convidou-o para 
jantar fora. Pediu conselho a um dirigente do sindicato que lhe sugeriu 
um restaurante muito bom no centro de Milo.
Quando o matre os acompanhou  mesa, Giuseppe sussurrou:
- Pai, este jantar vai-te custar uma fortuna.
- H momentos na vida em que vale a pena gastar - respondeu Renato.
Pai e filho, porm, escolheram os pratos e os vinhos menos dispendiosos. 
Depois Renato pousou na mesa um embrulho atado com uma grande fita de 
seda.
-  para ti - disse.
Era um relgio de marca com caixa de ouro. Quando o ps, Giuseppe ficou 
com os olhos brilhantes de comoo.

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- Por que  que ests a fazer tudo isto, pai? - perguntou.
- Gostava muito que o meu pai o tivesse feito por mim - respondeu 
simplesmente.
NO restaurante, dividido em pequenas salas, com poucas mesas bem 
distanciadas umas das outras, os clientes dialogavam em voz baixa.
- E agora vamos falar verdade - disse Renato, depois de um empregado lhes 
ter servido dois gelados afogados em caf.
Giuseppe corou e, aps uma pausa silenciosa, sussurrou:
- Peo-te perdo por uma culpa de que no sou responsvel.
Renato sorriu-lhe.
- No h nada para perdoar. Tu s um rapaz maravilhoso. Segue o teu 
caminho, sem teres medo da tua diferena. No a vivas como um problema e 
no penses que o seja para mim, para a tua famlia, para todo o resto do 
mundo. Comporta-te honestamente, como fizeste at hoje, e, por favor, 
sorri mais vezes.
- Obrigado, pai. D-me tempo e hei-de conseguir. Mas agora s tenho 
vontade de chorar. Se no estivssemos neste restaurante, abraava-te - 
respondeu o filho, comovido.
Agora Renato pedia notcias dele  mulher, porque no o via h algum 
tempo.
- Parece que o Giuseppe est feliz com a companhia que arranjou. Alis, 
queria que o fssemos visitar mas, francamente, no tenho a certeza de 
querer fazer isso - disse Ernestina.
- O que  que no te convence? - perguntou Renato.
- Aquele desgraado trabalha todo o dia e  noite ainda frequenta os 
sales com o companheiro. Esta vida, quanto a mim, pode afast-lo dos 
seus objectivos. Ou seja, o Giuseppe tem qualidades Para fazer mais e 
melhor do que desenhar roupa - lamentou.
Renato parou, ps-se  frente dela e pousou-lhe as mos nos ombros, 
dizendo: - Olha bem para mim. Esses objectivos so os teus ou so os 
dele?
- So os nossos, meus e do Giuseppe.
- Mentira.
- So aqueles que eu tenho em mente - sussurrou Ernestina.
O marido sorriu e abraou-a.
- Temos uma rica famlia. Ser que ainda vai chegar o dia em que eu te 
vou ver satisfeita, finalmente?

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O escritrio do advogado Romolo Asetti ficava no terceiro andar de um 
edifcio do sculo XIX na via Leopardi. Liliana tinha sido admitida no 
Outono, quando a famlia Corti estava j instalada no apartamento das 
senhoras Pergolesi. Todos os meses escrevia uma carta a Angelina, 
contando-lhe as novidades da sua vida, e anexava a quantia acordada. A 
sua ex-professora de Ingls respondia-lhe na volta do correio, 
agradecendo e anunciando o envio de qualquer pequena oferta: discos, 
livros, roupas extravagantes e bolsinhas que a velha senhora continuava a 
confeccionar. Sentia-se feliz pelo facto de os Corti apreciarem as 
comodidades da nova habitao, para onde tinham levado quase 
exclusivamente os objectos pessoais, porque Angelina deixara a casa 
completamente mobilada, limitando-se a enviar para a Amrica algumas 
telas importantes de pintores da Lombardia do sculo XIX e as porcelanas 
francesas que eram um patrimnio da famlia.
Ernestina no tinha ousado falar com Fermo e com os outros vizinhos do 
corso Lodi sobre a mudana para o apartamento da Porta Romana. Rosellina 
tratou desse assunto, andando de casa em casa a enaltecer a nova morada.
Poucos dias antes da mudana, Fermo, o enfermeiro, apresentou-se uma 
noite em casa dos Corti e, a sorrir, disse: - Quando algum ganha alguma 
coisa, oferece de beber a toda a gente.
Ernestina, o marido e os quatro filhos, sentados  mesa, trocaram entre 
eles um olhar interrogativo. Toda a gente sabia que Renato

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jogava semanalmente no totobola, aconselhando-se com Rosellina, que era 
apaixonada por futebol, na esperana de que a sorte o favorecesse com um 
treze, mas nunca tinha ganho nada.
permo continuava a sorrir,  espera que os amigos falassem, mas como 
permaneciam calados prosseguiu: - A Rosellina contou-nos que adquiriram 
um grande apartamento no corso di Porta Romana. Descreveu os lustres da 
Bomia, os espelhos de molduras douradas, as tapearias de seda e o cho 
de mrmore de Carrara coberto com tapetes persas - explicou. E 
acrescentou: - Diz que foi um golpe de sorte.
A culpada anua, feliz e inchada de orgulho.
Ernestina apontou um dedo  filha e sibilou: - Tu, sempre tu! Mas ser 
que no consegues ficar um bocadinho mais sria e responsvel?
Depois a expresso ameaadora transformou-se numa gargalhada que 
contagiou toda a gente, enquanto Rosellina protestava:
- Eu s dourei a plula, se no qual era o gozo de falar daquilo?
Assim se desfez a ideia da vitria no jogo e Ernestina explicou a sua 
reticncia em contar a novidade aos vizinhos.
- Tu e os outros vo ter de ir morar para a periferia, enquanto ns 
tivemos uma oportunidade to boa e ao mesmo preo da cooperativa. No 
gostaria que ningum pensasse que isto subiu  cabea da famlia Corti. 
Tu conheces-nos bem e sabes que, se excluirmos esta parva da Rosellina, 
no gostamos de nos armar, at porque no temos motivos para isso.
- Mas  uma novidade que deve ser festejada. Senta-te aqui connosco, 
Fermo. Vamos abrir uma garrafa de vinho - props Renato.
- Espera. vou buscar a minha guitarra e assim ainda cantamos um bocadinho 
- decidiu o enfermeiro, que tinha o instrumento Pousado no patamar, do 
lado de fora da porta.
Juntaram-se outros vizinhos e foi uma noite de alegria. Quando foram 
viver para o apartamento das senhoras Pergolesi, Liliana teve um quarto 
s para ela: aquele que pertencera a Angelina. com a mudana e mais 
algumas coisas, os Corti esgotaram todas as poupanas.
Por isso Liliana resignou-se a ter de trabalhar para o advogado Asetti, 
aceitando funes que no requeriam uma licenciatura, s

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para ter um salrio, ainda que mnimo. Nem sequer gostava do patro, que 
a tratava por cara colega e, em vez de a olhar de frente, fixava os 
olhos nos seus seios e no perdia uma ocasio para lhe tocar num ombro ou 
num brao. Era um escritrio sombrio, decorado com mveis escuros, 
excessivos, enormes, em estilo renascena. Nas paredes havia quadros que 
o advogado definia como tendo um tema mitolgico, mas que de facto eram 
telas sem qualidade, que representavam bacanais com os atributos sexuais 
de damas e cavalheiros bem evidenciados. Asetti tinha colocado no seu 
escritrio um busto em bronze de Mussolini e uma srie de fotografias com 
autgrafos do Duce e dos seus mais fiis seguidores.
Liliana achava o patro asqueroso, ordinrio e fascista, mas tinha 
evitado cuidadosamente descrever esses pormenores  famlia, apesar de a 
me ter j intudo o mal-estar da rapariga.
O advogado tinha-lhe atribudo uma tarefa aviltante: andar de casa em 
casa, de escritrio em escritrio, a recuperar crditos para vrias 
sociedades financeiras. Mesmo assim, Liliana considerava-se com sorte por 
ter um trabalho e um ordenado, depois de vrias entrevistas para tentar 
entrar ao servio de escritrios de advogados importantes. Tinha sido uma 
experincia humilhante. A sua licenciatura, com uma nota excelente, 
parecia no ter nenhum interesse, assim como o facto de saber 
perfeitamente duas lnguas: ingls e francs. As entrevistas tinham-se 
desenrolado segundo um esquema bem preciso. A primeira pergunta era: - 
Diga-me, doutora, est inscrita em algum partido?
Tinha estado. Inscrevera-se no Partido Socialista quatro anos antes, no 
por convico, mas para agradar a Danilo. Depois de se separarem, no 
voltou a renovar a inscrio e conservava o carto, juntamente com 
algumas fotografias, como recordao de um tempo em que achava que era 
feliz.
- No - respondia, dizendo a verdade.
- Tem alguma simpatia poltica? - insistiam os seus examinadores.
- Como toda a gente - replicava, sem especificar mais nada.
- No seu caso, qual seria essa simpatia?
Ela no conseguia mentir e confessava candidamente: - Simpatizo com os 
comunistas.

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Os entrevistadores ostentavam um rosto impassvel e prosseguiam o 
interrogatrio.
- Tem um namorado?
Ela respondia com um lacnico: - J no tenho. - Mas eles insistiam.
- Bonita como , vai voltar a ter outro rapidamente.
- Espero bem - dizia.
- Portanto, deseja casar-se e ter filhos.
- com certeza - respondia.
- Muito bem. A entrevista acabou. Depois dizemos-lhe alguma coisa.
A histria repetiu-se, sempre idntica, por vrias vezes.  noite, quando 
a me regressava do trabalho, encontrava a casa arrumada, o jantar feito, 
a roupa passada e as camas abertas. Me e filha olhavam-se nos olhos e 
Ernestina perguntava: - Como  que correu?
- Depois dizem-me alguma coisa - respondia Liliana, com cara de enterro.
Um dia encontrou Bruno D'Azaro na Galeria. Ele convidou-a para o 
aperitivo do costume no caf Zucca e Liliana contou-lhe os seus 
insucessos na procura de emprego.
- Querem saber tudo dos candidatos. Falta pouco para me perguntarem a 
marca do sabonete que uso para tomar banho. Eu respondo com sinceridade e 
eles liquidam-me - desabafou.
Bruno tinha-se tornado subsecretrio do partido. Era muito influente e 
podia arranjar-lhe um emprego adequado com um simples telefonema.
- Deixa-me ajudar-te - disse-lhe.
- No quero recomendaes. Desculpa, mas  mais forte do que eu.
Bruno sorriu, pegou-lhe na mo e tocou-a com os lbios.
- Se eu no te conhecesse, pensava que eras uma falsa. Deixas-me pelo 
menos dar-te um conselho: quando tiveres uma entrevista
de trabalho, mente despudoradamente. Tu no sabes o que  a poltica, no 
tens um namorado e no te interessa ter nenhum. Certamente nunca te vais 
casar. Mas se acontecesse, nada de filhos, porque pensaste que no os 
podes ter e, em qualquer caso, tambm no os querias.  um bom conselho 
que vais pagar com a renovao da tua Inscrio no partido.

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- Obrigada pela ajuda. J percebi a ideia: tenho de contar uma data de 
mentiras. Mas tu no precisas da minha inscrio para nada. Vais de vento 
em popa e no te faz falta mais uma pessoa.
- Quando se trata de gente jovem, como tu,  de grande utilidade. Em 
qualquer caso, j sabes que a minha porta est sempre aberta - garantiu-
lhe.
Quando se despediram, ele apertou a mo de Liliana entre as suas e olhou-
a nos olhos com carinho. De repente, aproximou o rosto do de Liliana e 
beijou-a ternamente nos lbios. Foi agradvel aquele beijo quase 
inexistente.
- O que  que ests a fazer, Bruno? - perguntou Liliana, muito 
embaraada. Estavam na piazza della Scala e os transeuntes olhavam para 
eles com curiosidade, at porque Bruno era uma figura conhecida.
- Estou a tentar, j me conheces - respondeu ele.
- Nunca fui o teu gnero - disse Liliana.
- Isso  o que tu pensas.
- Poupa-me, tu tambm me conheces.
- s uma pedra de gelo, j sei. Mas uma vez derreteste - objectou, 
referindo-se a Danilo. Entretanto afagava-lhe o rosto com uma delicadeza 
que a fez vacilar.
- O papel de amante no se adapta muito bem a mim - reagiu, afastando-se 
das suas carcias.
- s uma milanesa casmurra, j sei. Nunca desperdices a tua inteligncia. 
Eu sinto na pele quando uma pessoa est num degrau acima.
Naquele mesmo dia, Liliana leu um anncio no jornal: Escritrio de 
advogados conceituado procura jovem licenciada para uma estimulante 
actividade profissional. Oferece-se ordenado base mais incentivos.
Telefonou, apresentou-se ao advogado Asetti, mentiu como Bruno lhe tinha 
aconselhado e foi admitida imediatamente. S era pena que aquele 
escritrio fosse de baixo nvel. No entanto, estava determinada a segurar 
com fora aquele trabalho enquanto no arranjasse um emprego melhor.

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VIA LEOPARDI

Liliana desceu do elctrico no corso Garibaldi e procurou o nmero 
indicado pelo advogado Asetti. Amaldioou aquele Outubro chuvoso que 
desde h muitos dias a encharcava enquanto atravessava a cidade, de manh 
 noite, na tentativa muitas vezes infrutfera de recuperar dinheiro dos 
credores de algumas empresas financeiras. O impermevel Pirelli ainda 
desempenhava bem as suas funes, assim como os sapatos de camura pretos 
com sola de borracha, que lhe mantinham os ps enxutos. As pernas, porm, 
ficavam cobertas de gua suja.
Encontrou o prdio, muito parecido com aquele onde tinha vivido durante 
anos, enfiou-se no trio e bateu ao vidro do porteiro. Apareceu  porta 
uma mulher que lhe perguntou, num tom POUCO simptico: - O que quer?
- Procuro o signor Gino Comolli - disse Liliana.
- Ao fundo do ptio, ltima porta  esquerda. Se a oficina estiver 
fechada, escadas  direita, segundo andar.
Pela porta entreaberta saa um delicioso aroma de sopa de legumes. 
Liliana no almoara, contentando-se com uma ma que trazia na carteira, 
porque a pausa de almoo era muito curta e no tinha tempo de ir a casa. 
Sentiu a fome apertar. Engoliu em seco, deu graas e atravessou o ptio 
deserto. Numa porta pintada de cinzento, uma velha tabuleta esmaltada 
dizia MRIO COMOLLI E FiLHO - MARCENEIROS. Tocou. Ningum atendeu. Rodou 
a maaneta e a porta abriu-se, deixando ver uma oficina iluminada por

125

duas grandes janelas com grades de ferro. O aposento cheirava a madeira, 
gesso, cola, solventes e outras essncias. Frascos de verniz, pincis e 
utenslios de marcenaria estavam alinhados em cima de um balco. Havia 
cadeiras antigas, um mvel antigo para restaurar e um enorme lustre 
dourado. Num canto, sobre o tampo de uma escrivaninha, estavam pousados 
um candeeiro e um telefone. Parecia um stio abandonado.
O guarda-chuva escorria gua para o cho de cimento. Saiu, voltou a 
fechar a porta e, abrigando-se por baixo das varandas, dirigiu-se ao vo 
da escada, subiu dois andares e bateu  porta. Do interior chegaram-lhe 
vozes de crianas. Pouco depois, uma pequenita de ar muito vivo apareceu 
 porta e olhou para ela com curiosidade.
-  aqui que mora o signor Comolli? - perguntou Liliana.
A menina virou-se para dentro de casa e anunciou: - Pai, est aqui uma 
senhora  tua procura. - Depois olhou de novo para Liliana e acrescentou: 
- O pai est a dar a papa ao Giuseppe.
- Eu tambm tenho um irmo que se chama Giuseppe - disse Liliana.
- Eu sou a Maddalena - apresentou-se a menina, enquanto abria a porta 
para a deixar passar.
Liliana encostou o guarda-chuva, limpou os sapatos no tapete e entrou 
numa grande cozinha.
Um homem magro, de rosto encovado, estava sentado em frente a uma cadeira 
de beb. Muito concentrado dava de comer a uma criana. Duas meninas, de 
idades entre os cinco e os sete anos, estavam sentadas  mesa a fazer 
desenhos com lpis de cor.
- Bom-dia - comeou Liliana. - Venho a mando do escritrio do advogado 
Asetti. Tentmos telefonar-lhe, mas ningum atendia. Eu estou aqui por 
causa daquele financiamento que o senhor tinha pedido h dois anos  
Progefin - explicou, evitando acrescentar: Ainda no liquidado. De 
qualquer maneira, o signor Comolli sabia isso perfeitamente.
- Faa favor de entrar. Assim que o meu Peppino tiver esvaziado a tigela, 
eu dou-lhe ateno - disse o homem. E acrescentou, voltando-se para o 
menino: -  boa, a papa, no ?
O menino riu-se, feliz.

126

Quando acabou de dar de comer ao filho, o homem tirou-o da cadeirinha, 
pegou nele ao colo e sentou-se  mesa com as meninas.
- Esta  a Maddalena, a mais velha, depois  a Cristina e a Francesca e, 
finalmente, chegou o rapaz, destinado a aprender a profisso que me 
ensinou o meu pai. Quando ele chegou, partiu a me, com uma doena que 
no perdoa. O pequenito s tinha dois meses. O que pode fazer um homem 
sozinho com quatro filhos para criar? Vieram c as senhoras da caridade. 
 uma coisa que lhe recomendo. Queriam levar-mos embora, os meus raios de 
sol, para os meterem num orfanato. Mandei-as embora da minha casa. Depois 
vieram as assistentes sociais da Cmara. O mesmo discurso. A minha Rosa 
at havia de dar voltas no tmulo se soubesse que lhe fechavam os meninos 
num stio medonho como aquele. Mas entretanto havia os pratos para lavar, 
as papas para preparar, as noites em que o pequenino e mesmo a Francesca 
acordavam e era prgciso adormec-los, e depois as febres, os dentes e 
tudo o resto. Comecei a descuidar-me com a oficina. As crianas eram mais 
importantes - contou, de um flego.
- No tem parentes que o possam ajudar? - perguntou Liliana, enquanto 
pensava na sua famlia e se questionava sobre o que teria sido deles se 
Ernestina tivesse morrido quando Rosellina andava ainda de fraldas.
- Ainda tenho a minha me, que est num lar h oito anos, desde que foi 
atacada por uma paralisia. A minha mulher era rf e cresceu num 
orfanato. Por isso recomendava-me sempre: Se me acontecer alguma coisa, 
nunca mandes os nossos filhos para esses stios. Antes quero que arranjes 
outra mulher. Era a brincar, at porque nem ela nem eu podamos imaginar 
que nos ia acontecer aquela desgraa. E depois, como a signorina acaba de 
me dizer, as desgraas nunca vm sozinhas. A minha Rosa tinha morrido h 
dois meses quando os ladres me esvaziaram a oficina. No eram coisas 
minhas, percebe? Nem sequer tinha um seguro. Mas os Comolli so pessoas 
honestas. Paguei at ao ltimo cntimo aos proprietrios dos mveis que 
tinha para restaurar. E fiquei sem uma lira. Por isso pedi um emprstimo 
a essa Progefin. Pensava eu: em dois anos saldo tudo, porque a filha mais 
velha vai para a escola, as duas mais pequenas para a creche, a vizinha 
toma conta do Peppino e eu comeo a trabalhar. No entanto, enquanto que 
antes da minha

127

mulher morrer eu tive de mandar embora clientes, porque tinha de mais, de 
repente ningum mais me deu trabalho. As pessoas tm medo das desgraas 
dos outros. O que posso eu fazer? A signorina veio pedir-me dinheiro, mas 
eu no tenho nem uma lira - concluiu.
Aquele homem tinha realmente um ar de pessoa honesta e de confiana. 
Liliana recordou-se de quando tinha tomado conscincia das injustias 
sociais e decidira defender os fracos da prepotncia dos ricos e dos 
poderosos. A Progefin prosperava atravs da rapina legalizada, o advogado 
Asetti era um malfeitor que levava para casa as migalhas daquela rapina e 
ela no era melhor, a partir do momento em que trabalhava para ele. Antes 
de chegar a casa de Gino Comolli, tinha feito mais trs visitas daquele 
gnero, ainda que menos dramticas. Era humilhante ter de ganhar um 
salrio indo buscar dinheiro a quem o no tinha.
Olhou em volta. A casa estava arrumada e limpa, como limpos e bem 
tratados estavam as trs meninas e o pequenito que tinha adormecido ao 
colo do pai.
- No pode sequer antecipar uma pequena soma, s para ganhar tempo? - 
perguntou Liliana, num sussurro.
- S tenho o dinheiro suficiente para pagar o aluguer e as outras 
despesas. Conservo religiosamente o ouro da minha mulher e no o hei-de 
vender, porque  das meninas - afirmou. E prosseguiu: - Se eu conseguisse 
arranjar algum trabalho... Olhe, vou-lhe mostrar uma coisa interessante - 
disse, enquanto pousava delicadamente o menino na alcofa, ao lado do 
fogo.
Abriu uma porta do armrio e pegou numa pasta pesada, colocou-a em cima 
da mesa e tirou de l uma srie de fotografias que reproduziam 
extraordinrios mveis antigos antes e depois do restauro.
- Est a ver? Fotografava todos os meus trabalhos, no s para os 
clientes, mas tambm para mim, porque amo a minha profisso.
- No me arranja algumas fotografias? - perguntou Liliana, hesitante.
- Para qu? - perguntou Gino Comolli.
- Pode ficar sossegado que eu volto a trazer-lhas - disse Liliana, sem 
responder.
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Acabava de ter uma ideia. Nunca pediria a ningum um favor para si, mas 
estava determinada a ajudar aquela famlia em dificuldades.
O homem meteu-lhe na mo uma dzia de fotografias que ela guardou na 
carteira.
- No sei porqu, mas confio em si - disse o signor Comolli
- Garante-me que consegue retomar o seu trabalho, apesar das crianas e 
da casa?
- com certeza - afirmou ele.
- Ento atenda o telefone quando tocar - disse Liliana.
Continuava a chover e tinha-se levantado vento. Liliana regressou ao 
escritrio completamente encharcada.
- Ainda bem que chegou, doutora - disse a jovem empregada do escritrio.
- O que foi que aconteceu?
- Eu vou-me embora daqui. J no aguento aquele porco. Hoje tentou pr-me 
as mos por duas vezes: enquanto estava no escadote  procura do processo 
Boschi e quando se aproximou de mim para ver o que eu estava a escrever  
mquina - desabafou.
- Tens outro emprego? - perguntou Liliana.
- Ai se tivesse! J me tinha posto a milhas.
- vou dar-te um conselho. Se ele voltar a incomodar-te, d-lhe uma 
bofetada com fora. Se depois te despedir, vamos ao Tribunal de Trabalho 
e arranjamos-lhe um sarilho. Isto  uma promessa.
- Pois, a menina  advogada - considerou a rapariga, com uma sensao de 
alvio.
- Acabei de passar no exame para estagiria, mas conheo o cdigo. E 
agora, onde est o cavalheiro?
- Est no escritrio, com outro advogado.
Liliana foi para o seu gabinete. Pegou no telefone e ligou a Giuseppe.
- Preciso da tua ajuda - comeou.
- Ento espero por ti para jantar. J sabes a morada - rematou Giuseppe.

129

Liliana parou em frente a um porto de madeira antiga, bem encerado, e 
leu a tabuleta: PORTARIA. Tocou  campainha e esperou que algum abrisse. 
Pouco depois apareceu um homem que vestia uma farda cinzenta.
- Quem procura? - perguntou com gentileza.
- O arquitecto Fioretti - respondeu Liliana.
- Est  sua espera. Fique  vontade - disse ele, enquanto abria a porta 
para a deixar passar.
Liliana deu por si num trio com uma passadeira de veludo verde, o tecto 
decorado a estuque e, nas paredes, apliques de cristal lapidado que 
difundiam uma luz suave. O porteiro acompanhou-a ao elevador e abriu a 
porta de ferro forjado. Liliana entrou na cabina, que continha um pequeno 
div de veludo verde.
- ltimo andar - anunciou o porteiro, enquanto voltava a fechar a porta.
O irmo esperava-a  porta de casa e recebeu-a com um abrao. Entraram 
num vestbulo onde se respirava um perfume de flores muito frescas.
- Que luxo - sussurrou Liliana.
- Que desastre - respondeu Giuseppe, observando-a da cabea aos ps.
- Ando na rua desde manh,  chuva. Um dia tremendo - explicou ela, ao 
mesmo tempo que lhe entregava o guarda-chuva.

130

O vestbulo era imenso e tinha, ao centro, uma bonita mesa Liberty de 
madeira clara sobre a qual estava pousada uma jarra de cristal com 
campainhas, lilases e lrios imaculados.
- Parece o cenrio de um filme - observou Liliana, admirada. E 
acrescentou: - E tu s bonito como um actor de cinema.
- Pois tu a mim fazes-me lembrar uma pobre rf - exclamou Giuseppe, 
divertido, observando os cabelos de Liliana, achatados pela humidade, e 
as pernas enlameadas. - Anda comigo, vou tentar pr-te apresentvel. 
Quero que o Filippo veja como  bonita a minha irm mais velha. - Deu-lhe 
o brao e conduziu-a ao longo de um corredor, coberto por uma passadeira 
cor de nata, at uma porta que abriu.
- Esta  a minha casa de banho - anunciou.
- Parece uma praa de armas - observou Liliana, e lembrou-se do 
apartamento luxuoso, em Varese, onde tinha passado a sua primeira noite 
com Danilo. Tinha ento dezanove anos e estava convencida de que aquele 
namorado era o homem da sua vida.
- Tira as meias e os sapatos, enquanto me explicas qual  o tipo de ajuda 
de que precisas - disse Giuseppe, ao mesmo tempo que a ajudava a despir o 
impermevel.
-  uma longa histria - comeou ela.
- Ento conversamos depois. Enquanto mando limpar estes sapatos, lava as 
pernas e a cara. Deixa l ver. Sim, o vestido passa, e arranjo-te o 
cabelo com o secador. Escolhe o perfume que preferires - concluiu, 
indicando-lhe uma prateleira onde estavam alinhadas uma infinidade de 
essncias douradas. Depois saiu da casa de banho.
Liliana lavou-se superficialmente, apreciando o calor da gua e a macieza 
das esponjas imaculadas. Depois observou os frasquinhos e escolheu um 
perfume de muguet. Chamava-se Lily of tbe Moor.
Giuseppe voltou pouco depois. Trazia-lhe um par de meias de nylon de um 
bonito bege dourado e, enquanto lhe entregava os sapatos perfeitamente 
limpos, observou: - No esto muito bem para um jantar, mas o Filippo vai 
fechar os olhos. Agora vou-te pr bonita. Escolheste um perfume muito 
bom. No te esqueas de que uma mulher de classe usa sempre o mesmo 
perfume.

131

- Quem foi que limpou os meus sapatos? - perguntou, enquanto ele lhe 
arranjava o cabelo com a escova e o secador.
- Foi a empregada. Chega de manh e vai-se embora depois de ter feito o 
jantar. Hoje vamos comer risotto de marisco, robalo grelhado com legumes 
e uma tarte de noz.
- Parece um menu de hotel de luxo.
- Mas isto  um grande hotel: gente que chega e gente que sai. Ao jantar 
vai estar tambm a Mariuccia Cuneo.
- Quem ?
-  uma jornalista que s escreve sobre fofocas e boas maneiras. J tem 
uns anitos e o Filippo considera-a uma segunda me.
- Sabes que nunca te tinha visto de to bom humor? - observou, 
satisfeita.
Continuaram a conversar at que Giuseppe achou que a irm estava pronta 
para ser apresentada ao amigo. Saram ento da casa de banho e foram para 
a sala de estar. A jornalista Mariuccia Cuneo fez a sua entrada, agarrada 
ao brao de um quarento fascinante. Era to alto como Giuseppe, muito 
bronzeado, trazia umas calas de flanela cinzenta, uma camisa azul-clara 
e um casaco de malha azul-escuro. Era, pois, aquele o companheiro do 
irmo. Por um instante, Liliana imaginou-os sentados na beira da cama, a 
beijarem-se. Era essa a cena com que se deparou anos antes, quando 
Giuseppe era praticamente um adolescente, no quarto dos pais. Corou, 
enquanto o irmo fazia as apresentaes.
- A minha irm mais velha, a Liliana - anunciou.
O arquitecto Filippo Fioretti olhou para ela, com um ar satisfeito, 
enquanto a jornalista, demasiado maquilhada, lhe sorriu, dizendo: -  
realmente uma rapariga muito graciosa.
A sala de estar estava separada da de jantar por uma parede de vidro, ao 
longo da qual se alinhavam viosas plantas de interior. Ao fundo, a 
aparelhagem estereofnica tocava a Simple Simphony de Britten, que 
Liliana tinha ouvido num concerto na companhia de Angelina Pergolesi. 
Associou aquela doce composio musical  vida do irmo naquela casa 
elegante, com um companheiro refinado que representava para ele um guia 
fivel e seguro. Percebeu tambm a renitncia dos pais, que tinham 
declinado os sucessivos convites do filho. Naquele ambiente requintado 
iriam sentir-se pouco  vontade.

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No domingo anterior, quando Giuseppe tinha ido almoar a casa dos pais, 
Renato fora muito explcito: - Se tu e o teu amigo quiserem vir a nossa 
casa, a porta est sempre aberta e ficamos muito contentes por vos 
receber. Mas no me peas para entrar num mundo que no  o meu. Cada 
qual deve saber estar no seu lugar.
- Qual  o teu lugar? - perguntou o filho.
- Eu trabalho com o ferro e tu com a seda. Fiz-me entender?
- Tu trabalhas com a cabea e com a fora das tuas ideias, que so tambm 
as minhas, pai - respondeu Giuseppe, agastado.
Renato deu-lhe uma pancadinha afectuosa no brao.
- Percebeste perfeitamente que o que eu estou a dizer  verdade. Agora, 
naquela atmosfera confortvel, sentada quela mesa cheia de rendas e de 
pratas, Liliana sentia-se pouco  vontade.
- Ento, Liliana, ainda no me disseste sobre o que querias conversar 
comigo - disse o irmo, enquanto lhe estendia o prato do doce.
-  um assunto de trabalho. No sei se posso - declarou, hesitante.
O arquitecto Fioretti dirigiu-lhe um sorriso de encorajamento:
- Fora, queremos ouvir.
Ela contou a histria de Gino Comolli e concluiu: - Precisa de arranjar 
clientes que lhe dem trabalho e eu pensei...
Filippo no a deixou acabar.
- Pensaste bem. Tenho muitos mveis de finais do sculo XVIII que preciso 
de mandar restaurar. Posso entregar-lhe um deles, para ver como trabalha 
- props.
Liliana abriu a carteira e mostrou as fotografias que Gino Comolli lhe 
tinha dado.
A jornalista pegou no seu pince-nez e examinou as fotografias com 
gritinhos de admirao. Depois voltou-se para Filippo: Olha-me para esta 
pea, querido. Ests a ver o estado em que estava? Olha como ele a 
restaurou, devolvendo-lhe todo o seu esplendor. E o que dizer deste Lus 
XIV! Absolutamente fantstico. Oh, quero escrever j um artigo sobre este 
homem. Filha, tens de me dar a direco dele, porque vou ter de o 
entrevistar. Vai ser uma descoberta para as minhas leitoras. - Estava 
toda entusiasmada e contagiou tambm Filippo.

133
- Eu tambm o quero conhecer quando lhe entregar o trabalho - declarou.
Giuseppe olhou para Liliana e disse: - Est feito, maninha!
- No completamente, porque ele precisa de um adiantamento. Sem isso, 
fica sem a oficina.
- Um adiantamento? Mas isso no se faz, habitualmente observou Filippo.
Liliana no se deixou intimidar e prosseguiu: - Tambm precisa de 
dinheiro para fazer um seguro contra roubo. - Estava agora certa de que 
ia obter aquilo que pretendia, porque Filippo queria ajudar a irm do 
companheiro e ela apercebera-se perfeitamente disso.
- Mas  claro, coitado do homem! - interveio Mariuccia, que tinha 
imediatamente assumido o papel de mecenas.
- De acordo - declarou Filippo, enquanto segurava uma mo da jornalista e 
a beijava.
- E agora, ests satisfeita? - perguntou o irmo. Liliana anuiu, feliz.
Ao fim do jantar, Giuseppe foi lev-la a casa de carro.
- Sobes? - perguntou Liliana, quando pararam em frente ao porto no corso 
di Porta Romana.
-  tarde e ainda tenho algum trabalho atrasado. D saudades a todos e, 
se te apetecer, diz bem do Filippo.
- Podes ter a certeza - sossegou-o.
Enquanto abria o porto, Giuseppe saiu do carro e foi ter com ela.
- Esqueceste-te disto - disse-lhe, ao mesmo tempo que lhe metia na mo o 
frasco de perfume que Liliana deixara no assento.
Ela deu-lhe um beijo na face.
- Obrigada por me teres ajudado - sussurrou-lhe.
- Fizeste tudo sozinha. Defendeste muito bem a tua causa afirmou 
Giuseppe.
- Achas que posso vir a ser uma boa advogada? - perguntou-lhe.
- Ou uma boa sindicalista! - exclamou o irmo, abraando-a.
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Liliana bateu  porta do escritrio do advogado Asetti e, no tendo 
obtido resposta, rodou a maaneta e entrou. O homem estava sentado  
secretria, concentrado na leitura da sua publicao preferida: uma 
revista pornogrfica. Liliana tossiu ligeiramente e o homem ergueu para 
ela um olhar ausente.
- J redigi a petio para o caso Ferrari-Lovati. Tem de a assinar.
Toda a gente no escritrio sabia que o patro coleccionava revistas 
pornogrficas. O advogado no se apressou a fechar a revista, como fazia 
habitualmente, e Liliana, com um gesto resoluto, deixou cair as folhas do 
processo em cima da secretria.
- A sua assinatura, se faz favor - pediu.
Estava enojada com a tacanhez daquele homem, que era o smbolo da 
vulgaridade.
Num instante, o advogado levantou-se e ps-se  frente dela, mais 
prximo, enquanto lhe fixava lascivamente os seios. Liliana reagiu com a 
mesma prontido, recuando um passo. Agarrou na faca de abrir a 
correspondncia e apontou-a contra o homem.
- Se se aproxima, espeto-lha - sibilou.
Ele ergueu os braos em sinal de rendio. Depois sorriu. Realmente, 
consigo no se pode mesmo brincar - disse.
- No tenho sentido de humor - respondeu ela. Tinha a voz firme, mas 
estava assustada, porque sabia que se encontrava sozinha no escritrio. A 
secretria sara para fazer umas compras.
O homem assinou as folhas e estendeu-lhas, dizendo:
-  uma tonta, por se incomodar com to pouco.
135
Liliana no respondeu. Saiu e fechou-se  chave no seu gabinete. Pousou o 
processo na secretria e tentou controlar a repulsa e as lgrimas. 
Aguentava aquele escritrio havia j um ano e no iria embora enquanto 
no arranjasse outro emprego. Precisava daquele ordenado e sabia que era 
difcil para os jovens licenciados arranjar trabalho.
Tocou o telefone e, uma vez que a secretria ainda no tinha chegado, foi 
ela quem atendeu.
- Fala do escritrio do contabilista - disse uma voz de mulher. - Estou a 
ligar por causa da declarao de rendimentos do Dr. Asetti. Falta uma 
srie de facturas - explicou.
- vou deixar recado  secretria do Dr. Asetti para lhe ligar - rematou 
Liliana.
Ctia, a nova empregada, chegou pouco depois e Liliana abriu a porta.
- Por que foi que se fechou  chave, doutora? - perguntou a rapariga.
- Adivinha - respondeu, laconicamente.
- At consigo! Mas ele  mesmo estpido - disse a rapariga.
- Deixa l - disse Liliana. E continuou: - Ligaram do contabilista porque 
faltam facturas.
- Oh, valha-me Deus! Tenho um monte de correspondncia para despachar - 
respondeu desesperada.
- Ento d-mas, eu vou l entreg-las. Preciso de sair e de apanhar um 
bocado de ar puro - decidiu Liliana.
- Se o doutor perguntar por si, o que  que lhe digo? - perguntou Ctia.
- No vai perguntar, est sossegada - disse, furibunda.
O escritrio do contabilista ficava na via San Vittore e Liliana decidiu 
dar uma volta maior, passando pela piazzale Cadorna. O sol de Junho 
iluminava as fachadas dos edifcios oitocentistas. Entrou num caf da via 
Carducci e pediu um cappuccino com um brioche. Apreciou a espuma 
evanescente do leite misturado com o caf e deleitou-se com a macieza da 
massa, que sabia a baunilha, tentando esquecer o comportamento do patro. 
Alguns clientes saboreavam o lanche enquanto olhavam as imagens da Cidade 
do Vaticano transmitidas pela televiso, que noticiava a agonia de Joo 
XXIII.
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Liliana saiu do estabelecimento e comeou a andar, detendo-se de vez em 
quando para ver as montras das lojas. Chegou  via San
Vittore e parou em frente do edifcio onde ficava o escritrio do 
contabilista. Uma tabuleta de lato, no trio, indicava o andar do 
escritrio Brioschi. Subiu e tocou  campainha.
- Venho do escritrio Asetti - disse  rapariga que lhe abriu a porta.
- Oh, as facturas - disse a rapariga a sorrir. - Faa o favor de entrar. 
O Dr. Brioschi est ao telefone.  s um minuto, ele j vem ter consigo - 
explicou, deixando-a sozinha.
Liliana olhou em volta. Estava num vestbulo tpico de muitos 
escritrios: paredes claras, cabides, reprodues de Milo antigo nas 
paredes, pequenas poltronas e umas mesinhas com revistas e jornais.
Sentou-se, pegou no Corriere della Sera e comeou a folhe-lo. Ouviu uma 
porta que se abria e um rudo de passos que se aproximavam. Levantou os 
olhos e viu um homem de rosto sereno que vinha ao encontro dela. Tinha os 
cabelos grisalhos e vestia um fato cinzento-escuro com uma camisa 
imaculada.
- Bom-dia - disse-lhe, sorridente.
- Bom-dia - respondeu Liliana, ao mesmo tempo que se levantava.
- J nos conhecemos? - perguntou ele, olhando-a com ateno.
Liliana sentiu o perfume do after-shave que o pai usava e, aps um 
instante de hesitao, reconheceu-o.
- Ajudou-me a apanhar um comboio a correr, na estao de Varese - 
explicou.
- Agora recordo a sua passada de corredora - brincou, enquanto apertava a 
mo que a jovem lhe estendia. E acrescentou: Como est?
- Muito melhor do que nesse dia - afirmou Liliana.
- No sabia que era nossa cliente - acrescentou.
- Eu no sou.  o escritrio Asetti, para o qual trabalho - explicou ela.
- Ento venha comigo. Sou o Sandro Brioschi.
Liliana seguiu-o at ao gabinete, um aposento amplo com grandes Janelas 
que davam para a rua arborizada. O cho estava coberto

137

com uma alcatifa macia, de um azul-plido, e nas paredes, nos espaos 
deixados livres pelas estantes, viam-se cartazes de exposies dedicadas 
a Klimt, Chagall, Poliakoff, Tancredi e Fontana.
- Chamo-me Liliana Corti. Quando nos encontrmos estava a acabar o curso 
de Direito. Agora j fiz o exame para estagiria - explicou-lhe.
Ele convidou-a a sentar-se e instalou-se  secretria.
- Parabns - disse.
Depois pegou na capa que continha os papis. - Est aqui tudo? - 
perguntou.
- Julgo que sim. Eu vim em vez da secretria porque me apetecia dar uma 
volta - explicou.
- Como  que se d com o Asetti?
- Quer mesmo saber? - perguntou, um pouco hesitante.
O contabilista sorriu.
- Pessimamente - declarou a rapariga.
Ele assentiu.
- Para mim, os clientes tm todos o mesmo valor, mas o instinto diz-me 
que merecia trabalhar num escritrio melhor.
- Isso tambm eu queria - confessou Liliana, enquanto observava uma 
fotografia, pousada na mesa, que retratava dois jovens sorridentes: o 
contabilista e uma rapariga de longos cabelos loiros.
- Era a minha mulher - disse ele, que tinha reparado no olhar de Liliana. 
E continuou: - Andmos a estudar juntos e, quando nos casmos, j ela 
estava doente, com uma leucemia. Faleceu dois anos depois do nosso 
casamento. Passaram doze anos desde essa altura. No voltei a casar.
- Percebo - sussurrou Liliana, subitamente triste com aquela histria.
- A vida oferece sempre uma segunda possibilidade - observou ele, para a 
sossegar.
- Mas ainda no a teve - disse Liliana.
- Se calhar tambm no a procurei - admitiu Sandro Brioschi.

138

Numa grande tabuleta de metal azul sobressaam, escritas a dourado, as 
palavras TANZ SCHULE. No era preciso saber alemo para as traduzir, at 
porque, atravs das janelas abertas, chegavam  rua os acordes de uma 
valsa vienense.
- Uma escola de dana! - exclamou Rosellina, com os olhos brilhantes de 
alegria.
Tinha ido a um passeio da escola ao Alto Adige. A professora de Histria, 
Armida Scarpa, uma mulher madura e severa, anunciou no final de uma aula: 
- Este ano, no nosso passeio, em vez de vos levar a Roma, como  costume, 
resolvi levar-vos a visitar Trento e Bolzano, que h quase cinquenta anos 
so um territrio italiano conquistado com o sangue dos nossos valorosos 
soldados.  difcil definir se  justo ter massacrado milhes de jovens 
para alargar as nossas fronteiras. Os jogos dos governos, desde sempre, 
so feitos por cima da cabea do povo. De qualquer maneira, aquelas 
terras so nossas desde o fim de 1918 e vale a pena conhec-las.
As alunas do penltimo ano do magistrio tinham protestado, no por amor 
 Roma antiga mas porque, depois da capital, se seguiam dois dias de 
praia, em Ostia. Rosellina comentou com a me: Pode ser verdade que os 
governos faam os seus jogos por cima da cabea do povo, mas a Scarpa 
tambm faz as escolhas dela por cima da cabea das alunas.
Assim, vinte e duas alunas, conduzidas pela indomvel professora, 
aguentaram longas lies sobre os valores da ptria, sobre

139

a grandeza do imprio dos Habsburgo e sobre a Primeira Guerra Mundial, 
assim chamada no por ter envolvido todos os pases mas porque tinha 
assinalado o fim de um mundo que se alimentara de altos ideais.
Finalmente, ao fim de dois dias de massacrantes explicaes Rosellina viu 
alguma coisa de interessante: o letreiro da Tanz Schule. No pensou duas 
vezes antes de se enfiar no trio de um palcio do tempo dos Habsburgo, 
de subir a correr as escadas de mrmore cor-de-rosa e de escancarar a 
porta da escola de dana. Viu pares de jovens que danavam com uma 
elegncia que a fascinou, enquanto uma senhora madura passava pelo meio 
deles e batia com uma varinha nos ombros, nas mos e nas pernas dos 
bailarinos, ao mesmo tempo que dava ordens em alemo. Os jovens corrigiam 
imediatamente as posturas e os movimentos. Os seus corpos pareciam 
flutuar sem peso sobre as notas da msica vienense. Rosellina ficou 
colada  porta a olhar para eles numa espcie de mgico arrebatamento. A 
msica acabou, a professora fez os seus comentrios e depois apercebeu-se 
da sua presena. Sorriu-lhe e fez-lhe uma pergunta em alemo, que ela no 
entendeu.
- Desculpe. Sou italiana - disse a rapariga.
- Ns tambm somos - sublinhou a professora.
Algumas colegas de Rosellina, que tinham ido ter com ela, faziam-lhe 
agora sinais desesperados para que se despachasse.
- Gostava tanto de danar - confessou Rosellina, ignorando-as.
- De onde vens? - perguntou a professora, enquanto os bailarinos falavam 
entre si em voz baixa e faziam exerccios de alongamento dos braos e das 
pernas.
- De Milo - respondeu.
- Na tua cidade h uma ptima escola de dana: valsa, tango, polca e 
danas latino-americanas. Se quiseres, escrevo-te a direco.
Rosellina anuiu, a professora atravessou o salo, caminhando com 
ligeireza sobre a madeira luzidia, inclinou-se sobre uma mesa, folheou um 
caderno, escreveu qualquer coisa num papel e levou-lho.
- Aqui est. Se realmente queres aprender a danar, inscreve-te nesta 
escola. Felicidades.
Rosellina desceu as escadas a correr com as colegas, apertando com fora 
aquele precioso papel.

140

- s completamente louca. A Scarpa anda  nossa procura. E agora, o que  
que lhe dizemos? - perguntaram as amigas, zangadas.
- Que a histria tambm se faz de msica e de dana - respondeu ela, 
imperturbvel.
Ao fim e ao cabo, aquele passeio contra vontade tivera um sentido: a 
descoberta da Tanz Schule revelara-lhe o seu destino de bailarina. Ia 
imediatamente inscrever-se na escola de dana que ficava na via delPOrso, 
na zona de Brera.
Avanou com o seu pedido quando a famlia estava reunida  mesa para 
jantar. Pucci e o pai riram-se, Liliana no disse nada e Ernestina 
zangou-se.
- Ests a repetir o ano e sabe Deus se vais conseguir passar - lamentou.
- vou sim, porque de agora em diante vou estudar imenso, se me deixarem 
inscrever na escola de dana - garantiu.
- Como  que eu posso acreditar em ti? - perguntou Ernestina, 
desesperada.
- Porque s assim posso finalmente fazer aquilo que me apetece.
- Quando souberes danar, ensinas-me? - perguntou Pucci.
- Tambm te queres meter na conversa? - retorquiu a me, fulminando-o.
- Os meus amigos vo danar e eu no posso ir com eles porque no sei 
como  - explicou.
Ernestina olhou para o marido, esperando que interviesse em sua ajuda. E 
Renato voltou-se para Rosellina: - Desejo apenas que tu encontres o teu 
caminho e, se for a dana, que seja para bem. Vamos oferecer-te a 
inscrio nessa escola mas vais ter de te empenhar mais nos estudos.
- E que Deus nos ajude - concluiu Ernestina.
Rosellina levantou-se da mesa e abraou a me e o pai com gritinhos de 
alegria.
- Consegui, fantstico! Estava convencida de que me iam dizer que no.
- E nesse caso, o que fazias? - perguntou Liliana.
- Ia lavar escadas e ganhar dinheiro para a inscrio - declarou, com 
determinao.

141

Foi para a escola de dana.
Uma noite regressou da aula e disse: - Preciso de um partner.
- Um qu? - perguntou a me.
- Um parceiro - traduziu. - J experimentei trs, mas no consigo 
combinar.  muito importante estabelecer algum entendimento com a pessoa 
com quem se dana - explicou.
Ernestina abanou a cabea, resignada.
- J percebi. E qual dos teus cem namorados escolheste? - perguntou-lhe.
- O melhor: o meu irmo Pucci.
- S me faltava esta - respondeu a me, zangada. - O teu irmo tem a 
cabea no lugar e, ficas j avisada, ai de ti se o estragas.
- Quando muito, endireito-o. Est todo o dia com as costas curvadas em 
cima dos nmeros naquele banco horroroso onde trabalha. E, como se isso 
no bastasse,  noite tem aquelas contabilidades extra que lhe do muito 
dinheiro, mas que no o fazem feliz - argumentou a rapariga.
- O teu irmo nunca vai aceitar, para sorte dele - afirmou a me.
Pucci voltou do banco onde estava empregado havia j alguns meses. 
Ernestina no sabia como agradecer a sorte, que tinha contemplado o seu 
rapaz com aquele trabalho seguro e bem remunerado. Para alm disso,  
noite fazia a contabilidade de algumas pequenas empresas. Para ele, os 
nmeros no tinham segredos e divertiam-no como se fosse um jogo. Tambm 
gostava de danar, desde que a irm lhe tinha ensinado os passos mais 
bsicos.
Rosellina foi logo directa ao assunto.
- Preciso de um partner. Apetece-te ir comigo frequentar aquele curso? S 
temos dois meses para nos prepararmos para um concurso que vai haver em 
Cesenatico, em Agosto. O prmio  uma taa enorme. Diz-me que aceitas e 
vamos ganhar.
Pucci ouviu-a com ateno.
- S um trofeu, nada de dinheiro? - perguntou-lhe.
- Isso temos ns de desembolsar, para a roupa. Mas vai valer a pena, 
porque nos vamos divertir imenso.
- Aperta aqui a tua mo, maninha. No se pode pensar sempre no dinheiro, 
como tu ests sempre a dizer - respondeu Pucci.

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Liliana ligou para a faculdade de Direito. Atendeu uma voz que ela 
conhecia bem, a da signorina Grisafulli.
- Que bom ouvi-la. Como est, minha querida? - perguntou logo a eficiente 
secretria.
- Muito bem - mentiu Liliana. E continuou: - Precisava de uma entrevista 
com o professor Romani. Acha que consegue arrancar-lhe um tempinho para 
mim?
- Para uma aluna como a Liliana, o professor tem sempre tempo. Neste 
momento est num congresso em Urbino. Na prxima semana ligo-lhe para lhe 
dizer a hora e o dia - prometeu a secretria.
Depois daquele breve encontro com o Dr. Brioschi, Liliana tinha 
regressado ao escritrio de pssimo humor. Ps de lado o seu orgulho e 
decidiu ir ter com aquele professor, com quem terminara o curso, para lhe 
pedir uma recomendao. Depois de ter falado com a signorina Grisafulli, 
trabalhou afincadamente durante toda a tarde. s sete horas arrumou os 
papis que tinha em cima da secretria e preparou-se para sair do 
escritrio.
Bateu  porta do advogado, abriu-a ligeiramente e anunciou: Vou-me 
embora.
O homem estava ao telefone e, com uma mo, fez-lhe sinal para esperar. 
Terminou a chamada, levantou-se da secretria e disse: Lamento muito pelo 
meu gesto irreflectido desta manh. Peo-lhe que me desculpe, doutora.

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Liliana olhou para ele, incrdula, e teve a certeza de que aquelas 
desculpas eram ditadas pelo receio de que ela se despedisse.
- Est desculpado. Boa-tarde - replicou secamente.
Saiu do escritrio com uma sensao de libertao. Tinha ainda dado 
poucos passos fora do edifcio quando um homem se ps ao lado dela, 
tratando-a pelo nome. Era Sandro Brioschi.
- Estava em frente  porta  sua espera. Mas saiu como um raio - disse-
lhe.
Liliana sorriu-lhe.
- Est com pressa ou ainda tem tempo para um aperitivo? - perguntou o 
contabilista.
- Para um aperitivo ainda d - respondeu.
- Pensei muito em si - comeou, quando se sentaram na mesinha de um bar 
na via Boccaccio.
- Devo sentir-me lisonjeada? - perguntou Liliana.
- Gostaria que se sentisse, mas eu j tenho uma certa idade e no sou 
propriamente uma estrela de cinema. No entanto, estive a pensar em si e 
achei que, se mo permitir, obviamente, eu podia fazer alguns telefonemas. 
Tenho uma srie de escritrios de advogados realmente ptimos entre os 
meus clientes e podia saber se algum precisa de uma jovem estagiria. 
Acha que estou a ser muito atrevido? - perguntou, quase corando. E 
continuou: - Ajudava-a de boa vontade a arranjar um trabalho melhor.
- Parece que estou destinada a encontr-lo nos meus piores momentos. 
Quando subi a correr para aquele comboio, em Varese, tinha acabado de 
encerrar a minha primeira e nica histria de amor. Hoje de manh, antes 
de ir ao seu escritrio, o Dr. Asetti tentou deitar-me a mo.
- Ento, marco-lhe umas entrevistas?
Liliana observou com ateno o homem que estava sentado  sua frente. 
Tinha uns olhos castanhos, grandes e meigos, o rosto quadrado, o queixo 
forte, o nariz levemente aquilino e uns lbios que se abriam muitas vezes 
num sorriso. Sandro Brioschi transmitia-lhe uma sensao de segurana e 
de serenidade. Parecia realmente uma pessoa em quem podia confiar.
Em vez de lhe responder, perguntou: - Dr. Brioschi,  sempre assim to 
disponvel para com o seu prximo?
Ele deu uma gargalhada.
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- Dei-lhe essa impresso? Pois bem, est redondamente enganada. Se 
soubesse a quantidade de gente a quem mando dar uma volta! Sobretudo os 
arrogantes, os avarentos e os mentirosos. E se soubesse quanta gente 
dessa anda por a! Sabe, o meu escritrio  pequeno e eu nunca quis 
crescer; portanto, sempre que um cliente
me faz irritar, sugiro-lhe delicadamente que se dirija a outra pessoa.
- O que  que o faz irritar, Dr. Brioschi? - perguntou Liliana.
- A fuga ao fisco, por exemplo. Para alm disso, no gosto dos 
envelopezinhos que se passam por baixo da mesa, assim como muitas outras 
espertezas tipicamente italianas.
O empregado serviu um aperitivo que estava muito na moda: espumante seco 
com um toque de gin e umas gotas de licor de menta. Saborearam-no a 
conversar como se fossem velhos amigos.
- Na prxima semana vou falar com o professor com quem me formei. Espero 
bem que me possa ajudar. A verdade  que nos meus sonhos de rapariga no 
imaginava que o mundo do trabalho fosse to difcil e, sobretudo, to 
hostil s mulheres - desabafou. E prosseguiu: - Se no ficar ofendido, 
aceito a sua ajuda como segunda possibilidade, se a primeira no correr 
bem.
- Decida como bem entender. De qualquer maneira, desejo-lhe que resolva o 
seu problema o mais depressa possvel. Quanto  hostilidade em relao s 
mulheres, tem razo, sempre existiu.  uma maneira de levantar um muro 
para defesa do sistema machista que impera em todo o lado - explicou o 
contabilista.
- Ser que os homens fazem voz grossa por terem medo das mulheres? - 
perguntou ela.
- As mulheres, quando tm valor, podem ser verdadeiramente 
extraordinrias. Como a signorina, Dra. Corti - disse, olhando-a com 
ternura.
Aquele cumprimento f-la corar e, de repente, Liliana percebeu que Sandro 
Brioschi lhe estava a fazer a corte.
- Esta noite, como todas as quintas-feiras, tenho um encontro com os meus 
irmos numa pizaria. Tenho de ir - disse de repente, ao mesmo tempo que 
se levantava.
- Posso acompanh-la? - perguntou o Dr. Brioschi, levantando-se tambm 
rapidamente.
Liliana tinha mudado de atitude, parecia confusa e pouco  vontade.

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- No  preciso. A pizaria  j aqui, ao dobrar da esquina - respondeu 
estendendo-lhe a mo para se despedir. - Obrigada por tudo - acrescentou.
O homem segurou a mo de Liliana na sua durante uns instantes.
- Eu  que agradeo. Desculpe se fui muito tagarela. Normalmente falo 
pouco. Desculpe, doutora. - Apercebera-se de que o comportamento de 
Liliana tinha mudado de repente e perguntava a si mesmo o que teria feito 
para provocar aquela reaco.
- Depois digo-lhe o que deu a conversa com o meu professor
- disse ela, e foi-se embora.
Sandro Brioschi ficou a olhar para a silhueta elegante daquela bonita 
rapariga que se afastava rapidamente, enquanto se interrogava mais uma 
vez sobre o que poderia ter dito de to grave que a fizesse fugir.

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Os irmos Corti reuniam-se numa pizaria uma noite por semana pelo prazer 
de conversarem  vontade, sem a presena dos pais. Giuseppe e Liliana 
eram sempre os primeiros a chegar.
Naquela noite, enquanto esperavam Pucci e Rosellina, Liliana disse-lhe: - 
O pai anda preocupado. As reformas propostas pelos sindicatos esto num 
impasse e h o perigo de uma grave recesso, apesar de ainda ningum 
falar disso.
- Vai haver uma nova onda de greves que no vai servir para nada, como 
sempre - comentou o irmo.
- Que rica filosofia! Sem luta viveramos ainda num sistema repressivo e 
no teramos sequer a possibilidade de respirar - protestou ela com 
veemncia.
O irmo sorriu. Gostava de espicaar Liliana relativamente aos assuntos 
sindicais.
Saboreou uma flor de abbora frita e sussurrou: - Amanh vou para Londres 
com o Filippo.
- A me j me disse. Estou com alguma inveja, sabias?
- No vou de frias. H um leilo na Sotheby's e um cliente do Filippo 
est interessado em paisagens inglesas do sculo XVIII. Quer que eu v 
com ele porque acha que devo dar uma vista de olhos  moda masculina 
inglesa. Sabes, ele tem a estrutura mental de um professor.
- Julgava que s trabalhavas em moda feminina. Pois olha, eu vou passar o 
fim-de-semana a fazer limpezas em casa, como sempre

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- lamentou-se. E acrescentou: - Mas consola-me saber que ests feliz com 
o teu companheiro.
- s vezes discutimos furiosamente - confessou Giuseppe. E prosseguiu: - 
Ele tem a mania do luxo, da ostentao, do convvio com pessoas 
importantes...
- E da Mariuccia - acrescentou Liliana, com um ar malicioso.
- Est sempre l em casa e interfere como uma sogra. O Filippo adora-a, 
eu no. Tudo o que sai daquela boca  ouro, porque  amiga da Margarida 
de Inglaterra. A propsito, adivinha quem vai connosco a Londres?
- A Mariuccia! - exclamou Liliana.
- Exactamente, assim vamos parecer um casal de homossexuais com a me 
atrs.
- Tens cimes!
- Um bocadinho. Mas deixa l isso, quero  saber de ti.
Liliana juntou toda a sua coragem e, em voz baixa, revelou-lhe:
- Tenho um pretendente.
Desde que a histria com Danilo tinha acabado, fechara-se sobre si mesma 
como um ourio, pronta para picar quem quer que tentasse aproximar-se. A 
ideia de um novo amor assustava-a, porque tinha medo de sofrer. Entre os 
ex-colegas de faculdade e os irmos das amigas, havia sempre algum que 
tentava marcar um encontro com ela. Repelia toda a gente com uma espcie 
de altivez que no lhe era natural, de tal maneira que os amigos tinham 
passado a referir-se a ela como a advogada. A princpio sofrera um 
pouco com aquele epteto, mas depois habituou-se.
No bar da via Boccaccio, quando se apercebeu de que Sandro lhe estava a 
fazer a corte, pela primeira vez no ps os espinhos de fora. Fugiu 
porque percebeu que o contabilista lhe agradava. Sandro Brioschi parecia-
lhe um homem de confiana como o seu pai e, como ele, tinha um olhar 
sorridente e muita vontade de viver.
Enquanto percorria a distncia que separava o bar da pizaria pensou na 
me. Como reagiria Ernestina quando lhe falasse do Dr. Brioschi? As 
crticas da me irritavam-na, mas a experincia tinha-lhe ensinado que 
devia dar-lhe importncia.
- Como  ele? - perguntou Giuseppe, cheio de curiosidade.

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- Podia ser... - no acabou a frase porque nesse momento entraram Pucci e 
Rosellina. - Digo-te para a prxima. Muito cuidado com as duas serpentes 
- sussurrou.
No era preciso acrescentar mais nada. Desde o tempo em que eram 
adolescentes, Liliana e Giuseppe trocavam os seus pequenos segredos, 
sabendo que ficariam bem guardados. Rosellina, porm, no sabia ficar 
calada, e Pucci no resistia  tentao de espicaar os irmos.
- Desculpem o atraso - comeou Rosellina, enquanto pousava no cho o saco 
onde trazia os sapatos e o fato que usava na escola de dana.
- Hoje ensaimos uns passos de rumba catal e a professora nunca ficava 
satisfeita - disse Pucci, deixando-se cair numa cadeira.
- Pois , parece fcil, mas  todo um jogo de agilidade entre braos, 
ombros e cintura. O Pucci  espectacular. Quem me dera que os colegas do 
banco o vissem - exclamou Rosellina.
- Imagina o que eles se iam rir - disse Pucci.
- S por inveja - precisou Rosellina. - Porque nenhum deles  to bonito 
como tu. Eu digo a toda a gente: ns, os irmos Corti, somos lindssimos 
- chilreou Rosellina. Depois sorriu para o empregado que se tinha 
aproximado com a lista: - O senhor no acha que ns somos lindssimos? - 
perguntou-lhe.
Liliana e Giuseppe abanaram a cabea, resignados com a intemperana da 
irm mais nova. O empregado sorriu, porque j os conhecia.
Enquanto comiam, Rosellina falou do concurso de dana em que se tinham 
inscrito.
-  em Cesenatico, em Agosto. Vocs esto mesmo a ver? Vai l estar a 
televiso para filmar os bailarinos, os jornalistas para os entrevistar e 
centenas de espectadores. Toda a gente nos vai ver e vamos ficar 
submersos em aplausos, porque somos os melhores. Eu vou estar um espanto, 
sobretudo se o Giuseppe me fizer um vestido fabuloso, como eu imagino.
Havia j algumas semanas que Giuseppe andava a fazer um vestido de 
organza branca, de linha muito solta, que ia decorar com lantejoulas 
prateadas. Os vestidos para os concursos de dana, normalmente, eram 
confeccionados por casas especializadas e eram

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carssimos. Rosellina, que no trabalhava nem tinha dinheiro, entregava-
se sem pudor  generosidade dos irmos, que se sentiam felizes por 
poderem satisfaz-la.
- No domingo, quando for almoar, levo-te o vestido para tu provares - 
disse Giuseppe.
Pucci, porm, tinha decidido alugar um fato adequado  situao. Andava 
sempre muito atento s despesas e administrava o seu dinheiro com 
prudncia.
Os irmos Corti ficaram ali at tarde, alternando conversas com 
gargalhadas e provocaes. Como sempre, dividiram a conta por trs, 
porque todos se quotizavam para a irm mais nova, que continuavam a 
proteger e a mimar.
Enquanto se despediam, Giuseppe conseguiu apanhar Liliana.
- No me contaste do teu pretendente - sussurrou-lhe. Estou a arder de 
curiosidade. Disseste que podia ser... O qu?
- J tem uns anitos, deve andar pelos quarenta, no sei se me entendes - 
sussurrou ela.
- Como o Filippo. Os quarentes, podes crer, so fantsticos.

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 noite, antes de adormecer, Liliana recordou todo aquele dia, que tinha 
comeado pessimamente e terminara com uma novidade inesperada. O rosto 
sincero do Dr. Brioschi surgia no seu esprito e voltava a ouvir as suas 
palavras: As mulheres, quando tm valor, podem ser verdadeiramente 
extraordinrias. Como a signorina, Dra. Corti.
Fez uma comparao com Danilo e concluiu que Sandro Brioschi no tinha 
nada em comum com ele, felizmente.
- Um vivo - sussurrou, s voltas na cama. Recordou a fotografia da 
mulher, uma bela rapariga de cabelos loiros. Como teriam sido aqueles 
dois anos de casamento do Dr. Brioschi ao lado de uma mulher que se ia 
apagando de dia para dia? Devia t-la amado muitssimo, se tinha decidido 
casar com ela mesmo sabendo que estava condenada. E, em doze anos de 
viuvez, no procurara uma nova oportunidade. Porqu? Para no trair a 
mulher? Por medo de voltar a sofrer? No entanto, pensava Liliana, que 
continuava s voltas na cama, devia ter havido alguma outra histria, 
porque um homem no pode ficar sem uma mulher. Teriam sido histrias 
ocasionais? No lhe parecia o tipo de homem que recorre a prostitutas, 
portanto, com quem teria estado em todos aqueles anos? Quantas outras 
mulheres teria tido? Por que teria decidido fazer-lhe a corte 
precisamente a ela? Mas estaria mesmo a fazer-lhe a corte, ou era s 
imPresso dela? Elaborou um ltimo pensamento assustador: talvez o 
contabilista tivesse casado com uma mulher doente porque

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no queria um casamento duradouro e depois no voltara a casar porque 
gostava da vida de solteiro.
Finalmente adormeceu, extenuada com tantas interrogaes. De manh, no 
entanto, estava tranquila e cantarolava enquanto tomava banho. Quando 
entrou na cozinha para tomar o pequeno-almoo, a me olhou para ela com 
curiosidade.
- Por que  que ests to contente esta manh? - quis saber.
- Quantos anos tens, me? - perguntou, em vez de responder.
- Muitos, demasiados. E depois nunca se pergunta a idade a uma senhora.
- Eu diria que so quarenta e um - disse Liliana.
- Quarenta e dois - corrigiu Ernestina.
Liliana pensou que o Dr. Brioschi era quase da idade dos pais.
- Quarenta anos so realmente muitos - sussurrou, enquanto saboreava o 
seu caf.
- O que  que te est a passar pela cabea? - perguntou a me.
No a ouviu e continuou a seguir o fio dos seus pensamentos.
- Um homem de quarenta anos j no deve reservar surpresas desagradveis. 
No achas?
- Mas de que  que ests a falar? O que se passa contigo hoje? Ests a 
esconder-me alguma coisa. Por que  que eu nunca posso estar sossegada? 
V l, desembucha e no me mintas - ordenou.
- Me, acaba com isso. Quando te pes assim no te suporto. Tu resmungas, 
ameaas, censuras e nunca ests satisfeita, como diz o pai. Queres os 
meus pensamentos? No os vais ter! - respondeu Liliana, irritada.
- Quero saber quem  esse quarento que te pe a cantar logo que acordas 
- disse Ernestina, firme.
- Ests a dar tiros no escuro - retorquiu a filha, enfadada.
- Tenho olhos de gato - afirmou a me.
- Um gato cego - berrou Liliana, ao mesmo tempo que agarrava na bolsa e 
saa a correr para o escritrio.
No ouviu a me dizer: - J no posso mais com estes filhos. H uma vida 
que me ando a consumir por eles e, como nica recompensa, sou tratada 
como um zero  esquerda.
Naquele dia, Liliana enfrentou o calvrio habitual do Escritrio Asetti. 
Reuniu com alguns colegas do advogado para organizar

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uma srie de processos e passou o resto do dia a tratar de recuperao de 
crditos. Reconfortou-a a ideia de um fim-de-semana caseiro e esperou 
ardentemente falar o mais depressa possvel com o professor Romani.
A secretria ligou-lhe para casa na segunda-feira de manh, quando se 
preparava para sair para o escritrio.
- Venha s dez horas. O professor est  sua espera - disse-lhe.
- Obrigada, signorina Grisafulli - respondeu Liliana, perguntando a si 
mesma como poderia justificar a falta ao trabalho naquela manh. 
Telefonou para o escritrio e atendeu o advogado.
- vou agora ao hospital fazer uns exames. No me tenho sentido muito bem 
nestes ltimos dias - mentiu.
Saiu de casa e dirigiu-se a p  via Festa del Perdono.
Entrou pelo porto antigo da Universidade de Milo e sentiu um aperto no 
corao ao recordar aqueles anos fantsticos que tinha passado dentro 
daqueles muros, quando acreditava que bastaria uma licenciatura para 
conquistar o mundo e sonhava casar com Danilo, por quem estava 
apaixonada.
Agora atravessava o ptio da universidade esperando apenas que o 
professor Romani a ajudasse a arranjar um trabalho digno.
O professor estava  espera dela no seu gabinete cheio de fumo, segurando 
entre o dedo indicador e o mdio o charuto cubano do qual nunca se 
separava. Era um homem com uma cpmpleio monumental e um vozeiro 
fortssimo. E, no entanto, quando se mexia, tinha a leveza de uma 
liblula e um olhar lmpido e inocente.
Apertou-lhe vigorosamente a mo, convidou-a a sentar-se e ofereceu-lhe 
uma chvena de caf que a signorina Grisafulli acabara de fazer.
Liliana despejou toda a amargura que sentia. O professor ouviu-a com 
ateno, ao mesmo tempo que dos seus lbios, escondidos por baixo de uma 
farta barba cinzenta, saam pequenas nuvens de um fumo pestilento. O 
homem estimava Liliana e tinha depositado muitas esperanas naquela aluna 
brilhante e determinada.
- Despea-se imediatamente daquele ninho de ratos - disse. E continuou: - 
Gente como o Asetti desonra a profisso mas, acredite, ainda h 
indivduos que fazem pior. Quanto mais se sobe mais aumenta a podrido, 
at chegar aos grandes embusteiros que servem

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os lados obscuros do poder e usam a lei para cometer crimes. Despea-se - 
repetiu.
- No me posso dar ao luxo de renunciar a um salrio - murmurou Liliana.
O homem levantou uma mo, fazendo-lhe sinal para ter calma. Consultou a 
sua agenda, levantou o auscultador e marcou um nmero.
- Fala Romani. Passe-me o Eleuteri. - Ao fim de alguns instantes de 
espera, disse: - Ol, meu caro, arranjei o licenciado de que andavas  
procura. Como se chama? Liliana Corti.  verdade,  uma mulher, e at  
bem engraada - comentou, sorrindo. - No vai criar complicaes se for 
tratada com o respeito que merece. Por ela garanto eu.  advogada 
estagiria. Quando queres encontrar-te com ela? Ao meio-dia est a. Como 
paga, convidas-me para jantar.
Desligou o telefone e olhou para ela com um ar satisfeito.
- O que  que ainda est aqui a fazer? O Dr. Eleuteri est  sua espera. 
Despache-se - disse-lhe.
Liliana levantou-se lentamente da cadeira, porque temia no conseguir 
equilibrar-se nas pernas.
- Eu no sei...  tudo to... Professor, o senhor ... Eu estou. .. - 
balbuciava como uma aluna demasiado tmida.
- V-se embora, Liliana - disse ele, que detestava agradecimentos.
- Onde, professor? Qual  a direco?
Do peito imenso do homem soltou-se uma gargalhada sonora.
- Tem razo! - exclamou.
Escreveu o endereo num papel e entregou-lho. Liliana agarrou nele e foi-
se embora a correr.
Saiu da universidade excitada e cheia de esperana. Leu mais uma vez o 
endereo que o professor Romani lhe tinha dado e pareceu-lhe estar a 
sonhar. Tinha uma entrevista com o director da Collevolta, uma empresa 
gigantesca, como a FIAT em Itlia ou a General Motors na Amrica. A sede 
de Milo era na via Paleocapa. Foi pontualssima e, ao porteiro cheio de 
gales, anunciou que tinha uma entrevista com o Dr. Eleuteri.
O homem pediu-lhe um documento de identificao e depois convidou-a a 
esperar numa pequena sala, ao lado da portaria

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dizendo: - Faa o favor de esperar. - Voltou a fechar a porta e deixou-a 
sozinha.
Liliana sentou-se numa pequena poltrona vermelha, por baixo de um quadro 
antigo que reproduzia o Castello Sforzesco. O corao saltava-lhe no 
peito com a emoo e perguntou a si mesma se estaria apresentvel. 
Giuseppe cortara-lhe o cabelo que, agora, tinha um estilo um pouco 
arrapazado, com uma pequena franja que lhe cobria a testa. Trazia uma 
saia de linho azul-celeste e um casaquinho curto em malha de algodo da 
mesma cor. Lamentou no ter vestido uma roupa mais adequada  situao. A 
nica coisa que lhe dava confiana era a essncia do seu perfume.
A porta abriu-se e entrou uma mulher de aspecto severo. Era toda 
cinzenta: o tailleur, o cabelo e os sapatos. Parecia uma professora de 
uma escola religiosa. Liliana levantou-se de um salto.
- Dra. Corti? - perguntou a mulher, com um sorriso. - Chamo-me Carla 
Dotti e vim dizer-lhe para ter um pouco de pacincia, porque o Dr. 
Eleuteri ainda est em reunio. vou devolver-lhe o seu bilhete de 
identidade.
Desapareceu com a velocidade de um relmpago e Liliana deixou-se cair na 
mesma poltrona. Pensou: isto no est a correr bem. Olhou para o relgio: 
era meio-dia e vinte. Entreteve-se a mexer na pulseira de ouro, presente 
dos pais pela licenciatura. E esperou.
 uma hora sentiu-se tentada a ir embora. Estava deprimida e pareceu-lhe 
que a pressa com que tinha sido convocada no passava, efectivamente, de 
uma brincadeira com ela e com o professor.
Levantou-se da poltrona, pensando que a Collevolta era um lugar de 
gigantes onde no se liga  dignidade dos fracos. Tinha a mo na maaneta 
da porta quando o porteiro dos gales a abriu e ficou com a cara quase 
colada  dela.
- Siga-me - disse o homem.
Regressaram  entrada, atravessaram um imenso ptio interior atravancado 
de carros de alta cilindrada, entraram noutro edifcio e, no trio, o 
homem acompanhou-a ao elevador.
- Quarto andar - disse o porteiro.
Quando o elevador se abriu, encontrou a signorina Dotti, que estava  
espera dela. Encontravam-se num amplo vestbulo, meio galeria de arte e 
meio jardim botnico: quadros abstractos nas paredes e grandes plantas 
viosas.

155

- vou acompanh-la ao Sr. Director - anunciou, com ar solene.
Introduziu-a num aposento com paredes revestidas de madeira clara. Trs 
homens, tranquilamente sentados em dois sofs de pele colocados um em 
frente ao outro e separados por uma mesa baixa conversavam em voz baixa. 
Liliana observou-os, perguntando a si mesma quem seria o interlocutor do 
professor Romani. Eram elegantes, vestiam fatos impecveis e tinham um ar 
desenvolto.
- A Dra. Corti - anunciou a secretria com um ar muito importante.
Dois dos presentes levantaram-se para a cumprimentar, enquanto o terceiro 
veio ao encontro dela, apresentando-se.
- Sou o Eleuteri - disse, e apertou-lhe a mo. Depois explicou: - 
Desculpe se a fizemos esperar. Houve uma pequena reunio imprevista. - 
Era alto, magro, tinha um rosto de traos delicados e uma voz levemente 
rouca. Liliana teve a sensao de j o ter visto em algum stio.
- O Dr. Conforti, chefe do pessoal, e o engenheiro Passeri, director da 
segurana das instalaes. J conhece a signorina Dotti, a minha 
secretria - anunciou, enquanto os homens lhe apertavam a mo. A 
secretria tinha-se colocado num stio mais afastado, tentando confundir-
se com a moblia.
Eleuteri convidou Liliana a sentar-se no sof.
- Sente-se, doutora - disse.
Liliana sentou-se e olhou para os trs homens, a sorrir. No seria capaz 
de articular uma palavra e consolou-se com a ideia de que, afinal, no 
era ela que tinha de falar.
- O Dr. Romani foi seu professor na Faculdade de Direito, no  verdade? 
- perguntou o director.
- Discuti com ele a minha tese sobre direito do trabalho - explicou ela.
Preparou-se para suportar a habitual rajada de perguntas, que j conhecia 
muito bem. Mas Eleuteri apenas disse: - O Romani falou-me muito bem de si 
e, uma vez que o estimo, acredito nele. Na semana passada estivemos 
juntos num congresso e eu pedi-lhe para me indicar algum para o sector 
dos acidentes de trabalho. Portanto, parece que a doutora  a pessoa 
certa para isso. Est bem, muito bem - afirmou o director. E juntou as 
mos, como se o assunto estivesse encerrado.

156

Passeri e Conforti, entretanto, observavam-na.
- Tem consigo um curriculum, Dra. Corti? - perguntou o director de 
pessoal. Era um homem relativamente jovem, com um ar cansado.
- Lamento muito, mas receio no ter curriculum nenhum. Acabei o curso h 
um ano e desde ento tenho trabalhado no escritrio do advogado Asetti.  
tudo, at agora - declarou Liliana.
Os homens sorriram-lhe com simpatia.
- Qual  a sua remunerao actual? - perguntou Conforti.
- Vergonhosa - respondeu Liliana, com uma franqueza que desconcertou os 
directores. E prosseguiu: - Por favor, preferia que me dissesse quanto 
est disposto a oferecer-me.
A signorina Dotti olhou de soslaio para o seu director e deixou escapar 
um sorriso.
- A Collevolta poderia contrat-la na categoria dos recm-licenciados, 
com a funo de tratar dos aspectos jurdicos relativos  segurana das 
instalaes. So noventa mil liras por ms em catorze mensalidades, mais 
uma srie infinita de benefcios que a seu tempo lhe sero indicados - 
props Conforti.
Liliana decidiu fazer valer a recomendao do professor Romani.
- Defendi a tese com distino e louvor. Acho que entendi que vou ter de 
justificar o meu salrio at ao ltimo cntimo, e para mim est ptimo 
assim, porque adoro o meu trabalho. Por isso acho que cento e quarenta 
mil poderia ser uma retribuio razovel.
Dera um grande tiro no escuro e sentia o corao na garganta, mas estava 
a jogar uma partida importante e tinha excelentes cartas na mo.
- Cento e trinta - concluiu Eleuteri, retirando ao director de pessoal 
qualquer outra possibilidade de negociao.
Liliana dirigiu aos trs homens um sorriso encantador, enquanto se 
esforava por conter a sua felicidade.
- Parabns, doutora. Sabe muito bem fazer-se valer - afirmou o engenheiro 
Passeri, fazendo finalmente ouvir a sua voz. Seria ele o superior directo 
de Liliana e no tinha ar de ser um homem brando. Quanto a Conforti, o 
chefe do pessoal, parecia no ter apreciado a interveno de Eleuteri e 
no escondeu o desapontamento por ter sido ultrapassado. Era evidente que 
no havia grande

157

empatia entre os dois homens. Liliana percebeu imediatamente a situao e 
evitou que Conforti pudesse dizer alguma coisa de desagradvel.
- Sinto-me muito feliz por passar a fazer parte da Collevolta
- afirmou, dirigindo-se a ele e no a Eleuteri.
Aquela rapariga bonita, de sorriso luminoso, era dotada de uma 
desenvoltura excepcional. Os trs homens sem dvida que apreciaram.
A conversa tinha durado vinte minutos. Liliana deveria apresentar-se na 
segunda-feira seguinte.
Saiu para a via Paleocapa e enfiou-se num caf. Pediu um caf e 
empalideceu. Apercebeu-se de uma sensao de vazio entre o estmago e o 
crebro, deixou de sentir o corpo e agarrou-se ao balco porque tinha a 
cabea a andar  roda. Dera-se conta de ter feito frente a trs 
dirigentes da Collevolta com uma desenvoltura alarmante.
- No se sente bem? - perguntou-lhe o empregado, que a tinha visto 
vacilar.
- Nunca me senti to bem - respondeu. Tomou o caf e saiu para a rua 
cheia de rvores. Estava feliz.

158

8
Eram quase duas horas da tarde quando entrou no escritrio da via 
Leopardi. Estava segura de que no ia encontrar o advogado Asetti, que 
tinha o hbito de almoar em casa e dormir uma pequena sesta. Nunca 
regressava ao escritrio antes das quatro horas. A jovem secretria, 
apanhada de surpresa com um cigarro na mo, corou e apressou-se a apag-
lo.
- Sou s eu. Est sossegada - disse Liliana.
O advogado no admitia que se fumasse no escritrio.
- J estava a ficar aflita! - confessou a rapariga, com uma sensao de 
alvio. Depois perguntou-lhe: - Como  que est? O doutor disse que foi 
ao hospital hoje de manh.
- Estou ptima, obrigada. Alis, at propunha mandar vir alguma coisa 
fresca do bar antes de comearmos a trabalhar - disse Liliana, sentando-
se em frente  secretria. - Eu preciso de qualquer coisa que me 
alimente, porque no almocei. O que dizes a um batido de morango? Pago 
eu.
Precisava de se acalmar, de voltar a pr os ps na terra sem se deixar 
perturbar pelo entusiasmo.
Enquanto saboreavam a espuma densa e gelada do batido, a seCretria 
disse: - Ao meio-dia telefonou o contabilista, porque ainda lhe faltam 
dois documentos para a declarao dos impostos.
Passei-lhe o doutor, mas primeiro perguntou por si. Quando lhe
disse que no estava muito bem, ficou preocupado.
 uma pessoa muito simptica - afirmou Liliana.

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- Quando vou ao escritrio dele, parece que entro no paraso Mas quando 
chego aqui, parece que estou a entrar na cadeia. Se no fosse por si, 
doutora, no aguentava nem um minuto neste lugar - desabafou a rapariga.
- Ento procura depressa outro emprego porque, daqui a nada vou entrar 
pela ltima vez naquilo que foi o meu gabinete para escrever uma bela 
carta de demisso - anunciou.
- Dra. Corti, no posso crer! - exclamou a secretria.
- Hoje de manh estive numa entrevista, no no hospital. vou-me embora, 
querida. Lamento muito por ti, mas fico contente por virar as costas a 
este escritrio - afirmou Liliana.
- Oh, meu Deus, ele vai fazer o diabo a quatro! - disse a empregada, 
alarmada.
- Mas eu no vou c estar.
- E eu? - perguntou, desesperada.
- Tu vais sobreviver e vais arranjar um emprego melhor. De certeza. J 
sabes o meu nmero de telefone. Liga-me para nos encontrarmos, mas fora 
daqui.
Pouco depois abraou a rapariga e deu-lhe a carta que ela deveria 
entregar ao advogado. Depois regressou a casa.
O apartamento do primeiro andar no corso di Porta Romana estava deserto. 
Nunca, como naquele momento, Liliana apreciou a luz, a harmonia e a ordem 
discreta daqueles aposentos. Entrou na sala de estar, sentou-se no sof 
rococ que a acolhia desde que ela era uma rapariguinha e ligou para a 
companhia dos telefones. Pediu para entrar em comunicao com o nmero de 
Miss Angelina, em Nova Iorque. L eram nove horas da manh e Liliana 
tinha a certeza de que a encontrava em casa. De facto, foi a prpria 
signorina Pergolesi quem atendeu, pouco depois.
- Tenho uma notcia fantstica - comeou Liliana. E precisou: - A senhora 
 a primeira pessoa a saber.
Contou-lhe do seu ingresso na Collevolta e a velha senhora, que desde 
sempre vivia das alegrias dos outros, participou comovida na sua 
felicidade.
- A senhora tinha antecipado horizontes mais vastos para o meu futuro e 
agora parece-me que comeo a v-los. E no  s isso, Miss Angelina. 
Conheci um homem que  muito boa pessoa. J no  muito novo, mas  de 
confiana.

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- Diz-me como  ele - pediu Angelina. - Tem o fascnio de um homem 
maduro? Descreve-mo.
- Est a ver o Cary Grant? Pois bem, no se parece nem um bocadinho com 
ele.  pouco mais alto do que eu, tem o cabelo grisalho, o aspecto de um 
bom pai de famlia e usa o mesmo after-shave do meu pai.
- E tu ests apaixonada por ele - concluiu a senhora.
Houve um instante de silncio. Liliana recordou as sensaes que tinha 
experimentado no seu primeiro encontro com Danilo. No tinha acontecido 
nada daquilo com o Dr. Brioschi. Por isso respondeu: - Gosto muito dele. 
D-me uma forte sensao de segurana.
- Quando me escreveres, manda-me uma fotografia dele. E, se te casares, 
fico  tua espera em Nova Iorque. Desta vez tens mesmo de vir  Amrica. 
Daqui podes atravessar os Estados Unidos e ir a Los Angeles, onde a Beth 
trabalha como argumentista de cinema. Fico muito feliz por ainda poder 
participar na tua vida. O mundo  teu, Liliana. Lembra-te disso.
Desligou a chamada e decidiu telefonar ao professor Romani. Sabia que, 
quela hora, o encontrava no seu gabinete na universidade. Quando ouviu o 
seu Estou, pronunciado com uma voz forte, Liliana anunciou: - 
Professor, consegui.
- J sei tudo. O Eleuteri ligou-me para me agradecer o facto de a ter 
mandado ter com ele. Parece que causou muito boa impresso, doutora. Mas 
no se deixe ir na crista da onda deste sucesso e mantenha-se sempre em 
guarda. Na Collevolta impera o machismo mais absoluto e quando se 
aperceberem de que tem pernas para andar vo-lhe tornar a vida difcil - 
avisou o professor.
- vou guardar o seu conselho religiosamente. Muito obrigada por tudo, 
professor.
Saiu da sala e foi  cozinha. Tinha fome. O frigorfico estava 
praticamente vazio. Talvez a me fosse s compras antes de regressar a 
casa. Encontrou uma ma, lavou-a e trincou-a. Naquele momento tocou o 
telefone.
Atendeu no hall. Sentiu um arrepio quando ouviu a voz do advogado Asetti, 
que lhe perguntava: - Mas que histria  esta? Desde quando  que voc se 
permite deixar um emprego sem o pr-aviso regulamentar?

161

- Desde que o meu patro se permite liberdades intolerveis - respondeu 
Liliana, com calma.
- J lhe pedi desculpa. No chega? - perguntou ele, aborrecido. Liliana 
no replicou e o advogado continuou: - No seja tonta. Quer um aumento de 
ordenado? De acordo! E agora volte para aqui a correr, porque h muito 
trabalho para despachar - ordenou.
- Nem pense - rematou Liliana.
-  a sua ltima palavra? - perguntou, furibundo.
- Exactamente, doutor - respondeu ela, segura.
- Voc  uma cretina presunosa, uma incompetente, e nunca h-de fazer 
carreira.
Liliana desligou o telefone. Apesar de no ter nenhuma estima por aquela 
personagem abjecta, sentiu-se profundamente ferida com o insulto.
Refugiou-se no seu quarto, estendeu-se na cama e chorou. A me tinha-lhe 
dito, mais do que uma vez: Os homens so uma raa malvada: quando uma 
mulher d troco,  uma galdria, quando no d  uma cretina. Os minutos 
iam passando e, no entanto, no conseguia deixar de soluar.
Foi ento que o telefone voltou a tocar. No tinha vontade nenhuma de 
atender. O aparelho retinia sem parar. Limpou as lgrimas, regressou  
sala e, finalmente, levantou o auscultador, dizendo:
- Quem ?
- Fala Sandro Brioschi, desejava falar com a Dra. Corti - disse o 
contabilista, que no a tinha reconhecido.
- Sou eu. Boa-tarde, doutor - respondeu Liliana.
- Consegui o seu nmero atravs da secretria do Dr. Asetti. Como est? 
Liguei-lhe num momento inoportuno?
- O senhor  uma das poucas pessoas com quem me apetece falar - 
respondeu-lhe.
- J sei que se despediu. Fico contente por si.
- O Dr. Asetti ligou-me h pouco e encheu-me de insultos.
- Era de prever, conhecendo a personagem. Por que no me conta tudo em 
frente a um bom prato de massa? Ou seja, isto  um convite para jantar, 
se estiver de acordo.
- Muito obrigada. Aceito o convite - respondeu Liliana.
- vou busc-la s sete e meia. Est bem?

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- Est ptimo, doutor. Mais uma vez, obrigada - sussurrou.
Pousou lentamente o auscultador, virou-se e viu a me, parada
 porta da sala. Trazia dois grandes sacos de compras e olhava para ela 
com curiosidade.
- Muito obrigada, aceito o convite, ptimo, mais uma vez obrigada - 
repetiu Ernestina, imitando-a.
- Ento? - perguntou.
Liliana decidiu no falar, incomodada pela intromisso da me. Abriu os 
braos, como que a dizer que no tinha nada de especial para contar, e 
foi para o quarto.

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Sandro Brioschi estava  espera dela em frente ao porto. Parecia muito 
mais jovem do que era na realidade. Trazia um casaco de linho cor de 
tabaco claro e umas calas azul-escuras, uma camisa azul-plido e uma 
gravata regimental de riscas azuis e cor de tabaco. Ela reparou no brilho 
dos sapatos, tipicamente ingleses, muito elegantes. Quando a viu, abriu 
os lbios num sorriso. Cumprimentaram-se com um aperto de mo.
 frente deles estava estacionado um Alfa cinzento metalizado e o 
contabilista abriu a porta para ela entrar. Meia hora depois estavam num 
restaurante sobre a Darsena dei Navigli, por baixo de uma prgola que 
suportava uma viosa videira canadiana. Sandro Brioschi afastou a cadeira 
para que Liliana pudesse sentar-se no seu lugar na mesa que tinha 
reservado.
- Est muito elegante, doutora - constatou Sandro, observando o vestido 
liso de seda azul-escuro debruado a branco que Liliana vestia.
- O meu irmo desenha os modelos e a minha me corta e confecciona - 
explicou ela.
O dono do restaurante props uma entrada de camares, tagliolini com 
lavagante e dourada grelhada. Tudo acompanhado por um Pinot fresqussimo.
Liliana comeou por lhe contar a entrada para a Collevolta e nunca mais 
parou de falar. Quando o empregado serviu a salada de frutas com o 
gelado, tinha j traado um quadro completo da sua

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vida: os pais operrios, o pai sindicalista, a casa do corso Lodi, a 
amizade com as senhoras Pergolesi, a mudana para o apartamento de Porta 
Romana, a histria com Danilo, a homossexualidade de Giuseppe, o mau 
feitio da me, o temperamento optimista do pai e a sua determinao para 
enfrentar o mundo do trabalho.
- Agora que sabe tudo de mim, acho que podemos tratar-nos por tu - 
concluiu.
- Obrigado. Gosto do teu nome,  muito doce. Li-li-a-na, parecem quatro 
notas musicais. Peo-te que aprecies este voo potico da parte de um 
contabilista - brincou.
-  um cumprimento lindssimo - disse Liliana, divertida.
- Estou-te a fazer a corte, no sei se j deste conta - comunicou Sandro.
- Achas ento que a vida te est a oferecer uma segunda possibilidade? - 
perguntou-lhe, recordando o encontro na via San Vittore.
- Talvez, se mo permitires.
- Gostava que aprendssemos a conhecer-nos devagarinho, dia aps dia. No 
sou uma pessoa de temperamento fcil, mas sei aquilo que quero: uma bela 
famlia e um trabalho empolgante. Achas que vou conseguir ter tudo isso? 
- perguntou-lhe.
- No sei, mas gostava de te ajudar a realizar os teus sonhos - disse 
ele, olhando-a com adorao.
Sandro levou-a a casa.
- s to jovem e tens tanto entusiasmo. Se no o perderes pelo caminho, 
vais chegar ao topo do mundo - sussurrou-lhe, enquanto Liliana abria o 
porto do prdio.
Liliana estendeu-lhe a mo e Sandro aproximou o rosto do dela. Deu-lhe um 
beijo na testa. Depois afastou-se.
- Fui demasiado ousado? - perguntou, a sorrir.
- Espero que faas melhor da prxima vez - respondeu ela.
- Estou um bocado atrapalhado. Podia quase ser teu pai.
- Mas, felizmente, no s - disse Liliana, com um ar malicioso. Entrou em 
casa, fechou o porto, apoiou nele os ombros e suspirou profundamente. 
Quase tinha medo de admitir que era feliz.
Quando entrou em casa, Rosellina foi ter com ela e anunciou em voz baixa: 
- A me estava na varanda e viu tudo.
- Tudo, o qu? - perguntou Liliana.

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- Um homem a beijar-te.
- No te metas tambm na minha vida, por favor. Isto no  uma casa,  um 
ninho de vboras - replicou, indignada.
Fechou-se na casa de banho, saiu de l ao fim de um quarto de hora e 
refugiou-se no seu quarto. Rosellina estava estendida em cima da cama,  
espera dela.
- Fora daqui! - ordenou a irm.
- Por favor, no me mandes embora. Estou morta por saber tudo - suplicou 
Rosellina.
- Para depois espalhares aos quatro ventos o fruto das tuas fantasias. 
V, rua - insistiu.
Liliana no estava to irritada como parecia. J contava com a 
intromisso da me e com a curiosidade da irm. Ia deix-las cozinhar em 
fogo lento. Enfiou-se na cama e adormeceu.

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VIA PALEOCAPA

- Est a ver, Dr. Crucill, a empresa preocupa-se acima de tudo com a 
segurana dos seus operrios que, como facilmente se entende, so o nosso 
patrimnio - comeou Liliana, no papel de assessora para as questes 
jurdicas da segurana nas instalaes.
- Dra. Corti, aviso-a j que no nasci ontem. O patrimnio da Collevolta 
 outro. Os operrios vo e vm - advertiu o funcionrio da Inspeco do 
Trabalho, um siciliano que j tinha combatido em mil e uma batalhas e 
conhecia perfeitamente a sua rea.
- Os nossos operrios so o nosso patrimnio, repito-lhe. Gastamos uma 
fortuna em formao, porque basta que um, s um de entre eles, erre na 
ligao de um cabo e a rede vai toda pelo ar. Portanto, o 
profissionalismo e a segurana dos nossos operrios so a nossa garantia. 
Parto desta premissa porque, se estiver de acordo relativamente a esta 
questo, podemos entender-nos quanto a tudo o resto - precisou ela, nada 
intimidada com o ar severo do seu interlocutor.
Era o fim de Julho e o calor do Vero comeava a fazer-se sentir at 
dentro das paredes espessas do Centro de Inspeco do Trabalho. O Dr. 
Crucill, de compleio robusta, passava de vez em quando um lencinho 
pelo rosto para secar o suor. Liliana, imperturbvel, estava sentada em 
frente a ele e recorria a todo o seu sangue-frio para no mostrar a 
tenso daquela primeira entrevista, de cujo xito dependia o seu 
prestgio na Collevolta.

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Tinha passado quase um ms a estudar e a analisar os complexos mecanismos 
que regulavam todo o funcionamento da empresa com uma particular ateno 
ao sector da sua competncia. Todas as noites preparava uma lista de 
perguntas e na manh seguinte apresentava-se no gabinete do engenheiro 
Passeri para obter respostas precisas e pormenorizadas. s vezes o chefe 
dava sinais de impacincia pelo detalhe com que a Dra. Corti analisava as 
suas respostas e pretendia novos esclarecimentos.
- J chega, doutora. Voc tem o dom de me cansar - sussurrava, no limite 
da tolerncia.
- Peo desculpa, mas tambm tenho de ter em conta as novas normas que vo 
surgindo todos os dias e a linguagem destes legisladores  to retorcida 
e to desmesuradamente ambgua que se presta a interpretaes 
contraditrias. Passei a noite a estudar as normas e a tentar traduzi-las 
em conceitos claros. Por isso lhe peo para me dedicar mais alguns 
minutos do seu tempo - explicava-lhe, ostentando um sorriso desarmante.
- Mas voc nunca descansa? - perguntava-lhe o engenheiro.
-  um luxo que no me posso permitir. Tenho ainda demasiadas coisas para 
aprender - justificava-se.
Era a primeira a chegar ao escritrio e a ltima a sair. Tinha aprendido 
a vestir-se de uma maneira discreta, um pouco no estilo da signorina 
Dotti: tailleur e blusa, sem maquilhagem, sem saltos altos, s com 
algumas gotas do seu perfume.
Apesar disso, os empregados da Collevolta paravam a olhar para ela, 
quando passava pelos corredores com o seu passo decidido. Os comentrios, 
sussurrados em dialecto milans, eram inteis. Liliana nem os ouvia, mas 
adivinhava-os e ignorava-os, enquanto avanava de cabea erguida.
s cinco e meia da tarde, os escritrios encerravam. No silncio que 
subitamente caa no edifcio, Liliana estudava os processos do arquivo.
Uma manh apresentou-se ao engenheiro Passeri a pedir-lhe informaes 
sobre um fornecimento de capacetes de proteco.
- No ano passado foram encomendados cinco mil e foram pagos a um valor 
vinte por cento inferior relativamente aos oito mil adquiridos h dois 
anos. Como  possvel? O fornecedor  sempre o mesmo e at o modelo  
idntico, mas desta vez falta a documentao

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sobre os testes de resistncia. Parece-me estranho que o custo tenha 
diminudo, em vez de aumentar - observou.
- Para mais esclarecimentos, dirija-se ao departamento de compras - 
rematou.
Liliana no se rendeu.
- J fiz isso. O director sabe tanto como eu, porque s c est h trs 
meses. Procurei o anterior: est de frias. Para este fornecimento, 
vendido abaixo do custo, faltam os testes de controlo. E se tivesse 
defeito? Pensando no pior nunca nos enganamos e eu gostava muito de 
desvendar este pequeno mistrio, para depois poder ficar com o corao em 
paz - disse.
- Doutora, o controlo j tinha sido feito para a aquisio anterior, por 
isso no era preciso para nada - explicou o engenheiro. E acrescentou: - 
Est tudo esclarecido?
- Parece que sim, mas por que ser que no fico sossegada? - perguntou 
ela.
O chefe no respondeu.
Poucos dias depois, um operrio teve um acidente grave enquanto instalava 
uns cabos de alta tenso. Foi atingido por uma descarga elctrica que o 
fez cair de uma altura de dez metros. O capacete de proteco no 
resistiu ao impacto com o solo e o homem acabou por sofrer um traumatismo 
craniano.
- Bem me parecia - sussurrou Liliana.
Tratou de organizar as acusaes legais. Entretanto o estado de sade do 
operrio era bastante crtico e o seguro levantou a questo do capacete 
de proteco. Naquela fase interveio a Inspeco do Trabalho. 
Desencadeou-se um mecanismo de contenciosos burocrticos que ia durar um 
tempo infinito. Liliana no gostava de questes que se arrastassem no 
tempo e decidiu enfrentar imediatamente o problema. Para proteger a 
Collevolta, promoveu uma denncia contra o fornecedor de capacetes.
Depois marcou um encontro com o inspector Crucill, que na empresa 
ganhara fama de perseguidor impiedoso e tinha sido apelidado de Javert, 
como o implacvel comissrio de Os Miserveis.
Agora Liliana estava sentada em frente a ele, determinada a resolver 
aquele contencioso.
- A Collevolta no  aquele recanto do paraso que est a tentar 
desenhar. Conheo perfeitamente os expedientes que utiliza

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para contornar as normas de segurana, que tm os seus custos enquanto 
que a empresa tem como objectivo o mximo lucro com o mnimo esforo. 
Fao-me entender? - disse-lhe.
- Acabei o meu curso com uma tese sobre direito de trabalho. Como  que 
pode pensar que eu estou aqui a defender as nossas razes sem ter a 
certeza de que estamos legais?
- No s penso, como estou perfeitamente convencido - afirmou o homem.
- No seu lugar, provavelmente, at eu estaria. Por isso lhe peo que d 
uma vista de olhos, a ttulo confidencial, a este relatrio que a minha 
empresa no conhece e que nunca vai chegar s mos do seguro para no 
prejudicar o trabalhador sinistrado - disse, ao mesmo tempo que lhe 
estendia um breve relatrio do acidente, o qual referia que o operrio 
cara porque no teve o cuidado de apertar o fecho que o devia segurar ao 
poste de electricidade.
Liliana estava convencida de que a empresa tinha a sua parte de 
responsabilidade por no ter pedido o controlo dos capacetes, mas o 
acidente teria sido evitado se o operrio no tivesse sido negligente.
- Parabns, doutora, tirou o coelho da cartola, como um hbil ilusionista 
- disse o inspector a sorrir.
- Ento, o que fazemos? - perguntou Liliana, que estava decidida a no 
revelar a negligncia do operrio com a condio, porm, de que a 
Inspeco do Trabalho ignorasse o incidente.
Crucill abriu os braos e suspirou, resignado.
- Tudo bem, Dra. Corti. Por esta vez encerramos o incidente sem 
consequncias e esperemos que o seu operrio sobreviva.
Liliana saiu do edifcio e telefonou imediatamente ao engenheiro Passeri.
- No h sanes, por esta vez - comunicou-lhe.
- Como  que fez? - perguntou o chefe.
- Disse-lhe a verdade - respondeu ela. Aquela verdade que conheciam os 
trs: o colega do operrio sinistrado que tinha feito o relatrio, ela e 
o Dr. Crucill. Nenhum dos trs ia falar.

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O Dr. Eleuteri juntou as mos e, enquanto as esfregava uma na outra, 
disse a Liliana: - Muito bem, muito bem. Conseguiu sair-se 
admiravelmente.
Os acidentes de trabalho imputveis  negligncia do empregador 
comportavam sanes muito pesadas da parte da Inspeco do Trabalho e no 
era fcil encontrar escapatrias, sobretudo desde que Crucill se ocupava 
dos sinistros mais graves, como no caso, precisamente, do operrio que 
tinha cado de um poste de electricidade. Ningum estaria  espera de um 
resultado positivo sado daquela primeira conversa de Liliana com 
Crucill.
Agora ela olhava de esguelha para o director, perguntando-se mais uma vez 
por que razo aquele rosto lhe seria familiar. E naquele momento percebeu 
que o homem se parecia com o seu actor preferido: Charlton Heston.
- Duas gotas de gua - deixou escapar.
- Como disse, doutora?
Ela voltou imediatamente  realidade e retomou o fio do discurso.
- Digo que deviam ser eliminadas certas superficialidades desastrosas da 
nossa parte e no tenho assim tanto a certeza de que o comissrio Javert 
tenha feito bem em no abrir um contencioso.
O director, o engenheiro Passeri e o chefe do departamento de compras, 
sentados com ela nos sofs de couro, olharam-na, perplexos.

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-  evidente que a doutora lhe apresentou argumentos irrefutveis - 
comentou o chefe do departamento de compras com um sorriso brincalho.
Eleuteri ficou com um ar sombrio. O comportamento do seu colaborador era 
inoportuno e de mau gosto. Mas Liliana no precisava de um advogado de 
defesa.
- Foi exactamente isso. Levei elementos jurdicos irrefutveis obviamente 
sem a ajuda de quem tinha o dever de levar a srio as minhas suspeitas - 
disse com um tom provocatrio, olhando bem nos olhos o chefe do 
departamento de compras.
O homem corou e encolheu a cabea nos ombros, como uma tartaruga 
assustada.
Tocou o telefone e a signorina Dotti, testemunha muda de todas as 
reunies, apressou-se a responder. Depois tapou o auscultador e 
sussurrou, na direco de Eleuteri: - O Sr. Presidente.
com duas passadas, o homem chegou junto da mesa, tirou o auscultador das 
mos da secretria e, batendo os taces como se estivesse na presena de 
um general, disse: - Bom-dia, Sr. Presidente.
No gabinete todos eles ouviram o eco da voz estridente do grande chefe. 
Eleuteri, sempre atento, ouvia e de vez em quando dizia: - Claro, Sr. 
Presidente. Obrigado, Sr. Presidente.
Os presentes ouviram o clic que ps fim  comunicao.
Era sabido, na Collevolta, que o Dr. Eleuteri devia a sua carreira ao 
facto de pertencer a uma famlia importante, que contava entre os seus 
membros com um bispo, um parlamentar e um general do exrcito. Sabia-se, 
tambm, que tinha frequentado a academia militar de Cuneo e que, em 
obsquio  vontade paterna, abandonara a farda para assumir aquele 
prestigioso cargo na Collevolta. O respeito hierrquico, no entanto, 
ficara-lhe agarrado como uma segunda pele e, quando o presidente lhe 
telefonava, prevalecia sobre as suas faculdades racionais.
A signorina Dotti, nesse momento, tirou-lhe o auscultador da mo e 
pousou-o no stio. Ento Eleuteri juntou as mos, esfregou lentamente as 
palmas uma na outra e repetiu: - Muito bem, muito bem. - Depois dirigiu 
aos presentes um olhar confuso e balbuciou: - O presidente disse...
- Para se atribuir  Dra. Corti uma secretria pessoal e para a propor, 
no Outono, para uma promoo - esclareceu a signorina

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Dotti que, uma vez que se encontrava ao lado dele, tinha ouvido as 
instrues do presidente.
- Muito bem, muito bem - repetiu Eleuteri, que tinha recuperado o seu 
autocontrole. Depois acrescentou: - Como v, Dra. Corti, na nossa grande 
famlia os mritos so sempre reconhecidos. Acho, ento, que podemos 
retomar o nosso trabalho.
Liliana parou para tomar um caf no rs-do-cho antes de regressar ao 
gabinete, um compartimento minsculo que continha uma escrivaninha, duas 
cadeiras e os arquivos metlicos. Encontrou um homem  espera dela. Era 
Bonfanti, o chefe da comisso interna.
Liliana conhecia-o de vista, mas nunca tinha falado com ele.
- Ento, vai ser promovida - comeou o homem.
As notcias, dentro da Collevolta, voavam a uma velocidade superior  da 
luz.
- Bom-dia, Bonfanti - disse ela, enquanto se sentava atrs da 
escrivaninha.
O homem fumava um cigarro e esticava um brao em direco  janela aberta 
para deixar cair a cinza no peitoril. Ela pegou no prato onde estava 
pousado um vaso pequeno com uma hera, que herdara do seu antecessor, e 
estendeu-lho.
- Aqui pode-se fumar sem ser s escondidas? - perguntou, espantada.
- Por que  que no havia de poder?
Ela nunca tinha ousado faz-lo, mas naquele momento apressou-se a tirar 
um cigarro da carteira. Bonfanti acendeu-lho. Liliana continuou: - Toda a 
gente aspira a subir de posio. O moo de recados espera vir a trabalhar 
no armazm, o operrio quer ser chefe de seco, um funcionrio como eu 
aspira a um patamar superior. Eu sei que  uma maneira um bocado 
disparatada de interpretar a vida. At voc tem algumas ambies no 
sindicato. Quem trabalha numa grande cidade tem de ser competitivo, se 
quiser sobreviver. Perdemos o conceito de um mundo feito  medida do 
homem. E agora diga-me a que devo o prazer da sua visita - perguntou, 
aspirando o fumo do cigarro.
- Fora do dever - respondeu Bonfanti. - Para alm do mais,  a filha do 
Renato Corti. Todos ns conhecemos o seu pai. Os meus cumprimentos, 
doutora. - Sorriu-lhe e desapareceu de repente, tal como tinha chegado.

175

Naquela noite Liliana conversou com o pai a propsito do comportamento de 
Bonfanti.
- O teu cargo deveria ser puramente tcnico, mas, no interior de uma 
grande empresa, assume tambm conotaes polticas.  normal que o 
sindicato te tenha debaixo de olho - comentou Renato.
- Eles sabem que eu dialoguei com a Inspeco do Trabalho Ponto final - 
precisou Liliana.
- Eles sabem muito mais do que tu imaginas. Por exemplo sabem que 
encobriste a negligncia de um companheiro. Esto-te gratos e quiseram 
que soubesses disso.
- Achas mesmo que esto assim to bem informados? - perguntou ela, 
espantada.
Renato anuiu.
- Eu acho que tu s a pessoa certa no stio errado. A Collevolta devia 
colocar-te no departamento de pessoal. A podias fazer alguma coisa de 
mais interessante - afirmou.
Ernestina entrou na sala para levar o caf ao marido e  filha. Sentiu 
cimes daquela intimidade e reagiu como sempre: a resmungar.
- O que  que vocs os dois tm tanto para conversar? - perguntou. Depois 
voltou-se para o marido, dizendo: - Tinhas prometido que me levavas ao 
cinema, hoje  noite. - Depois disse  filha: - E tu, por que  que no 
vais dar uma volta com o teu apaixonado velho?
Renato e Liliana trocaram um olhar de entendimento e sorriram. Ernestina 
no mudava. Arranjava sempre uma oportunidade para exprimir o seu 
descontentamento. com efeito, prosseguiu:
- O Giuseppe s me aparece na fbrica. J para no falar do Pucci e da 
Rosellina, sempre de um lado para o outro a dar  perna. Vocs os dois 
falam de trabalho, mas entretanto esto a de papo para o ar  espera que 
vos sirvam. Quem  que tem de lavar, de limpar, de passar a ferro, de 
fazer as compras? Eu, sempre e s eu! Mas se eu voltar a nascer... - No 
concluiu a ameaa e saiu da sala.
Pai e filha ficaram outra vez sozinhos. Gostavam muito um do outro e 
sentiam orgulho mtuo.
- Um destes dias vou-te apresentar o Sandro - disse Liliana.
- No  uma grande paixo, pois no? - perguntou Renato.
- Ainda no, mas h-de ser. Gosto muito dele,  um homem  moda antiga, 
boa pessoa, de confiana.

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Renato pensou que nunca tinha transmitido nenhuma confiana  mulher, mas 
Ernestina sempre o amara.
-  pena - sussurrou.
- Porqu? - perguntou a filha.
- Porque  bom estar loucamente apaixonado - disse o pai.

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O restaurante sobre a Darsena tornara-se o ponto de encontro clssico 
para o jantar de segunda-feira. Liliana e Sandro viviam a sua histria 
serenamente, habituando-se um ao outro dia aps dia.
Era o fim de Julho e o contabilista estava prestes a encerrar o 
escritrio para frias. Tinha programado havia algum tempo as habituais 
frias no Norte da Europa, na companhia de alguns velhos amigos e das 
suas mulheres. Sandro sempre tivera uma companheira para estas viagens de 
carro. Chamava-se Denise Gattoni, era de nacionalidade sua e vivia em 
Lugano, onde dirigia a filial de uma cadeia de grandes armazns. Denise 
tinha vivido em Milo durante vrios anos, onde casou com um italiano, 
funcionrio de um banco, de quem teve dois filhos. Um dia o marido 
desapareceu, levando consigo o contedo do cofre, e ela ficou sozinha com 
os filhos. Nunca mais teve notcias do marido e foi outra vez viver para 
a Sua com os dois filhos, em casa dos pais. Mas teve de voltar a Milo 
por diversas vezes para tratar de alguns assuntos de carcter econmico e 
o seu advogado aconselhou-a a dirigir-se a um contabilista, Sandro 
Brioschi.
Assim nasceu a tranquila relao entre o vivo e Denise Gattoni. Para 
alm das frias de Vero, passavam os sbados juntos, numa pequena casa 
que Denise tinha em Gaggiolo, junto da fronteira sua. Ao domingo de 
manh ela levava Sandro  estao de Varese, onde ele apanhava o comboio 
para regressar a casa, e depois voltava para Lugano.

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O primeiro encontro entre Liliana e o contabilista tinha ocorrido, 
precisamente, no comboio para Milo.
A relao entre Denise e Sandro durava j h vrios anos, sem promessas 
nem projectos de uma vida em comum.
Aps o incio da histria com Liliana, Sandro no voltou a estar com 
Denise. Regressou a Gaggiolo uma nica vez.
Denise e ele passaram o dia num barco, a pescar no lago. Trocaram poucas 
palavras, apanharam alguns lcios e depois regressaram a casa. Ela 
comeou a cozinhar o peixe enquanto ele, na varanda, bebia um copo de 
vinho e contemplava o pr-do-sol. Quando Denise foi ter com ele, 
perguntou-lhe abertamente: - H alguma coisa que eu deva saber?
Sandro anuiu: -  muito simples: apaixonei-me - confessou. E continuou: - 
Lamento muito, Denise. Foste uma boa amiga e estou-te grato por isso. 
Fizemos companhia um ao outro durante muitos anos, mas nunca fizemos 
projectos para o futuro. Por favor, deixa-me seguir o meu caminho. - 
Estava comovido e no conseguiu dizer mais nada.
Ela sussurrou: - S te desejo que nunca sejas posto de lado, como ests a 
fazer comigo.
Agora, enquanto jantavam e Sandro afagava pensativo a mo de Liliana, ela 
disse-lhe: - H alguma coisa que te preocupe?
- Quero que tu saibas que, nos ltimos anos, tive uma... uma... histria 
com uma mulher.
- J imaginava. Acabou? - perguntou a rapariga.
- Sim, alis, no chegou a comear, no sentido em que nunca pensmos em 
viver juntos - respondeu Sandro, e acrescentou:
- No entanto, no  fcil para ela ficar sozinha, depois de termos andado 
juntos durante tanto tempo. E isso aborrece-me, porque  uma boa amiga.
- Por que me contas isso?
- No gosto de segredos e queria salvar a minha amizade com ela.
-  justo. Ento no deixes de a ajudar.
Naquela noite, ao regressar a casa, Sandro voltou a pensar nas palavras 
de Liliana e decidiu seguir o seu conselho. Ia ajudar Denise, pelo menos 
enquanto ela tivesse necessidade disso.

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Pucci e Giuseppe, estendidos nas cadeiras,  sombra do guarda-sol, liam o 
jornal, ignorando o barulho que reinava naquela praia. De vez em quando 
trocavam algumas palavras. Para Pucci, aquelas eram as primeiras 
verdadeiras frias na praia e estava a goz-las ao mximo. Em criana era 
despachado para a colnia de frias de Cesenatico com o irmo e, daqueles 
tempos, conservavam ambos uma recordao dilacerante. Os irmos Corti 
sofriam como um exlio aquele afastamento da famlia e, agarrados um ao 
outro, contavam os dias que os separavam do regresso a casa. As 
vigilantes chamavam-lhes os dois rfos e era mesmo assim que se 
sentiam, longe de casa.
Passada a idade de irem para a colnia de frias, ficaram felizes por 
poderem passar o Vero na cidade. Depois cresceram. Naquele ano, Giuseppe 
tinha ido para a praia com Filippo, para a Cte d'Azur. Mas alguns dias 
depois telefonou a Pucci e disse-lhe: - Daqui a pouco vais para 
Cesenatico com a Rosellina, para o concurso de dana. Por que no vamos 
j e fazemos umas feriazinhas? A nossa querida irm pode ir ter connosco 
mais tarde, de comboio.
Agora Pucci contemplava aquela extenso de areia como se aquilo fosse a 
praia de Miami e a penso familiar em que estavam hospedados parecia-lhe 
um grande hotel. De vez em quando comentava, satisfeito: - Isto  que  
vida!
Disse-o tambm naquele momento. E Giuseppe, que estava a folhear uma 
revista de moda, observou: - Se quisermos falar a

180

verdade, o nosso hotel no  dos melhores da costa. Para mim est bem 
assim, at porque tu e a Rosellina j tinham marcado os quartos e, para 
alm disso, sei que ias ficar desesperado com a ideia de gastares umas 
liras a mais.
- Tu, pelo contrrio, s o Rockefeller - disparou Pucci, que amuava 
quando algum fazia referncia  sua parcimnia.
Giuseppe lembrou-se da villa de Cannes onde tinha sido hspede, com 
Filippo, de um industrial de Milo. Parecia realmente a residncia dos 
Rockefeller. No entanto, no se sentiu  vontade naquele ambiente que no 
lhe pertencia. Preferia a penso modesta de Cesenatico.
- Sabes que eu no gostava de ser milionrio - disse ao irmo.
- Eu gostava - replicou Pucci.
- Se tu conhecesses aquele ambiente, fugias a sete ps.  um carrossel de 
maneiras afectadas que se manifestam por hbito ou convenincia, mas sem 
nenhum envolvimento emotivo, uma procura aflitiva dos stios certos, da 
gente certa, da roupa certa, e os dias naufragam numa srie de 
banalidades sem fim - confessou Giuseppe, enquanto se questionava sobre a 
sua relao com Filippo que, depois dos primeiros meses de uma euforia 
arrebatadora, estava a deslizar para o tdio. Talvez por causa das 
pessoas de quem ele gostava de se rodear, que precisavam de inventar 
extravagncias contnuas para sobreviver.
- Quer isso dizer que todos os ricos so enfadonhos - comentou Pucci com 
ironia.
- Os que eu conheci so. Estou farto de grandes hotis, de casas que 
parecem museus, de maricas a abanar o rabo, de cabeas vazias e de gente 
arrogante.
Pucci deixou escorregar os culos de sol para a ponta do nariz e dirigiu 
ao irmo um olhar perplexo.
- Devo ter deixado escapar algum detalhe. A que ponto da tua vida 
chegaste? - perguntou.
- Nem eu entendo muito bem. Acho que no me desagradava voltar a viver em 
casa - sussurrou.
- Ah, no! O meu quarto  s meu e no tenciono dividi-lo contigo - disse 
Pucci, alarmado. Mas logo a seguir perguntou:
- Tens problemas com o teu namorado?

181

- Discutimos muitas vezes, desde h algum tempo, e no  por culpa dele. 
O facto  que ele gostava que eu fosse diferente daquilo que sou.
- Porqu? Como  que tu s?
- Sou um Corti, como a me est sempre a dizer, e gosto de chamar as 
coisas pelos nomes. Mas acabo por estar sempre no meio de gente que 
insinua, pisca o olho, representa. Gosto muito do Filippo, mas no fomos 
feitos para viver juntos. A princpio deixei-me ofuscar pelo luxo, pelas 
boas maneiras, por aquele mundo. Depois comecei a tirar as medidas a toda 
aquela gente.
- Pois,  a tua especialidade. Desde pequenino que andavas pela casa fora 
com a fita mtrica ao pescoo - brincou Pucci.
- E percebi que vou ter de recuar. Tenho vinte e dois anos. Se no 
corrijo agora a minha rota, quando  que a vou poder corrigir? - 
perguntou ao irmo.
- Ests mesmo  espera de uma resposta? Pois eu sinto ar de borrasca, e 
no s no sentido metafrico. Olha para aquelas nuvens enormes l ao 
fundo. vou tomar um banho, antes que venha o temporal - anunciou Pucci, e 
comeou a correr sobre a areia escaldante, ziguezagueando por entre 
bandos de crianas, mes e avs que se amontoavam em cima das toalhas. 
Giuseppe seguiu-o e os dois irmos nadaram lado a lado, com braadas 
enrgicas, dirigindo-se ao largo, onde a gua era lmpida.
Quando regressaram, a praia estava vazia, os banheiros acabavam de fechar 
os guarda-sis e no cu disparavam os relmpagos de um forte temporal de 
Vero. Cobriram-se com as toalhas e sentaram-se debaixo do coberto do 
bar.
- Lembras-te dos nossos veres nesta praia? - perguntou Giuseppe.
- L diante, do outro lado daquela rede - disse Pucci, que estava a 
pensar na mesma coisa, enquanto observava a zona reservada  colnia de 
frias.
- Tinha morrido de dor sem ti - disse Giuseppe. - Mas por que  que nos 
mandavam para a colnia?
- Por sadismo. A Liliana e a Rosellina nunca tiveram de aguentar aquele 
calvrio - comentou Giuseppe.
- Mas aprendemos a gostar muito um do outro e a perceber como a famlia  
importante.

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- Lembras-te daquela menina de tranas loiras que nos dava rebuados? - 
perguntou Giuseppe.
- Chamava-se Sabrina. Estava apaixonada por ti - disse Pucci.
- A mim dava rebuados de limo e a ti de framboesa, porque sabia que no 
gostavas de limo. Nem eu gostava. Mas gostava dela.
- Quando a me e o pai nos vinham buscar  piazza Castello,  paragem das 
camionetas, eu odiava-os - disse Giuseppe.
- Tambm eu.
- Mas ficvamos felizes por regressar finalmente a casa. Lembras-te 
quando a Liliana dizia: C esto eles, os meninos, todos bronzeados!? 
Dava-me vontade de a esgadanhar.
- Foram anos fantsticos, vistos com os olhos de hoje.
Os dois meninos solitrios e melanclicos que tinham vestido as fardas 
tristes da colnia de frias eram agora homens lindssimos e havia muitas 
raparigas, na praia e na penso onde estavam hospedados, que lhes 
lanavam olhares meigos.
A Giuseppe no interessavam e Pucci fingia ignor-las porque gostava de 
Ariella, uma rapariga de Forli, com dezoito anos, que ali estava de 
frias com a me.
O temporal afastou-se. No azul-claro do cu apareceu um arco-ris 
fantstico e os dois irmos regressaram  penso.
Os hspedes j estavam  mesa e a dona censurou-os pelo atraso. Serviu um 
risotto de amijoas e comentou: - Isto aqui no  a companhia dos 
telefones e eu no posso passar a manh inteira a atender toda a gente 
que os procura.
Assim ficaram a saber que a me, Liliana, Rosellina e o signor Filippo 
do costume os tinham procurado.
- O signor Filippo ligou trs vezes. Os outros disseram que no era nada 
de urgente - esclareceu a mulher, enquanto se afastava para servir os 
restantes clientes e ralhava com o filho por ser demasiado lento, com a 
filha por ter partido um copo e com o marido porque, da cozinha, no se 
decidia a passar o segundo prato.
- Isto no me agrada nada - disse Giuseppe baixinho.
- Mas olha que est muito bom! - rebateu Pucci.
- No estou a falar do risotto, mas do Filippo. Passa a vida a telefonar 
e isso aborrece-me - afirmou, e prosseguiu: - E o que querero as nossas 
mulheres?

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- Devem querer dizer-nos que a Rosellina est por a a chegar e que o 
Filippo tambm anda atrs delas. No ligues.
Pucci estava completamente concentrado em Ariella e quando os olhares dos 
dois se cruzavam sorria-lhe timidamente.
- s tantas, esta noite ainda a convido para danar - confiou a Giuseppe.
- Eu  que fao o convite, porque tenho uns modos mais convincentes - 
respondeu o irmo.
Ao fim do jantar, os clientes da penso passaram para o jardim e 
sentaram-se por baixo do toldo, onde tomaram o caf por entre um 
emaranhado de conversas e gritos das crianas que corriam umas atrs das 
outras  volta das mesas.
Giuseppe aproximou-se da mesa onde estavam sentadas Ariella e a me.
- Hoje  noite, no Dancing Florida, h um baile. Eu e o meu irmo 
gostaramos de acompanhar as senhoras, se quiserem ter a gentileza de 
aceitar o nosso convite - disse.
Ariella corou, enquanto a me, uma robusta domstica de ar sincero, 
respondeu: - Isso  mesmo boa ideia. Obrigada, signor Giuseppe. A minha 
filha e eu aceitamos de boa vontade.
Logo a seguir Giuseppe sossegou o irmo: - Da me, trato eu.
Nessa noite, no Dancing Florida, enquanto Pucci demonstrava toda a sua 
habilidade de bailarino numa valsa, segurando nos braos aquela deliciosa 
Ariella, Giuseppe rodopiava com a me, que elogiou, comparando-a a uma 
liblula.
Foi ento que, na beira da pista, surgiram Rosellina e o arquitecto 
Filippo Fioretti.

184
5
Liliana teve uma semana de frias em meados de Agosto e aproveitou 
aqueles poucos dias para descansar. De manh acordava tarde e depois saa 
para passear pelas ruas e praas do centro, inundadas de sol e 
semidesertas.
Milo, sem os milaneses, era uma cidade muito bonita.
Quando encontrava um caf aberto, fazia uma pausa para tomar um 
cappuccino e um brioche. Os empregados eram simpticos com os raros 
clientes e Liliana apreciava a qualidade do servio, o primeiro cigarro 
do dia e a leitura do jornal, que comprava pelo caminho.
Naquela manh, quando regressou a casa, a me estava a falar ao telefone 
com o marido.
- Deixa-me falar com ele - disse-lhe. Assim que ouviu a voz do pai, 
perguntou-lhe: - Em que ponto ests do teu percurso?
- Cheguei a Cortina d'Ampezzo - respondeu Renato. - Esta noite vou dormir 
num refgio da montanha.
Renato Corti passava sempre uma parte das frias sozinho, a andar de 
bicicleta nas montanhas. Era um afastamento regenerador em relao aos 
problemas do trabalho e da famlia e ningum, nem sequer Ernestina, 
alguma vez o contestara. Alguns dias antes da Partida comeava a preparar 
a mochila, onde levava tudo aquilo de que podia precisar para sobreviver.
Ao longo dos anos tinha definido diferentes itinerrios, com Paragens 
para a noite em pequenas penses.

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Pedalava durante todo o dia e parava nas povoaes apenas para mandar 
postais e ligar para casa.  noite tomava apontamentos num caderninho, 
normalmente reflexes sobre o mundo que tinha deixado atrs de si. O 
ltimo pensamento, antes de adormecer era para Ernestina e para os 
filhos. Esperava que algum deles, um dia, entendesse que o nico remdio 
para retemperar o esprito era pedalar no silncio dos bosques.
Disse  filha: - S queria que visses o espectculo destas montanhas.  
indescritvel!
Depois de ter falado com o pai, Liliana foi para a sala, estendeu-se no 
sof rococ e mergulhou na leitura de Fratelli d'Italia, de Alberto 
Arbasino.
No tinha passado meia hora quando a me assomou  porta da sala.
- Um caf? - perguntou-lhe. Liliana sorriu, fechou o livro e sentou-se.
- V, entra. Pareces uma alma penada - disse.
- Est a tornar-se um privilgio conseguir trocar meia dzia de palavras 
contigo - lamentou-se Ernestina, enquanto pousava em cima da mesa o 
tabuleiro com as chvenas. - Nestes dias sinto saudades dos tempos em que 
morvamos no corso Lodi. Havia sempre algum com quem conversar. Aqui dou 
por mim a falar com as paredes. J sabes que, se no falo, rebento.
- No, tu rebentas se no perguntas - corrigiu Liliana, enquanto mexia o 
acar no caf. - Queres sempre saber da vida dos outros.
- No  verdade. S me interessa a dos meus filhos. Mas s tu quem me 
aflige mais. Sempre to misteriosa! A Rosellina, apesar de s dizer 
disparates, fala at no poder mais. O Pucci foi sempre um livro aberto. 
O Giuseppe no tem segredos, nem sequer quando est calado. Tu s um 
mistrio. No te pareces nem comigo nem com o teu pai. No sei a quem 
foste buscar esse temperamento to estranho - lamentou-se.
- Ento, me, diz-me o que queres saber e eu respondo-te - props.
- Por que ests tu aqui comigo, sozinha, em pleno Agosto, em vez de 
estares com o teu namorado velho?

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- Porque ele est para fora com os amigos e a ex-companheira. Podia ter-
lhe dito que isso no me agradava e ele no o tinha feito. Mas no  
assim. Ele devia-lhe estes dias de frias, depois de ter destroado a 
vida daquela pobre mulher - explicou Liliana.
- Oh, meu Deus do cu! Esta agora... mas a que mundo  que eu viria 
parar? Mas que cabea tm os jovens? Tu... tu fazes projectos para o 
futuro com um homem que vai de frias com a ex-namorada? - disse 
Ernestina, escandalizada.
- Ora a est o resultado de ter falado contigo. Assim no te admires se 
normalmente estou calada, porque afinal tu no percebes nada - respondeu 
Liliana.
Sandro Brioschi tinha dito a Liliana: - Espero sinceramente que a Denise 
encontre um homem com quem possa viver. Mas entretanto ela tinha planeado 
as frias comigo e com os amigos. O que achas de eu lhe propor que v 
sozinha? Eu ficava em Milo, contigo.
- Agradeo-te muito, mas no gostaria que renunciasses s tuas frias - 
respondeu Liliana. - No tenho cimes da tua ex-namorada - acrescentou, 
mentindo.
- Eu no percebo nada, mas tu ests com uma cara que no me agrada - 
voltou Ernestina  carga, enquanto saa da sala e batia a porta.
Liliana bufou, resignada. Mais uma vez a me tinha razo: ela sofria de 
cimes e esperava com impacincia que Sandro regressasse.

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Os dois irmos Corti esperavam Rosellina em Cesenatico para o concurso de 
dana. No sabiam que ela ia chegar na vspera do dia estabelecido e na 
companhia do arquitecto Filippo Fioretti. Giuseppe encontrou-os  sua 
frente no momento em que acompanhava  mesa a me de Ariella e olhou para 
eles como se tivesse visto dois fantasmas.
Pucci interveio para salvar toda a gente do embarao, apresentando a irm 
mais nova e atribuindo a Filippo o papel de professor de dana.
- Mas se eu nem distingo uma polca de uma mazurca - protestou Filippo em 
voz baixa.
- Agora vais distinguir - sibilou Giuseppe, com um olhar duro. - E como 
castigo vais fazer a corte  me da Ariella.
- Tudo bem, at porque as mulheres maduras so a minha especialidade. 
Quanto ao resto, precisava de estar contigo, porque estava a ficar maluco 
sem ti - sussurrou-lhe o companheiro. Aos poucos, quando regressaram  
penso, acabou por surgir a explicao toda. Filippo confessou que tinha 
atormentado Liliana com telefonemas constantes e que, quando soube que 
Rosellina ia ter com os irmos a Cesenatico, partira imediatamente de 
Monte Cario. Foi a Milo buscar a rapariga, meteu-a no seu carro 
desportivo e avanaram para a Romagna.
- Tenho um quarto com duas camas no Hotel Mar e Pineta - anunciou 
Filippo.

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Era meia-noite e os trs irmos Corti, com Filippo, passeavam no Porto 
Canale.
- Eu vim de frias com o meu irmo e estou muito bem na minha penso - 
declarou Giuseppe.
- No posso ir eu dormir ao Mar e Pineta?  um stio fantstico! H 
empregados de casaco e gravata, tapetes persas nas salas e gente muito 
chique. Por favor, Giuseppe, deixa-me ir com o Filippo - suplicou 
Rosellina. Depois voltou-se para o outro irmo: - Pucci, diz-lhe tu 
tambm que eu preciso mesmo de ficar num bom hotel.
Pucci estava a pensar em Ariella e no respondeu.
- O Filippo no te quer l, nem eu quero que tu vs dormir com o Filippo 
- rematou Giuseppe.
- Mas ns no fazemos sexo! - garantiu.
- Rosellina, j chega - respondeu Filippo irritado, at porque s 
suportava aquela rapariga demasiado extrovertida por amor a Giuseppe.
- No levantes a voz com a minha irm - interveio Giuseppe.
- Desculpa, Rosellina, mas tu fazes perder a pacincia a um santo - 
defendeu-se Filippo.
Ela sorriu, satisfeita.
- Eu sei, a minha especialidade  fazer perder as estribeiras a toda a 
gente. Por isso agora deixo-vos sozinhos, mas fiquem a saber que esto a 
ser muito maus comigo, porque aquele hotel lindssimo  a minha aspirao 
mxima - disse, afastando-se com Pucci.
Assim que ficou sozinha com o irmo, comeou a meter-se com ele tambm. - 
Ests completamente apanhado pela Ariella. Por acaso ela at  gira. Mas 
eu tenho um bocadinho de cimes. S um bocadinho - confessou, enquanto 
regressavam  penso, de brao dado. E pediu-lhe: - Conta-me tudo.
- Olha, acabou o liceu este ano e passou com umas notas fantsticas. Tem 
uma irm casada que vive em Bolonha. A Ariella vai viver para casa dela, 
no Outono, porque se inscreveu na Faculdade de Letras. De Milo a Bolonha 
so s duas horas de comboio. Posso l ir aos fins-de-semana - explicou 
Pucci.
Mais tarde, Rosellina encontrou no trio a dona da penso, estafada com 
mais um dia de trabalho. A mulher ouviu, divertida, a tagarelice daquela 
rapariga de Milo que andava a tirar um curso

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para ser professora primria, sonhava tornar-se uma estrela de 
espectculo e ia participar, no dia seguinte, num concurso de dana no 
Dancing Florida.
Rosellina soube desviar a conversa quando a mulher quis fazer perguntas 
sobre aquele homem to bonito, de ar aristocrtico, que tinha chegado com 
ela de Milo.
-  o meu professor de dana - rematou, confirmando a verso de Pucci.
Na noite seguinte, na pista do dancing, perante um jri de especialistas 
munidos de tabuletas para indicar os pontos atribudos aos participantes, 
apagaram-se as luzes, a orquestra tocou os primeiros acordes de uma valsa 
vienense, fez-se silncio entre os espectadores e um projector iluminou o 
centro da pista onde Rosellina e Pucci estavam muito direitos, um em 
frente ao outro, de braos dados, preparados para executar os primeiros 
passos de dana.
Pucci vestia uma camisa branca com colarinho  russa e calas negras que 
faziam realar a cintura estreita e a musculatura perfeita das pernas.
Da plateia, Ariella olhou para ele e disse  me: - Que bonito que ele !
- No parece nada um guarda-livros - comentou a me que, para a filha, 
preferiria um jovem licenciado.
Rosellina vestia o fato de organza branca, enriquecido no peito com 
arabescos de lantejoulas prateadas, que Giuseppe tinha desenhado para 
ela. O cabelo, apanhado na nuca, deixava a descoberto um rosto de 
porcelana, de linhas delicadas.
Entre os espectadores, at os menos entendidos se aperceberam da classe e 
da elegncia dos dois jovens, e nasceu espontaneamente um longo aplauso 
quando deram os primeiros passos.
Rodopiavam com segurana pela pista, enquanto o pblico continuava 
extasiado, conquistado pela qualidade dos danarinos.  valsa seguiu-se 
um boogie-woogie. Foi ento um jogo rtmico de pernas saltitantes e de 
passagens quase acrobticas que revelou a habilidade dos dois jovens. O 
pblico no parava de aplaudir, ao mesmo tempo que os juzes se 
abandonavam a um claro consenso, muito sorridentes. Depois foi a vez do 
tango argentino e finalmente um fox-trot enrgico. E aconteceu o 
imprevisto: Rosellina errou

190

um passo, perdeu o equilbrio e caiu. No meio do pblico ergueu-se um 
coro de desapontamento. Pucci sussurrou  irm, enquanto a ajudava a 
levantar-se: - Coragem, no  o fim do mundo.
Rosellina foi sacudida por um soluo e abandonou a pista, lavada em 
lgrimas. No entanto, enquanto atravessava o estrado nasceu um espontneo 
aplauso de encorajamento. Pucci seguiu a irm at ao balnerio para 
tentar anim-la.
Os espectadores continuaram a bater palmas para chamar o par novamente  
pista, enquanto um elemento da organizao foi ao encontro dos irmos 
Corti.
- Querem-vos l outra vez. O jri penalizou-vos, mas o pblico reclama-
vos - anunciou. E acrescentou: - Chegou tambm uma jornalista do Carlino. 
Despachem-se a regressar  sala.
- Uma jornalista! - Para Rosellina era uma palavra mgica. Limpou as 
lgrimas, abriu os lbios num sorriso e, pelo brao do irmo, regressou  
pista com um passo leve. Curvaram-se os dois perante o pblico, que 
gritava: - Bravo! Bravo! Bis!
- Onde  que est a imprensa? - perguntou num sussurro a Pucci.
- No te excites.  s a crnica local - avisou o irmo, que nunca perdia 
o contacto com a realidade.
O presidente do jri anunciou ao microfone: - Extra concurso, para nossa 
satisfao, e tambm para acabar com esta algazarra, pedimos aos irmos 
Corti que repitam a ltima prova: o fox-trot.
Desta vez correu tudo na perfeio e demorou algum tempo at que os 
espectadores se resignassem a deix-los ir embora.
Enquanto despiam os fatos de dana, o mesmo elemento da organizao 
chegou perto deles e sussurrou: - Est ali um sujeito que diz que  
coregrafo, quer falar convosco.
- Quem ? Como se chama?
- J no me lembro. Mas est ali fora  vossa espera.
Era Max Garcia, o coregrafo que realizava os espectculos de variedades 
para os programas da RAI.

191

Sandro regressou de frias mais cedo. Liliana encontrou-o um fim de 
tarde, ao sair do porto da Collevolta. Estava bronzeado e achou-o 
fascinante. Ela tinha trabalhado durante doze horas consecutivas, sem ter 
sequer parado para almoar. Estava exausta. Tinha o cabelo despenteado, a 
saia de linho azul-escura, apertada na cinta por uma faixa de tecido 
verde, estava completamente amarrotada e a blusa de piqu branco tambm 
no estava em muito bom estado. Sentia-se desfeita.
- H quanto tempo ests  minha espera? - perguntou-lhe, como se tivessem 
acabado de se separar. Eram nove horas da noite.
- H um bocado - respondeu ele, olhando-a com ternura. Era o dia 20 de 
Agosto, a noite caa sobre a cidade e o calor persistia.
Ela tinha nos braos uma pilha de folhas que ia ler em casa, como sempre.
- Ests em grande forma - disse a Sandro, e sorriu-lhe.
- Esperava uma recepo mais calorosa, mas est bem assim - disse ele, 
enquanto lhe abria a porta do Alfa para ela entrar. Depois sentou-se ao 
volante, virou-se para ela e afagou-lhe o rosto.
- Tive saudades tuas - disse Sandro. Liliana refugiou-se no seu peito.
- Bem-vindo - sussurrou.
Sandro abraou-a com fora.

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- s to frgil, assim, nos meus braos. Pensei em ti a toda a hora, 
escrevi-te uma carta todos os dias.
- No recebi nenhuma - protestou Liliana.
- Esto ali, no porta-luvas. Abre-o - disse Sandro, com um sorriso.
Eleuteri, o director, saiu do edifcio da Collevolta e, enquanto se 
dirigia ao automvel azul que o esperava, viu Liliana com um senhor de ar 
distinto, dentro de um belo carro. Desejou com todas as foras que a sua 
preciosa colaboradora no se casasse nem decidisse ter um filho.
Liliana abriu o porta-luvas. Encontrou um montinho de cartas atadas com 
uma fita azul e um estojo de pele cor de marfim.
- As cartas podes l-las depois, quando estiveres sozinha. Mas esta 
caixinha, gostava que a abrisses j. Contm uma coisa que eu comprei em 
Paris, para ti - anunciou Sandro. Era um anel de platina com uma grande 
safira no centro e dois brilhantes dos lados.
Liliana observou aquela jia maravilhosa, incapaz de reagir  surpresa. 
Leu o nome do joalheiro gravado na seda, no interior da caixa: uma marca 
de prestgio, conhecida em todo o mundo.
- Deves ter gasto uma fortuna e eu no mereo - balbuciou Liliana, sem 
despregar os olhos da jia.
- Ests enganada, vales muito mais - disse Sandro ternamente, ao mesmo 
tempo que lhe enfiava o anel no anelar da mo esquerda. Um raio de luz 
fez cintilar as pedras preciosas.
- Fazes-me sentir a princesa de uma fbula - sussurrou Liliana. Depois 
disse: - Vamos embora. No quero que algum da empresa, ao sair, nos veja 
aqui.
Sandro ligou o carro e afastaram-se.
Instalaram-se na mesa do costume, no restaurante sobre a Darsena.
- Qual  a tua ideia, em relao a ns os dois? - perguntou Liliana, 
enquanto o empregado servia uma salada de lagostins de rio, aromatizada 
com pequenas folhas de erva cidreira.
- O casamento, se no te parecer uma proposta demasiado ousada - 
respondeu o homem.
Liliana ficou com o garfo no ar e, finalmente, formulou a fastidiosa 
pergunta que a perturbava h muitos dias.
- Como  que est a Denise?

193
- As coisas com ela correram melhor do que eu pensei. - E contou-lhe que, 
depois de ter sado de Milo, com os dois casais amigos do costume, a 
pequena caravana de trs carros chegara a Gaggiolo, onde Denise estava  
espera deles. Almoaram na casa do lago e depois partiram. Denise estava 
muito silenciosa e, por mais do que uma vez, sussurrou: - No me parece 
correcto fazermos esta viagem juntos.
Sandro e os amigos no tinham querido que ela ficasse sozinha, e aquela 
delicadeza deixava-a pouco  vontade. Pararam em Lyon para passar a noite 
e Sandro marcou para os dois uma pequena sute num hotel antigo avec 
beaucoup de tradition. Ela dormiu no quarto, ele na sala.
No dia seguinte, depois de passarem por Paris, enquanto percorriam o vale 
do Orne, Denise tomou a sua deciso: - Leva-me outra vez a Paris, por 
favor.
Ele levou-a at ao aeroporto de Orly, onde ela apanhou um avio para 
Barcelona. - Tenho uns colegas de trabalho a quem telefonei. Esto  
minha espera. vou passar as frias com eles, na Costa Brava - disse-lhe, 
para o deixar sossegado.
De regresso a Paris, Sandro comprou o anel para Liliana e foi ter com os 
amigos que o esperavam em Bayeux. Andaram a visitar antigas igrejas e 
castelos, runas romanas e bosques.
- Mas o que  que tu ests aqui a fazer? Vai ter com a Liliana
- insistiram os amigos, uns dias depois.
Naquele momento Liliana pousou em cima da mesa o montinho de cartas que 
Sandro lhe tinha escrito.
- vou l-las esta noite - anunciou.
- Tentei contar-te como sou e o que sinto por ti. No te vais arrepender 
de me teres ao teu lado - disse ele.
- Eu no vou ser uma companheira fcil. Tu sabes disso, no sabes?
- Estou pronto para tudo - respondeu em tom de brincadeira, enquanto lhe 
afagava a mo.
Liliana admirou  luz da vela, pousada na mesa, o brilho suave das pedras 
que tinha no dedo. Depois, de repente, comeou a rir.
A Sandro, que olhava para ela espantado, explicou: - Estava a pensar na 
minha irm mais nova, quando vir este anel, e nas coisas
194
que vai andar por a a dizer.  bem capaz de contar que pertenceu  
Callas, ou  princesa Soraya. Tem uma imaginao incontrolvel!
Naquela noite,  porta de casa, retribuiu o beijo de Sandro com um calor 
especial. Liliana tinha a certeza de que ele seria o companheiro certo 
para a sua vida.
195
8

Era o primeiro domingo de Setembro e ia uma grande agitao na casa dos 
Corti.
Depois de um longo e aceso conselho de famlia, Ernestina acabou por 
aceitar convidar o Dr. Sandro Brioschi e Ariella Spada para almoar. 
Estaria tambm presente o arquitecto Filippo Fioretti. Para esclarecer 
tudo com toda a gente - decidiu. O marido, como sempre, no colocou 
qualquer objeco.
Ernestina comeou a andar  volta do fogo logo na vspera, ignorando a 
sugesto do marido, que lhe dizia: - Ernestina, minha querida, somos 
onze. Por que razo queres tu aguentar esse trabalho todo? Mandamos vir o 
almoo de um bom restaurante, que assim jogamos pelo seguro. Vai custar 
mais um bocado, mas tambm se trata de uma ocasio especial.
- S se eu fosse maluca! No vou dar dinheiro a ganhar a nenhum 
taberneiro ganancioso. E vai ser uma refeio tradicional, como eu gosto 
- declarou.
- Porqu onze? Somos s nove - observou Rosellina.
- Tambm vem o Fermo com a mulher. No se devem esquecer os amigos mais 
chegados em ocasies to importantes - anunciou o pai. Fermo, o 
enfermeiro do corso Lodi, tinha finalmente voltado a casar. - E, depois 
do almoo, como era costume antigamente, vamos ter msica - acrescentou.
O menu previa uma entrada de carnes frias com pickles, um

196

risotto com ossobuco, uma salada s para lavar a boca e uma Zuppa 
inglese feita com po doce mergulhado em licor.
As mulheres da casa tinham lavado e passado as cortinas, limpo os 
espelhos e batido os tapetes. Liliana ps a brilhar o grande lustre de 
vidro, herdado de Miss Angelina, e preparou na sala de estar o carrinho 
com as chvenas do caf e a chocolateira de prata. Queria renovar a 
tradio das senhoras Pergolesi, que assinalavam um dia de festa com uma 
boa chvena de chocolate.
- No  justo que toda a gente tenha namorado menos eu - lamentou-se 
Rosellina, enquanto ajudava a irm a dobrar os guardanapos de linho de 
Flandres.
- s muito nova. Eu na tua idade s pensava em estudar - observou 
Liliana.
- Tu s tu e eu sou eu. Preciso de vida, de ar, de liberdade, e a me 
sufoca-me. Eu j no a aguento. O grande Max Garcia convidou-me para ir a 
Roma fazer um pequeno ensaio e ela por pouco no me deu uma estalada. 
Tens de pensar em tirar o curso de professora - disse, imitando 
Ernestina. -  a nica coisa que ela sabe dizer. O pai, para viver 
sossegado, finge que no ouve. Eu nunca vou fazer uso de um diploma de 
professora primria. Estou a perder o meu tempo, enquanto que as luzes do 
espectculo me esperam. Liliana, por favor, v se consegues falar com a 
me - suplicou.
- Nem penses. Tu no conheces o mundo do espectculo.  muito perigoso 
para uma rapariga to inconsciente como tu.
- Mas o que  que tu sabes disso? Passas a vida entre a casa e o 
escritrio! J te apercebeste de que eu ainda sou virgem? Todas as minhas 
amigas deram j o grande salto. Eu no, porque de cada vez que estou 
quase a ceder vejo a cara da nossa me e fujo. Achas isto normal? Estamos 
em 1963, o Yuri Gagarin e o Alan Shepard viajaram no espao, daqui a 
pouco os homens aterram na Lua e eu sou obrigada a viver como uma castel 
da Idade Mdia. O Pucci no tem tempo para danar comigo porque todos os 
sbados vai para Bolonha ter com a namorada e eu nunca vou ser uma 
estrela por vossa culpa.
- Hoje  suposto ser um dia um bocadinho especial, provavelmente alegre. 
No estragues tudo, por favor - disse Liliana.

197

E acrescentou: - Puseste mal as facas, a lmina  virada para o prato, 
no para fora.
- Oh, desculpa l a minha ignorncia. Agora que trazes no dedo um anel 
que vale uns milhes no te podes descuidar com a etiqueta - troou 
Rosellina.
Liliana sorriu. A irm tinha conseguido distra-la das suas preocupaes 
relativamente quela reunio de famlia. Com efeito, receava que Sandro 
no agradasse a Ernestina, que Filippo censurasse a Giuseppe o seu 
afastamento, uma vez que tinha voltado a viver em casa, que Ariella se 
escandalizasse com a homossexualidade de Giuseppe e que Rosellina se 
gabasse mais do que devia.
No entanto, tudo correu o melhor possvel. O almoo preparado por 
Ernestina estava ptimo. Sandro simpatizou imediatamente com Renato e com 
Fermo. Ariella deixou-se capturar pelo fascnio de Filippo e Ernestina 
conseguiu, com algumas olhadelas furtivas, manter a lngua de Rosellina 
sob rdea curta.
Naquela noite, enquanto arrumavam a casa, Ernestina disse  filha: - Este 
Dr. Brioschi parece mesmo boa pessoa. Despacha-te a casar com ele, porque 
j est na altura de construres uma famlia. No te esqueas de que as 
fascas duram pouco. O que conta  a cooperao entre um homem e uma 
mulher. Ele parece ser a pessoa certa para uma rapariga como tu, que 
decidiu fazer carreira.
Liliana no fez comentrios.
Na segunda-feira, quando chegou ao escritrio, encontrou uma mensagem da 
signorina Dotti: O Sr. Director est  sua espera s dez horas para uma 
comunicao pessoal. Oh, meu Deus, o que querer ele, pensou, 
preocupada. Mentalmente, passou em revista os processos em curso e ficou 
tranquila: tinha cumprido o seu dever at ao fim.
O Dr. Eleuteri veio ao encontro dela com um sorriso radiante.
- Fique  vontade, doutora - disse, convidando-a a instalar-se no sof. 
Depois dirigiu-se  secretria. - Por favor, traga-nos um caf.
- A seguir sentou-se em frente a ela, ofereceu-lhe um cigarro e 
continuou: - H uma srie de coisas sobre as quais temos de falar. Vamos 
faz-lo sozinhos, depois do caf. Trata-se de informaes muito 
reservadas, pelo menos para j, mas quero que tome conhecimento delas.
Entretanto observava-a como se a visse pela primeira vez.

198

-  muito jovem, doutora. Demasiado jovem para aquilo que a presidncia 
tem em mente. E, no entanto, assim que entrou na Collevolta rapidamente 
deu provas de grande profissionalismo. Isso, como  evidente, fez subir a 
sua cotao. Tem conscincia disso, no tem?
A signorina Dotti bateu  porta e entrou com o tabuleiro do caf, que 
pousou em cima da mesa  frente do sof.
- Bem. Muito bem - disse o director, enquanto mandava embora a secretria 
com um gesto de cabea. - Acar? - perguntou a Liliana.
- Se me permite, ponho eu - props, pegando no aucareiro.
- Para mim no, doutora. Sabe, os meus triglicerdios... depois quem  
que atura a minha mulher? Sempre que fao anlises e no esto normais, 
olha para mim de lado, como se a culpa fosse minha - explicou, enquanto 
tirava do bolso do casaco uma pequena embalagem de sacarina.
Saborearam o caf num silncio religioso, enquanto Liliana perguntava a 
si mesma que direco iria tomar aquela conversa.
- Muito bem, muito bem - repetiu o director, pousando a chvena. - Vamos 
ao nosso assunto, ento - comeou. E acrescentou: - A Collevolta est em 
vias de se fundir com a Zenit e, j est decidido, vai passar do sector 
privado para o pblico. Vai haver uma remodelao dos vrios 
departamentos e esperam-nos meses de grande trabalho.
A notcia andava a ser murmurada havia j algum tempo e Liliana estava ao 
corrente desse facto desde que fora admitida na empresa. Por isso no lhe 
pareceu que fosse uma comunicao assim to reservada.
- Agora os colaboradores mais eficientes vo ter a possibilidade de 
melhorar a sua posio. A doutora vai ser promovida. Nunca tinha 
acontecido at aqui que um recm-licenciado admitido h poucos meses 
subisse de categoria to rapidamente. Desde que aceite, que no tenha 
outros objectivos - disse o homem.
Liliana olhou para ele, perplexa, porque no compreendia o ar hesitante 
do director, que prosseguiu: - Por exemplo, se estivesse a pensar em 
casamento, em ter filhos, como  normalmente aspirao das jovens... 
Porque, est a ver, doutora, as mulheres lamentam-se

199

de que no conseguem fazer carreira, mas quando h uma famlia para 
orientar... Compreende, no  verdade?
- Perfeitamente - respondeu. E perguntou: - O senhor tem filhos?
- Dois. E so fantsticos - afirmou, com ar de pai feliz.
- Isso nunca o impediu de se ocupar do seu trabalho - comentou.
- Eu estava a falar do papel da mulher.  ela quem trata da famlia, 
enquanto o homem, que no  sobrecarregado com esse peso, pode fazer 
carreira.
- Eu acredito que h homens capazes de colaborar com a mulher, talvez 
assumindo algumas incumbncias tradicionalmente femininas - rebateu 
Liliana.
Eleuteri acendeu um cigarro sem lhe oferecer nenhum e baixou os olhos 
como um menino ofendido. Por fim, perguntou: - Aquilo que eu queria saber 
 se tenciona casar-se.
- Acho que sim - respondeu.
- E tambm deve querer ter filhos, suponho - acrescentou ele.
- No suponha nada, doutor. Enquanto eu desempenhar correctamente as 
minhas funes, ningum est autorizado a fazer suposies sobre a minha 
vida particular - disse Liliana, suavemente. Levantou-se e acrescentou: - 
Muito obrigada pelo caf e pela promoo. - Depois dirigiu-lhe um sorriso 
irresistvel.

200

Liliana fechou a porta atrs de si. Eleuteri ficou s e comeou a 
esfregar as mos, sussurrando: - Muito bem, muito bem. Naquele momento 
apercebeu-se de que tinha sido posto de joelhos por uma rapariguinha com 
todo o ar de no temer nem o diabo e, nesse instante, bufou: - Mal, muito 
mal! - O presidente tinha-lhe dito, havia j algum tempo, para a 
promover. Ele, naquele momento, t-la-ia despedido. Mas era tambm um 
funcionrio inteligente e, apesar das suas indecises, sabia avaliar as 
capacidades dos colaboradores.
Liliana era muito competente. Eleuteri encaixou o golpe e convenceu-se de 
que nada nem ningum, nem sequer uma famlia, conseguiria desviar a Dra. 
Corti do seu trabalho.
Ela, entretanto, dirigiu-se ao seu gabinete com um passo marcado. Estava 
furibunda. Detestava o machismo dominante que relegava a mulher para o 
papel de humilde criada do homem.
- Bom-dia, advogada - cumprimentou Bonfanti. O chefe da comisso interna 
estava outra vez sentado no gabinete dela, com o eterno cigarro na boca.
Liliana sentou-se no seu lugar e deu um suspiro de resignao. Chamo-me 
Corti e sou apenas estagiria - precisou Liliana. Vai ter de se 
conformar. Aqui dentro toda a gente tem uma cunha - disse ele. E 
perguntou-lhe: -  bom, o caf da direco? As notcias corriam a uma 
velocidade surpreendente.

201

-  assim to difcil meterem-se nos vossos assuntos! - perguntou, 
irritada.
- Eu diria que  impossvel, a partir do momento em que os nossos 
assuntos esto estreitamente ligados aos vossos - afirmou ele, e apagou o 
cigarro no cinzeiro de loua que Liliana tinha em cima da secretria.
- O que  que se diz desta fuso com a Zenit? - perguntou ela.
- Que o sector pblico vai ser melhor do que o privado - respondeu ele, 
encolhendo os ombros.
- E voc, o que pensa? - indagou, cautelosamente.
- Que os no alinhados, ou seja, aqueles que no agradam aos chefes, 
tanto ao nvel da mo-de-obra como ao nvel dos colarinhos brancos, vo 
ser ceifados. No concorda comigo?
- Est a ensinar o padre-nosso ao vigrio - sussurrou Liliana.
- Para alm do mais, penso que os operrios, especialmente os de turno, 
vo semear a discrdia se no tentarmos obter um contrato melhor e salvar 
o maior nmero possvel de cabeas.
- Por que  que me est a contar isso tudo?
- H muitos porqus. Porque neste gabinete voc  um talento 
desperdiado. Gostava de a ter como antagonista nas negociaes 
sindicais. Mas tudo isto  apenas um desejo, portanto a resposta certa  
que simpatizo consigo.
- Eu tambm gosto de si. Mas no se esquea de que apenas estou ligada  
segurana.
- Ento vamos meter a viola no saco e diga-me l se aceitou.
- O qu?
- A promoo, com tudo aquilo que se segue: gabinete maior plantas 
ornamentais, salrio dobrado, etc.
Liliana sorriu.
- Mais ou menos - disse.
- O Eleuteri sabe o que faz. Agarre a promoo, aponte para cima, 
advogada. Ns merecemos interlocutores fiveis. - Apertou-lhe a mo e 
foi-se embora.
Liliana ficou a olhar para a parede em frente  secretria, perguntando a 
si prpria por que razo Bonfanti procurava manter um contacto com ela, 
que estava por fora de qualquer estratgia da empresa.

202

Como sempre, foi Renato quem a esclareceu,  noite, quando regressou a 
casa.
- O Bonfanti  um poltico de raa - disse-lhe. - Vai ter contigo, como 
vai ter com outros, no cheiro da promoo. Prepara o terreno tendo em 
vista futuros acertos. Como ele mesmo te disse, precisa de interlocutores 
de confiana.
- Em breve haver reviravoltas na empresa e eu no quero entrar nelas. 
Enquanto continuar invisvel, no arrisco nada. Quero ficar longe das 
facadas que vo andar pelo ar no momento da fuso - afirmou Liliana.
- Sabes qual devia ser a tua estratgia? O casamento. Eu gosto do Sandro. 
Sabias?
Ela anuiu e disse: - Quero casar com ele desde que o conheci, mas no 
tenho pressa.
Tinha comeado havia j algum tempo um vaivm, entre Roma e Milo, de 
directores e especialistas de contabilidade, porque a Zenit queria 
verificar a situao da Collevolta antes da fuso, no respeito por um 
antigo princpio segundo o qual confiar  bom, mas no confiar  melhor.
No dia a seguir ao encontro com Eleuteri, Liliana foi convocada pelo Dr. 
Conforti, o director de pessoal.
- Temos de formalizar a sua promoo - disse-lhe.
Conforti no estava s. Estava tambm o engenheiro Passeri.
- E depois? - perguntou ela, olhando para os dois homens com suspeio e 
com a garra dos seus melhores momentos. Tinha a impresso de que acabavam 
de escavar um buraco para a fazer cair numa armadilha.
- Tem de ir a Roma imediatamente. Eles querem observar melhor o nosso 
departamento de segurana e acham que mantivemos escondidas algumas 
estruturas caducas - explicou Passeri, com uma voz persuasiva.
- Porqu logo eu? Fui a ltima a chegar - protestou.
- Porque tem graduao para isso dentro da empresa e estar  altura dos 
seus interlocutores - disse o chefe, enquanto lhe metia na mo dois maos 
de documentos.

203

A secretria entregou-lhe os bilhetes de comboio, a reserva do hotel e um 
fundo de maneio para a viagem, enquanto lhe sussurrava: - Sabe, doutora, 
nunca tinha acontecido antes que uma mulher fosse encarregada de uma 
tarefa to delicada.
- Est enganada - corrigiu Liliana. -  a ns, mulheres, que tocam sempre 
as tarefas mais ingratas. Promoveram-me  pressa para me passarem a 
batata quente.
Chegou a Roma naquela mesma tarde, no Settehello, o comboio mais rpido 
entre Roma e Milo.
Tinha estado em Roma duas vezes, no tempo do liceu e da universidade, em 
passeios culturais, passados entre igrejas e museus.
Quando o txi a deixou  porta do Hotel Frum, que ficava em frente ao 
Frum Imperial, Liliana esqueceu o cansao da viagem e sentiu-se uma 
princesa, hspede de um palcio sumptuoso.
Discutiu com o recepcionista por causa do quarto individual que dava para 
um ptio interior malcheiroso e conseguiu um duplo com vista para as 
runas antigas, esvaziou a mala e arrumou a roupa no armrio e nas 
gavetas, telefonou  me e a Sandro, tomou um duche e enfiou-se na cama. 
Mas no conseguia conciliar o sono, porque na sua cabea ia passando em 
revista a documentao que recebera do chefe e avaliava relatrios, 
sentenas, resumos de inquritos e peritagens assinadas por 
especialistas,  procura de possveis contestaes. Por isso voltou a 
acender a luz, sentou-se na cama, pegou outra vez nos documentos, armou-
se de papel e caneta e comeou a tomar apontamentos. O sono venceu-a 
quando despontava a alvorada.
O recepcionista despertou-a s sete. Tinha dormido duas horas.
Foi um dia frentico. Os funcionrios da Zenit revelaram um esprito 
aguado para os inquritos ardilosos e Liliana apercebeu-se de que a sua 
permanncia em Roma no ia terminar to depressa.  noite, quando 
regressou ao hotel, estava to cansada que decidiu nem jantar. Pediu que 
lhe levassem ao quarto alguma fruta. Desta vez deu-se ao luxo de um banho 
relaxante e depois vestiu um roupo muito bonito, de piqu branco, que 
Giuseppe lhe tinha oferecido nos anos.
Estendeu-se na cama e ouviu bater  porta.
- Est aberta - disse.

204

A porta abriu-se e surgiu a silhueta de um homem que se escondia por trs 
de um ramo de rosas brancas.
- Sandro! - sussurrou Liliana, que se levantou da cama para
ir ao encontro dele.

205

10
Posso entrar? - perguntou Sandro Brioschi. Atrs dele, um empregado 
segurava um tabuleiro com uma taa de porcelana cheia de fruta fresca.
- E se eu no estivesse sozinha? - perguntou, em ar de desafio.
- Foi uma hiptese que nem me ocorreu. Mas ainda no respondeste  minha 
pergunta - disse Sandro.
- vou pensar no assunto - brincou ela, enquanto punha a mo no queixo com 
ar de querer reflectir. Depois acrescentou:
- Est bem, podem entrar os dois.
O empregado pousou a fruta numa mesinha em frente a dois sofs minsculos 
forrados a veludo azul. Olhou para aquela rapariga bonita, envolta num 
roupo comprido, e para o homem que parecia arrebatado com aquela viso.
- Est  espera da gorjeta - sussurrou Liliana.
Sandro tirou uma nota do bolso das calas e meteu-lha na mo, dizendo: - 
Traga-nos uma garrafa de champanhe, por favor.
- Sim, senhor. Trago j - prometeu, satisfeito com aquela gorjeta 
generosa. - vou trazer tambm uma jarra para estas rosas, que so to 
bonitas - acrescentou.
- Eu nunca tinha feito tantas loucuras como agora - admitiu Sandro.
- Acho que vais ter de trabalhar muito mais, se continuares a tratar-me 
como uma duquesa - disse Liliana. Sentou-se no sof e estendeu uma mo 
para tirar um morango. Sandro imitou-a.

206

- Tenho algumas liras de parte. E depois tu j trabalhas mais do que 
devias - constatou.
- Nota-se muito? - perguntou Liliana.
- Ests com uns olhos cansados - observou Sandro.
- Tu tambm - rebateu ela.
- Vim de carro pelos Apeninos e foi o fim do mundo: primeiro o nevoeiro, 
depois uma chuva torrencial e, finalmente, granizo - contou-lhe.
Ouviram bater outra vez  porta. Sandro levantou-se, mandou entrar o 
empregado e disse: - Leve tudo para a sute quarenta e seis, no ltimo 
andar. Depois voltou-se para Liliana: - A Collevolta no te ofereceu o 
alojamento que mereces, anda, eu ajudo-te a fazer a mudana. - A sute 
tinha dois quartos, duas casas de banho, uma sala e estava decorada em 
estilo barroco. Era aquilo que o hotel podia oferecer de melhor. Liliana 
sentiu que estava a entrar num pequeno apartamento com um ar um pouco 
pretensioso, mas muito agradvel. Veio uma empregada preparar as camas 
para a noite e colocou em cima das almofadas um Bacio Perugina. A jarra 
com as rosas fora colocada em cima de uma cmoda.
- Por que no me falaste logo desta sute maravilhosa? - perguntou 
Liliana.
- No sabia como ias reagir. Reservei-a, mas no tinha a certeza de que a 
quisesses partilhar comigo - confessou Sandro.
- Sabes uma coisa? Eu no tenho a certeza de te merecer - afirmou, 
comovida com aquele homem que a amava com o arrebatamento de um rapaz na 
sua primeira experincia amorosa.
- vou tomar um duche - anunciou Sandro, dirigindo-se ao quarto.
Liliana deu uma volta  garrafa de champanhe dentro do balde de gelo. 
Depois entrou no outro quarto, estendeu-se na cama e ligou o rdio. O 
terceiro canal estava a transmitir um concerto de msica clssica. 
Deixou-se embalar pelos acordes de Mozart.
Pouco depois Sandro foi ter com ela. Vestia um roupo de felpo e trazia 
nas mos duas taas cheias de champanhe.
Liliana dormia profundamente.
Sandro pousou os dois copos em cima da cmoda, desligou o rdio e 
acariciou levemente os cabelos escuros daquela rapariga fantstica que 
amava apaixonadamente. Saiu em bicos de ps e foi

207

para o seu quarto. Deitou-se e adormeceu, vencido pelo cansao. Quando 
acordou, acendeu a luz da mesa-de-cabeceira e viu as horas. Eram nove da 
manh. Mexeu-se para se levantar e sentiu uma mo que lhe afagava as 
costas.
- Liliana - sussurrou.
- Tu no ias ter comigo e por isso vim eu para aqui - disse ela, com uma 
voz empastada de sono.
Sandro afastou a roupa e acariciou-a. Era macia e tpida como a gua do 
mar no Vero.
- Sabes que horas so? - sussurrou Sandro.
- No, nem quero saber.
Naquela manh perderam-se nos braos um do outro e sentiram-se mais 
felizes do que alguma vez se tinham sentido.
Saram da sute depois de terem tomado o pequeno-almoo. No hall, o 
porteiro entregou a Liliana uma lista de telefonemas. Tinham-lhe ligado 
do escritrio de Roma e do de Milo.
- Se por acaso voltarem a telefonar, diga que a Dra. Corti tirou um dia 
de frias - disse Liliana, feliz, enquanto dava o brao a Sandro.
Estava um bonito dia de Outono. A brisa que chegava das colinas 
refrescava o ar e acariciava as folhas das rvores.
Os dois namorados passearam por entre os palcios opulentos e as igrejas, 
por entre fontes que lanavam jactos de gua cintilantes no ar luminoso e 
pelas vielas, onde a luz e a sombra se perseguiam numa sucesso de 
tabernas e lojas que vendiam flores e bebidas frescas, misturados com os 
turistas.
- Sinto-me numa nuvem, longe do mundo - afirmou Liliana, feliz.
- Eu estou no paraso - respondeu Sandro, que tinha o brao  volta dos 
ombros dela e a apertava contra si.
Num restaurante do Trastevere comeram flor de abbora com mozarella e 
anchovas, alcachofras recheadas, rcula e camaro tigre.
Sandro fez questo de a levar ao Rosati, na piazza del Popolo, a tomar 
caf. Havia escritores, poetas, jornalistas, artistas, produtores 
cinematogrficos e pequenas estrelas em busca da sua sorte.
- No te deixes encantar por aquilo que vs. No meio desta gente, as 
pessoas inteligentes podes cont-las com os dedos de uma mo. O resto  
nada - avisou Sandro.

208

- Eu sou uma milanesa, insensvel a qualquer tipo de ostentao. Mas este 
folclore  fascinante e a Rosellina, se estivesse aqui,
desmaiava. Vou-te confessar outra coisa: hoje no trabalhei e no me 
sinto culpada por isso.
-  terrvel! - Sandro soltou uma gargalhada saudvel.
-  simplesmente maravilhoso. E devo-o a ti.
Regressaram ao hotel. A lista de telefonemas para Liliana tinha
aumentado. Ela enfiou o papel na carteira. Subiram at  sute e fizeram 
amor.
Depois, Sandro segurou entre as mos o rosto de Liliana e sussurrou-lhe: 
- Estou apaixonado por ti como...
- Como... - repetiu Liliana.
- Como um colegial na sua primeira histria de amor. Achas que consegues 
aguentar tudo isto para o resto da tua vida?
- Tenho de responder j? - perguntou Liliana, a sorrir. Escondeu o rosto 
debaixo da almofada e Sandro percebeu um
Sim abafado.
- Sim? - perguntou, tirando rapidamente a almofada de cima dela.
Ela ria-se.
- Sim, caso contigo - sussurrou.
Separaram-se na manh seguinte. Sandro partiu para Milo e ela voltou 
para o quarto por conta da empresa.

209

11
Liliana trabalhou sem poupar esforos. Enfrentou com rigor e competncia 
os inquritos minuciosos da Zenit, ganhando com isso o respeito dos seus 
interlocutores. Recebia regularmente telefonemas ansiosos do seu chefe, 
que se informava sobre a forma como estavam a decorrer os encontros.
- Regresso a Milo amanh - anunciou-lhe um dia.
- Como  que se saiu? - perguntou-lhe.
- Pelo buraco da agulha - respondeu, com uma voz contrariada.
- Alguma coisa corre mal? - perguntou Passeri.
- Tudo corre mal, como alis sabe perfeitamente. Estamos a vender um 
barco cheio de brechas. Eu cumpri a minha tarefa. Agora os outros que 
tratem de tapar as brechas - rematou.
Sandro foi busc-la  estao.
Abraaram-se e ele ajudou-a a transportar um grande saco a abarrotar de 
documentos.
- Mas o que  que tu trazes aqui dentro? - perguntou-lhe.
- Papelada, lixo. Mandaram-me l para baixo para salvar as aparncias. De 
qualquer maneira, a fuso j est decidida e eu no sou suficientemente 
cnica para digerir certos jogos de poder - respondeu.
- Ento no  a noite certa para uma surpresa - lamentou ele-
-  sim, se isso me levantar o moral - disse Liliana, enquanto entrava no 
carro. Ele arrancou em direco  Porta Venezia.

210

- Preciso de silncio - disse ela, a certa altura, pousando a cabea no 
ombro do namorado.
- Assim j est melhor - sussurrou ele.
O carro entrou no corso Venezia, na piazza San Babila virou  esquerda, 
percorreu o corso Monforte e finalmente parou em frente a um edifcio 
moderno.
- O que  que estamos aqui a fazer? - perguntou Liliana.
-  a surpresa de que te falava - disse Sandro. - No me faas perguntas 
- pediu-lhe.
Saram do carro e subiram os poucos degraus que conduziam a um porto de 
madeira clara. Sandro tirou do bolso um molho de chaves e demorou alguns 
segundos a encontrar a certa. Finalmente abriu a porta e acharam-se num 
trio imenso, revestido de mrmore rosado com estrias cinzentas.
Um elevador levou-os ao quarto andar. As portas de correr abriram-se. 
Sandro fez rodar mais uma fechadura e finalmente abriu uma porta sobre 
uma entrada despida, iluminada por uma pequena lmpada pendurada no 
centro do tecto.
- Onde me trouxeste? - perguntou Liliana.
Atravs de uma abertura em arco via-se o incio de um grande corredor com 
estantes, armrios de parede lacados a branco e portas que davam acesso a 
aposentos espaosos e vazios.
- Agora vais-me dizer por que  que estamos aqui? - perguntou Liliana.
- Aluguei esta casa. Ainda est por arranjar e mobilar. Vai ser a nossa 
casa - anunciou Sandro.
- Mas  enorme! - constatou Liliana.
-  sossegada. O jardim do condomnio  uma maravilha, vais ver. Os 
cinemas e os teatros so a dois passos daqui. Queria uma casa  tua 
medida. Gostas? - perguntou Sandro.
Liliana abriu os braos e comeou a dar voltas sobre si mesma, como uma 
mida.
-  tudo to bonito - exclamou, feliz. Ainda estava incrdula. - Quando 
me lembro da casa no corso Lodi, onde cresci... Mas esta parece-me 
realmente de mais. Obrigada, obrigada, obrigada!
- Deu-lhe um beijo repenicado na face.
- Ainda no viste tudo.

211

Sandro conduziu-a at um quarto com paredes cor de mbar que tinha no 
meio uma grande cama de casal, ainda embrulhada em plstico. Havia um 
candeeiro com abat-jour pousado no cho e, ao lado, um balde cheio de 
gelo que continha uma garrafa de champanhe.
- Vamos inaugurar a nossa casa? - props Sandro, abraando-a.
As paredes e os rodaps tinham sido pintados e pairava no quarto um 
cheiro a tinta.
Libertaram a cama dos plsticos de embalagem e atiraram-nos para um 
canto. Deixaram cair a roupa ao cho e amaram-se, felizes. Depois 
adormeceram e quando acordaram era um novo dia.
- Oh, meu Deus, a minha me estava  minha espera ontem  noite - disse 
Liliana, aflita. E acrescentou: - E tenho de ir a correr para o 
escritrio.
- Tem calma, pequenina. Eu levo-te ao escritrio e a j podes ligar para 
casa. Est tudo em ordem, Liliana - sossegou-a.
Mas foi Ernestina quem telefonou, no momento em que Liliana se sentava  
secretria.
- Finalmente encontro-te. Custava assim tanto avisar-me de que no 
voltavas para casa? - protestou a me, que tinha estado preocupada toda a 
noite.
Tinha telefonado at tarde para casa de Sandro, mas ningum atendeu. 
Depois esperou que Liliana e Sandro estivessem juntos em qualquer lugar.
- Tens razo, me. Peo desculpa, mas tinha-te dito que no era certo eu 
regressar ontem  noite, j estavas avisada - disse a filha.
- Posso saber ao menos onde estiveste? - insistiu Ernestina.
- O Sandro e eu resolvemos casar. Fomos ver a casa onde vamos viver e 
depois... adormecemos - confessou a filha.
Ernestina no fez comentrios.
- Me, ouviste o que eu disse?
- Ouvi perfeitamente.  que eu estou em baixo de forma e estava  espera 
de falar contigo - sussurrou, e acrescentou: - A que horas chegas a casa?
- Cedo, se correr tudo bem - disse Liliana.

212

- Ento encontramo-nos s oito horas naquele restaurantezinho da via 
dell'Orso - props Ernestina.
Liliana conhecia bem a me e a sua capacidade de fazer uma tenipestade 
num copo de gua. As suas preocupaes tinham sempre a ver com os filhos 
ou com o marido. Pensou que estivesse preocupada com Giuseppe: talvez ele 
tivesse acabado com Filippo. Ou ento tratava-se da namorada de Pucci, 
que insistia para ele pedir transferncia para Bolonha. Ou ento 
Rosellina tinha armado outra das suas. Naquele dia, porm, tinha muitas 
coisas para discutir com o chefe. Esqueceu os problemas familiares. Abriu 
a grande pasta que trouxera de Roma, pegou nos papis mais importantes e 
entrou no gabinete de Passeri.
- Seja bem-vinda - comeou o director, convidando-a a sentar-se.
Mas Liliana continuou em p.
- O que  que eu devia ter feito em Roma, na sua opinio? - perguntou, 
com um ar severo.
- Explique-se - disse o homem, imperturbvel.
- No, explique-me o senhor. Sabe muito bem que estamos a vender uma 
caixa meia vazia. Em Roma perceberam perfeitamente que a Collevolta, em 
parte, os est a aldrabar, mas fazem de conta que no se passa nada. Os 
proprietrios esto a vender  Zenit o seu patrimnio como se este 
estivesse completo, mas no  assim. Durante estes anos obtiveram lucros 
enormes, mas no gastaram uma lira em novos investimentos. Os armazns 
esto quase vazios, os meios de preveno de acidentes esto uma desgraa 
e eu tenho de fazer um relatrio sobre tudo isso. - Dava voz ao desnimo 
que a atormentava h dias. Poderia ter-se calado, preparado um relatrio 
em que seguisse a hipocrisia dominante na empresa e reCebido cumprimentos 
pela ptima execuo da sua tarefa. No entanto, depois de ter desabafado 
com Passeri compreendeu que a estatura de um empresrio se mede tambm 
pela sua capacidade de autocontrolo, enquanto que ela tinha perdido as 
estribeiras.
Pensou tambm que, em vez de criticar os seus chefes, poderia ter pedido 
a demisso. Mas no era to ingnua que acreditasse que as estratgias da 
Collevolta fossem uma excepo. Sabia que todo o sistema econmico se 
orientava por meias verdades. Porm, incrivelmente, criava postos de 
trabalho.

213

- Compreendo a sua amargura - disse o engenheiro Passeri.
- Quando aqui cheguei, tinha mais ou menos a sua idade e estava 
verdadeiramente revoltado, porque me parecia que muitas coisas no 
andavam como deviam. Passaram muitos anos e eu transformei-me em cortia: 
aprendi a flutuar e a ter cuidado com as pessoas que dependem de mim. 
Tambm tenho cuidado consigo, doutora. Ultrapasse tranquilamente a sua 
desiluso e prepare, seja como for um relatrio, talvez usando uma 
linguagem um pouco mais suave.
Liliana sentou-se, abatida.
- Tenho um pssimo feitio - sussurrou.
- Est bem assim - respondeu o chefe, a sorrir.
- Sinto-me como uma figurante num jogo maior do que eu. No sei o que 
hei-de escrever no meu relatrio - admitiu.
- Aquilo que vai escrever no  importante. Arranje maneira de poder 
demonstrar como foi eficiente o nosso departamento nesta fase da passagem 
do privado para o pblico.
Liliana passou o dia a tomar apontamentos e, ao fim da tarde, foi ter com 
a me  Trattoria del'Orso...

214

12
Poucos dias antes de Liliana partir para Roma, Ernestina tinha-se deitado 
com dores de dentes. Durante a noite, o mal agravou-se e ela acabou por 
acordar. Levantou-se e bochechou com tintura de iodo diluda, para 
acalmar a dor. Mas a situao no melhorou e, na manh seguinte, foi  
urgncia. O mdico de servio explicou-lhe que no se tratava de uma 
crie, mas sim de uma periodontose.
- Um problema muito aborrecido - anunciou o dentista. Quando comea, 
nunca mais acaba. - E acrescentou: -  aquilo a que habitualmente se 
chama piorreia: o osso retrai, a gengiva segue-o, a raiz do dente fica a 
descoberto, inflama e formam-se umas cavidades nas gengivas com as 
complicaes que da resultam. Vai ter de tomar um antibitico e depois 
vamos extrair dois molares inflamados.
- Oh, meu Deus! vou acabar como a pobre da minha me, que aos cinquenta 
anos no tinha dentes - afligiu-se Ernestina.
- Vamos tentar evitar isso. Tratamos as gengivas e talvez chegue  
dentadura mais tarde do que aconteceu  sua me - disse o mdico.
- Espero bem. No sou assim to jovem, mas tambm ainda no sou muito 
velha - comentou.
- Pela sua ficha, vejo que tem quatro filhos. O clcio dos ossos 
ressente-se das muitas gravidezes. V ao mdico e pea para lhe receitar 
Um tratamento para travar a descalcificao - concluiu o dentista.

215

Passou uma receita e disse-lhe para voltar ao fim de uma semana para 
extrair os molares que estavam na origem da infeco.
Ernestina foi dali para o clnico geral, que conhecia h muitos anos e 
que tratava a famlia toda.
- As palavras do dentista foram quase uma condenao - lamentou-se 
Ernestina.
- Os dentistas, s vezes, so um bocado rudes. No se aflija com a idade. 
Homens e mulheres perdem todos algum clcio. Vamos tentar remediar isso.
O mdico observou-a cuidadosamente e, por fim, disse: - Est muito bem, 
signora Corti. Tem algum problema, para alm dos dentes?
- Nos ltimos dois meses no tive menstruao. Se calhar, estou na 
menopausa - disse ela.
- Parece-me um bocado cedo. Vamos fazer uma anlise  urina - decidiu o 
mdico.
Poucos dias depois chegou o resultado. Ernestina estava grvida.
Considerou que, na idade dela, com os filhos j crescidos, um beb seria 
um absurdo.
As coisas querem-se no seu devido tempo, pensou e durante alguns dias 
guardou para si aquele tormento.
s vezes olhava para Renato e pensava que, se lhe revelasse o seu estado, 
ele havia de responder com uma boa gargalhada e dizer:
- Que maravilha! A minha Ernestina faz-me ser pai pela quinta vez. - 
Seria at capaz de organizar uma festa.
Por isso decidiu calar-se e voltou ao mdico.
- Na minha idade, com uns filhos que em breve me vo dar netos, acho que 
era um absurdo ter outro filho.
- Falou com o seu marido? - perguntou o mdico.
- No e no vou falar. Isto  um assunto que s a mim diz respeito.
Ernestina estava dividida e angustiada. O mdico, conhecendo-a como a 
conhecia, no fez comentrios. Mas decidiu repetir a anlise  urina. - 
Quando eu tiver o resultado, voltamos a falar - concluiu.
Ernestina regressou a casa, teve uma hemorragia e perdeu a criana. 
Chamou um txi, que a levou  urgncia. Fizeram-lhe imediatamente uma 
raspagem e prescreveram-lhe alguns dias de repouso.

216

Ficou dois dias de cama e, na solido do seu quarto, chorou e entrou em 
desespero.
Primeiro parecera-lhe que no podia levar avante uma nova gravidez e 
agora sentia-se culpada como se, no a desejando, tivesse ela prpria 
provocado aquele aborto espontneo.
Depois, com alguma dificuldade, retomou os seus ritmos habituais, 
transportando dentro de si uma pedra que a oprimia.
Podia ter falado com Renato e no o fez, sabendo que ele a iria abraar, 
mimar, consolar, mas que no entenderia o seu estado de alma. Ernestina 
precisava de falar com uma mulher. Procurou ento Liliana e quis 
encontrar-se com ela longe de casa, para falar mais  vontade.
Quando a viu entrar no restaurante, fez-lhe um sinal para ir ter com ela 
 mesa.
- Sabes que nunca na vida estivemos as duas num restaurante, sozinhas? - 
comeou a filha, sentando-se.
Ernestina apagou o cigarro e serviu um clarete gaseificado nos dois 
copos.
- Pedi uma sopa de lentilhas e carne cozida com molho verde - disse a 
me.
- ptimo. Hoje estou com fome - afirmou Liliana.
- Onde deixaste o teu namorado? - perguntou a me.
- Deve estar em casa, imagino.
Um empregado apareceu de repente atrs delas.
- Vo desejar uma entrada? - perguntou.
Recusaram as duas. Liliana ps um cigarro na boca e o empregado acendeu-
lho. Depois desapareceu.
- Vou-te fazer uma pergunta um bocado indiscreta, mas gostaria que a tua 
resposta fosse sincera. Alguma vez tiveste um... acidente de percurso com 
algum dos teus namorados? - sussurrou.
- Queres saber se fiquei grvida?
Ernestina anuiu.
- Por amor de Deus, me! Se assim fosse, tu tinhas sabido.
- No tenho assim tanto a certeza.
- Sempre temi uma gravidez com o Danilo, porque sabia que no ia querer 
um filho. com o Sandro, porm, estou tranquila, Porque sei que ele ia 
ficar muito feliz. E, para alm do mais, vamos casar.

217

- Tive um aborto espontneo, enquanto estavas em Roma -, confessou 
Ernestina.
Liliana baixou os olhos, sem conseguir responder.
Para ela, os pais eram indivduos assexuados. Tinha visto nascer os 
irmos, um atrs do outro, e tinha visto a me com umas grandes barrigas, 
mas sempre se recusara a associar aquelas gravidezes a uma relao ntima 
com o pai.
- No dizes nada? - perguntou Ernestina.
- Fiquei sem palavras - sussurrou Liliana. - Por que me contaste? - 
perguntou.
- Eu no desejava outro filho, mas desde que o perdi sinto-me culpada e 
estou desesperada.
Liliana comoveu-se. Apertou com ternura a mo de Ernestina, pousada na 
toalha.
- Quatro filhos so um belo contributo para a perpetuao da espcie. 
Tiveste sorte em no teres de enfrentar o problema de uma nova gravidez 
que, na tua idade, podia ser perigosa at para a criana.
- Achas mesmo? - perguntou a me, olhando-a nos olhos.
- Tenho a certeza - afirmou Liliana, com um sorriso. Ernestina assoou o 
nariz vrias vezes para conter as lgrimas. Naquela noite, quando se 
deitou, teve a esperana de adormecer tranquilamente.
218

13
Enquanto esteve em Londres com Filippo e Mariuccia, Giuseppe pde 
observar atentamente a maneira de vestir dos jovens, que j no tinha 
nada a ver com os cnones tradicionais da moda. Tambm foi a um concerto 
dos Rolling Stones, que naquela altura recebiam aplausos delirantes do 
pblico mais jovem.
Mariuccia ficou entusiasmada. - Esta barulheira complexa exprime alguma 
coisa que valia a pena aprofundar.
- Estou de acordo contigo - afirmou Giuseppe.
- Por amor de Deus!  isto que nos reserva o futuro?
Filippo estava horrorizado. Amava a msica clssica e tolerava com alguma 
dificuldade certas canes mais ligeiras.
Em Londres, Giuseppe traou as linhas essenciais do vesturio daqueles 
jovens. Quando regressou a Itlia, conseguiu atenuar os contrastes 
demasiado estridentes e criou uma srie de modelos novos. Estavam agora a 
ser examinados por Marta Scanni, a dona da fbrica de malhas, que se 
mostrava muito admirada com uma inovao to radical.
- Ns sempre produzimos uma linha clssica. Agora tu abandonaste quase 
completamente esse critrio. Achas que os nossos clientes se vo deixar 
convencer? - perguntou, perplexa.
- No vo ter outro remdio, se quiserem continuar a fornecer as lojas. 
Ns estamos entre o consumidor tradicional e a moda mais radical. Estas 
peas vo agradar s adolescentes e s mes. Vamos vender em grande - 
prognosticou Giuseppe.

219

A patroa tinha aprendido a confiar nele e deu-lhe luz verde para a 
produo.
Naquele dia, no atelier, Giuseppe recebeu um telefonema de Lorenzi, um 
industrial que assinava uma linha de vesturio masculino.
- Acho que devamos marcar um encontro - disse o homem.
Giuseppe tinha-o visto de passagem numa exposio internacional de moda. 
Lorenzi visitara o stand dos Scanni e a dona da fbrica disse a Giuseppe: 
-  um abelhudo. O melhor  ter cuidado com ele. Manda os espies por a, 
para roubar as ideias dos outros.  um bandido.
Lorenzi era dono de uma marca consagrada, vendia o seu produto industrial 
em todo o mundo e, havia j algum tempo, tinha tambm lanado no mercado 
uma linha feminina que, no entanto, estava a arrancar com alguma 
dificuldade.
Agora Giuseppe disse-lhe: - Estou a trabalhar imenso e o meu tempo  
limitado.
- L por isso, o meu tambm . Ento vamos directamente ao assunto. Venha 
a minha casa. Diga-me a hora e o dia e eu fico  sua espera.
- Est bem na segunda-feira, s seis e meia da manh? - props Giuseppe, 
convencido de que o ia deixar desconcertado.
O homem no se descomps. - ptimo. O meu motorista vai busc-lo a sua 
casa s seis horas. Eu tenho a direco - disse.
Naquela noite, enquanto ajudava a me a arrumar a loua, Giuseppe falou-
lhe daquele encontro.
Ernestina sorriu.
- Comeas a dar nas vistas. Fazes bem em ir ter com ele, mas tem cuidado 
para no te deixares apanhar. No mundo da moda  tudo gente sem 
escrpulos, mas ele ainda  pior do que os outros. Sobre ele dizem-se 
mais coisas ms do que boas.
- Tanta maledicncia s pode nascer da inveja - comentou o filho.
- Tambm, mas no s. O nosso meio  pequeno e acaba por se saber tudo 
sobre toda a gente. E toda a gente sabe que o Lorenzi agarra os 
compradores com meios nem sempre lcitos.  um indivduo que esfola as 
pessoas que trabalham para ele - avisou Ernestina.

220

- Enquanto que os Scanni no nos espremem, no  isso? S nos fazem 
festinhas - respondeu o filho, irnico.
- Conhecemo-los e conseguimos mant-los de rdea curta. Mas o que se diz 
do Lorenzi  que  indomvel. Os estilistas que vo trabalhar com ele 
fogem ao fim de poucos meses, desesperados.
- Ento, o que me aconselhas? - perguntou Giuseppe.
O tom de voz e a expresso do rosto eram os mesmos de quando era pequeno 
e pedia a sua ajuda para resolver um problema.
Ernestina sentiu uma grande ternura. Fechou a torneira sob a qual passava 
os pratos por gua e encostou-se ao lava-loua.
- Deixa-me pensar - disse.
Continuava a achar que Giuseppe estava a desperdiar o seu talento ao 
servio da moda. Estava firmemente convencida de que os melhores 
costureiros, como Chanel, Cassini ou Dior, eram apenas bons artesos 
dotados de um ntido sentido esttico, suficientemente espertos para 
arranjarem a postura certa e insuperveis a fazer dinheiro. Giuseppe no 
tinha esse tipo de esperteza e era um verdadeiro artista. Mas amava a 
moda e o melhor era deix-lo fazer o que queria.
- Quando fores ter com o Lorenzi, devias levar o teu irmo Pucci contigo 
- props.
- O que  que o Pucci tem a ver com isto?  um contabilista.
- Precisamente! Sabe fazer danar os nmeros como um ilusionista. Os 
contratos, as clusulas e as adendas so o po nosso de cada dia para o 
teu irmo.  muito pragmtico e pode ser-te til junto de uma pessoa como 
o Lorenzi.
A me acabava de ter uma ideia genial, como sempre. Giuseppe agarrou-a 
pelos ombros e beijou-a na testa, enquanto ela tentava libertar-se, 
batendo-lhe nos braos com as mos protegidas pelas luvas de borracha.
- Larga-me! Que maneiras so essas? - protestava, a rir. s o meu anjo da 
guarda, sempre foste - afirmou Giuseppe.
Na segunda-feira de manh, ao alvorecer, os dois irmos estavam prontos 
para iniciar uma nova aventura.
s seis horas da manh, o automvel de Lorenzi, um Jaguar escuro com 
tapetes em pele de carneiro, estava  porta de casa. O motorista 
conduziu-os at  zona de San Siro. Passaram um porto elctrico, que se 
abriu para um parque arranjado como se fosse

221

o cenrio de um filme, e chegaram a uma enorme villa moderna pintada de 
branco.
Lorenzi recebeu Giuseppe com um sorriso radioso e dirigiu um olhar 
perplexo a Pucci.
-  o meu irmo Palmiro. Acompanha sempre o meu trabalho - explicou 
Giuseppe.
- Ento vamos tomar o pequeno-almoo juntos - decidiu Lorenzi.
Na sala de jantar, com amplas janelas de onde se podia admirar o parque 
em volta, um empregado com ar presunoso esperava para servir os 
convidados.
Os jovens Corti saborearam o pequeno-almoo e ouviram as propostas do 
anfitrio, que declarou a sua inteno de investir em Giuseppe toda a sua 
credibilidade.
Lorenzi apresentou o seu repertrio de perspectivas aliciantes, que 
incluam viagens e estadias no estrangeiro, assim como lanamentos 
publicitrios das linhas idealizadas por Giuseppe em jornais, revistas e 
anncios televisivos. Garantiu que poria em evidncia a assinatura de 
Giuseppe Corti se, como esperava, a nova linha tivesse sucesso.
- Traduzido em dinheiro, quanto ganharia o meu irmo? - perguntou Pucci, 
at para pr fim quele rosrio de tantas promessas.
Lorenzi disparou uma cifra que era exactamente o dobro do que Giuseppe 
ganhava na fbrica de malhas, onde tinha um contrato como empregado.
- Nem pensar - afirmou Pucci, com calma.
- Ento diga voc um nmero - retorquiu o industrial.
Pucci props uma retribuio que deixou Lorenzi sem flego.
- O Giuseppe est a avaliar uma outra proposta, que inclui tambm trs 
por cento de comisso em cada pea vendida - declarou, mentindo 
despudoradamente.
- Lamento, mas no posso chegar a tanto - afirmou Lorenzi.
Pucci no se descomps. Levantou-se e disse: - Muito obrigado pelo 
pequeno-almoo. Eu tenho de ir para o escritrio e o meu irmo tambm tem 
o trabalho  espera. Foi um prazer conhec-lo, signor Lorenzi.
Foram levados de volta ao centro da cidade. Assim que ficaram sozinhos, 
Giuseppe atirou-se ao irmo.

222

- Tu s completamente doido! O que foi que te deu para fazeres uma 
proposta daquelas? Eu tinha uma perspectiva para melhorar e tu atiraste 
tudo ao ar. Apetece-me agarrar-te o pescoo e desfazer-te - desabafou.
Giuseppe estava aos gritos no meio da piazza Medaglie d'Oro, no meio de 
uma selva de automveis a buzinar e elctricos apinhados de gente que se 
dirigia aos empregos.
- Por que no pensas antes que te salvei das garras de um negreiro? No 
gostei daquele Lorenzi e aquela conversa toda de viagens e de sucesso era 
s uma maneira de te conseguir a um preo baixo. Tu vales muito mais. Foi 
por isso que fiz aquela proposta disparatada. Salvei-te a vida e tu nem 
sequer te apercebeste disso - declarou Pucci. Depois dirigiu-se ao corso 
di Porta Romana, para entrar no banco onde trabalhava.
A meio da manh recebeu um telefonema de Giuseppe: - O Lorenzi ligou e 
aceita a tua proposta.
- Vamos com cuidado. Temos que fazer um contrato e analisar bem todas as 
clusulas antes de assinar.
- s um drago, mano - disse Giuseppe. Estava feliz.

223

14
Da fuso da Collevolta com a Zenit nasceu a Collenit, que se tornou uma 
empresa pblica. A nvel interno, a organizao do pessoal sofreu algumas 
alteraes.
Liliana foi mais uma vez promovida e tornou-se directora, apesar de no 
ter ainda estatuto para assinar as actas, o que competia ao seu chefe. As 
novas responsabilidades mantinham-na pregada  secretria durante o dia 
inteiro e quando regressava a casa dava ateno a Ernestina, que de vez 
em quando tinha acessos de melancolia.
Uma tarde, ao sair do escritrio, Liliana encontrou o pai  espera dela.
- Vim buscar-te para tomarmos um aperitivo juntos - disse Renato. 
Sentaram-se num bar na via Carducci. Ele fez de conta que queria saber 
algumas coisas sobre o andamento da Collenit, mas era evidente que queria 
falar de outros assuntos e ela esperou pacientemente.
- A tua me tem outro homem? - perguntou por fim,  queima-roupa. E 
continuou: - Mantm-me  distncia como se no quisesse falar comigo.
- A me no anda bem - respondeu Liliana.
- Est doente? - perguntou o pai, preocupado.
- Est s cansada - disse.
- Tu no me ests a contar tudo. De repente, de um dia para o outro, sem 
uma razo, virou-me as costas. Achas isto normal? j no a entendo. Se 
calhar, sem querer, fiz alguma coisa que ela no

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gostou. Mas ela no  de ficar calada. Se sabes alguma coisa, por favor, 
diz-me.
E ento Liliana contou a histria da gravidez malsucedida.
Renato trincou uma batata frita, mastigou-a cuidadosamente, bebeu um gole 
e por fim disse: - Sou um estpido. Lamento muito ter-te arrancado uma 
notcia to... to ntima. Desculpa, Liliana. Depois acrescentou: - Agora 
tudo se explica. Eu vou resolver o assunto com a tua me. Fica sossegada, 
porque ela nunca vai saber desta conversa.
Liliana sentiu o corao mais leve e, uns dias mais tarde, a me ligou-
lhe para o escritrio: - Por que no vens hoje c jantar com o teu 
namorado? Fiz aquela lasanha de que o Sandro gosta tanto.
- Como  que ests? - perguntou a filha.
- Muito bem, como nos velhos tempos - sossegou-a.
O dia tinha comeado tranquilamente.
Liliana desceu at ao bar para tomar um caf e encontrou o engenheiro 
Passeri.
- Fui chamado ao Centro de Formao para dar uns cursos sobre acidentes 
de trabalho. Alinhavei num papel uma srie de apontamentos. No se 
importa de pr aquilo direito, doutora?
Foi a segunda boa notcia do dia.
Liliana divertia-se a escrever e tinha um estilo desenvolto e fluente; na 
empresa, toda a gente lia de boa vontade os relatrios que fazia. O seu 
chefe, pelo contrrio, para alm de no ter inclinao para a escrita, 
no estava to actualizado como ela sobre as novas regras que tutelavam 
os funcionrios das instalaes. Liliana preparou um texto brilhante.
No dia a seguir ao curso, Passeri foi ter com ela ao gabinete.
Fiz um figuro e agradeo-lhe por isso - comeou. - Se estiVer de acordo, 
vou-lhe dar os apontamentos para o curso seguinte.
Liliana sabia que os textos desses cursos iam ser compilados e
Publicados num livro e esperava que Passeri lhe propusesse assin-lo com 
os nomes de um e de outro. Mas apenas lhe disse: - O Eleuteri resolveu 
continuar com a velha guarda.  uma daquelas pessoas que consideram a 
militncia na Collevolta como um cravo na lapela. - O que tenciona fazer?
Uma parte do patrimnio da Collevolta tinha ficado nas mos do sector 
privado e continuar a colaborar nessa rea era considerado

225

um trao de distino. Os directores mais jovens, porm, tinham feito os 
possveis por entrar no organigrama da Collenit. Liliana no sabia de que 
lado ficar. Sandro tinha-lhe dito:
- Um patro pblico  menos asfixiante do que um privado. Acho que te 
convm mais passar para a Collenit, at porque espero que consigas 
trabalhar menos e ter um pouco mais de tempo para ns dois.
Acabou por responder a Passeri: - No vou fazer nada, porque ningum me 
perguntou nada.
- Eu vou passar para o outro lado. vou pedir para ficar comigo, e olhe 
que no se vai arrepender.
Liliana acompanhou-o. Um dia, ao fim da tarde, quando estava pronta para 
sair do escritrio, tocou o telefone interno.
- Fala Torquati - anunciou uma voz imperiosa.
Anselmo Torquati era o novo chefe do pessoal da Collenit. Liliana ainda 
no tinha falado com ele.
- Venha ao meu gabinete. Preciso de falar consigo - disse ainda.
- Quando? - perguntou ela.
Estava com pressa de sair, porque Sandro a esperava.
- Agora, doutora - respondeu o homem.
Torquati estava na empresa h pouco tempo, mas j se falava muito a seu 
respeito. Dizia-se que tinha sido um jovem militante fascista, embarcado 
depois no navio socialista para aproveitar os ventos favorveis. 
Murmurava-se que tinha um fraco por mulheres bonitas que, quando eram 
complacentes, somavam ptimas probabilidades de fazer carreira. Em suma, 
as conversas de corredor tinham-no definido como uma personagem pouco 
recomendvel.
Liliana, que j tinha construdo uma couraa contra indivduos 
semelhantes no tempo em que trabalhava com Asetti, armou-se da sua 
experincia de lutadora e foi ter com o Dr. Torquati.
O homem estava sozinho no gabinete que fora de Eleuteri. Liliana reparou 
que tinha eliminado as plantas ornamentais, as fotografias emolduradas da 
velha Collevolta, os galhardetes do Rotary Club e as cortinas de 
musselina engomada.
O que mais a impressionou nele foram os olhos azuis, muito vivos, 
inteligentes, o rosto corado de quem apanhou demasiado sol de uma s vez 
e o crnio redondo e brilhante como uma bola de bilhar.

226

O Dr. Torquati estava em mangas de camisa, sem gravata.
- Sente-se, por favor - disse-lhe, enquanto ia ao encontro dela. Apertou-
lhe a mo e acrescentou: - Finalmente, conhecemo-nos.
Sentaram-se  secretria, um em frente ao outro, e ele olhou para ela 
durante alguns interminveis segundos antes de lhe dizer: - Tem um 
perfume ptimo.
Liliana tinha apertado as mos uma na outra e mantinha-as pousadas no 
colo, quase sem respirar.
- As suas notas so excelentes. Muito aprecivel o trabalho que 
desenvolveu em Roma.  um desperdcio absoluto como subordinada do 
engenheiro Passeri. Tem alguma objeco? - perguntou.
Liliana ficou calada e pensou que o novo chefe do pessoal no 
correspondia  personagem definida pelas conversas de corredor.
-  advogada estagiria e eu sem dvida preciso de uma cabea pensante 
que dirija o sector legal nos escritrios da Citt Studi. Est de acordo?
Houve uns instantes de silncio. Enquanto tentava ultrapassar a 
perplexidade provocada por aquela proposta, Liliana perguntou a si mesma 
se o bton no estaria um bocadinho esbatido. Tinha demorado meses a 
encontrar a tonalidade adequada ao seu rosto.
- Est bem - disse por fim.
O homem levantou-se, apertou-lhe a mo e sorriu: - Bem-vinda a bordo.

227

15
Liliana e Sandro, como todos os namorados em vsperas de casar, passavam 
os fins-de-semana a fazer compras para a casa nova. O arquitecto Filippo 
Fioretti tinha-se oferecido para a ajudar a decor-la.
- Agora, que j te conheo, no me vou deixar tentar pelas tuas artes de 
sedutor. O Sandro  contabilista, mas as contas sou eu que as controlo, e 
se nos entregssemos nas tuas mos no sei quanto ias conseguir fazer-nos 
gastar. Por isso agradeo-te, mas vamos fazer tudo sozinhos - declarou 
ela.
Liliana tinha definido limites e no tencionava ultrapass-los.
Para alm do mais, Sandro era um companheiro delicioso para as compras. 
Acompanhava-a nas escolhas, entusiasmava-se tanto como ela em relao a 
um objecto original, aconselhava-a revelando gosto e conhecimento. As 
incurses nas lojas e nas oficinas de artesos, para apreciar cortinas, 
tapearias e mveis, marcaram agradavelmente aquele longo Outono. Liliana 
aprendia a conhecer os lados mais escondidos do temperamento de Sandro, 
que a faziam gostar cada vez mais dele. Por vezes, sussurrava-lhe: - Mas 
o que foi que eu fiz para merecer um homem como tu? - Ele sorria, baixava 
o olhar e respondia: - Eu ainda no me refiz da maravilha de te ter toda 
para mim.
Uma noite, em frente a um perfumadssimo prato de risotto com cogumelos 
porcini, no restaurante habitual sobre a Darsena, Liliana disse: - Temos 
de marcar passagem para a nossa viagem de npcias.

228

Tinham decidido que casariam em meados de Dezembro e que passariam o 
Natal em Nova Iorque, hspedes de Miss Angelina, que no via a hora de 
abraar de novo a sua to querida Liliana.
- J est - declarou Sandro, ao mesmo tempo que pousava em cima da mesa 
dois bilhetes de primeira classe.
- Tu s completamente louco - declarou Liliana, perplexa.
- Estava mais  espera de um grito de alegria.
- Gastaste um monte de dinheiro inutilmente - protestou ela, 
vigorosamente.
- Ento o que  que vamos fazer com isto? - perguntou, mostrando-lhe a 
reserva de uma sute no Hotel Pierre.
- J no caso contigo - afirmou, olhando-o nos olhos como se lhe quisesse 
pegar fogo.
-  pena. Ests a perder uma grande oportunidade - disse Sandro.
- De onde  que te saiu este dinheiro todo? - quis saber, fingindo 
desconfiar.
- Da minha reserva de ouro - respondeu ele, tranquilamente. Por baixo do 
casaco cinzento-escuro vestia uma camisola de malha de gola alta, segundo 
a moda lanada pelo filme La Dolce Vita.
- No sabia que o meu futuro marido era um milionrio - brincou ela.
- De facto no sou, mas ao longo do tempo fui pondo de lado algum 
dinheiro, que usarei para te fazer algumas surpresas - disse-lhe 
ternamente, enquanto lhe acariciava a mo sobre a qual brilhava o 
lindssimo anel de noivado.
- Tenho pena de que no tenhas sido o meu primeiro amor - sussurrou 
Liliana, comovida.
Passaram a noite na nova casa, fizeram amor e depois Liliana disse, 
baixinho: - Amo-te, Sandro.
Ele apertou-a nos braos e embalou-a at ela adormecer.
No dia seguinte o mundo soube do assassnio do presidente dos Estados 
Unidos, John Fitzgerald Kennedy. Ao fim de uma semana, Liliana recebeu 
uma carta de Miss Angelina que, entre outras coisas, dizia: J no me 
reconheo nesta nao que tinha considerado como a minha ptria. Este era 
um pas de homens livres, nascido para acolher povos que fugiam da 
tirania e da misria. O nosso

229

beloved President foi morto porque acreditava nestes ideais. A partir de 
hoje, a histria americana vai mudar o seu curso e caminhar para o 
desastre. Minha querida Liliana, se quisermos abraar-nos mais uma vez, 
despacha-te a vir ter comigo, porque estou a escrever-te de uma cama de 
hospital. Fui internada ontem por causa de um problema cardaco.
Liliana pediu imediatamente notcias mais precisas  sua amiga Beth, que 
respondeu dizendo-lhe que a tia Angelina tinha tido um enfarte e que no 
foi possvel salv-la.
- No esperou por mim - sussurrou Liliana, com os olhos inchados de 
chorar. E a Sandro disse: - A nossa viagem a Nova Iorque j no faz 
sentido nenhum.
- Se calhar estava escrito que tu no devias conhecer a Amrica. A que 
outro lugar queres ir? - perguntou.
- O que dizes da nossa casa lindssima? Eu acordo-te com o pequeno-almoo 
e uma rosa. E nem sequer temos de sair para fazer compras. A porteira 
trata dessa parte.
Casaram-se numa tarde de Dezembro, na igreja de San Gottardo. Foi uma 
cerimnia ntima, s com os familiares de Liliana e poucos amigos de 
Sandro.
Ela levava um casaco de vison claro, presente do marido, ele um sobretudo 
de caxemira azul, presente da mulher. Ernestina preparou o copo-d'gua em 
casa e, quando os noivos saram, respirou fundo: - Espero que tenha uma 
vida menos atribulada do que a minha - disse a Renato.
- Correu-te assim to mal? - perguntou o marido. Ela fez-lhe uma caricia 
na testa.
- Eu tive-te a ti e isso  mais do que poderia desejar - respondeu e 
sorriu-lhe. - Mas s me pergunto por que no tero ido de lua-de-mel.
- Porque no lhes apeteceu.
- Eu gostava de ter feito uma viagem quando nos casmos, h tantos anos. 
Mas s tnhamos dinheiro para comer.
- Podamos faz-la agora. Por que no vamos a Veneza? Todos os 
apaixonados l vo - props ele, abraando-a.
Tinham ficado sozinhos, na sala, no meio de pratos e copos sujos, os 
restos do almoo e o cinzeiro cheio de pontas de cigarros.
- Ests a falar a srio? - perguntou ela, hesitante.

230

- Veste l o casaco. Vou-te levar de lua-de-mel, mulher - afirmou Renato.
- E deixo tudo assim, nesta confuso... a cozinha por arrumar... os 
nossos filhos...
- Exactamente, eles tratam disso.
Renato e a mulher fizeram as malas e saram de casa quase  socapa, 
deixando bem  vista, em cima da mesa da cozinha, um bilhete com poucas 
palavras: Partimos para Veneza e no sabemos quando voltamos. Me e 
pai.

231

CITT STUDI

Os escritrios da Collenit, na Citt Studi, ficavam numa rua sem sada, 
ampla, com grandes edifcios oitocentistas que faziam parecer ainda mais 
feio o prdio sombrio, todo de vidro e cimento, que albergava os 
empregados e os operrios da empresa.
Liliana tinha tentado demover Sandro, que insistia em querer lev-la de 
carro, pelo menos naquele primeiro dia de trabalho na nova sede.
- Prefiro usar os transportes pblicos, como toda a gente insistiu ela.
Quando trabalhava na via Paleocapa, bastava-lhe um nico meio de 
transporte para chegar  Collenit. Agora teria de apanhar um elctrico e 
depois um autocarro para chegar aos novos escritrios.
- No me agrada nada saber-te no meio daquela confuso de gente - disse o 
marido.
- Se preferires, posso ir de bicicleta - props ela.
- Est bem, teimosa, faz o que quiseres - respondeu, resignado. Ento 
Liliana sorriu-lhe.
- Tu queres ir ver para onde me mandaram e no vou ser eu a tirar-te esse 
prazer. Vais comigo, mas s por esta vez. De qualquer maneira, j sei que 
me vais buscar todos os dias e esse  um privilgio de que poucas 
mulheres se podem gabar.
Sandro levou-a at  entrada da Collenit. Despediram-se com um beijo e 
ele sussurrou-lhe: - Coragem, pequenina, mostra o que

235

vales. Sei que ests a arder de vontade de te lanares nesta nova 
empresa. - Sandro lia os seus pensamentos, mesmo aqueles que ela no 
conseguia decifrar.
Liliana passou uma imensa portaria envidraada no momento em que 
comeavam a afluir empregados e directores, enquanto que os operrios 
entravam por uma porta secundria lateral.
Agora conhecia as regras e apresentou-se tranquilamente ao director da 
nova sede, o signor Massaroni.
- Ento  voc a Corti. Um pouco jovem de mais, ao que me parece - 
comeou o homem, sem sequer a convidar a sentar-se. Era um indivduo 
pequeno, de cabelos encaracolados e olhos encovados, que falava um 
italiano misturado com dialecto milans e tinha todo o ar de no precisar 
de aprovaes.
- Dra. Corti, se no se importa - precisou Liliana, decidida a retribuir 
aquela antipatia.
- Claro. Quando no h uma cabea, h uma licenciatura - desafiou o 
chefe.
- Eu por acaso tenho as duas - retorquiu ela, nada intimidada.
- Est bem, est bem, j percebi que tem o seu feitio. Eu s fiz a escola 
tcnica, mas trato de qualquer um aqui dentro. Agora que j esgotmos as 
formalidades, como dizem vocs, que sabem falar, v l para fora e espere 
pela Ester, a minha secretria, que a vai levar ao seu gabinete - 
rematou, abanando a mo para a convidar a sair.
- Foi um prazer ser recebida por si, signor Massaroni - disse Liliana, a 
sorrir.
Ele no se deu ao trabalho de responder.
Ester era a cpia exacta, no feminino, do seu chefe e escoltou-a em 
silncio at uma espcie de cubo de cimento escassamente mobilado, com 
uma parede de vidro atravs da qual se via um prado por cultivar e cheio 
de papis.
- Daquele lado esto os seus colaboradores. Agora vou-lhos apresentar - 
anunciou a secretria, abrindo a porta que dava para outro cubo e onde 
Liliana viu dois homens, um jovem e um de meia-idade, sentados s suas 
secretrias.
- O Dr. Valeri e o Dr. Munaf - disse rapidamente a secretria. Depois 
deu meia-volta e foi-se embora.
Os dois homens levantaram-se, fechando o jornal que estavam a

236

ler, claramente contrariados por terem sido interrompidos. Apertaram-lhe 
a mo sem dizer uma nica palavra.
Liliana apercebeu-se da sua hostilidade, mas armou-se de pacincia e 
disse: - Agradecia que me levassem os processos de que esto a tratar 
neste momento. Obrigada. - Fechou-se no gabinete e deitou as mos  
cabea, sussurrando: - Meu Deus, onde foi que eu vim parar?
Logo a seguir ligou para a sede da via Paleocapa e pediu para falar com o 
Dr. Torquati.
- O senhor sabe para onde me mandou? - comeou.
Ouviu uma gargalhada.
- So nove horas da manh. Est a h meia hora e j vem pedir ajuda? -
respondeu, em ar de provocao.
- S lhe queria agradecer infinitamente pela gracinha que me fez. Em 
qualquer caso, vou aproveitar esta oportunidade ao mximo - disse, e 
desligou o telefone.
O Dr. Valeri entrou no gabinete pouco depois e pousou em cima da 
secretria uma srie de pastas cheias de papis. - Sabe, doutora, a 
actividade jurdica desta seco  quase inexistente. Na prtica,  um 
trabalho de rotina. Enfim, ns aqui fazemos pela vida, como se costuma 
dizer. - Era um homem de uns trinta anos, com um ar frustrado, que falava 
evitando olh-la nos olhos.
- Sente-se, por favor - respondeu Liliana, indicando a cadeira  sua 
frente -, e explique-me o que entende por trabalho de rotina.
Ele explicou-lhe. Era realmente uma situao desoladora.
-  tudo? - interrompeu-o Liliana, contrariada.
- Bem, h alguns problemas legais sobre a serventia de alguns terrenos... 
O territrio a gerir  vasto e s vezes surgem certas complicaes. O 
Munaf despacha esses processos sozinho.  noite enfia-os na pasta e 
leva-os para casa. Acho que no est com grande vontade de colaborar 
consigo - confessou.
- E o senhor, Dr. Valeri?
Ele encolheu os ombros.
- Estes so os processos que eu sigo pessoalmente. Se quiser, Podemos v-
los juntos.
- Obrigada, prefiro estud-los sozinha. Se precisar de algum 
esclarecimento, peo-lho - disse Liliana, para o mandar embora,

237

pois sentia uma grande necessidade de recuperar da frieza daquele 
acolhimento.
Examinou a documentao e deu-se conta de que a qualidade do trabalho 
desenvolvido por aqueles dois colaboradores era perfeitamente medocre. 
Demasiadas negligncias, demasiado desleixo e nenhuma ateno  parte 
jurdica, que deveria ser de primordial importncia.
Liliana tirou o casaco do tailleur, desapertou os punhos da blusa e 
arregaou as mangas. Tinha pela frente um monte de trabalho e no podia 
contar com a ajuda dos seus colaboradores.
Naquela noite Sandro foi busc-la e perguntou: - Ento, como  que 
correu?
-  preciso revolucionar o departamento inteiro e no tenho grandes 
esperanas de que algum me d uma mo - respondeu, preocupada.
- O mximo das tuas aspiraes  conseguires fazer tudo sozinha. Ento, 
por que no ests feliz?
- Porque gostava de estar ao mesmo tempo contigo e com o meu trabalho.
- Mas ests, pequenina. Tens o dom da ubiquidade. No sabias?
- Pois, eu sei, tu pensas em mim, eu penso em ti, portanto estamos 
juntos.
- Resposta correcta. Como prmio levo-te a jantar fora - disse Sandro ao 
arrancar.
Liliana deixou cair a cabea no ombro do marido e sussurrou:
- Queria tanto ter um filho.
Sandro fez de conta que no ouviu. Investiu contra o trfico que obstrua 
as ruas e s mais tarde, quando j estavam juntos na grande cama 
matrimonial, lhe perguntou: - No achas que eu sou velho de mais para 
fazer de pai?
Liliana chegou-se mais a ele: - Davas um pai maravilhoso.
- E podia continuar a jogar tnis, a jantar  quarta-feira com os meus 
amigos e a ir  pesca ao domingo?
- Eu acho que sim. Tenho tanta vontade de pegar num Brioschi pequenino ao 
colo - sussurrou Liliana.
- Ento, porqu negar-te essa alegria? - concluiu Sandro, abraando-a.

238

Ernestina chegou a casa mais tarde do que o costume com dois sacos a 
abarrotar de compras que tinha feito depois de ter sado do trabalho. 
Quando a viu chegar, a porteira foi ao encontro dela e entregou-lhe um 
grande ramo de rosas.
- Trouxeram-nas para si, signora Corti - disse. E explicou:
- No estava ningum em casa. - Depois viu que ela tinha as mos ocupadas 
e prosseguiu: - Eu levo-lhas l acima. - E foi atrs dela pelas escadas.
- Tem a certeza de que so para mim? - perguntou Ernestina, olhando de 
lado para aquele ramo de jarros brancos e rosas amarelas.
- Traz um bilhete com o seu nome - precisou a porteira. Ernestina abriu a 
porta de casa e entrou, seguida pela mulher, que foi com ela at  
cozinha. Pousaram os sacos das compras e as flores em cima da mesa.
- Posso oferecer-lhe alguma coisa para beber? - perguntou Ernestina.
- Muito obrigada. Tenho de voltar para baixo a correr, porque o meu 
marido saiu e a portaria est sem ningum. Fica para outra vez - 
respondeu a porteira e foi-se embora.
Ernestina estava cheia de curiosidade em descobrir quem lhe teria mandado 
aquelas flores to bonitas. Abriu rapidamente o envelope e leu o bilhete: 
Apesar de no nos vermos tantas vezes como eu gostaria, lembro-me sempre 
de si com afecto. Filippo.

239

Pousou a mensagem na mesa, perguntando a si prpria o qUe quereria dela o 
amigo do filho.
Meteu aquele enorme ramo de flores perfumadas na maior jarra que tinha em 
casa e pousou-a na consola do hall.
Depois decidiu enfrentar a situao. Foi  sala de estar e telefonou ao 
arquitecto. Depois de lhe ter agradecido, perguntou-lhe: O que posso 
fazer por si?
- Preciso muito de falar consigo - respondeu Filippo.
- No sobre o Giuseppe, por favor. Sempre evitei interferir na vossa 
vida.
- Eu sei e aprecio a sua discrio. Mas... - no conseguiu continuar e 
Ernestina sentiu muita pena dele.
- Se tem problemas com o Giuseppe, fale abertamente com ele. - 
Acrescentou mais umas palavras afectuosas e desligou o telefone.
Regressou  cozinha para preparar o jantar, de pssimo humor. Filippo era 
realmente uma excelente pessoa e lamentava que sofresse por causa de 
Giuseppe, que naquele momento dedicava todo o seu tempo a preparar a 
primeira passagem de modelos desenhados por ele. Trabalhava para Lorenzi 
e ganhava muito bem, a ponto de ter comprado uma villa em runas na via 
Mrio Pagano.
Estava agora a reconstru-la e, entretanto, continuava a viver em casa 
dos pais, apesar de ter horrios complicados e de Ernestina quase nunca 
conseguir estar com ele.
Naquela noite, Giuseppe regressou a casa  meia-noite e encontrou a me, 
sentada na sala,  espera dele. - O que  que ests a fazer a p, a esta 
hora? - perguntou-lhe.
- Nunca te vejo - respondeu Ernestina.
Levantou-se do sof, desligou a televiso e foi com ele  cozinha. O 
jantar de Giuseppe estava em cima da mesa.
- Fiz uma tarte de beringelas e caldeirada de robalo. Senta-te
- disse-lhe, enquanto tirava do frigorfico uma garrafa de vinho branco 
seco Duca di Salaparuta. Ps dois copos em cima da mesa, um para ela e 
outro para o filho.
- Abre e serve - pediu, metendo-lhe um saca-rolhas na mo. Giuseppe 
obedeceu.
- Vi umas flores lindssimas no hall - comentou ele, enquanto apreciava a 
frescura encorpada daquele branco siciliano.

240

- Foi o Filippo que mas mandou, para poder chorar no meu ombro - explicou 
Ernestina. E uma vez que o filho continuava calado, acrescentou: - Tens 
alguma coisa a dizer?
- O Filippo sufoca-me - confessou Giuseppe, e continuou:
- Foi um erro ter ido viver com ele, mas estava fascinado por um ambiente 
que no conhecia. Depois dei-me conta de que naquele mundo toda a gente 
tem de falar de uma determinada maneira, vestir de uma determinada 
maneira, frequentar os mesmos stios e as mesmas pessoas e, espremendo 
tudo, no h nada.  uma espcie de confraria entre uns poucos que se 
autoproclamaram eleitos, que desesperam para ter uma fotografia nos 
jornais, que se pavoneiam quando conseguem chamar a ateno do 
intelectual de turno ou de um jornalista de topo.  uma vida massacrante 
que no produz mais do que o tdio. E eu entediei-me imenso, me. O 
Filippo tem qualquer coisa mais, mas no consegue estar longe daquela 
gente, e assim eu no posso estar junto dele. Por isso, acho que cada um 
de ns deve seguir o seu prprio caminho - concluiu o jovem.
- E o teu caminho qual ? - perguntou-lhe Ernestina.
- Ainda no o encontrei.
- Giuseppe, no te armes em esperto comigo. com quem andas agora? - 
perguntou  queima-roupa.
A porta da cozinha abriu-se e apareceu Renato. Estava de pijama e tinha 
os olhos inchados de sono.
- Olha aqui os ladres a combinar assaltos - comeou, vendo a mulher e o 
filho a bebericar um copo de vinho. E acrescentou:
- Incomodo se beber um copo de gua?
- Por que  que no ests a dormir? - perguntou Ernestina.
- Porque estiquei um brao na cama e encontrei o vazio. No  uma 
sensao muito agradvel.
- Estou a falar com o meu filho.  proibido? - perguntou a mulher.
-  tudo culpa da tua tarte de beringelas. Ainda a tenho no estmago. No 
comas, Giuseppe.
- Realmente, ia agora explicar  me que j jantei. Passei a noite a 
controlar as obras na via Pagano. Domingo, se quiserem, mostro-vos a 
minha casa. Preciso de alguns conselhos.
- Pede esses conselhos ao Filippo, que sabe mais do que ns
- resmungou Renato, saindo da cozinha.

241

Giuseppe levantou-se da mesa, deu um beijo na testa da me e disse: - 
Obrigada por teres esperado por mim. E, a propsito da tua pergunta, no 
ando com ningum.
Ernestina no tinha a certeza de que Giuseppe estivesse a dizer a 
verdade, mas no insistiu.
- Boa-noite - sussurrou-lhe, a sorrir.
Renato estava acordado quando Ernestina entrou no quarto.
- Estou cansada - disse ela, enquanto se despia.
- Mas no o suficiente para te meteres na tua vida - censurou Renato.
- Para aquilo que consegui saber... O teu filho  mais misterioso do que 
um tmulo - lamentou-se. Depois enfiou-se na cama ao lado do marido, que 
estendeu um brao para a chegar a ele.
- Quando quiseres saber alguma coisa, pergunta-me a mim, minha querida 
Ernestina.
- Os nossos filhos abrem-se contigo?
- Sou mais despreocupado e conheo-os melhor do que tu. O Giuseppe, como 
todos os homossexuais,  irrequieto, mas tem os seus princpios. Anda com 
problemas com o Filippo porque se deu conta de que no pode viver com um 
homem que tem o dobro da idade dele. Atirou-se ao trabalho e, entretanto, 
vai crescendo e reflectindo.  um menino de ouro. Deixa-o sossegado. E 
agora dedica-te um bocadinho a mim, j que me acordaste - disse, tocando-
lhe ternamente no seio.
Ela acariciou as costas do marido e sussurrou: - At quando  que eu vou 
estar assim to estupidamente apaixonada por ti?
- Para sempre. Nunca mais vamos deixar de nos desejar - respondeu Renato.

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Rosellina revia as matrias para o exame final do liceu juntamente com 
Roberta, uma colega de escola que era tambm vizinha deles. Interrogavam-
se uma  outra e, de vez em quando, uma das duas dizia: - Pausa Coca-
Cola. - Ento iam at  cozinha beber para depois retomarem o estudo.
- O que sabes tu dizer-me sobre Frederico II da Subia? - perguntou 
Roberta.
- Que era um engatato e que eu me sentiria muito feliz em ser engatada 
por ele - respondeu Rosellina, com um ar sonhador.
Roberta deu uma gargalhada.
- s completamente doida - disse.
- Eu sei. Mas realmente gostava de ter sido a mulher do seu corao. Era 
capaz de lhe servir de tapete e havia de o adorar como a uma divindade. 
Odeio aquela anormal da Constana de Arago, que nunca percebeu como ele 
era grande, genial, belo, inteligente. Sabes que ele falava correctamente 
grego, latim, rabe, alemo, italiano, espanhol e francs? vido de 
prazeres espirituais e materiais, caador de mulheres e de feras...
- Est bem, est bem! Mas aconselho-te a no responder assim ao jri de 
exame. Agora  a tua vez de me fazeres uma pergunta.
- Fala-me de Napoleo e da campanha de Itlia - disse RoSellina.
Tocou o telefone e a rapariga correu at ao hall para atender.

243

- Desejava falar com a signorina Corti - disse uma voz que tinha um 
ntido sotaque americano.
Rosellina, que ainda no se habituara  ideia de que Liliana se tinha 
casado, respondeu: - A minha irm no est. Se me quiser dar o recado, eu 
sou a Rosellina.
- E eu sou o Max Garcia e queria precisamente falar consigo
- explicou o seu interlocutor.
Era o coregrafo americano que Rosellina tinha conhecido aquando da 
exibio no Dancing Florida com Pucci.
- Pode falar - disse, enquanto agitava um brao para indicar a Roberta, 
que tinha ido ter com ela, a importncia daquele telefonema.
- Estou em Milo, na RAI, e lembrei-me de si, que danava com o seu 
irmo, se no me engano - continuou o coregrafo.
- Eu  que me enganei, dessa vez - disse, recordando aquela 
quedadesastrosa na pista do Florida.
- Acontece aos melhores. Mas tinha muita classe.
- Obrigada pelo elogio - replicou,  espera do que se ia seguir.
- No quer fazer um pequeno ensaio? Eu tenho muito interesse nisso, 
signorina Corti.
A rapariga teve alguma dificuldade em reter um grito de alegria, e disse 
apenas: -  para um espectculo?
- Uma srie de espectculos, os de sbado  noite, para o prximo Inverno 
- informou Max Garcia. E continuou: - No imagina a dificuldade que eu 
tive em conseguir o seu nmero de telefone. Fiquei  espera que me 
ligasse, uma vez que lhe deixei o meu carto.
Ento decidiu fazer-se cara.
- Estou a estudar para os exames finais e ando realmente sob presso - 
explicou.
- No lhe roubamos mais do que meia hora - insistiu o coregrafo.
- E tambm no sei se o meu irmo vai poder ir.
- Ns s precisamos de bailarinas. Pode vir sozinha.
- D-me tempo para reflectir. Podemos falar amanh?
- Eu ligo-lhe outra vez logo  noite, signorina Corti. Amanh espero v-
la na RAI - afirmou ele.
Durante todo o telefonema, Roberta tentou entender atravs dos gestos e 
das palavras da amiga com quem ela estaria a falar.

244

Quando Rosellina voltou a pousar o auscultador, disse: - Quero saber 
tudo.
- Tu no sabes, no podes imaginar o que est a acontecer. No fundo, nem 
eu sei muito bem se realmente recebi um telefonema, se falei mesmo com o 
Max Garcia e se  verdade aquilo que ele me disse. No te posso dizer 
nada, porque eu prpria no sei nada. Rosellina estava excitada e muito 
feliz.
- No faas o nmero do costume. De que espectculo estavas a falar? Quem 
 esse Max Garcia?
- Vamos beber uma Coca-Cola e eu conto-te tudo. Assim tento organizar as 
ideias.
Naquela noite, durante o jantar, os Corti realizaram uma espcie de 
conselho de famlia, no qual participaram tambm Liliana e o marido.
Ernestina estava fora de si com a raiva que sentia em relao ao ensaio 
na televiso, que considerava um atentado  virtude da filha.
- Mas ser possvel que estas coisas s me aconteam a mim? De todos os 
meus filhos, s aquela que me pe mais maluca.
- Sempre soubeste que eu queria ser bailarina!
- E por que no uma boa professora? Por que no uma boa me de famlia?
- E por que  que o mundo  redondo e no  quadrado? - berrou Rosellina.
Ernestina levantou uma mo para lhe dar uma bofetada mas Sandro segurou-
lhe no brao.
- Vamos tentar raciocinar. Os gritos no levam a nada - disse o genro em 
tom conciliatrio.
- Como  que se pode raciocinar com uma pessoa que no ouve? - perguntou 
ela.
- Ao fim e ao cabo, no me parece uma proposta indecente. Trata-se apenas 
de um pequeno ensaio. A RAI  uma coisa sria e nem sequer temos a 
certeza de que ela vai ser contratada - interveio Pucci.
- Se a contratassem, era pior do que andar por a de noite. Vocs tambm 
lem os jornais, portanto sabem muito bem o que acontece naqueles 
ambientes.
- No achas que ests a exagerar? O mundo do espectculo no  Sodoma e 
Gomorra - sentenciou Giuseppe.

245

- Tu, est calado! - ordenou a me.
Depois atirou-se ao marido que, enterrado no seu sof, folheava um 
jornal, aparentemente desinteressado daquela discusso.
- E tu? Tu que s o pai, por que no intervns? A nossa filha tem de 
acabar o liceu e tirar o diploma. Diz alguma coisa de bom senso, por 
favor - insistiu.
Enquanto a mulher e a filha discutiam, Renato tinha observado de soslaio 
a sua pequenina, que era de uma beleza de cortar a respirao.
Pensava que o mundo do espectculo no era exactamente aquilo que 
desejava para ela, mas era certamente aquilo a que ela aspirava.
Tinha ainda pensado sobre os filhos. A partir do momento em que tinham 
nascido, nunca ele tentara obrig-los a imit-lo. A vida, os sonhos, as 
aspiraes dos filhos pertenciam-lhe a eles, no a ele.
Por isso, limitou-se a dizer: - O que  que tu queres fazer, Rosellina?
- Quero ir  RAI fazer o ensaio. Se no me contratarem, pacincia. Se me 
contratarem, fico feliz - respondeu a filha.
- E eu tambm fico feliz. Os fantasmas da perdio no me metem medo, 
porque sei que s uma rapariga slida, apesar da tua aparncia frvola. 
Vive a tua vida e ficas a saber que ters sempre o nosso amor - afirmou. 
Depois virou-se para a mulher: - A discusso est encerrada.
Rosellina fez o seu ensaio com muitas outras raparigas. A algumas 
disseram: Depois comunicamos o resultado. A ela, que se afastava a 
correr porque tinha de ir para casa estudar, o coregrafo americano 
disse: - J s das nossas. Depois mandamos-te o contrato para assinar. - 
E apresentou-a ao director da orquestra, Cristiano Montenero, que segurou 
entre as suas a mo que ela lhe tinha estendido e, olhando-a intensamente 
nos olhos, sussurrou: - A signorina  fantstica!

246

Rosellina fez os exames e ficou aprovada. Tendo cumprido o seu dever em 
relao  famlia, sentia-se finalmente dona e senhora da sua vida.
Tinha na mo um contrato que a ligava  RAI durante todo o tempo da 
apresentao dos espectculos de sbado  noite, de Outubro a Janeiro. O 
contrato previa dois meses de ensaios em Roma. As bailarinas ficariam 
hospedadas a partir de Agosto num pequeno hotel perto da via Teulada, 
onde ficavam os estdios de televiso, e deveriam exercitar-se no ginsio 
todos os dias.
Ernestina no achava conveniente deixar a filha sozinha naquela grande 
cidade cheia de tentaes e no podia sequer aceitar a oferta que lhe 
tinha sido feita de a acompanhar. Por isso debatia-se entre o desejo de a 
seguir e a resignao de a abandonar ao seu destino e era absolutamente 
intil tentar falar da sua ansiedade com o marido e com os outros filhos.
Liliana foi de um cinismo aflitivo, quando Ernestina desabafou com ela: - 
O pior que lhe pode acontecer  perder a virgindade, podes ficar 
satisfeita por a Rosellina ainda ser virgem. Como diz o Pai, no podes 
governar a vida dela. Pe o corao ao largo - disse-lhe.
- Falas assim porque no tens filhos. Espera at os teres e vais Perceber 
o que so as preocupaes de uma me - reagiu Ernestina.
Liliana sentia-se pouco  vontade sempre que algum se referia a sua 
maternidade. Desejava um filho que no chegava.

247

Tinha-se submetido a uma srie de exames para descobrir por que razo no 
conseguia engravidar.
- Est tudo em ordem - garantiu o especialista. - Mas a senhora est 
demasiado ansiosa. Tente estar tranquila e no tenha pressa.
- No vou com certeza ser uma me to possessiva como tu - replicou com 
irritao  me que, sem o saber, tinha tocado no seu ponto fraco.
Por fim, foi Pucci que acompanhou a irm mais nova a Roma para ver como 
estava instalada, para a manter uns dias debaixo de olho, enquanto 
durassem os ensaios, e para observar as outras bailarinas e tentar 
perceber se eram raparigas demasiado emancipadas e levianas.
Foi ele quem se apercebeu de que, de vez em quando, aparecia no ginsio o 
maestro Cristiano Montenero, que concentrava toda a sua ateno naquela 
irm inconsciente.
Montenero era um director de orquestra famoso na televiso. Era um 
morenao fascinante, com cerca de trinta anos, uns olhos cor de flor-de-
lis e um corpo atltico. As bailarinas adoravam-no e at Max Garcia, o 
coregrafo, no perdia uma oportunidade para lhe dizer: - Gostava tanto 
de ser uma das minhas raparigas! Assim saberia fazer-te feliz.
Por isso, antes de ir embora, Pucci preveniu a irm: - Olha que aquele 
fulano est filado em ti. Acho que s vem aos ensaios para te apanhar. 
Aguenta-te, antes de arranjares alguma complicao.
- No faas como a me, que v sombras em todo o lado. Aquele no me 
agarra nem por nada. Antes agarrasse! - balbuciou ela.
- Ai sim? Ento levo-te j embora para Milo - ameaou Pucci. E no 
estava com ar de brincadeira.
- Era s uma provocao - desculpou-se Rosellina. - Fica sossegado, por 
favor. Tenciono ocupar-me s do meu trabalho. Tu bem sabes como eu gosto 
de danar.
- Tens de me fazer uma promessa. Se te aperceberes que ests  beira de 
fazer algum disparate, ou de dar um passo em falso, liga-me. Venho 
imediatamente e resolvemos o problema juntos - disse Pucci, abraando-a, 
quando j estava para ir embora.
Rosellina desatou a chorar e agarrou-se a ele.

248

- Tenho medo - sussurrou.
- Mudaste de ideias? - perguntou-lhe.
- No, de maneira nenhuma. Mas tambm preciso muito de ti e do resto da 
famlia. vou ter muitas saudades - soluou.
- Rosellina, decide-te: ou ficas e no te pes com fitas, ou vens embora 
comigo.
- Fico - sussurrou ela.
Meteu a mo no bolso do casaco de Pucci, pegou no leno, fungou 
vigorosamente, voltou a dobr-lo e meteu-o outra vez no stio.
- Tens a certeza? - perguntou o irmo.
- Diz  me que me estou a sacrificar muito para construir o meu futuro - 
afirmou, com um ar melodramtico.
Pucci deu uma gargalhada e ela acabou por se rir tambm.
No dia seguinte, chegou pontualssima ao ensaio da manh.
Max Garcia era um profissional muito exigente e severo. Sabia quando 
aprovar e quando fazer voz grossa. As raparigas gostavam dele, mas 
temiam-no ao mesmo tempo.
Na sua linguagem cmica, que era um misto de americano e dialecto romano, 
dizia: - A dana  um divertimento. Se se quiserem divertir ao mximo, 
tm de fazer as coisas bem feitas, e a o pblico tambm se diverte. Mas 
se fizerem tudo mal, mando-vos embora.
Enquanto as raparigas repetiam os mesmos passos at  exausto, ele 
comentava, incitava, criticava. Nada passava despercebido ao seu olhar 
atento. Gostava das suas girls e tratava delas como um pai.
- Esta manh vens com os olhos vermelhos. Estiveste a chorar?
- O meu irmo voltou para casa - respondeu ela.
- Ento logo  noite vais jantar comigo. Levo-te a comer bacalhau frito e 
vou-te apresentar  minha irm Manola. No contes nada s outras 
galinhas, se no ficam cheias de cimes - sussurrou, enquanto ostentava 
todo o seu repertrio de gestos amaneirados.
Rosellina, que naqueles dias se tinha conformado com a comida inspida do 
hotel em que estava hospedada, achou-se naquela noite no pequeno jardim 
de um restaurante, no meio de uma mistura de aromas e perfumes que lhe 
puseram a cabea s voltas.
Descobriu que aquele local era frequentado quase exclusivamente por gente 
do espectculo. Conheciam-se todos uns aos outros e tratavam-se por tu.

249

Rosellina viu ao perto algumas das personagens mais populares da 
televiso e pensou em como se ia gabar daquela situao junto das amigas, 
quando lhes contasse.
Manola, a irm de Max, era uma mulher gorducha e sossegada que toda a 
gente cumprimentava com simpatia. Era modista na RAI e trabalhava at 
para os actores mais famosos.
- Eu vejo-os todos os dias em cuecas - disse ela a Rosellina.
- Aquele anda de corpete para esconder a barriga, aquela ali est cheia 
de celulite e se no fosse graas  meia-cala j tinha deixado de dar  
perna h uns tempos. Oh, olha para aquela ali ao fundo: tenho de lhe 
encher o soutien, porque  uma tbua rasa. Repara na loirinha:  
cleptomanaca, uma verdadeira ladra.
Rosellina ouvia, divertia-se e pensava, satisfeita:  este o meu mundo! 
De repente, tinha esquecido as saudades da famlia distante e sentia-se 
no centro de um palco.
- Posso sentar-me convosco? - perguntou o maestro Montenero, que tinha 
aparecido atrs de Rosellina.
- Na verdade, estvamos muito bem os trs sozinhos - brincou o 
coregrafo.
- O que quer dizer que agora vo ficar muito melhor - disse ele.
Deu uma palmadinha na face de Manola, piscou o olho a Max e foi sentar-se 
em frente a Rosellina.
Pousou os cotovelos na mesa, apoiou aquele rosto lindssimo nas mos 
apertadas e perguntou-lhe: - Como te sentes em Roma, bambolina? (1)
- Chamo-me Rosellina - precisou ela, corando.
- Eu sei muito bem. Esculpi o teu nome no meu corao - disse ele.
- Daqui a nada vai-te dizer que tens o rosto de uma santa e o olhar de 
uma pantera - interveio Max. E acrescentou: -  a sua tctica de 
aproximao  presa. No lhe ds ouvidos - sugeriu.
- E funciona? - perguntou a rapariga.
- Normalmente tem sucesso - interveio Manola.
-  preciso ver que ns, mulheres, somos muito palermas.
- Mas tu no s. Tu s fina como um rato e ainda est para

1. Bonequinha. (N. da T.)

250

nascer o homem que te vai dar a volta - afirmou Montenero, enquanto 
trincava uma garfada de peixe frito.
Rosellina olhou para as mos dele. Nunca tinha visto um homem com umas 
mos to bonitas e perguntou a si mesma que efeito lhe provocariam se ele 
a acariciasse. S tinha tido namorados e pretendentes desajeitados. Nunca 
ningum tinha olhado para ela como o fazia naquele momento o director da 
orquestra. Corou outra vez e voltou-se para Max.
-  tarde, comi mais do que devia e queria regressar ao hotel
- disse.
- Podes dar-me a honra de te acompanhar? - disparou o maestro, 
levantando-se ao mesmo tempo.
- Honra negada. A Rosellina veio comigo e sou eu que a levo de volta. Tu 
podes fazer companhia  Manola, se quiseres.
- Este ainda usa polainas e detesta quando as meias fazem pregas - 
sussurrou Manola a Rosellina.
Montenero no se desmanchou, esboou uma vnia e beijou a mo que 
Rosellina lhe estendia.
- At  prxima, bambolina - disse.
- Rosellina - insistiu ela, percorrida por um arrepio ao contacto 
daqueles lbios, to macios, com a sua mo.

251

Era sbado. As raparigas do corpo de baile estavam livres at segunda-
feira. Rosellina tinha feito amizade com duas delas, Stefania e 
Francesca. Tal como ela, eram de origem operria, sofriam com o 
afastamento da famlia e tinham pouco dinheiro. Resolveram dar uma volta 
sem destino pela cidade para ver montras. Tinham feito uma caixa comum 
e entregaram a Stefania o dinheiro suficiente para uma sanduche num 
caf. Pareciam trs colegiais em frias. Sofriam constantemente de dores 
nas costas, nos ps e nas pernas por causa daqueles ensaios massacrantes. 
Apesar disso, passearam durante horas, ignorando os piropos, s vezes de 
mau gosto, dos jovens romanos que se cruzavam com elas.
Comeram umas sanduches num caf e depois decidiram que podiam dar-se ao 
luxo de uma Coca-Cola no Rosati. Quando chegou a altura de pagar, 
Stefania deu conta de que lhe tinham roubado o porta-moedas. Corou 
violentamente e ficou  beira de um ataque de choro.
- E agora, como  que vamos pagar a conta? - perguntou s amigas.
- Que figura! - comentou Rosellina, desesperada.
- Eu no tenho coragem para dizer ao empregado que ficmos sem uma lira - 
declarou Francesca.
- Vocs as duas vo j ao hotel buscar dinheiro. Eu fico aqui e fao de 
conta que no se passa nada. Entretanto, at peo outra

252

Coca-Cola - decidiu Rosellina que, nos momentos difceis, conseguia no 
perder o nimo.
As duas amigas partiram como duas setas e Rosellina ficou sentada  mesa, 
fingindo indiferena. Se ao menos tivesse um livro ou um cigarro, podia 
ocupar as mos. Mas no fumava e lia pouqussimo. Nem sequer tinha culos 
de sol. Estava ali, bem  vista, e tremendamente embaraada. Baixou os 
olhos para o colo, onde repousavam inertes as suas mos. Trazia um 
vestido de piqu de algodo rosa velho com pintinhas pretas. Comeou a 
contar as bolinhas, mas no conseguiu concentrar-se. Levantou a cabea, 
bebeu um gole de Coca-Cola e sentiu o estmago aos saltos. O caf 
confinava com o restaurante Il Bolognese. Eram trs horas da tarde e 
havia ainda clientes que entravam para comer, enquanto outros saam com 
um passo pesado por causa da comida. Achava que os romanos passavam o 
tempo entre cafs e restaurantes onde se empanturravam e, sobretudo, 
faziam sala.
Viu sair do restaurante Cristiano Montenero, na companhia de dois homens 
e de uma mulher de certa idade que trazia umas jias maravilhosas. 
Discutiam animadamente e a mulher destacava-se do grupo, com uns gestos 
muito vivos que lhe faziam tilintar as pulseiras.
Rosellina encolheu-se na cadeira de vime para passar despercebida.
Os trs homens acompanharam a mulher at um txi que estava parado em 
frente ao restaurante. Depois viraram-se e foi nesse momento que o 
director da orquestra a viu. Despediu-se dos amigos e foi ter com ela.
- O que  que ests aqui a fazer, sozinha? - perguntou-lhe.
- Estou a gozar o panorama - respondeu, sem convico. Ele sentou-se  
mesa.
- Ests com um ar triste - observou ele.
Ento Rosellina contou-lhe o que tinha acontecido.
- Ficmos com vergonha de dizer que tnhamos sido roubadas e que no 
podamos pagar. Eu continuo a beber Coca-Cola e daqui a bocado estouro. 
S espero que no seja antes de a Stefania e a Francesca voltarem.
O msico chamou um empregado e pediu um prato de bolos.
- Servem para neutralizar essa porcaria que estiveste a beber - disse.

253

Ela olhou para ele com um ar desconfiado.
- Confia em mim - prosseguiu. -  possvel que me consideres um palerma. 
J ouviste dizer muitas coisas a meu respeito e naquela noite, quando te 
chamei bambolina, mostrei o pior de mim. Por outro lado, no nosso meio 
toda a gente espera que eu desempenhe o papel de Gigione e eu no os 
posso desiludir.
- Quem  o Gigione? - perguntou ela.
-  uma personagem inventada por Ferravilla, um grande actor do passado. 
Chamava-se Gigi e era conhecido por Gigione porque era cheio de prospia 
e de bazfia. A palavra, imediatamente adoptada pelos actores milaneses, 
entrou primeiro na gria teatral e depois na linguagem comum. Um Gigione 
 tambm um homem que chama bambolina a uma rapariga que tem um nome 
lindssimo, como tu.
- Uma explicao exaustiva - observou ela. Trincou um folhadinho recheado 
com creme que lhe desenhou um pequeno bigode no canto do lbio. O msico 
esticou a mo e limpou-o com o indicador, depois levou o dedo aos lbios 
e lambeu-o. Rosellina ficou hirta, no tanto por aquele gesto de 
excessiva confiana como pelo facto de o toque de Cristiano a ter 
perturbado. Se no tivesse de ficar  espera das amigas, tinha-se 
levantado e fugido a correr.
- No h problema em relao  conta do caf. Se tens de ir embora, vai - 
disse ele.
- No sei - respondeu Rosellina, embaraada.
Ele chamou o empregado e pagou a conta. Depois estendeu uma mo para a 
ajudar a levantar-se.
- vou levar-te a dar uma volta - props, com um tom decidido, e 
continuou: - Quero que conheas as ruazinhas tortuosas, trespassadas por 
uma lmina de sol, com o pavimento incerto e as casas tortas, que so a 
parte mais bonita de Roma.
- A Stefania e a Francesca... - balbuciou Rosellina.
- O empregado avisa-as de que foste embora com um amigo - sossegou-a. 
Deu-lhe o brao e levou-a pela via del Babuino.
- Conta-me alguma coisa de ti - pediu-lhe a meia-voz, enquanto percorriam 
uma ruazinha silenciosa ladeada por imponentes palcios e muros altos, 
por cima dos quais despontavam as copas floridas dos jardins.

254

- Acabei o liceu, fiz os exames finais e tive umas notas excelentes, mas 
isso j sabe - comeou a contar e, uma vez que a proximidade daquele 
homem maduro, fascinante e rico de experincia a fazia de alguma forma 
sentir-se mais prxima do sucesso, prosseguiu, dando livre espao  
fantasia. - Sou a ltima de quatro irmos. A Liliana, a mais velha,  
advogada, o Giuseppe  estilista, viaja entre Londres e Nova Iorque e 
mora num palacete antigo no corao de Milo, o Pucci  um dos directores 
mais importantes de um grande banco, o pai  um dos chefes do sindicato, 
a me tem uma indstria de malhas muito conhecida, vivemos num 
apartamento enorme que herdmos de uma tia americana e temos um casal de 
empregados ao nosso servio. Neste momento o pai est em Cortina 
d'Ampezzo, com alguns companheiros de partido, e a me na Cte d'Azur, 
num barco de uns velhos amigos. E pronto, que mais lhe posso eu dizer, 
maestro?
- Chamo-me Cristiano e peo-te que me trates por tu - disse ele, com um 
ar divertido.
- Que mais queres saber, Cristiano? - repetiu Rosellina.
- Elimina todas as lantejoulas, que so o espelho da tua imaginao, e 
conta-me a tua histria verdadeira - disse ele, a sorrir.
Passaram ao lado de uma loja de tapearias. Estava fechada, mas o arteso 
tinha deixado em exposio no passeio uma passadeira, umas cadeiras 
forradas de tecido, uma mesa pequena e uns bancos.
- Vamos parar aqui - props.
Sentou-se ao lado dela, passou uma mo leve pelo contorno do seu rosto e 
olhou-a nos olhos.
- Ento, Rosellina, fala-me de ti a srio - pediu com delicadeza.
Ela baixou os olhos, intimidada por aquela espcie de carcia.
- Eu acho que contei uma histria credvel.  pena que no tenhas 
acreditado, porque eu gostei muito dela - sussurrou.
- Tenho a certeza de que a verdadeira  muito mais interessante - afirmou 
ele.
- Eu sou a mais nova da famlia. Os meus pais so operrios. Cresci num 
bairro popular mas desde h alguns anos vivemos num apartamento muito 
elegante no centro de Milo. Foi um golpe de sorte, mas essa  uma longa 
histria. A minha me telefona-me todas as noites e ameaa-me com 
castigos se eu me meter em alguma

255

confuso. Tenho saudades da minha famlia. No me acho uma grande 
bailarina, apesar de o Max ter simpatizado comigo e me querer ajudar. Ao 
olhar para as raparigas que danam comigo, apercebi-me de que tm uma 
ligeireza que eu nunca vou alcanar - observou. E acrescentou: - O meu 
instinto diz-me que devia fazer as malas e regressar a Milo - confessou 
com sinceridade.
Ele segurou uma mo de Rosellina, acariciou-a e disse: - s to bonita 
que eu fico sem flego.
Ela tirou a mo de repente e replicou: - Eu sou s uma estpida e se a 
minha me aqui estivesse j me tinha dado um par de estalos. E nem sequer 
te tinha poupado a ti, podes ter a certeza - disse, levantando-se.
- Mas a tua me no est aqui - rebateu ele, que estava com ar de quem se 
diverte.
- Nem a tua mulher - sublinhou ela.
- A minha ex-mulher no d bofetadas, d murros. Uma vez estendeu-me com 
um uppercut nos queixos. At desmaiei - confessou.
- No sabia que a loira, a evanescente Nadia Brumberg, era pugilista - 
respondeu a rapariga, espantada, referindo-se  mulher do director da 
orquestra, que era uma estrela do Casino de Paris. Tinha interpretado 
muitos filmes musicais e Rosellina considerava-a uma divindade a todos os 
ttulos.
-  experimentar para crer - disse ele, a rir. - Agora, que j no  
minha mulher,  uma delcia, mas enquanto estivemos casados, viver com 
ela era como conviver com um terramoto.
- Bem, est a ficar tarde e eu tenho de ir embora - decidiu Rosellina.
- Eu levo-te - disse ele, dando-lhe o brao.
Tinha um carro desportivo estacionado na piazza del Popolo. Levou-a ao 
hotel. Saiu do carro e abriu-lhe a porta.
- Se eu no nasci para bailarina, o que hei-de ser? - perguntou-lhe ao 
despedir-se.
- Actriz - respondeu ele, calmamente.
- Mas eu no sei representar.
- Tu representas desde que nasceste - afirmou o msico. Pegou-lhe 
delicadamente na mo e deu-lhe um beijo, levssimo.
- At um dia destes, Rosellina - prometeu.

256

Ela deu alguns passos em direco  entrada do hotel e depois voltou 
atrs.
- O que queres de mim? - perguntou, decidida.
- Ainda no sei. No fiques melanclica, esta noite. Pensa no dia em que 
te vais tornar uma grande actriz - disse-lhe, e foi-se embora.

257

No dia 21 de Agosto morreu, em Yalta, Palmiro Togliatti. A Roma,  via 
delle Boteghe Oscure, onde ficava a sede do Partido Comunista, confluram 
polticos e jornalistas, intelectuais e gente do povo provenientes de 
toda a Itlia. Chegou tambm Renato Corti, que telefonou  filha.
- Amanh  o funeral e depois os meus companheiros regressam a Milo. Eu 
vou ficar mais um dia para estar contigo - disse o pai a Rosellina.
No dia seguinte abraaram-se no hall do pequeno hotel que, no fundo da 
sala, tinha um bar com alguns sofs gastos e mesinhas desconchavadas. Pai 
e filha sentaram-se no canto mais afastado.
- Pai, ele era mesmo o Melhor, como toda a gente lhe chamava? - perguntou 
Rosellina, referindo-se ao poltico falecido.
- Para mim foi. Aquilo que eu sou devo-o a ele e a outros como ele, que 
me incutiram valores, me deram pontos de referncia e me ensinaram a 
estudar a nossa histria - afirmou, comovido.
Rosellina acariciou-lhe um brao.
- Pap querido, gosto tanto de ti - disse a filha de repente.
- No tanto quanto eu gosto de ti - replicou Renato, sorrindo-lhe, e 
prosseguiu: - Como  que tu ests?
- Acho que estou apaixonada - confiou-lhe, num sussurro.
- E alguma vez no estiveste? Tiveste namorados desde o tempo em que 
andavas no infantrio. Nem eras a minha Rosellina se

258

no passasses de uns amores para os outros, sempre a encher os teus 
lenos de lgrimas.
- Desta vez  diferente.
- Eu sei.  sempre diferente. Quantas vezes eu te ouvi dizer a mesma 
coisa. Se tivesses vivido h cinquenta anos, agarravas-te s cortinas 
como a Francesca Bertini, (1) levavas a palma da mo  testa e fazias 
vibrar o teu corpo com os soluos. Gostas de desempenhar o papel da 
mulher que sofre de amor - brincou Renato e, no entanto, uma vez que 
Rosellina no reagia, perguntou a si mesmo se no teria chegado o momento 
de a levar a srio.
- Ele  um homem, pai. E at j foi casado - sussurrou Rosellina.
Renato calou-se, esforou-se por parecer calmo e disse: - Vamos por 
partes, minha menina. O teu pai  um homem evoludo, que conhece a vida e 
que no se perde com facilidade. Certo?
Rosellina anuiu.
- Acontece que um pintainho, ao dar os primeiros passos longe da galinha, 
encontra um predador que o quer comer. Certo?
A rapariga anuiu novamente.
- E ento, o que faz o pintainho?
- Foge - disse a filha.
- E tu fugiste, no foi, minha menina? - Renato falava lentamente, 
pronunciando bem as palavras.
- Eu estou apaixonada, pai.
- Mas  uma coisa passageira. Ou no?
- Pai,  lindo de morrer e quando olha para mim com aqueles olhos to... 
to magnticos... eu estremeo, bate-me o corao e sinto-me derreter - 
explicou Rosellina, levando as mos ao peito. Nos seus lbios pairava um 
sorriso e olhava para o pai com uns olhos extticos.
Perante aquela mmica, a tranquilidade a que Renato se tinha proposto at 
quele momento transformou-se em raiva. Levantou-se de repente e, 
apontando um dedo ameaador contra a filha, perguntou: - Quem  esse 
desgraado?
Ela, que no esperava tal agressividade por parte do pai, comeou a 
chorar silenciosamente.

1. Diva do cinema mudo italiano (1892-1985). (N. da T.)

259

- Metes-me medo - balbuciou entre lgrimas.
- Quem  esse desgraado? - repetiu Renato, num sussurro.
Rosellina levantou-se por sua vez, limpou as lgrimas e fez-lhe frente. - 
No fiz nada de mal, pai.
- Antes assim. Mas agora vais-me dizer quem  esse desgraado que assedia 
uma rapariguinha, que  para eu poder torcer-lhe o pescoo. Porque  
precisamente isso que tenciono fazer.
- Se pes a questo assim, nunca te vou dizer o nome dele - respondeu, 
decidida.
Renato tinha j esquecido a comoo pelo funeral de Togliatti. S pensava 
na responsabilidade que tinha assumido ao decidir mandar a filha para 
Roma.
- No h problema - disse ele, recuperando a calma. Deu-lhe o brao e, os 
dois juntos, foram ter com o porteiro: - D-me por favor a chave do 
quarto da minha filha - pediu.
Subiram at ao quarto, Renato pegou na mala que estava em cima do 
armrio, pousou-a em cima da cama, abriu-a e comeou a ench-la com a 
roupa de Rosellina.
- Vais-me obrigar a voltar para casa? - perguntou ela.
- Que mais posso eu fazer? - perguntou Renato.
- Era suposto ser um segredo nosso. Agora a me vai descobrir tudo - 
comentou a filha. - J para no falar do contrato que assinaste para mim. 
Foste precisamente tu quem o assinou, pai. E agora vais ter de pagar uma 
multa. Enfim, quero que fiques a saber que me cortaste as asas. Podia ter 
voado at muito longe, mas... vou ser uma pobre infeliz, toda a vida.
Renato fechou a mala, sentou-se na beira da cama e olhou a filha nos 
olhos. Rosellina parecia serena, resignada, e sorria.
Os propsitos belicosos do pai desvaneceram-se perante a candura 
desarmante daquele rosto to alegre e to lmpido.
- No quero saber da multa para nada. Tu s mais importante do que tudo 
isso, minha pequenina - sussurrou. E acrescentou:
- Eu tenho de te proteger. Percebes?
- At quando? - perguntou ela.
- At quando for preciso.
- Pai, quero contar-te uma coisa que tu no sabes. Quando morvamos no 
corso Lodi, um dia encontrei nos campos um passarinho cado do ninho. 
Levei-o para casa, escondi-o no quarto onde

260

dormia com a Liliana e alimentei-o com pacincia. Dava-lhe sementes e 
migalhas de po. Estava desesperada a tentar salv-lo. Entretanto, 
cresceu. Quando tentava voar, eu assustava-me e apertava-o nas minhas 
mos, com medo que fosse bater contra as paredes. Chegou a Primavera e no 
velho ptio comearam a esvoaar os passarinhos. Ento sa para a varanda 
e disse-lhe: Agora podes ir com eles. E atirei-o ao ar. As asas no 
estavam suficientemente robustas. Caiu como um seixo no empedrado e 
morreu. Por excesso de amor, no o deixei aprender a voar.
Ao fim de uns instantes de silncio, Renato disse: - Quer dizer que eu 
vou ter de te deixar nos braos de um homem casado? - murmurou.
- Eu ainda no lhe ca nos braos. S te disse que estou apaixonada. No 
me parece que ele saiba destes meus sentimentos.
Renato levantou-se, rodeou-lhe os ombros com um brao e disse: - Anda 
comigo at  estao. Eu volto para Milo.

261

No Outono, desfilou pela primeira vez nas passerelles a marca Lorenzi by 
Giuseppe Corti.
O novssimo estilista, que tinha aprendido aquela profisso na fbrica de 
malhas onde a me trabalhava havia j tantos anos, fez um grande sucesso, 
revelando um gosto muito prprio, baseado na cor e na simplicidade dos 
modelos. Tinha criado vestidos que podiam ser usados por qualquer mulher, 
de qualquer idade e qualquer estrato social. Para os apresentar ao 
pblico escolheu as manequins entre as empregadas da empresa Lorenzi e 
entre as alunas das escolas superiores. O ltimo vestido, um branco, de 
noiva, que coroava o desfile, foi usado por Rosellina, que se apresentou 
na passerelle acompanhada por Pucci, em fato de cerimnia, sobre as notas 
de uma suavssima valsa vienense.
Choveram aplausos para aquela estreia que deixou excitadssimos os 
jornalistas, sempre  caa de novidades. At os cameramen que ali estavam 
para gravar o desfile quiseram aplaudir. Giuseppe foi arrastado at  
passerelle, enquanto o pblico gritava o seu nome ao ritmo das palmas. 
Acabava de se tornar famoso. Ele agradeceu com uma vnia e depois 
refugiou-se nos bastidores invadidos por compradores que queriam tocar 
com as prprias mos os vestidos da nova coleco e ansiavam por falar 
com Lorenzi e com ele.
Lorenzi abraou-o e disse-lhe: - Lembra-te que me deves tudo a mim. Se eu 
no te tivesse arrancado aos Scanni, ainda l estavas a desenhar plos.

262

- Tambm  verdade que eu acreditei em si, signor Lorenzi, quando outros 
estilistas lhe viraram as costas - respondeu.
- Agora temos de atender os compradores - disse o patro, que nunca tinha 
visto tanto entusiasmo entre os seus clientes.
- Isso  tarefa sua. A minha parte acaba aqui - esclareceu Giuseppe.
- Ainda no. Vais ser a estrela da festa - explicou, por sua vez. O hbil 
industrial tinha organizado uma recepo soberba, nos sales do Grand 
Hotel, para todos os seus funcionrios.
- Eu no vou  festa. Estou cansado. Amanh falamos - rematou.
Para preparar aquele desfile, tinha passado vrias noites sem dormir, 
durante as quais controlara os vestidos um por um, em todos os pontos e 
em todos os pormenores.
- No me podes fazer isso - disse Lorenzi, indignado.
- Posso sim, at porque estou a faz-lo - afirmou Giuseppe, ao mesmo 
tempo que se afastava.
Encontrou o carro no meio da selva de automveis estacionados, entrou e 
arrancou a toda a velocidade. Precisava desesperadamente de estar 
sozinho.
Quando chegou  villa da via Pagano, o porto estava fechado, as 
persianas descidas e os andaimes desertos. Os operrios, que trabalhavam 
naquele restauro h meses, j tinham ido embora.
Entrou em casa, impregnada do cheiro das tintas, do estuque fresco e da 
cal.
Acendeu todas as luzes e vagueou pelos aposentos vazios, que lhe 
devolviam o eco dos seus passos. Levantou os olhos para os tectos 
ornamentados de frisos florais miraculosamente intactos e observou o 
corrimo de ferro forjado que avanava pela escadaria ampla. Subiu at ao 
primeiro andar e sentou-se no cho do patamar, protegido por um plstico, 
encostou os ombros  parede e ficou ali a admirar de cima aquela casa 
concebida como um exemplo de arquitectura e decorao Liberty. Olhou para 
os frescos no tecto e nas paredes, que representavam liblulas em voo, 
rosas desfolhadas, ramos entrelaados, andorinhas elegantes e mulheres em 
pose de esttua.
Giuseppe tinha todos os motivos para se sentir feliz, naquela noite. Mas 
baixou a cabea e apoiou-a nos joelhos, tomado por uma

263

dor que o acompanhava desde sempre. Gostaria de ser extrovertido como os 
irmos, como os pais. s vezes conseguia s-lo, mas eram s uns fogachos 
no pntano da sua melancolia. Agora recordava quando, em pequeno, pedia 
ao pai a lua e Renato se ria e lhe dizia Isso no te posso dar. Tens de 
te contentar em olhar paraela. No se conformava com aquela negao e 
esticava os braos para a agarrar sozinho. Mas a lua era realmente 
impossvel de alcanar. Nesses momentos sentia uma dor que o atormentava 
entre o peito e a garganta e chorava desesperado. Renato abraava-o e 
prometia-lhe: Amanh vou-te comprar uma bolinha de prata. Mas ele 
queria a lua e no a podia ter.
- vou ter de me contentar com uma bolinha de prata - disse agora, em voz 
alta. E prosseguiu: - No sou nada, no sou ningum.
Levantou a cabea e viu Pucci  sua frente.
- Pode ser que no sejas ningum, mas entretanto toda a gente te quer l 
em casa: eu, a Rosellina, a Liliana, o Sandro, o pai e a me.
- Aqui est o Pucci, o socorro, o eixo slido em volta do qual roda toda 
a famlia - disse tristemente Giuseppe, enquanto se levantava.
- Vamos para casa - repetiu o irmo, e acrescentou: - Sabes, dei uma 
volta pelo rs-do-cho e pela cave. H muito espao e eu tive uma ideia. 
Podamos abrir um estdio com colaboradores teus e idealizar uma linha de 
moda s tua. s um desperdcio, com o Lorenzi. Ele est a ganhar um monte 
de dinheiro com a tua criatividade. Percebes isso?
Giuseppe olhou para ele, perplexo.
- Continua - disse, enquanto desciam juntos as escadas.
- Vamos fazer uma sociedade, os dois. Eu deixo o banco e trato da parte 
administrativa e comercial, tu s o criativo e, bonito e forte como s, 
vais ter aos teus ps a gente que interessa. O instinto diz-me que 
podemos montar uma empresa mais rentvel do que uma mina de ouro.
Enquanto davam uma volta pelos vrios aposentos, Pucci delineou uma 
aventura emocionante.
- Eu tenho um contrato com o Lorenzi - observou Giuseppe.
- Acaba daqui a dois anos e  precisamente o tempo de que precisamos para 
arranjar capital e projectar o nosso futuro.

264

Da cave saram para um pequeno jardim murado, atulhado de escadotes, 
latas de tinta, sacos de cimento e ferramentas. Sentaram-se num banquinho 
de pedra, no meio da papelada que os trolhas l tinham deixado.
- Podia-se fazer - disse Giuseppe.
- Pode-se fazer - afirmou Pucci.
- Desculpa a maneira como te recebi.
- Acumulaste muita tenso e muito cansao durante estes meses.
- Eu no sou um artista, Pucci. Sou um costureirinho.
- Vais comear outra vez?
- Pensa em Utrillo, Degas, Renoir, Matisse, Van Gogh, Picasso, pensa em 
Telemaco, Signorini, Modigliani, Miro. So esses os artistas que eu amo, 
que me comovem at s lgrimas, que falam uma linguagem universal. Em 
criana bastava-me um papel, um lpis ou um pincel, e fazia desenhos, 
sonhando tornar-me um grande pintor. Mas afinal s sei desenhar vestidos, 
botes, aplicaes...
- Mas sabes fazer essas coisas como um mestre.  isso que conta - afirmou 
Pucci, seguro.
- Anda, vamos para casa. O que  que a me nos preparou?
- A terrina do costume, cheia de massa.
- O ideal para festejar - afirmou Giuseppe, e finalmente sorriu.

265

8
Os pais de Ariella, o casal Spada, tinham partido de Forli de manh cedo 
e s nove horas estavam em Bolonha. Foram tocar  porta de Giuliana, a 
irm mais velha, que morava na via D'Azeglio com o marido, o Dr. Raffaele 
Ercoli, num apartamento que ocupava todo o segundo andar de um palacete 
antigo. Foi Ariella quem veio abrir, j pronta para sair com eles. Iam 
juntos a Milo, a casa dos Corti. - J vos preparei o caf e tambm h 
brioches quentes - disse, depois de os ter abraado. Ajudou-os a tirar os 
casacos e avanou  frente deles at  cozinha, que era imensa e 
conservava o mobilirio dos anos vinte. A me sentou-se  mesa e deixou 
vaguear o olhar pelos cobres luzidios pendurados numa prateleira, pelo 
frigorfico monumental, os dois aparadores gmeos e uma grande mquina de 
cortar fiambre pousada numa mesinha prpria para o efeito. Aquela cozinha 
reflectia o gosto bolonhs pela boa mesa.
- A Giuliana e o Raffaele ainda esto a dormir - disse Ariella, enquanto 
deitava o caf nas chvenas. Numa taa de p, ao centro da mesa, 
sobressaam os brioches dourados.
A signora Spada esticou uma mo sapuda e pegou no maior.
- Em Forli no os temos assim to bons - comentou, enquanto comia.
- Pai, tira um tambm - sugeriu Ariella.
- Pode ser - aceitou Tommaso Spada, e acrescentou: - Depois do que tive 
de engolir por tua causa.

266

- Tommaso, sossega, por favor - pediu a mulher.
Tinham sido uns dias de tempestade em casa dos Spada e em casa dos 
Ercoli, depois de Ariella ter confessado que estava grvida. O pai tinha 
ficado furioso e o genro ainda ajudou.
- com tanto bom partido que h em Bolonha, tinhas de arranjar uma 
complicao com um guarda-livros que frequenta a penso Miami de 
Cesenatico! Tu, uma estudante universitria, com um cunhado como o 
Raffaele, deixaste-te comer por um morto de fome - reforou a irm, cheia 
de orgulho por ter casado com o descendente de uma das mais ilustres 
famlias burguesas da cidade.
- E afinal quem  esse Pucci Corti? - perguntou Raffaele Ercoli, um homem 
de cinquenta anos, mdico dentista, rico proprietrio de terrenos. A 
signora Spada, que o definia como sendo to feio quanto antiptico, dizia 
dele: O meu genro tem uma profisso muito nojenta: mete sempre as mos 
na boca das pessoas. Tommaso Spada, pelo contrrio, gabava-se daquele 
parentesco que o fazia brilhar tambm a ele, simples ferrovirio, apesar 
de o genro o tratar com altivez. Quando o Dr. Ercoli falava, dissesse o 
que dissesse, o sogro rebaixava-se e anua, mesmo que no entendesse o 
que ele estava a dizer.
- O Pucci trabalha num banco, a irm mais nova est em Roma e  
bailarina, o irmo trabalha na moda e  um bocadinho... assim... A irm 
mais velha trabalha na Collenit e casou com um vivo que  contabilista. 
Os pais so operrios e parece que tm uma bela casa, sabe-se l como foi 
que a arranjaram. A minha mulher, que tem mentalidade de criana, est 
to apaixonada por esse Pucci como a filha. O que  que eu posso fazer? - 
perguntou Tommaso ao genro.
- Lamento muito pela vossa Ariella, que estragou a vida - concluiu 
dramaticamente o dentista rico.
Valeu de pouco que Ariella tivesse tentado sossegar a famlia ao dizer 
que Pucci tencionava assumir as suas responsabilidades. Quando o signor 
Spada telefonou aos pais do rapaz, pedindo para falar com Renato, 
Ernestina disse-lhe: - O meu marido no est, mas se aqui estivesse no 
lhe dizia nada mais do que aquilo que eu lhe POSSO dizer. Sabemos de tudo 
e vamos enfrentar a situao segundo as nossas possibilidades.

267

- Talvez fosse melhor encontrarmo-nos, uma vez que no nos conhecemos - 
props ento o signor Spada.
- Quando quiserem - rematou Ernestina, que estava furibunda mas tentava 
conter a raiva.
Combinaram ento um almoo em casa dos Corti, em Milo no domingo 
seguinte.
O ferrovirio, uns dias antes, ousou pedir ao genro que os acompanhasse, 
para fazer frente  famlia de Pucci. Mas o Dr. Ercoli encolheu-se, 
horrorizado: - Eu no sujo as mos com certa gente.
Assim, naquela manh de Novembro, o casal Spada preparava-se para partir 
rumo a Milo com aquela filha insensata.
Durante a viagem de comboio, Tommaso Spada consultou a mulher a propsito 
do significado das palavras de Ernestina: - O que ter ela querido dizer 
com aquela frase?
- Qual frase?
- Disse que iam enfrentar a situao segundo as suas possibilidades. 
Podia querer dizer muita coisa. At podia querer dizer que lavam dali as 
mos.
- Por que no deixam de se atormentar? - resmungou Ariella.
- Porque tu s uma irresponsvel,  por isso! Aquele Pucci, da mesma 
maneira que te tramou a ti, pode ter tramado outras tontas
como tu.
Enquanto os Spada se martirizavam no comboio para Milo, Renato Corti 
tinha ido a uma pastelaria, a mando da mulher.
- No tenho tempo de fazer tambm a sobremesa. Escolhe qualquer coisa 
bonita e colorida. Pede tambm bombons de ginja e violetas caramelizadas. 
No gosto nada daquilo, mas com aqueles provincianos vo fazer um grande 
efeito - mandou Ernestina.
Durante a noite tinha-se levantado um vento hmido que anunciava chuva, 
arrancava das rvores as folhas amarelecidas e erguia remoinhos de p. 
Renato foi  via Orefici, onde comprou os doces e, na piazza Duomo, 
comprou o Unit. Depois enfiou-se no Campari e pediu um caf. Sentou-se a 
uma mesa e comeou a ler o jornal.
Naqueles dias, nas fbricas, a hostilidade entre os sindicatos de 
esquerda e os de direita tinha aumentado. Renato esforava-se por 
entender o que se estava a passar, para alm das informaes muito
268
formais da direco no sentido de tranquilizar as pessoas. Naquele dia 
havia um encontro, em Pavia, entre os representantes sindicais dos 
metalomecnicos. Ele no podia participar com os outros companheiros 
porque tinha de tratar de Pucci. Na realidade, Renato no considerava um 
problema a gravidez daquela bonita rapariga por quem o filho se tinha 
apaixonado. Mas pelas conversas de Ernestina percebeu que era a famlia 
dela quem estava a fazer daquilo um drama e, tendo de escolher entre os 
compromissos sindicais e os familiares, decidiu ficar em casa, porque em 
qualquer caso o destino do mundo no ia mudar em nada.
Quando ia a chegar a casa, viu Pucci passar de carro. Ia  estao buscar 
a famlia Spada. Ele subiu lentamente as escadas, sentindo-se ridculo 
com um tabuleiro de doces numa mo e o Unit na outra.
Pensou que talvez devesse ter ido a Pavia com os companheiros, apesar de 
comear j a sentir-se cansado de travar aquela guerra contra os moinhos 
de vento. O socialismo sovitico j no encantava ningum. O prprio 
Kruchev fora derrubado com a desculpa de ter o culto da personalidade e 
agora havia Brejnev, que tinha um olhar mais feroz do que o de Estaline. 
O prprio Togliatti, no Memoriale di Yalta, que tinha sido um pouco o seu 
testamento, sugerira uma maior autonomia do Partido Comunista Italiano 
nas suas relaes com a Rssia. Renato, e muitos outros como ele, sentia 
que entre os dirigentes do partido se insinuava uma inquietao que no 
augurava nada de bom.
Agora, como concluso daqueles pensamentos, achou que de qualquer maneira 
tinha um ponto firme na vida: a sua famlia. E concluiu que tinha feito 
muito bem em ficar em casa. Desejou que os pais de Ariella no fossem 
assim to insuportveis como Ernestna dizia.
Quando estavam j todos reunidos na sala a saborear um aperitivo 
acompanhado de po rstico e fatias de salame Negronetto e a Segnora 
Spada admirava a elegncia do apartamento dos Corti, Tomaso Spada voltou-
se para Renato.
- Tnhamos outras aspiraes para a nossa Ariella - comeou.
- Quais? - perguntou candidamente Renato.
- Queramos que acabasse o curso, mas...

269

- Mas os nossos filhos vo-se casar, uma vez que vem a um netinho. S 
que a Ariella vai poder continuar os estudos.  verdade que o meu filho 
no passa de um guarda-livros, mas tem excelentes qualidades: antes de 
mais, a vontade de trabalhar - replicou Renato.
- E depois, se gostam um do outro... - disse a signora Spada que 
comparava a fealdade do genro dentista com o jovem Pucci lindo como o 
sol.
- Mas esta gravidez... - insistiu o ferrovirio.
D Deus as nozes a quem no tem dentes, pensou Ernestina. Tinha em mente 
Liliana, que se consumia no desejo de um filho. Um dia tinha-lhe 
confessado que no sabia como sugerir ao marido que tambm ele fizesse 
uns testes. - O mdico diz que pode depender dele o facto de eu no 
engravidar.
Ernestina ficou escandalizada. - No podes pedir uma coisa dessas a um 
homem. Se te mandasse dar uma volta, tinha muita razo - exclamou, porque 
lhe parecia uma blasfmia suspeitar que um homem fosse estril. Depois 
animou-a: - Deixa l os testes e d tempo ao tempo.
Por isso foi ela quem respondeu ao comentrio infeliz do ferrovirio: - 
Um filho  sempre uma bno. O Pucci e a Ariella, para j, podem ficar a 
viver connosco. Felizmente temos uma casa grande e confortvel.
Tommaso Spada no respondeu, mas no fim do almoo, a abanar a cabea, 
disse: - Temos de nos conformar.
- Chega, pai! J no posso mais - protestou Ariella, que estava a 
levantar a mesa com a ajuda de Pucci.
Caiu o silncio sobre os presentes e os dois jovens refugiaram-se na 
cozinha a preparar o caf. - Meteste-o na ordem - disse Pucci. E 
acrescentou: - Por que no tentas compreend-lo? Estava  espera de um 
genro to rico como o de Bolonha e v-se obrigado a digerir um bancrio 
de Milo.
- Tu s o homem dos meus sonhos - sussurrou Ariella, enquanto lhe afagava 
o peito. Amava-o apaixonadamente e, ao conversar com as amigas, 
comparava-o a Rock Hudson. Mas o Pucci  mais bonito, garantia.
Mas se tinha sido conquistada pela sua beleza, a seguir soubera apreciar 
a inteligncia e a determinao daquele rapaz. No era

270

assim to ingnua e to inconsciente como a sua famlia julgava e tinha a 
certeza de que Pucci nunca havia de a desiludir.
Agora, ele disse-lhe: - Eu no vou trabalhar no banco durante toda a 
vida. Tenho um grande projecto, apesar de demorar ainda uns anos a 
concretiz-lo, mas um dia o teu cunhado dentista vai sentir inveja de 
mim.
- De que se trata? - perguntou a rapariga, enquanto dispunha as chvenas 
no tabuleiro.
- Ainda no chegou o momento. Agora vamos levar o caf - respondeu ele.
Ariella sabia que o namorado nunca falava por falar e abenoou a gravidez 
que lhe permitiria casar-se imediatamente e viver ao lado dele.

271

Ariella estava no stimo ms de gravidez e, desde o dia do casamento, 
vivia alegremente em Milo, na casa dos sogros.
Os pais Corti tratavam-na como uma filha e Rosellina elegera-a sua 
confidente: - Um privilgio que at agora reservava s para o Pucci - 
disse-lhe.
Rosellina regressara de Roma em Janeiro. Uma agncia de manequins props-
lhe um contrato para a publicidade de um cosmtico. Pucci foi o seu 
agente e recebeu uma comisso. O rapaz tinha descoberto um mundo em que o 
dinheiro corria como um rio e era preciso ler e interpretar com ateno 
os contratos para os aproveitar ao mximo.
Pucci comeava a apaixonar-se por aquela matria nova e interessante da 
qual Rosellina continuava a querer fugir, porque ficava para alm das 
suas capacidades de compreenso, confiando cegamente no irmo.
Agora ele tinha-lhe arranjado uma empresa que produzia cerveja e andava  
procura de uma imagem de rapariga no s para a publicidade nos cartazes 
das ruas e na imprensa, mas tambm para a televiso. Entre muitas caras 
bonitas, foi ela a escolhida, e Pucci tinha conseguido uma boa 
remunerao. Rosellina, feliz por aparecer, nem queria saber quanto 
ganhava. Bastava-lhe ter dinheiro para gastar em futilidades. Acabava de 
comprar um pequeno enxoval para o beb que ia nascer.

272

Era uma tarde de feriado e os noivos tinham-se refugiado no quarto porque 
Ariella estava com os tornozelos inchados e precisava de descansar. 
Rosellina entrou no quarto com uma grande caixa cinza-prola atada com 
uma fita branca.
- Arranjem-me espao - disse, ao mesmo tempo que se sentava na cama e 
pousava a caixa em cima da coberta. - Fiz umas compras para o meu futuro 
sobrinho - acrescentou, cheia de entusiasmo.
- Vamos l ver - disse a cunhada, curiosa, enquanto desfazia o lao. 
Saram dali camisinhas de seda branca acabadas  mo e debruadas a renda, 
touquinhas cheias de fitas, mantas e lenoizinhos bordados que eram uma 
alegria para os olhos.
- Mas que maravilha! - exclamou Ariella. - Pucci, olha que ternura! 
Rosellina, deves ter gasto uma fortuna.
- Daqui a pouco o teu marido vai dizer que eu sou completamente louca - 
disse a rapariga.
- s completamente louca - confirmou o irmo. - Como  que tu podes 
pensar que um recm-nascido, que tem de ser lavado e mudado de cinco em 
cinco minutos, pode ser vestido com estas coisas?
- Ouviste isto? Os homens so todos iguais. Em vez de nos agradecerem, 
dizem estas coisas - comentou Rosellina.
- Deixa-o falar. Eu agradeo-te imenso esta prenda - respondeu Ariella. 
E, com a ajuda da cunhada, arrumou o enxoval dentro da caixa. Depois 
acrescentou: - Conta-me alguma coisa agradvel. Vejo-te to pouco!
Pucci eclipsou-se, a resmungar.
- No faas caso. Foi l para fora fumar um cigarro - disse Rosellina. E 
continuou: - Ento, o que  que queres saber?
- Do teu morenao, por exemplo - respondeu Ariella.
- Fala baixo. O Cristiano Montenero  tabu nesta casa - sussurrou a 
rapariga.
- Continuas apaixonada?
- Cega de paixo. J olhaste bem para mim? Estou a apagar-me como uma 
chama pequenina. Vou-me consumir de desgosto, como as raparigas do sculo 
XIX - murmurou, com um tom dramtico.

273

Ariella sorriu ao recordar a quantidade de tagliatelle com molho de carne 
que a cunhada tinha devorado ao almoo.
- Travei uma batalha feroz contra todos os medos que esta famlia de 
carrascos me atirou para cima. E contra o Cristiano que de cada vez que 
estvamos em vias de fazer amor, fugia como uma lebre, dizendo que no 
queria arruinar a minha vida. Finalmente venci as resistncias dele e os 
meus medos - suspirou, ao recordar a sua primeira noite de amor. O msico 
tinha-lhe dito, segurando-a nos braos como se fosse uma relquia: - Um 
dia vou casar contigo. - Ela respondeu: - No tenho a mnima inteno de 
casar contigo, nem de ter filhos. J tenho a minha famlia. No preciso 
de outra.
Agora acrescentou, para satisfao da cunhada: -  tudo to romntico!
Ariella esclareceu: - Sim, mas vais casar com ele, no vais?
- Porqu estragar com um casamento uma relao que se alimenta do temor 
do abandono? Amamo-nos apaixonadamente, mas se nos casssemos amos amar-
nos menos.
- O que  que ests para a a dizer? Ias senti-lo mais teu - afirmou 
Ariella.
- J  completamente meu neste momento. Onde  que ele vai arranjar outra 
bonequinha de quem goste tanto como gosta de mim?
- Pois, essa  a tua sorte. Toda a gente gosta de ti.
- Ests a falar a srio?
-  isso mesmo, Rosellina - disse Ariella, abraando-a.
- Gosto que os outros me apreciem. Tenho sede de aceitao - afirmou, e 
acrescentou: - Para qu casar-me? De qualquer maneira, vou ter filhos: os 
teus e os da Liliana, que eu espero que consiga fazer algum, coitadinha.
Naquela noite, Pucci e Ariella foram ao cinema com Liliana e com o marido 
ver Mary Poppins.
As duas cunhadas, sentadas uma ao lado da outra, divertiam-se com aquela 
histria engraada. De vez em quando, Ariella sorria, pousava uma mo na 
barriga e sentia o beb a dar pontaps. Quando saram do cinema, Sandro 
convidou-os para irem a um caf, por baixo da galeria, acabar a noite com 
uma chvena de chocolate quente.

274

As duas raparigas foram  casa de banho e, enquanto lavava as mos, 
Liliana sussurrou para a cunhada: - Estou grvida.
- E s agora  que me dizes? - perguntou Ariella, com as mos a pingar 
suspensas no ar.
- Por enquanto nem sequer o meu marido sabe, mas estou to feliz que 
preciso de dizer isto a algum - explicou.
- Por que no falaste com o Sandro?
- Quero arranjar um momento absolutamente perfeito para esta grande 
notcia - confessou Liliana.

275

BARROW - CORNUALHA
Maria De Vito e a sogra, Evelyn, sentadas no relvado em frente  antiga 
cottage, conversavam tranquilamente enquanto Nelson tinha ido jogar tnis 
com Peter Burton, o pastor. Sir Pitt, o co do casal De Vito, dormia 
esticado em frente  porta de casa.
- No me lembro de um Agosto to generoso de sol como este ano - disse 
Evelyn.
- Refrescado por esta brisa subtil e discreta - observou Maria.
- Li no Morning Post que em Itlia chove torrencialmente.
- Depois volta aquele calor abafado que tolhe as pernas a todos aqueles 
que ficaram na cidade.
Sogra e nora falavam de banalidades, naqueles dias de frias em Barrow, 
na Cornualha.
Atravs da janela da cozinha, aberta sobre o jardim, chegou um delicioso 
perfume a canela.
Maria De Vito levantou-se da cadeira.
- vou desligar o forno. Acho que a tarte de ma est pronta. Evelyn 
olhou para ela enquanto atravessava o relvado. Trazia uma camisola de 
alas azul-turquesa, que lhe cingia os seios pequenos e o ventre plano, e 
sentiu-se feliz com aquela nora que tinha quase sessenta anos e 
conservava o corpo de uma rapariga. Sir Pitt levantou-se com um bocejo e 
afastou-se da porta para deixar passar a dona. Tambm ele parecia feliz 
com aquelas frias. Maria pousou a tarte no peitoril da janela, para 
arrefecer, tirou do frigorfico uma

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taa que continha rodelas de anans fresco, colocou-as em dois pratos 
pequenos e saiu outra vez para dividir a merenda com a sogra.
Enquanto comiam aquele fruto doce e suculento, o co esticou as orelhas e 
partiu de repente como uma seta em direco  cancela do jardim, a abanar 
a cauda freneticamente.
- O Nelson est a chegar - disseram as duas mulheres ao mesmo tempo.
Da curva da estrada, ladeada por sebes de buganvlia, apareceu Nelson a 
pedalar a sua bicicleta.
Vestia uns cales de tnis azuis e uma camisola branca. Trazia a raquete 
metida no saco.
- Dei cabo daquele presunoso do Burton - anunciou com orgulho quando 
chegou ao p das duas mulheres, enquanto Sir Pitt se abandonava a uma 
louca dana de boas-vindas.
Estava cheio de calor e feliz. Desceu da bicicleta, mandou o co parar 
com aquilo e deu um beijo na face da mulher e da me.
- Tens de lhe dar a desforra - disse a mulher.
- Ganhava eu outra vez e ele ia odiar-me por isso - disse Nelson.
- Podias deix-lo ganhar - props-lhe, com um sorriso malicioso.
- Mas assim no me divertia - afirmou ele. Estava feliz. Dirigiu-se a uma 
pequena construo de madeira, onde arrumou a bicicleta. Depois anunciou: 
- vou tomar um duche.
Pouco depois juntaram-se os trs no jardim para tomar ch e comer a tarte 
de ma. O gato Artu aterrou no colo de Evelyn para receber a sua parte 
de doce e Sir Pitt ganiu piedosamente, com o focinho pousado nos joelhos 
de Nelson, para obter uma fatia.
Depois o mdico acendeu o cachimbo, enquanto a me e a mulher fumaram um 
cigarro.
- O padre Burton disse-me que puseram  venda o palacete dos White. 
Lembras-te daquela casa bonita, de tijolo, com um porto vermelho e um 
jardim junto ao lago? - perguntou  mulher. E continuou: - Os White 
mudaram-se para o Connecticut, para ficarem perto dos filhos. O Kevin 
anda um bocado em baixo e a pobre da Leonor no est melhor. Com os 
filhos vo sentir-se mais seguros. O que dizes de a comprarmos? - props 
a Maria, que respondeu com um sorriso. Tinha percebido h muito tempo que

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o marido sentia necessidade de regressar s suas razes. Ela, mais uma 
vez, far-lhe-ia a vontade.
- H mais de vinte anos que os White no fazem obras nenhumas. Est numas 
condies miserveis, aquela casa - observou Evelyn.
- Mas era bonita, antigamente. Lembro-me bem de como era quando eu tinha 
quinze anos. Mergulhava no lago com os filhos dos White e depois a me 
servia-nos ch na varanda, no meio das flores que tratava com um amor 
obsessivo. Era a propriedade mais bonita de Barrow - continuou Nelson, 
entusiasmado.
- Querido, ests a pensar reformar-te? - perguntou Maria De Vito.
- Ainda no. No podia abandonar os meus pacientes. Mas daqui por uns 
anos... - No seu olhar azul brilhava a alegria de uma criana perante uma 
perspectiva muito entusiasmante.
A me observava-o, calada. No duvidava que a nora acompanhasse Nelson, 
mas perguntava a si mesma se ela seria feliz numa pequena aldeia da 
Cornualha.
- Acho que se comprssemos aquele palacete fazamos uma ptima escolha - 
disse Maria. - Sempre vivi em grandes cidades e agora acho que chegou o 
momento de respirar um pouco deste ar do campo - concluiu para sossegar o 
marido.
O casal De Vito regressou a Milo para a reabertura do consultrio. 
Nelson retomou as sesses com os pacientes, que se foram apresentando 
pontualmente depois daquelas longas frias de Vero.
S Liliana Corti brilhou pela sua ausncia.
- O que  que eu fao, Sr. Professor? Ligo-lhe? - perguntou a secretria, 
depois de Liliana ter faltado  primeira consulta.
- Vamos esperar - disse o psiquiatra.
Liliana regressou na semana seguinte.
Ele apenas lhe disse: - Como est, signora Corti?
Entretanto olhava para ela com curiosidade. Liliana vestia um tailleur de 
um tom carmim que se esfumava no violeta e trazia meias e sapatos azuis. 
O rosto, sem pintura, parecia mais sereno.
- Sabe, eu no queria c voltar. Achava que me podia arranjar sozinha. 
Mas estou outra vez muito angustiada.
- Em que ponto tnhamos ficado? - perguntou o mdico.

281

- Na minha gravidez, to desejada quanto sofrida, com seis meses de 
imobilidade na cama. No me podia levantar nem para comer. Mas sentia-me 
feliz, apesar de o meu trabalho ter sofrido um compasso de espera.

282

CITT STUDI

Quiseste a bicicleta? Agora pedala! - disse Ernestina.
-  isso que eu estou a fazer, me - respondeu Liliana, enquanto agitava 
o bibero com leite e bolachas para o pequeno Stefano, que acabava de 
fazer trs meses. - Mas tambm tenho de voltar ao trabalho, porque de 
outra forma posso dizer adeus  minha carreira.
Me e filha estavam na cozinha da casa do corso di Porta Romana. Stefano 
e a priminha Tina, que tinha agora dez meses, estavam a dormir no quarto 
dos avs. Era uma tarde de Abril e, como todos os domingos, a famlia 
Corti tinha-se reunido para o almoo. Depois os homens foram ao futebol, 
Ariella fechou-se no quarto a estudar porque tinha um exame e Rosellina 
escapuliu-se  socapa, embora toda a gente soubesse que se ia encontrar 
com Cristiano Montenero.
-  mais importante o Stefano ou a carreira? - perguntou Ernestina.
- Mas que pergunta  essa?
- Responde! - pediu Ernestina.
- Tu s me queres provocar. Queres-me fazer admitir que Ponho o trabalho 
 frente do meu filho. Mas no  assim. Tiveste quatro filhos e, em 
parte, fui eu que tratei deles, enquanto tu trabalhavas na fbrica - 
reagiu.
- Parabns, Sra. Doutora. Estiveste estes anos todos  espera

285

para me atirares isso  cara. - Ernestina saiu para o pequeno terrao e 
pousou os braos no parapeito, a olhar para baixo, para o ptio.
Liliana pousou o bibero em cima da mesa. Reparou que as costas da me 
estavam a ficar curvadas e lembrou-se dela, no corso Lodi, naquela mesma 
posio. Era uma noite fria de Inverno, Liliana tinha protestado por 
causa do arroz branco, o mesmo de sempre, e Ernestina tinha-lhe dado uma 
estalada. Depois saiu para a varanda a digerir o desapontamento e a 
preocupao por causa do marido que no tinha ainda regressado de uma 
manifestao de rua.
Agora, como nessa altura, Liliana foi at junto dela e passou-lhe uma mo 
carinhosa nos ombros.
- Desculpa, me - sussurrou. - Eu sei quanto te devo, a ti e ao pai. O 
problema  que estou preocupada, porque, depois de ter desejado tanto o 
meu Stefano, agora apercebo-me, com tristeza, de que o papel de me me 
fica apertado. Sinto-me realmente infeliz perante esta minha atitude em 
relao ao desempenho materno. Eu mudo fraldas, preparo papas, canto 
cantiguinhas, mas tambm tenho vontade de fazer muitas outras coisas. Tu 
tinhas de trabalhar para nos sustentar. Eu, pelo contrrio, quero 
trabalhar para me afirmar profissionalmente. Eu amo o sucesso, me. 
Lembras-te daquilo que eu dizia quando era pequena? - perguntou-lhe.
- Querias ir at ao topo do mundo - sussurrou Ernestina.
- Ainda quero e a presena de um filho no me pode impedir de o fazer.
- Tens a certeza?
- Tenho.
- Ento, qual  o problema?
- O problema, como sempre, s tu. Se arranjar uma baby-sitter para o 
Stefano tu vais dizer que eu no lhe ligo por causa da minha ambio.
- Importa-te assim tanto a minha opinio?
- Eu sempre precisei da tua aprovao, me.
- Fazes-me sentir como uma ditadora.
- Mas tu s. Sempre foste.
- Rico atributo para uma me.
- Fantstico, diria eu, vistos os resultados. Eu sei que nunca ests 
contente, que tens sempre que dizer sobre tudo e sobre todos, mas 
conseguiste ter uma famlia extraordinria e a tua palavra, para

286

ns,  lei. Foste tu que deste aos teus filhos a fora para encontrar Um 
caminho na vida. O pai ensinou-nos a alegria e a honestidade, tu 
ensinaste-nos a persistncia e deste-nos imenso amor. Por isso eu estou 
aqui, agora, a pedir-te que me ajudes a resolver o problema do Stefano. 
Quero voltar a trabalhar. Arranja-me uma mulher de confiana a quem 
deixar o meu filho quando for para o escritrio.
Ernestina puxou para trs uma madeixa de cabelo que lhe caa na testa. 
Entrou de novo na cozinha, sentou-se  mesa e acendeu um cigarro.
- Temos a mulher do Fermo - disse, por fim. - Tratou da sogra at ao ms 
passado, quando morreu.
- A me do Fermo morreu? No sabia - observou Liliana, com alguma 
tristeza.
- Eu e o teu pai fomos ao funeral. Vocs tm sempre muito que fazer. 
Portanto, agora a Maddalena est disponvel.  uma mulher que tem a 
cabea no lugar. Por que no lhe telefonas?
Uma semana depois, Maddalena fazia a sua entrada na casa Brioschi. Era 
uma mulher cheia de energia, que cheirava a p de talco e transmitia 
segurana.
Segurou nos seus braos macios o pequeno Stefano e declarou:
- Regressa  confuso, Liliana. Eu e este pedao de gente vamo-nos 
entender como Deus com os anjos.
Eram as palavras que Liliana queria ouvir. Ficou com ela durante uns dias 
e, depois de um ano de ausncia, regressou ao escritrio.
O clima tinha mudado e ela apercebeu-se imediatamente de um sentimento de 
inquietao que pairava entre o pessoal. Mas no ligou. Estava feliz por 
poder sentar-se novamente  sua secretria, analisar atentamente os 
processos para se actualizar, e ao fim do dia, quando Sandro a foi 
buscar, correu ao encontro dele e abraou-o como se no o visse h 
sculos.
- Sossega, pequenina - disse o marido que, no entanto, estava feliz por a 
ver to contente.
Quando entraram no carro, Liliana deixou cair a cabea no ombro dele e 
sussurrou-lhe: - Perdoa-me por todo este tempo em que fui uma companheira 
intratvel. Tu foste muito paciente e s

287

agora me apercebo de que me descuidei em relao a ti durante muitos 
meses.
- Estavas empenhada em tratar do nosso menino - respondeu ele.
- Como  que ele est? Viste-o? - perguntou, e na sua voz havia j uma 
sombra de ansiedade.
- Vi sim. A Maddalena disse-me que, se continuas a telefonar-lhe, nos 
deixa ficar - avisou-a.
- S liguei seis vezes - justificou-se.
- Tambm me disse que, uma vez que o Fermo est de urgncia esta noite, 
pode ficar l em casa at mais tarde. Por isso reservei uma mesa no nosso 
restaurante.
- A srio? H quantos meses no samos os dois para jantar?
- H muitos, demasiados. Mas agora estou com srias intenes de te fazer 
a corte como ou melhor do que antes.
Sandro tinha virado na via de cintura externa que ia ter  Darsena.
- Olha a no porta-luvas - pediu-lhe.
Liliana encontrou uma caixa de veludo que lhe revelou o brilho de um 
espantoso colar de prolas.
- s completamente louco - sussurrou Liliana, conquistada pela beleza 
daquela jia.
- Era o mnimo que eu podia fazer para retribuir o teu presente. Deste-me 
um pequeno Brioschi, fizeste-me ser pai, e isso  uma emoo que, na 
minha idade, nem toda a gente pode sentir.
Quando regressaram a casa, depois de um jantar  luz das velas, o menino 
dormia no bero e Maddalena estava sentada ao lado dele a fazer renda.
Sandro teve de insistir para a levar a casa. Ao fim de tanto tempo, 
aquela noite foi a primeira de uma longa srie que Liliana e o marido 
passaram juntos como se fossem ainda dois namorados.
Uma noite, antes de adormecer, ela disse-lhe: - Mais uma vez tenho de 
agradecer  minha me. S ela era capaz de arranjar um anjo como a 
Maddalena para o Stefano. - Depois, num sussurro, acrescentou: - Parece-
me tudo demasiado bom para ser verdadeiro.
Na realidade, Liliana comeava a sentir um ar de tempestade na Collenit. 
Mas decidiu guardar para si os seus receios.

288

Tinham passado alguns anos e a tenso de que Liliana se apercebera na 
empresa sentia-se agora por todo o lado, na cidade: nos transportes 
pblicos, nas ruas, nas lojas, nos teatros, nas escolas e transparecia 
tambm nos jornais.
Depressa chegou o tempo em que no era prudente ir ao centro, sobretudo 
ao sbado, por causa das contnuas manifestaes de rua que degeneravam 
em actos de vandalismo e confrontos com a polcia. Liliana recordava as 
manifestaes da sua adolescncia, nas quais o pai participava, e 
constatava que agora, ao contrrio dessa altura, o que dominava era a 
violncia, a vontade de desfazer o mundo, o desejo de bater, ferir e 
destruir.
Uma manh, ao chegar  Collenit, viu vedado o acesso aos escritrios por 
um grupo de operrios que no conhecia.
- A senhora hoje no entra na empresa - disse um deles, com o rosto 
tapado por um gorro.
- Oua, no me faa perder tempo - tentou reagir, apesar de o 
comportamento ameaador daquele homem a ter assustado.
- Preciso de passar. Tenho uma reunio daqui a uns minutos - exPlicou, 
esperando amans-lo.
- No vai haver reunies porque temos piquetes em todas as entradas do 
edifcio. Dou-lhe um conselho: v-se embora - mandou o da cara tapada.
Liliana percebeu que no valia a pena insistir. Deu meia-volta e dirigiu-
se ao fundo da rua, onde havia um caf que ela conhecia
289

bem. Era o stio onde Sandro a esperava ao fim do dia, quando se demorava 
a sair do escritrio.
Meteu-se na cabina telefnica e marcou o nmero pessoal de Massaroni, o 
director do pessoal.
- Estou aqui desde as sete horas da manh - disse o homem com uma voz 
exausta. - Estou prisioneiro no meu gabinete. Sabe que fizeram piquetes 
em todas as entradas do edifcio? - questionou.
- Acabo de falar com um homem medonho que no me deixou entrar - disse 
Liliana.
- Treparam  grade e tiraram de l a bandeira. Por aquela bandeira 
arrisquei eu a vida na guerra, percebe? Vi-os da minha janela e no pude 
fazer nada para evitar aquela afronta - contou-lhe, com
um tom nervoso.
- No cometa o erro de chamar a polcia, porque sabemos muito bem como 
eles podem reagir - recomendou-lhe.
- Tem mais alguma estratgia em mente, doutora? - perguntou ele.
Um rapaz, que acabava de entrar no caf, enfiou uma moeda na jukebox e 
seleccionou uma cano de Modugno. O volume estava altssimo e a msica, 
que contava uma histria de solido aristocrtica, de fazer chorar as 
pedras da calada, contrastava com aquilo que estava a acontecer a pouca 
distncia dali.
- Eu no vou fazer nada. Mais cedo ou mais tarde vo-se cansar dos 
piquetes e acabam por ir embora - disse.
- Acha mesmo isso? Aquela gente  capaz de entrar por aqui dentro e eu 
no queria morrer nas mos desses desgraados.
- Se houver problemas mais graves, no se esquea de que eu o 
desaconselhei a mandar intervir as foras da ordem - avisou, e desligou o 
telefone.
Saiu da cabina e quase chocou com Munaf que, tal como ela, tinha 
procurado refgio no caf. Estava plido e assustado.
- Nem a si o deixaram passar? - perguntou Liliana.
- Atiraram-me para o lado e eu ca. Julguei que me queriam matar  
bastonada. Mas quem so eles? O que querem? Tm a cara tapada com 
carapuos. Os funcionrios chegam a cinquenta metros do edifcio e depois 
vo-se embora, fogem.
- Dos que me mandaram parar a mim, s um  que tinha a cara

290

tapada. Os outros, nunca os tinha visto - observou Liliana. Pediu dois 
cafs e disse a Munaf: - Tem aqui o acar. A mo do homem tremia quando 
pegou na colher.
- Ouvi dizer que esta gente vem da Righetti-Magnani, por isso no correm 
o risco de serem reconhecidos, enquanto os mais duros da Collenit foram 
para a fbrica deles - explicou-lhe.
- Oh, valha-me Deus, o meu pai - sussurrou Liliana, e sentiu o corao 
bater com muita fora.
Voltou  cabina telefnica e marcou o nmero da seco em que Renato 
trabalhava.
Atendeu um colega que a tranquilizou.
- O teu pai est a conversar com um grupo de gente muito agitada - disse-
lhe.
- Quero falar com ele - insistiu Liliana.
- Est do lado de fora do porto, no o posso chamar. Ns estamos a 
assistir  cena pelos janeles do primeiro andar. Est sossegada, porque 
o Renato sabe lidar com estas coisas e  capaz de fazer com que o ouam. 
Trata mas  de ti, porque na Collenit est um grupo dos nossos, os mais 
violentos.
Da rua chegou at ao caf o uivo das sirenes da Polcia. Liliana desligou 
a chamada e foi at  porta, juntamente com outros clientes e alguns 
colegas.
- Idiota! - praguejou Liliana, referindo-se ao director, que tinha 
chamado as foras da ordem.
Assistiram impotentes  destruio dos vidros do edifcio, atingidos por 
cubos de basalto atirados em chuva pelos manifestantes, enquanto a 
polcia tentava trav-los com jactos de gua e gs lacrimogneo.
- Estamos cheios de sorte se no morrer ningum - sussurrou Munaf, 
aterrado. No ar ecoavam gritos, insultos, slogans belicosos pronunciados 
contra os dirigentes da Collenit, acusados de serem servos dos patres.
Liliana saiu do caf a correr, meteu por uma rua lateral, conseguiu 
apanhar um txi e deu a direco da Righetti-Magnani.
- S se eu fosse doido - disse o taxista. - Acabaram de me avisar que 
est a haver uma manifestao.
Convenceu-o, com uma boa gorjeta, a lev-la at  zona e depois continuou 
a p at  empresa onde trabalhava o pai.

291

Os portes estavam fechados, no andava por ali ningum, parecia uma 
fbrica abandonada.
Um dos homens que estavam de guarda  portaria reconheceu-a e deixou-a 
entrar.
- O seu pai est no pavilho dois, com os do comit da fbrica - disse-
lhe, e explicou que Renato sara para a rua para conversar com os 
manifestantes e que, perante a incredulidade de todos, tinha conseguido 
fazer com que se fossem embora. - Agora vou avis-lo de que est aqui.
Liliana esperou pelo pai numa pequena sala medonha, empestada de fumo de 
cigarros.
Quando Renato chegou, ela abraou-o, a tremer.
- J passou tudo - disse ele, para a sossegar, acariciando-lhe os 
cabelos.
- At  prxima.
- Pois  - admitiu ele.
- Mas o que  que est a acontecer? De onde vem esta agressividade toda? 
Achas justo pactuar com a violncia? - perguntou, desanimada.
- Vamos dar uma volta - props o pai, dando-lhe o brao.
Saram da fbrica e caminharam devagar ao longo da rua que
ficava ao lado dos pavilhes.
- Estas cabeas quentes no querem um confronto democrtico e deixam-se 
instrumentalizar por quem est interessado em desestabilizar um sistema 
que no  perfeito, mas que funciona porque tem regras. O que me assusta 
 que por detrs da violncia de hoje no h regras. Esta gente prejudica 
o movimento operrio, que tem uma tradio digna de respeito - explicou 
Renato.
- Eu vou para casa, pai. E tu? - perguntou-lhe.
- Volto para a reunio. Os chefes do sindicato, nestas situaes 
difceis, brilham pela ausncia.  preciso fazer os possveis por 
transmitir s pessoas alguma calma.
- Ainda bem que est a chegar o Vero e vo todos de frias. Mas depois? 
Como  que vai ser no Outono?
- Vamos agarrar a parte justa do protesto.  isso que temos de fazer, 
Liliana.
- E eu o que fao no meio desta confuso? Estou to deprimida que me d 
vontade de largar tudo. Detesto a violncia, pai.

292

- Serias a primeira Corti a renunciar  luta - afirmou Renato.
- No  verdade. At a me pediu a reforma antecipada - sublinhou 
Liliana.
- A tua me combateu durante toda a vida. Tu ainda nem sequer comeaste a 
aquecer os msculos.
- Olha que ests a falar com uma antagonista, com uma pessoa que est do 
outro lado da barricada.
- Nunca cometas o erro de pensar que os bons esto s de um lado e os 
maus do outro. As coisas boas nascem quando se derrubam as barricadas, 
quando as pessoas se olham nos olhos e comeam a negociar.
- No me vou esquecer - disse Liliana.

293

Era uma tarde de sexta-feira em meados de Dezembro. Renato tinha 
regressado s trs horas do seu turno de trabalho.
- O apartamento do ltimo andar est pronto para ser habitado. No queres 
v-lo? - perguntou a mulher.
Pucci tinha pedido um emprstimo e, fazendo um excelente negcio, 
comprara todo o sexto andar do edifcio da via di Porta Romana. A sua 
famlia estava a crescer.  pequena Tina juntara-se Roberto, que tinha 
dois anos. Pucci e Ariella precisavam de espao, at porque Ariella, que 
apesar de ter acabado o curso no tinha a mnima inteno de se dedicar 
ao ensino, estava outra vez grvida.
- Est muito jeitoso, vais ver - disse ainda Ernestina. Renato 
inspeccionou os vrios quartos, as casas de banho, a sala com lareira, a 
cozinha bem apetrechada e o grande terrao que dava para a rua.
-  mesmo uma casa de ricos - concordou Renato. - Tornmo-nos uns 
burgueses - constatou.
-  pecado? - perguntou a mulher.
- Quando uma pessoa tem os ps bem quentes, deixa de se preocupar com os 
outros.
- Tu sempre lutaste por uma vida mais digna - comentou.
- Mais digna, precisamente. Mas eu aqui vejo frivolidade, ostentao, 
vontade de pertencer a uma classe privilegiada.  uma questo de 
moralidade.

294

- No faas um comcio. At porque s estou aqui eu para te ouvir - 
replicou Ernestina que, ao contrrio do marido, estava muito orgulhosa 
daquele sucesso dos filhos. E acrescentou: - Anda, vamos inaugurar a 
cozinha. Fazemos um caf com a mquina expresso.
Sentaram-se um em frente ao outro a saborear o caf. Renato estava 
estranhamente silencioso.
- Tu ests preocupado com as desordens na cidade, com aquilo que pode 
acontecer  Liliana, com a situao na fbrica, que te est a escapar das 
mos - disse ela, acariciando-lhe um brao.
- Noutros tempos eu sabia como corriam as coisas. Agora sinto que fui 
apanhado desprevenido - confessou ele. -  verdade, estou preocupado, 
porque no sei onde nos vai levar esta violncia.
- No fiques assim deprimido. Tu j deste para este peditrio, como se 
costuma dizer. Meu Deus, tenho mesmo de ser eu a dizer-te estas coisas?
- Aprendeste a lio comigo.
- E tu esqueceste-a - comentou.
- Estou cansado, minha querida Ernestina. Cansado e desencantado - 
confessou, enquanto pousava na banca as chvenas vazias.
Ela levantou-se para as lavar e arrumar no stio. Renato ps-se atrs 
dela e abraou-a.
- S no sei quando  que aqueles dois se vo decidir a mudar-se para 
aqui - disse Ernestina.
- Se calhar querem manter esta casa assim bonita. Esto bem no primeiro 
andar, contigo a servir-lhes tudo numa bandeja - sussurrou o marido, 
tocando-lhe a orelha com os lbios.
- No me faas isso - implorou ela, enquanto secava as mos.
- Diz-me que ainda te fao arrepiar - provocou ele.
- Que Deus me perdoe, mas  assim mesmo - admitiu.
- Ento somos ns que temos de inaugurar este apartamento - disse. Pegou 
na mulher ao colo, como fazia quando eram novos, levou-a para o quarto do 
filho e da nora, instalou-a na cama e desabotoou-lhe a blusa, enquanto 
lhe sussurrava palavras ternas. Ernestina sorria, abenoando a menopausa 
que a tinha libertado do medo de uma gravidez. Sentia-se feliz por amar e 
ser amada pelo seu Renato,

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porque ele tinha um corao grande, um esprito luminoso e pensamentos 
bons, porque tinha a fora de um furaco e a doura da brisa da 
Primavera, porque era o nico homem que conhecera e nunca desejara 
outros, porque era o pai dos seus filhos e, finalmente, porque era um 
amigo sincero que, at nos piores momentos sempre conseguira faz-la 
sorrir.
- Minha querida Ernestina, quase tenho vergonha de ser to feliz contigo 
- sussurrou ele, deixando-se cair em cima dela com todo o seu peso.
- Eu sei, porque  isso que eu sinto tambm - respondeu ela, num sopro.
Quando se levantaram da cama, olharam-se nos olhos com o embarao de dois 
apaixonados que acabavam de fazer uma malandrice.
- Na cama nova dos nossos filhos - lamentou Ernestina.
- Se calhar exagermos um bocadinho - concordou o marido.
- Vamos pr outra vez tudo direito. Seria terrvel se eles soubessem 
aquilo que ns fizemos - disse ela.
Fizeram a cama com cuidado e depois Ernestina disse: - No vo dar conta 
de nada.
- Se a cama no resolver contar-lhes tudo - replicou Renato.
- As camas no falam - garantiu Ernestina.
- Mas falo eu - disse uma voz cristalina atrs deles. Viraram-se, 
alarmados. Rosellina estava  porta do quarto, com um ombro encostado ao 
caixilho da porta, de braos cruzados e um sorriso malicioso. Ernestina 
corou. Renato franziu o sobrolho.
- O que  que ests aqui a fazer? - perguntou.
- Deixaram a porta da nossa casa aberta e a deste apartamento tambm. No 
vos encontrei l em baixo, por isso subi. No se aflijam, acabei de 
chegar - sossegou-os, com uma candura s aparente.
- Costuma-se pedir licena antes de entrar na casa dos outros
- resmungou Ernestina, ao mesmo tempo que, com uns dedos nervosos, 
tentava compor o cabelo.
Renato quebrou o embarao com uma gargalhada.
- Anda c, Rosellina - disse, abrindo os braos para a abraar. - A tua 
me queria que eu visse a casa do Pucci.  fantstica. Posso-te garantir, 
porque j experimentmos a cama. Uma cama acolhedora  o eixo em torno do 
qual gira uma famlia.

296

Ernestina j tinha escapado e descido de elevador at ao primeiro andar. 
Pai e filha foram pelas escadas, abraados.
- Pai, aconteceu uma coisa terrvel - disse Rosellina.
- A srio? - perguntou ele, olhando-a com uma cara alegre.
- Na piazza Fontana, no Banco da Agricultura, uma bomba provocou um 
massacre. Toda a gente fala nisso, na rua, na televiso e no rdio - 
anunciou a filha.
Renato empalideceu. Foi a correr para casa e telefonou a Liliana.
- No te mexas. No saias da empresa, no venhas para o centro. Rebentou 
uma bomba na piazza Fontana. Eu vou agora l ver o que aconteceu. Espera 
que eu te ligue outra vez, antes de sares do escritrio. E avisa o teu 
marido para no te ir buscar.

297

Rosellina abriu de par em par as portas que davam para um quarto 
setecentista e ficou parada, a olhar em volta, observando os frescos das 
paredes e dos arcos do tecto, as tapearias preciosas em tons pastel e a 
grande cama com umas cortinas de tule levantadas. Um homem jovem, de 
fsico bem modelado e rosto viril, estava estendido na cama. Um lenol 
imaculado escondia a sua nudez. Rosellina tinha os cabelos longos e 
ondulados presos por uma fita colorida. Vestia um camisolo de l 
comprido, j gasto, confeccionado com fios de muitas cores, uma saia 
florida que lhe descia sem forma at aos tornozelos e uns tamancos de 
camponesa.
- Meu Deus, pareces uma maltrapilha! - disse o jovem, em ar de 
brincadeira. Ela contou-lhe que tinha fugido de uma manifestao 
feminista em que participara e durante a qual, horas e horas, se tinha 
esganiado a gritar slogans contra o abuso de poder do macho, exaltando o 
amor livre. Atirou os tamancos para longe, desapertou a saia, que caiu ao 
cho, tirou a camisola e soltou a fita que lhe prendia o cabelo. Ficou 
com uma combinao de seda curta que revelava a perfeio do corpo e das 
pernas. com um movimento ligeiro saltou para cima da cama e enfiou-se 
debaixo do lenol.
- Vieste cedo - disse o rapaz, abraando-a.
- Acabou, Filippo. J no aguento mais assembleias, debates, 
manifestaes de protesto, cachorros-quentes, roupas esfarrapadas, amor 
livre, canes feministas, guitarras e charros, misturada com gente que 
no se lava, grandes palestras sobre os direitos das mulheres

298

que, por amor de Deus, so sagrados, mas que se podem defender de outras 
maneiras. Acabou, Filippo.
- A srio? - perguntou ele.
- Apetece-me um banho quente e perfumado, saltos altos, vestidos de seda 
cheios de lantejoulas. Gosto de me sentir bonita, elegante, desejvel. 
Gosto de canes e romances de amor e quero poder dizer isto sem ser 
rotulada como uma burguesa nojenta.
- Que anda com o jovem duque Filippo Adalberto Maria degli Altieri, que 
ama perdidamente esta burguesa nojenta - afirmou ele, a rir.
Rosellina afastou-se do rapaz e olhou-o nos olhos.
- Em que  que ests a pensar? - perguntou ele, e continuou:
- Sabes, adivinhar os pensamentos da namorada  o grande tormento de 
todos os apaixonados.
Ela sorriu-lhe.
- Queres mesmo saber em que  que estou a pensar? - perguntou, observando 
os frescos pintados no tecto.
- So muito bonitos, no so? - disse ele. - Este era o quarto dos meus 
tetravs, que viveram numa poca em que as pessoas se dedicavam com 
paixo aos jogos amorosos. Tenho a certeza de que os meus antepassados se 
divertiram muitssimo neste quarto. Mas no  nisso que tu ests a 
pensar.
-  verdade. Mas se te dissesse, eras capaz de ficar desiludido
- confessou ela.
- Tenta - pediu-lhe.
- Estava a pensar que, por muito que tivesse tentado, no consigo ser uma 
filha das flores, uma discpula de Timothy Leary, algum que acredita no 
uso benfico dos alucinognios. Eu acredito neste momento fantstico que 
estou a viver contigo, acho que  um privilgio viver numa villa como 
esta, acredito na tranquilidade daquele lago que se v para alm da 
varanda, no perfume dos oleandros que entra neste quarto, nestes lenis 
de seda to impalpveis que me fazem sentir numa nuvem.
- Ests a dizer a verdade? - perguntou ele, pouco convencido.
- No exactamente. No te disse at ao fim aquilo em que estava a pensar 
- corrigiu Rosellina.
- Ento continua, sou todo ouvidos - pediu-lhe.

299

- Eu quero um homem que case comigo, para o amar e lhe ser fiel para toda 
a vida. Quero ser uma esposa e uma me. Quero ter muitos filhos, porque 
gosto muito de crianas, e um guarda-roupa que exalte a minha 
feminilidade, jias, festas, alegria e, quando for mesmo preciso, algumas 
lgrimas, que no fazem mal nenhum. Era nisto que eu estava a pensar.
- Era isso que eu queria ouvir-te dizer h tanto tempo! - exclamou ele, 
feliz.
- Ento, casa comigo, por favor! - exclamou Rosellina, abraando-o.
A cortina fechou-se com um rumor de veludo, ao mesmo tempo que estalavam 
os aplausos do pblico.
Ao fim de alguns instantes a cortina voltou a abrir-se e os holofotes 
iluminaram Rosellina, que sorria no meio do palco, com o lenol de seda 
enrolado  volta do corpo. O pblico, entusiasmado, continuava a 
aplaudir. Casa Comigo, Por Favor era o ttulo da comdia musical escrita 
por dois famosos autores de peas teatrais e musicada por Cristiano 
Montenero, o compositor e maestro que era h muito tempo o companheiro da 
actriz debutante.
Rosellina tinha-se estreado com sucesso no prestigiado palco do teatro 
Manzoni ao fim de apenas uma semana de ensaios. Foi capaz de se aguentar 
em cena durante duas horas, com o autodomnio e a desenvoltura de uma 
grande estrela, e ningum, nem sequer os produtores, lamentaram a 
ausncia da grande Elvira Valli, para quem a comdia tinha sido escrita.
Tudo acontecera por acaso. Rosellina frequentava a escola de artes 
dramticas do Piccolo Teatro. Durante o Vero comearam os ensaios de 
Casa Comigo, Por Favor e Cristiano quis que ela estivesse ao seu lado. 
Elvira Valli, a actriz principal, era uma quarentona loira, muito 
sedutora e sensual, que se impunha no palco pela sua elegncia e forte 
personalidade. Era a clssica primadonna, caprichosa e tirana, com um 
vcio secreto: o lcool.
Dia aps dia, durante os ensaios, foi reparando em Rosellina, que andava 
pelos bastidores, e certa vez disse-lhe: - Por que no tentas fazer 
alguma coisa de til, cara linda?
Era o que a rapariga queria ouvir e Elvira usava-a para lhe fazer 
recados, inclusivamente para a compra das garrafas de whisky.
300
Rosellina massajava-lhe os ombros doridos e ajudava-a a decorar as falas 
da comdia.
A estreia foi em princpios de Setembro, numa cidade de provncia, s 
para testar as reaces do pblico. Os autores receavam a mensagem 
reaccionria do texto, naqueles anos de contestao acesa. Aos aplausos 
dos espectadores seguiram-se os insultos de um grupo de estudantes que 
protestavam contra aquela comdia ferozmente burguesa. O encenador e os 
produtores, no entanto, aperceberam-se de que o espectculo seria em 
qualquer caso um fiasco pela decepcionante interpretao da actriz 
principal, que no conseguia encaixar no papel de uma protagonista to 
jovem. A crtica da provncia no se tinha comprometido demasiado, 
limitando-se a definir a comdia como um agradvel intervalo em tempos de 
grande empenhamento civil e deixando entender nas entrelinhas que a 
aristocrtica Elvira Valli ficava pouco credvel nas vestes de uma jovem 
feminista primeiro furiosa e depois submissa. O nico momento de verdade, 
na sua interpretao, tinha sido aquele em que, ao despojar-se das suas 
roupas de hippy, se apresentava com um espantoso modelo de Valentino.
Indignada com os aplausos tpidos e com os insultos, aprimadonna no 
compareceu no habitual jantar com a companhia.
- Eu volto para o hotel - anunciou.
Na realidade, foi embebedar-se num bar e ao regressar de carro ao hotel 
calculou mal uma curva. O carro enfaixou-se numa rvore e ela foi 
internada de urgncia no hospital.
De madrugada, o encenador entrou de rompante no quarto de Cristiano. O 
msico e Rosellina ainda dormiam.
- Acorda! Vamos desmontar tudo, fazer as malas e voltar para casa - 
anunciou.
Rosellina sentou-se na cama. Vestia uma camisa de noite de seda com um 
grande decote que cobriu imediatamente com a beira do lenol.
- O que foi que aconteceu? - perguntou.
- A Elvira teve um acidente de carro e partiu uma perna e um brao. Se 
correr tudo bem, vai ter para trs meses.
-  uma pena ter de renunciar ao espectculo - observou Rosellina. A sua 
voz parecia o trinado de um passarinho.


301

- Pior do que isso,  um verdadeiro desastre - disse o encenador, 
abatido.
- Eu sei cantar, danar, e sei o guio todo de cor. Mas mesmo todo, at 
as falas dos outros actores - declarou a rapariga.
Cristiano e o realizador olharam um para o outro sem falar.
- Oh, no interessa. Foi uma coisa tola de que me lembrei para tentar 
ajudar-vos - disse ela.
Foi assim que nasceu o sucesso de Rosellina.
Os autores fizeram as necessrias correces ao texto. Houve algumas 
representaes em pequenas cidades de provncia e o consenso foi 
absoluto. No fim de Setembro, a companhia estreou em Milo.
Enquanto Elvira Valli continuava desterrada numa cama de hospital, no 
teatro Manzoni rebentavam os aplausos.
Rosellina, no meio do palco, sorria enquanto fazia uma vnia para 
agradecer.
Cristiano esperava-a nos bastidores.
- Esta noite nasceu uma estrela - sussurrou-lhe.
Ela refugiou-se nos seus braos, desfeita em lgrimas, e disse:
- Nunca me senti to feliz na minha vida!

302

- Achas que este  um bom momento para abrir uma empresa? - perguntou 
Ernestina a Giuseppe, e continuou: - H manifestaes e desordens todos 
os dias. As pessoas esto preocupadas e no pensam em comprar roupa.
- Sabes quando foi inventado o verniz das unhas? Na Amrica, nos anos 
trinta, durante a grande recesso. Nos momentos piores, as pessoas 
precisam de coisas gratificantes. Como alis demonstra a comdia da 
Rosellina. J registei a marca Corti Collection e tenciono produzir 
vestidos to bonitos como caros. O Pucci estudou um plano econmico. 
Podemos avanar, me - disse Giuseppe.
Era uma noite de Outono, hmida e melanclica. Na villa Liberty onde 
Giuseppe vivia e trabalhava, Ernestina estava reunida com os filhos e os 
respectivos companheiros. Renato tinha ficado em casa a tomar conta dos 
netos. As quintas-feiras  noite na pizaria eram agora uma recordao 
distante, mas acontecia muitas vezes a famlia encontrar-se para jantar 
em casa de um ou de outro irmo. Ernestina agradecia a sua sorte por 
aqueles filhos que se amavam e se solidarizavam entre si, apesar de cada 
um deles ter seguido um caminho diferente. S Rosellina continuava a ser 
uma preocupao, porque vivia com Cristiano mas no queria ouvir falar de 
casamento. Na vspera, aproveitando uma visita da filha  casa de Porta 
Romana, tinha-lhe dito: - Se tu e o Cristiano gostam tanto um do outro, 
por que no se casam?

303

- Porque no precisamos de ningum para certificar a nossa unio. E 
depois, eu no me vejo no papel de esposa. Me, eu sou uma actriz, no 
uma mulher virada para a casa e para os filhos.
- Isso quer dizer que no me vais dar a alegria de ver mais netos pela 
casa?
- Acho que j h que cheguem. O Pucci tem trs e ainda podem aumentar, a 
Liliana tem um mas, tanto quanto sei, gostava de ter mais outro. Eu j 
tenho os meus sobrinhos para dar mimo. No desejo ter filhos meus.
- Tu s uma rebelde, essa  que  a verdade, e nem sequer ests 
apaixonada pelo pobre do Cristiano, que anda atrs de ti com a lngua de 
fora como um cachorrinho.
- Mezinha, por que no sossegas um bocado? Eu sou feliz assim e o meu 
companheiro tambm . Olha, eu estou apaixonada pelo amor. Hoje  o 
Cristiano, amanh pode ser o Andrea - desafiou, com aquele eterno sorriso 
malicioso.
- Oh, valha-me Deus! E quem  esse Andrea? Ser possvel que eu seja 
sempre a ltima a saber das coisas? - Ernestina passou uma mo pela 
testa, como se quisesse afugentar o fantasma de uma nova transgresso de 
Rosellina, que no se parecia com nenhum dos irmos.
- Tem calma, me. No h Andrea nenhum. Podia ter dito Mrio ou Luigi. Em 
suma, no podes pensar que uma mulher deva por fora ficar ligada ao 
mesmo homem para toda a vida.
- Tu s uma tonta. Devia ter-te dado umas bofetadas quando eras pequena, 
em vez dos rebuados que te dava sempre que armavas uma das tuas. Mas 
eras to engraadinha...
- Tu tiveste a sorte de encontrar o pai. Mas s h um Renato Corti neste 
mundo. Se existisse um segundo, podes ter a certeza, de que seria meu 
para sempre.
- Tu no percebes nada da vida de um casal. No sabes que um homem e uma 
mulher, para viverem juntos toda a vida, devem saber ir um ao encontro do 
outro. O mundo est cheio de homens bonitos, honestos e cheios de 
vitalidade como o teu pai. Mas faltam as mulheres capazes de lhes dar 
valor. Tu s uma abbora vazia e no digo mais nada, porque estou zangada 
que chegue e ia acabar por dizer coisas desagradveis - protestou.
Rosellina afagou-lhe uma mo e sorriu-lhe.
304

- Me, vamos fazer as pazes. Sabes que no aguento ver-te zangada. 
Aceita-me como sou, se gostas de mim. Eu sempre te aceitei como tu s, e 
s fantstica, mam.
Ernestina acabou por abraar a filha.
- s uma malandra e, apesar disso, eu nunca deixei de gostar de ti. 
Quando nasceste, as fadas foram generosas contigo. A alguns do a beleza, 
a outros a inteligncia, a outros a fora para aguentar as dores da vida. 
A ti deram-te a capacidade de agradar.  uma qualidade que no te d 
mrito nenhum. E, no entanto...
- No entanto,  assim, mam querida. Esqueceste-te de dizer que eu tambm 
gosto dos outros - concluiu Rosellina, com uma leveza cheia de alegria.
A Ernestina restava submeter-se s escolhas dos filhos. Aceitou que 
Liliana escolhesse um homem muito mais velho do que ela, que Pucci se 
casasse quando ainda no estava em condies de manter uma casa para a 
sua famlia e que Giuseppe tivesse um novo companheiro.
Chamava-se Maurizio Zangheri, mas os amigos tratavam-no por Rizio. Era um 
galerista. Tinha tambm a seu cargo uma rubrica de arte numa importante 
revista da especialidade. Tinha sido casado e tinha dois filhos, que o 
baniram pela sua homossexualidade, e essa era a grande dor da sua vida. 
Era dez anos mais velho do que Giuseppe e era um companheiro muito 
paternal. Decidiram no viver juntos, por isso Rizio continuava a morar 
no seu apartamento e Giuseppe na villa Liberty. Ao contrrio de Filippo, 
o galerista no gostava da vida mundana. Nascera numa slida famlia 
burguesa, licenciara-se em Histria de Arte e aprendera a profisso do 
pai. Ernestina estava convencida de que aquele era o companheiro ideal 
para o filho e comeava a afeioar-se a ele.
Agora, na salinha contgua ao escritrio de Giuseppe, Ernestina discutia 
com o filho na presena de Rizio, que ouvia e calava. Os outros estavam 
no rs-do-cho. Os homens disputavam uma Partida de bilhar, as mulheres 
conversavam sobre frivolidades e o empregado filipino, Oscar, estava na 
cozinha a preparar o jantar. O rdio, com o volume baixo, transmitia 
msica sinfnica. L fora comeava a chover.
- Imagina que alguma coisa corre mal. Ficas sem trabalho e com uma 
montanha de dvidas. Pensaste nisso? - insistiu Ernestina.

305

- No, no quis mesmo pensar nisso, porque vai correr tudo da melhor 
maneira - disse Giuseppe.
- E tu, no dizes nada? - perguntou a Rizio, que os ouvia enquanto 
folheava distraidamente um livro sobre arte barroca.
- Eu sei gerir uma galeria e fazer contratos com os artistas mas no 
percebo nada de moda nem de vestidos. No entanto, acredito firmemente no 
talento do Giuseppe e, pelo pouco que sei tenho a certeza de que o Pucci 
nunca se teria despedido do banco se no tivesse a certeza de que a Corti 
Collection vai levantar voo como um Jumbo e que vai ultrapassar a 
barreira do som. O Pucci e o Giuseppe so uma parelha destinada a vencer 
- afirmou.
Ernestina sabia que Rosellina ia ser a cabea de cartaz da nova empresa e 
que tinha a beleza, a popularidade e a credibilidade para agarrar o 
pblico.
- Tudo isso so palavras, sonhos. Eu trabalhei durante vinte e cinco anos 
numa indstria de vesturio e conheo a complexidade e os riscos de uma 
empresa. Agora pergunto: qual  a necessidade de embarcar numa aventura 
que apresenta um monte de dificuldades e que no me vai deixar dormir de 
noite? No te chegava o teu ordenado? No te chegavam as percentagens nas 
vendas que ganhavas com o Lorenzi? Olha que quem tudo quer, tudo perde - 
profetizou.
- Me, eu no quero ser rico. O dinheiro vai chegar de qualquer maneira, 
s mos-cheias. Mas no  s para fazer dinheiro que eu e o Pucci 
cultivamos este projecto.  para realizar o nosso sonho, que h-de 
brilhar na histria da moda italiana. Dorme tranquila, por favor. O Pucci 
e eu vamos conseguir - afirmou Giuseppe.
Do rs-do-cho chegou um coro de vozes: - O jantar est pronto! - 
Confluram todos na ampla sala de jantar e sentaram-se em volta da grande 
mesa oval de jacarand.
Oscar entrou na sala com a terrina da sopa de legumes. Ernestina foi 
servida em primeiro lugar e, enquanto levava a colher aos lbios, 
observou a sua famlia. Sentia orgulho dos filhos, que tinham encontrado 
o seu lugar no mundo, ajudados pela inteligncia e pelo desejo de se 
afirmarem. Mas quantos milhes de jovens tinham lutado como aqueles sem 
chegar a lado nenhum? E, sobretudo, at quando iria a fortuna abenoar 
aquela famlia to grande e to bonita?

306

Os anos passavam depressa. Na Primavera de 1977, Pucci e Sandro fizeram 
uma expedio a Forte dei Marmi  procura de uma casa para o Vero. 
Alugaram uma villa para os meses de Julho e Agosto, confortvel e 
suficientemente grande para poder hospedar a tribo dos Corti. Ao fundo do 
jardim havia um pequeno porto que dava para a praia. A escolha daquela 
zona surgiu de um desejo que Ariella confessara ao marido: - Sempre fui 
para a praia na Romagna. Ao menos uma vez, gostava de experimentar a 
Toscana.
Assim, no primeiro fim-de-semana de Julho toda a famlia Corti foi tomar 
posse da villa, tendo ficado estabelecido que apenas Ernestina e Ariella 
estivessem presentes a tempo inteiro com as crianas. Os outros, Liliana 
e o marido includos, iriam l passar os sbados e domingos e as frias 
de Agosto.
Para a Collenit desenhava-se um Vero escaldante. A polcia estacionava 
em permanncia em frente aos portes para evitar possveis ataques 
terroristas.
Na segunda-feira de manh, quando regressaram da praia Sandro levou a 
mulher ao emprego.
- Vamos estar sozinhos at sexta-feira, tu e eu, como nos velhos tempos - 
disse-lhe, enquanto parava o carro em frente ao escritrio.
- Em que  que ests a pensar? - perguntou Liliana.
- Em jantares  luz de vela e passeios ao luar - props ele.
- Parece-me um ptimo programa - concordou ela.

307

- E vai ser, se te lembrares que tambm s mulher, para alm de seres uma 
directora da Collenit.
- No ponhas as coisas nesses termos, ou eu vou ter de te lembrar as tuas 
promessas falhadas, desde que nasceu o nosso filho. Desinteressaste-te 
dos teus jantares  quarta-feira com os teus amigos, dos jogos de tnis e 
da pesca - replicou. Sentia-se sempre culpada por causa de todos os 
compromissos de trabalho que a roubavam  famlia e, precisamente por 
isso, no suportava as crticas do marido.
- Vamos discutir s oito e meia da manh? - perguntou ele.
- Desculpa. s vezes consigo ser muito irracional - respondeu com doura.
- E eu tenho muitos cimes da minha mulher, que  muito bonita e passa o 
tempo todo com homens que eu no conheo e que so com certeza mais novos 
do que eu - admitiu Sandro.
- No h um nico com quem eu quisesse ter um instante de intimidade. Se 
os conhecesses, acreditavas em mim. - Era sincera. Amava aquele marido 
que lhe perdoava tantas falhas e que a substitua ao lado do pequeno 
Stefano sempre que tinha de se ausentar por questes de trabalho.
Sandro era realmente um companheiro fantstico.
- Um bom dia, pequenina - disse ele, enquanto lhe dava um beijo na face.
- Para ti tambm, meu querido - sussurrou ela, abraando-o.
- O teu perfume pe-me doido. Sabias? - murmurou ele, segurando-a nos 
braos.
- Encontramo-nos  noite. Vem buscar-me s sete - disse ela  despedida, 
enquanto saa do carro.
Sandro arrancou rapidamente e ela passou o porto sob o olhar vigilante 
dos polcias de servio.
Estava a chegar ao seu gabinete quando viu o director que, do fundo do 
corredor, vinha ao encontro dela.
Esperou por ele e entraram juntos no gabinete de Liliana. Ela pousou a 
carteira, carregou no boto do intercomunicador e disse  secretria: - 
Dois cafs, Maria, por favor. - Depois virou-se para o chefe: - Tambm 
quer, no  verdade?
Ele fez um sinal de assentimento e pousou na mesa uma pasta de documentos 
que trazia, na mo.

308

- No se importa se, antes de enfrentar mais um dia, eu tomar o meu caf? 
- perguntou Liliana, com uma entoao que queria dizer: Deixa-me em paz 
mais uns instantes, antes de me atormentares com mais um problema.
O homem no pestanejou e instalou-se na poltrona em frente a ela. Maria 
entrou trazendo na mo o tabuleiro com as chvenas fumegantes e o 
aucareiro.
- Precisa de mais alguma coisa, doutora? - perguntou. Liliana mandou-a 
embora com um gesto.
Depois do caf, ambos acenderam um cigarro e, finalmente, Liliana disse: 
- Sou toda ouvidos.
O director, que anos antes a recebera com arrogncia, j tinha aprendido 
h muito tempo a apreci-la. Liliana distinguia-se dos outros directores 
pela sua total falta de subservincia em relao aos superiores, que 
tratava como se fossem colegas, e sobretudo pelo alto nvel de 
profissionalismo com o qual tinha ganho a estima de toda a gente, mesmo 
dos operrios.
- Vai ter de conduzir a negociao com os trabalhadores - comeou 
Massaroni.
- Isso no devia ser consigo? - objectou Liliana.
- J no . A doutora  a minha assistente h algum tempo. com aquele 
bando de delinquentes, que devia ser tratado  chicotada, eu no discuto. 
Na sexta-feira  tarde foi aqui um pandemnio e eu no posso perder a 
face - explicou.
Liliana calculou que j a devia ter perdido, uma vez que se fazia agora 
substituir por ela. Sabia que os operrios andavam agitados por causa da 
renovao de contrato e, como era evidente, a empresa contava com as suas 
capacidades para resolver o problema.
- Pedi  sede de Roma que mandasse algum para estar ao seu lado, mas no 
vai chegar seno daqui por uns dias. Entretanto temos aqui quinhentos 
destrambelhados que s a doutora consegue enfrentar - explicou Massaroni.
- Est a brincar comigo?
- A srio que no. A presidncia est de acordo. No queremos greves nem 
desordens na empresa.
E assim, durante o fim-de-semana, enquanto ela estava em Forte dei Marmi 
com a famlia, a Collenit tinha-lhe destinado aquele Papel sem sequer a 
consultar.

309

- No arranje dificuldades, at porque toda a gente sabe que leva muito a 
peito os interesses dos trabalhadores.
- Passe-me os papis e no fique  espera de resultados extraordinrios - 
precisou Liliana. Apagou o cigarro e ficou a aguardar mais informaes.
- J conhece as exigncias inaceitveis com que avanaram. Actue como 
entender. O importante  que diga que no a tudo sem criar conflitos, 
entenda-se.
Liliana lembrou-se de Bonfanti, o sindicalista que, na via Paleocapa, lhe 
tinha dito: Gostvamos de a ter como antagonista. Agora tinha a certeza 
de que por detrs daquela manobra estava exactamente o dedo de Bonfanti, 
porque a Massaroni nunca teria ocorrido avanar com o seu nome.
- No se iluda. Eu vou aceitar as exigncias que considerar justas - 
respondeu, decidida, e acrescentou: - De outro modo, fico aqui, no meu 
gabinete. - O director foi obrigado a anuir e depois foi-se embora.
Liliana telefonou ao marido.
- Lamento muito pelo nosso programa de logo  noite. Mandaram-me negociar 
com os operrios. vou descer agora e no sei quando  que me vou 
conseguir libertar. Por favor, telefona  minha me e pergunta como esto 
a correr as coisas com o Stefano. Ligo-te assim que puder - disse-lhe.
Ouviu um longo suspiro de resignao.
- O programa fica s adiado, no fica cancelado. Depois explico-te tudo. 
- Tentava com isto amansar o marido.
- No quero saber de nada - replicou Sandro com uma voz dura e desligou o 
telefone.
Liliana levantou-se da secretria, pegou na pasta com os documentos e 
saiu do gabinete.
Desceu ao rs-do-cho e com um gesto decidido abriu as portas do salo 
onde estavam reunidos os representantes de todas as seces, tanto 
internas como externas. Massaroni tinha-lhe dito que eram quinhentos. 
Pareceram-lhe muitos mais. Aquela multido de gente pousou os olhos nela, 
enquanto Liliana avanava em direco  mesa que estava encostada  
parede do fundo. O ar estava irrespirvel por causa do calor e do fumo 
dos cigarros. Pousou os documentos em cima da mesa, ao lado do bloco de 
apontamentos. Ficou

310

em p, a olhar para eles em silncio. Conhecia muitos deles pessoalmente. 
Outros, os das seces externas, estava a v-los pela primeira vez. 
Sentia-se em pnico. Pousou com fora as mos na mesa para
travar as tremuras e disse: - Bom-dia.
Os operrios continuavam a olhar para ela em silncio.
Pensou no pai. Tinha sido e continuava a ser um deles, mas sabia exprimir 
os seus argumentos e ouvir os dos antagonistas. Ela, naquele momento, era 
a antagonista e perguntou a si mesma se, no meio daqueles homens, haveria 
algum que se parecesse com Renato Corti.
- Quem toma a palavra? - perguntou, com uma voz firme.
- Quando  que chega o chefe? - questionou um homem do fundo da sala.
- O chefe perdeu a pacincia. Por isso temos de nos entender entre ns - 
respondeu.
Houve um instante de silncio e depois um estalar de gargalhadas.
- No querem com certeza pr-nos a negociar com uma mulher? - disse um 
dos operrios, dando voz ao pensamento de todos eles.
- Esto aqui para avanar com propostas ou para defender o conceito 
fascista de que uma mulher tem o crebro mais pequeno do que o do homem?
Aquelas palavras atingiram alguns deles, que baixaram os olhos e 
esconderam as mos nos bolsos dos fatos de trabalho. Outros, porm, 
entoaram um coro de Buuuh, ao mesmo tempo que um deles lhe sugeriu que 
fosse embora para casa.
- V fazer malha, que  melhor. Se o chefe do pessoal, sendo o cobarde 
que , no aparece, que venha o director-geral. O que  que uma mulher 
pode entender das nossas questes!
- Percebo tanto como vocs - afirmou Liliana, com uma voz firme. - Cresci 
numa famlia em que se comia massa temperada com problemas sindicais. 
Enquanto vocs ainda estavam na creche, eu j sabia de cor a histria dos 
movimentos operrios, das ligas de agricultores, das derrotas e das 
vitrias que custaram muitas lgrimas e muito sangue aos trabalhadores. 
Por isso vamos acabar com essa indignao mesquinha e abordar as questes 
srias.

311

Alguns deles conheciam-na e respeitavam-na, mas outros, sentindo-se 
atacados, recusavam-se a lev-la a srio. - com aquela boca at pode 
dizer aquilo que quiser - comentou uma voz rude repetindo o slogan do 
anncio de um dentfrico.
Aquele comentrio infeliz provinha de algum do meio do grupo de jovens 
que se amontoavam ao fundo da sala. Liliana teve de recorrer a toda a sua 
presena de esprito para no abandonar a reunio, batendo com a porta 
atrs de si. Era a nica mulher num plenrio de homens irritados e, para 
agravar a situao, era jovem, bonita e elegante. Tinha a certeza de que 
muitos deles tencionavam continuar a humilh-la para conseguirem que ela 
se fosse embora.
Recordou a voz spera de Ernestina, que lhe dizia: Quiseste a bicicleta? 
Agora pedala!
E ela pedalou, assumindo a perseguio.
- O imbecil que pronunciou essa vulgaridade no ajuda nada os 
companheiros. Eu estou aqui para trabalhar. Quem no quiser fazer a mesma 
coisa, pode ir embora - disse, pronunciando as palavras uma a uma. No 
houve comentrios e Liliana prosseguiu:
- Portanto, tenho o mandato para avanar com estas negociaes. Vocs 
apresentam as vossas exigncias. Juntos vamos ver quais so as 
necessidades mais urgentes, que me empenharei em satisfazer, em nome da 
empresa.
Um dos operrios, na primeira fila, disse: - Ento comeo eu em nome dos 
companheiros da minha seco. Mas fique a saber que, se no chegarmos a 
um acordo, vamos todos embora e amanh tomamos conta do edifcio.
- No aceito chantagens, mas apenas uma discusso saudvel - afirmou 
Liliana. Sentou-se finalmente  mesa e disse: - Estou a
ouvir.
No princpio da tarde, o calor, o fumo dos cigarros e o fedor do suor 
tornaram-se insuportveis. Mas a discusso tinha comeado e ia avanando 
sem desordens. Os operrios alternavam-se  mesa das negociaes, fazendo 
turnos para irem comer e esticar as pernas. Liliana continuava colada  
cadeira e agradeceu queles que lhe trouxeram, de fora, gua fresca e 
caf. Chegaram as oito horas da noite, depois as dez e passou a meia-
noite. De madrugada, Liliana tinha concedido algumas passagens de 
categoria, recebidas com

312

um aplauso. Considerava-as sagradas e, ainda que a direco no estivesse 
de acordo, ia ter de as digerir.
- Estou um bocado cansada - disse a certa altura. Viu as horas no seu 
relgio de pulso e acrescentou: - No sei como vocs esto. Eu estou  
beira do colapso.
Houve um coro de gargalhadas.
- A doutora  uma leoa! Deixe-nos dizer isto, porque de interlocutores 
percebemos ns - comentou um operrio mais velho.
- Obrigada. Eu acho que podemos agora marcar as datas para os prximos 
encontros.
Enquanto tomava nota das datas, ia perguntando como poderia expor  
direco as concesses que tinha feito.
Da via Paleocapa tinha chegado Torquati, que estava agora  espera dela, 
com Massaroni, na sala de reunies. Ostentavam, os dois, um rosto marcado 
pelo cansao. J tinham sido informados de tudo e olhavam para ela com 
respeito.
- Fez um bom trabalho - disse Massaroni em voz baixa.
- Parabns! Conseguiu evitar complicaes piores - exclamou Torquati, 
informando-a de que Sandro estava  espera dela no trio.
- Amanh, alis, hoje, tire o dia de descanso. Vemo-nos na quarta-feira - 
disse o chefe.

313

7
A nova reunio fora marcada para a sexta-feira seguinte. Liliana estava 
de pssimo humor, at porque se apercebia da irritao do marido, que se 
tinha fechado num mutismo impenetrvel.
Uma noite, decidiu enfrent-lo. Estavam sentados  mesa da cozinha, a 
comer uma salada de arroz, com pouca vontade. Ela empurrou o prato para o 
lado e disse: - Vamos discutir as coisas? Eu no consigo continuar com 
esta tenso.
- Tudo bem - respondeu Sandro.
- Quem comea? - perguntou ela.
- Tu, como sempre - disse Sandro.
- Muito bem - concordou ela, acendendo um cigarro.
O marido imitou-a e Liliana continuou: - No me falas h trs dias. O que 
foi que eu te fiz?
- Pergunta antes o que andas a fazer a ti prpria. Deixas-te levar pelos 
teus chefes, que te soltam s feras para ires tu deitar gua na fervura. 
Porqu? Para qu? Pela carreira? Para demonstrares que s a melhor deles 
todos? Para contares ao nosso filho que tem uma me que  um guerreiro? 
Sabes o que isso lhe importa, ao menino? Em suma, porqu? - perguntou.
- Eu nunca te menti. Quando nos conhecemos, disse-te logo que tinha 
projectos ambiciosos para o meu trabalho e tu concordaste, tanto que at 
te ofereceste para me ajudar - esclareceu ela, apagando nervosamente o 
cigarro.

314

- O que foi que eu fiz, at agora, seno encorajar-te, apoiar-te, dar-te 
uma mo? Mas agora ests a ultrapassar os limites. Consegues imaginar o 
que eu passei na segunda-feira? Saste daquela reunio s quatro horas da 
manh!
- E tu, ser que fazes alguma ideia daquilo que eu passei naquelas 
dezoito horas terrveis?
- A pergunta mantm-se. Porqu?
- Porque eu quero uma promoo - explicou Liliana.
- No te chega aquilo que tens? s uma alta dirigente da Collenit, tens 
uma casa, um marido e um filho. Para que queres uma promoo?
- Gosto de dialogar com os operrios.  a coisa que eu sei fazer melhor. 
Herdei do meu pai a capacidade de estabelecer relaes equilibradas e, se 
conseguir o acesso  torre de controlo, poderei gerir com maior liberdade 
os interesses dos trabalhadores, sem descurar os do patronato. Porque se 
os patres so gananciosos e exploradores, os sindicatos no so uns 
anjinhos. Sei muito bem que o meu contributo  uma gota no oceano, mas 
quinze mil trabalhadores so uma boa fatia de humanidade para gerir com 
corao e cabea. Por que no havia de fazer isto?
- Porque amanh  noite temos um encontro marcado com o nosso filho, por 
exemplo. J te esqueceste? Lembras-te do Stefano, aquele menino que est 
na praia com a av e com os primos?
- No me gozes. Tenho bem presente o meu filho, uma vez que o desejei com 
todas as minhas foras e que para o ter abandonei o trabalho. Amanh  
noite estamos no Forte, com ele.
- Eu estou. Tu vais entrar numa reunio amanh de manh s nove e sabe-se 
l a que horas vais sair. Mas desta vez no vou l estar  tua espera.
Liliana afastou a cadeira, levantou-se e deitou os restos do jantar no 
balde do lixo. Depois sussurrou: - Avisei-os no outro dia de que no ia  
reunio de sexta-feira. Ontem  noite chegou um funcionrio de Roma. Vai 
ser ele a prosseguir com as negociaes. Eu saio do escritrio s cinco 
horas, como todas as sextas-feiras.
A fria de Sandro acalmou.
- No me podias ter dito logo? - perguntou-lhe.
- Como  que eu fazia? Tu j nem falavas comigo - lamentou-se ela.

315

- Olha que tivemos uma rica discusso - comentou.
- Uma rica discusso? Nunca assististe s que havia entre minha me e o 
meu pai. A Ernestina atirava os pratos pelo ar.
- E s vezes dava-lhe uma estalada. O teu pai contou-me.
- Mas amam-se. Sempre se amaram, aqueles dois - sublinhou Liliana.
- E ns?
- Ainda temos de afinar as nossas estratgias - brincou Liliana
- No nosso quarto? - perguntou Sandro, indo ao encontro dela e fazendo-
lhe uma carcia no rosto.
Na manh seguinte, Liliana entrou na empresa s oito horas. Saboreou o 
caf habitual, acendeu um cigarro e sentiu uma grande agitao nos 
corredores, ao mesmo tempo que o som dos telefones se tornava 
ensurdecedor. Maria, a secretria, assomou  porta do seu gabinete.
- O director ao telefone - anunciou.
Liliana levantou o auscultador.
- Doutora, h muita tenso na sala das negociaes - comeou.
- No est l em baixo o funcionrio de Roma?
- Precisamente. Parece que a querem a si. Atiraram-lhe um pisa-papis e 
feriram-no na testa.
- Vai ser preciso substituir os pisa-papis por umas pastas de plstico. 
Magoam menos - rematou. Estava absolutamente decidida a no se deixar 
envolver naquela reunio. Tinha feito uma promessa ao marido e tencionava 
mant-la.
- Eu no me estou a sentir bem - disse  secretria. - Chame-me um txi, 
porque quero ir j para casa. - Tinha percebido que a empresa precisava 
dela, mas daquela vez no podia deixar-se envolver.
Pouco depois entrava no escritrio de Sandro.
- Vamos embora, j - anunciou.
Sandro no queria ouvir outra coisa. Ainda tinha uma montanha de papis 
para examinar, mas o trabalho podia esperar, a mulher no.
Foram dois dias caticos e alegres. A famlia inteira estava no Forte,  
excepo de Giuseppe, que tinha ficado na cidade a preparar

316

o primeiro desfile da Corti Collection, que ia apresentar em Setembro. 
Liliana e o filho foram inseparveis. Stefano quis partilhar a cama com 
os pais, durante a noite, e o pedido foi satisfeito. Imitando-o, tambm 
os quatro primos quiseram dormir com Pucci e com Ariella, que acabaram 
num catre, aos ps da cama invadida por aquela ninhada de filhos.
Passaram as manhs na praia e as tardes no jardim a brincar com as 
crianas, no meio de plantas, birras, discusses e gargalhadas.
Renato isolou-se com Liliana.
- J soube que te saste muito bem na tua primeira reunio - disse-lhe.
- Foi o Sandro que te disse? - perguntou-lhe.
- Foram os meus companheiros que me informaram.
- Foi uma experincia terrvel. Como  que tu podes ter passado a tua 
vida com personagens to arrogantes? - lamentou.
- O exemplo vem dos patres, que so muito mais prepotentes e mal-
educados do que eles. E igualmente machistas. Achas que te vo promover?
- Vo ser obrigados a faz-lo. Na sexta-feira mandaram para a arena um 
dirigente de Roma a quem atiraram um pisa-papis e feriram na cabea. 
Queriam-me a mim para continuar as negociaes - disse Liliana, 
orgulhosa.
- No te iludas - avisou o pai. - No meio daqueles homens, por cada cem 
cabeas que pensam h outras tantas que s pretendem desmantelar o 
movimento operrio. Aparentemente, parecem os mais integralistas, mas so 
manobrados por quem no tem nada a ver com as nossas regras. E para que 
entendas aquilo que penso, vou-te dizer: tem cuidado contigo, Liliana. Ao 
teu colega atiraram um pisa-papis, a ti podem atirar uma coisa muito 
mais pesada. Renato falava com um ar srio e estava preocupado.
- As coisas tambm funcionam assim na tua fbrica? - perguntou-lhe.
- Exactamente. O sindicato no  feito de santos e de mrtires. Os nossos 
chefes defendem que levam a peito os interesses dos seus membros, e isso 
 verdade. Mas, antes disso, levam a peito os interesses deles prprios, 
que so os do poder. As estratgias so idnticas s da classe dominante. 
No final, os chefes de uma e de outra faco conseguem sempre chegar a um 
acordo. Quando um

317

sindicalista incomoda demasiado o patronato, afastam-no com uma promoo. 
Do-lhe um cargo poltico no governo e ele deixa de dar problemas. No 
vale a pena dar-te nomes, porque os conheces. Esto todos a fazer jogo 
sujo e eu tremo com a ideia de te expores demasiado, porque te podem 
deitar ao lixo.
- O que  que eu devo fazer, pai? - perguntou Liliana, preocupada.
- Deves fazer aquilo em que acreditas. J no  uma questo de direita ou 
de esquerda. O bom e o mau esto de um e de outro lado. Houve bastantes 
vtimas e nem todas eram inocentes. Quando estes anos terrveis acabarem, 
ento  que se vai fazer a conta macabra dos mortos. A nossa sociedade 
precisa de mudanas, mas quem foi que decidiu que elas tm de se fazer 
com a marca da violncia? Eu no, nem milhes de outros operrios como 
eu. Olhei com horror para aqueles anos em que prevaleceu a estratgia do 
basto para resolver os problemas da sociedade. Eu pensava: est bem a 
revoluo cultural, est bem a ocupao das fbricas e das escolas, os 
direitos das mulheres so sagrados,  foroso que haja um confronto 
social e construtivo. Mas a violncia, que sentido tinha, que sentido 
tem? Do sangue e da devastao s pode nascer a raiva e mais violncia. 
Desencadeou-se, na nossa sociedade, uma espiral perversa da qual no vejo 
o fim. E tu ests no meio dela.
- Mas tudo isto est a ajudar as mulheres a crescer, no achas?
- Eu acho que as mulheres tinham crescido melhor com a ajuda de uma 
dialctica mais calma.
- Mas como  que consegues lidar com a ignorncia, com a ordinarice? J 
no h respeito pela cultura, pelo carcter sagrado das instituies. 
Pensa o que  que representa no mundo o nosso Scala de Milo.  o templo 
da cultura civil, social, poltica. E temos de assistir ao espectculo 
daqueles desgraados que atiram para cima do pblico pazadas de lixo. 
Isto no  confronto dialctico, e ignorncia,  desprezo pelas nossas 
tradies. Mas eu acho que as pessoas tm mais bom senso do que as 
massas. A violncia vai acabar. Talvez a sociedade no volte a ser a 
mesma de antes, mas alguma coisa de bom h-de ficar.
- Eu tambm acho. Mas entretanto temos de lidar com as dificuldades 
actuais. No gostaria que tivesses de ser tu a fazer as despesas.

318

- Pai, eu lembro-me bem de quando a polcia te batia. Tu nunca largaste a 
presa. Eu tambm no vou largar.
- s mais casmurra do que a tua me - resmungou Renato.
- Sempre a cochichar, vocs os dois - interveio Rosellina, que andava  
procura do pai e o tinha finalmente encontrado com Liliana, sentado no 
caramancho escondido pelos jacarands.
- Podes juntar-te a ns - props a irm. E continuou: - Apesar de eu 
duvidar que os nossos assuntos te interessem.
- Fazes mal em duvidar. Devias ter a certeza - afirmou Rosellina.
- Eu vou ajudar a me a fazer o jantar - decidiu Liliana. E acrescentou: 
- E no fazia mal se algum se preocupasse em dar-nos uma mo.
- No contes comigo. Eu tenho de ir ao cabeleireiro - anunciou Rosellina.
Liliana dirigiu-se a casa, a resmungar contra as divas que desprezam os 
trabalhos domsticos, e Rosellina sentou-se na poltrona ao lado do pai.
- D-me mimo - disse-lhe.
- O teu pblico no te gratifica o suficiente? - perguntou Renato.
- O mimo do meu pai  uma coisa completamente diferente e gratifica-me 
muito mais - chilreou ela.
Renato sorriu, enfiou uma mo por entre os fartos cabelos da filha e 
despenteou-os.
- Passam os anos e tu continuas sempre uma menina - comentou, a abanar a 
cabea. Depois acrescentou: - Como  que tu ests, Rosellina?
- Estou muito em baixo, pai. Sabes que a Elvira Valli deixou de me 
cumprimentar? Anda a dizer que eu lhe roubei o papel, que sou uma ladra.
- E no  assim?
- S um bocadinho. No fui eu quem se foi espetar contra uma rvore, com 
uma bebedeira. Estava escrito que havia de ser assim. Lembras-te daquela 
noite, no acampamento dos ciganos, quando fomos reclamar os coelhos do 
Pucci?
- Foi uma rica aventura para vocs todos, os mais pequenos.

319

- Lembras-te daquela cigana velha que disse que tambm eu havia de ser 
uma ladra e que ia ser aplaudida como se fosse uma princesa?
Renato anuiu.
- Disse-te tambm qualquer coisa a ti, que a morte tinha tentado agarrar-
te, mas que depois tinha fugido. Estiveste quase a morrer com um 
traumatismo craniano. Ela viu mesmo bem, no achas?
- S l em cima  que conhecem a nossa sorte - respondeu Renato.
Aquelas curtas frias de Liliana acabaram. Regressou a Milo, no domingo 
 noite, com Sandro e com o pai. Na segunda-feira de manh, em cima da 
secretria do seu gabinete, encontrou a mensagem de ameaa das Brigadas 
Vermelhas que, alguns dias depois, tentaram mat-la.

320

Ao quarto do hospital, depois da interveno cirrgica realizada para 
reconstruir o msculo e os tendes da perna trespassada pelas balas, 
chegavam todos os dias ramos e cestos de flores, acompanhados de bilhetes 
que exprimiam dor, lamento e solidariedade. Fora do quarto havia, em 
permanncia, agentes da brigada antiterrorismo. Liliana tinha cado numa 
depresso grave e, incapaz de chorar, recusava-se tambm a falar.  
cabeceira da cama revezavam-se todos os membros da famlia. Um dia, com 
os olhos brilhantes de lgrimas, Ernestina disse-lhe: - Se te matavam... 
j pensaste, o teu filho?
Liliana falou pela primeira vez.
- Mantm o meu filho longe desta histria - disse.
-  o que estamos a tentar fazer. No Forte, a imprensa andou em cima de 
ns. Tivemos de fazer as malas e escondemo-nos num Pequeno hotel em 
Valseriana. - E, abraando-a, acrescentou: - Despacha-te a sair deste 
hospital. H remdio para tudo nesta vida e tu tens de recomear 
rapidamente a viver.
- S penso no polcia que morreu por minha causa - murmurou Liliana. - 
Tinha dois filhos pequenos - explicou.
- Fui ter com a mulher e com as crianas.
- No tive culpa, me. Eu s fiz o meu trabalho.
- Bem, trata de ficar boa e de reorganizar os teus objectivos, vivemos 
num mundo co, que no tem respeito por ningum. Trata de ter algum, por 
ti prpria e pela tua famlia - disse Ernestina.

321

- Como  que est o Stefano? - perguntou Liliana.
- Brinca com os primos e est a leste disto tudo.  noite falei ao 
telefone com o Sandro, que j lhe contou que tu ests fora, em trabalho. 
Ele acreditou. Mas at quando?
- At eu deixar este quarto. S estou  espera que me tirem os pontos da 
ferida. Quanto ao gesso vou ter de andar com ele durante quarenta dias. 
Diz ao meu filho que a me vai ter com ele a p-coxinho - disse Liliana. 
Depois abriu os braos, abraou a me com muita fora e chorou todas as 
lgrimas que tinha segurado at quele momento.
Quando Ernestina saiu do quarto, Renato estava  espera dela no corredor.
- Ento? - perguntou-lhe.
- Falou e chorou. Vai ficar boa depressa - respondeu a mulher.
Liliana recebeu a visita dos grandes directores da Collenit, dos
representantes dos operrios e de alguns sindicalistas.
- Queremo-la connosco, doutora. Fizeram-lhe uma coisa muito feia e se h 
algum que no merecia  mesmo a senhora - disse-lhe um operrio, que 
falava tambm em nome dos colegas. Liliana conhecia-o bem. Era aquele 
que, no incio da sua primeira reunio, lhe sugerira que fosse para casa 
fazer malha.
Contou-lhe que na empresa, quando se tinha sabido a notcia, os operrios 
fizeram dois minutos de silncio.
- Parece que no  nada, doutora. Mas dois minutos de silncio  muito 
tempo. No se ouvia voar uma mosca. Alguns choraram. Depois no quisemos 
voltar a reunir e adimos a continuao das negociaes para Setembro, 
quando l estiver a doutora para ouvir os nossos argumentos. Porque em 
Setembro vai voltar, no
vai?
Liliana voltou. Em fins de Agosto foi ao hospital tirar o gesso e o 
ortopedista fez-lhe uma consulta minuciosa. - com a ginstica e com a 
fisioterapia vai retomar o uso normal da perna. Talvez fique com um 
ligeirssimo defeito ao andar, porque h uma diferena de alguns 
milmetros em relao  outra perna. Pode ser corrigida com um apoio no 
interior do sapato - explicou o mdico. E concluiu-
- Vai continuar a ter duas pernas lindssimas.
- O mais bonito par de pernas da Lombardia - disse uma voz de timbre 
inconfundvel.

322

Liliana e o mdico olharam para a porta do quarto, onde se perfilava a 
figura imponente de Bruno D'Azaro.
- Vejo que tem visitas, doutora. Espero por si daqui a um ms para a 
consulta de controlo - disse o ortopedista, enquanto se afastava.
O mdico tinha reconhecido o parlamentar socialista, que Liliana no via 
h anos. Bruno tinha emagrecido muito, o que se notava sobretudo no 
colarinho da camisa, que lhe ficava largo. A tua mulher devia arranjar-te 
um guarda-roupa novo - disse ela, depois de o ter abraado.
- Eu volto a ganhar os meus quilos quando esta balbrdia terminar.
- A que devo a honra desta visita? - perguntou Liliana.
- Soube pelos meus informadores que estavas aqui e pensei em oferecer-te 
o pequeno-almoo - explicou.
Bateram  porta e uma enfermeira entrou no quarto a empurrar um carrinho 
de ch preparado como se estivessem num grande hotel. O pequeno-almoo 
vinha da pastelaria Taveggia, que ficava muito perto do hospital.
- Consegues andar? - perguntou Bruno, atencioso.
- Consigo, obrigada. S preciso que ponhas uma cadeira ao p do carrinho.
A enfermeira saiu, deixando-os ss.
- Como  que tu andas? - perguntou Liliana, ao mesmo tempo que trincava 
um croissant bem cheiroso e macio.
Ele mostrou quatro dedos de uma mo e disse: - No um, mas quatro guarda-
costas. Imaginavas uma coisa destas? Vivo blindado. E adianta muito...
- Claro, se te quiserem atingir, conseguem de qualquer maneira - replicou 
ela.
- E quando prendem os poucos que se deixam apanhar, eles declaram-se 
prisioneiros polticos.
- H demasiadas conivncias e complacncias, a todos os nveis - afirmou 
Liliana.
-  isso - concordou Bruno, enquanto levava aos lbios a chvena do 
cappucino. E continuou: - Por que no me falas de ti?

323

- Queres saber se estou bem? No, estou mal. De noite tenho pesadelos, 
basta uma coisa de nada para me assustar, ando a tomar um monte de 
calmantes.
- Deixa a Collenit e sobe para a minha carroa.
Liliana sorriu.
- Uma vez, por amor, inscrevi-me no teu partido. J sabes.
- Mas nunca renovaste a inscrio.
- Tremia com a ideia de o meu pai vir a descobrir.
- No  vergonha nenhuma ser socialista.
-  que eu no gosto de solues de compromisso.
- Devo dizer-te que os italianos, substancialmente, so moderados.
- E tambm um pouco conservadores. Repara nisto: Democracia Crist.
- Queres contar-me a histria da nossa poltica?
- Quero dizer-te que me sinto muito lisonjeada com a tua proposta, mas 
que no posso aceit-la. Se quisesse um carto de partido, escolhia o 
comunista. Aps o que, na empresa, me iam fazer a vida negra. Alis, at 
me perseguiam se eu tivesse o carto do teu partido.
- Mas promoviam-te se tivesses um santo padroeiro na DC.
- Eu quero ser promovida pelo meu profissionalismo.
Bruno olhou para o relgio.
- Tenho de ir - disse-lhe.
Tinha percebido que no valia a pena insistir.
- Muito obrigada pela visita - replicou Liliana. - E pelo pequeno-almoo 
tambm. Gostava que me tivesses encontrado um bocadinho mais atraente.
- Mas tu ests. Tu sempre foste, Liliana. J no tenho tempo nem vontade 
para andar atrs de saias, mas tu continuas a dar-me a volta  cabea - 
sussurrou.
Inclinou-se sobre ela e pousou-lhe um beijo leve nos lbios. Liliana 
corou, como quando tinha acabado de se formar e ele a beijara da mesma 
maneira.
No momento em que ia a sair, Liliana chamou-o.
- Nunca mais soubeste nada do Danilo?
- Ainda pensas nele?
- Pura curiosidade.

324

- No saiu da cepa torta. Deixou o ensino e comeou a trabalhar como 
psiclogo. Faz testes psicotcnicos ou outra extravagncia do gnero para 
algumas empresas da zona.
Liliana regressou  Collenit ao fim de uma semana. No gabinete encontrou 
uma grande planta ornamental e um ramo de rosas brancas em cima da 
secretria. Eram as boas-vindas da direco e das vrias chefias. Depois, 
de Roma, ligou-lhe o director-geral.
- Est em condies de se mexer, doutora? - perguntou-lhe.
- Se assim no fosse, no estaria aqui - respondeu ela.
- Ento apanhe o primeiro comboio para Roma. Tenho uma proposta para lhe 
fazer - comunicou-lhe.

325

VARESE

A direco central da Collenit ficava na piazza Venezia. Liliana no ia a 
Roma desde os tempos da fuso da Collevolta com a Zenit, com a passagem 
do sector privado para o pblico. A nova sede era sumptuosa e o gabinete 
do director-geral parecia o cenrio de um filme americano. Havia tapetes, 
plantas, flores, quadros e mveis antigos. O director-geral era um homem 
ao estilo de Laurence Olivier.
Enquanto lhe apertava a mo, disse: - Os jornais no lhe fizeram justia. 
 muito mais bonita do que nas fotografias.
- Muito obrigada. Em qualquer caso, tinha preferido no aparecer de 
maneira nenhuma - respondeu com um tom decidido, sabendo por experincia 
prpria que por detrs de qualquer cumprimento se esconde um logro.
- Eu entendo-a. Andmos todos muito aflitos por sua causa. Pelo que vejo, 
no ficaram marcas daquele acidente terrvel.
- No  para o contrariar, mas ficaram marcas, e de que maneira! O 
aspecto mais terrvel do atentado  sentirmos em cima o dio feroz de 
algum. Todos ns gostaramos de ser aprovados, se no amados. O dio 
fere mais do que uma bala.
-  verdade - disse o director-geral, convidando-a a sentar-se.
Liliana pensou que aquele homem, to fascinante, ocupava provavelmente a 
poltrona mais alta da direco porque tinha um santo protector. Limitou-
se a sorrir, esperando que ele lanasse a estocada que, finalmente, 
chegou.

329

- Dra. Corti, a senhora fez um estgio de muito respeito - continuou o 
assistente do chefe do pessoal. A empresa est-lhe muito grata pelo papel 
que desempenhou mas, como a senhora concorda, a gratido para ser isso 
mesmo, deve traduzir-se em alguma coisa de palpvel - comeou, utilizando 
a linguagem de uma circular da empresa.
Liliana continuou calada e esperou que ele continuasse.
- Urge a nomeao de um novo chefe do pessoal no destacamento onde a 
doutora opera neste momento, porque o Massaroni se vai embora - 
acrescentou o director-geral.
Tinha a certeza de que se lhe perguntasse o nome do destacamento, ele no 
saberia responder-lhe. Manteve-se pacientemente  espera que 
prosseguisse.
- Foram avanados dois nomes para este cargo, o seu e o do Dr. Maraschi, 
o qual, porm, tem mais dois pontos de mrito em relao a si. Primeiro, 
 um homem. As mulheres, como vejo por si, so mais emotivas, mais 
propensas ao envolvimento pessoal. Segundo,  democrata cristo, como eu. 
Corrija-me se estiver errado.
- Os directores-gerais, mesmo quando esto errados, no devem ser 
corrigidos - disse Liliana, com uma voz falsamente melodiosa.
O homem deu uma gargalhada.
- Noto que  profundamente milanesa at no sentido de humor. Se me 
permite, vou repetir a sua piada.
Liliana sentia-se atormentada por uma raiva feroz que teve dificuldade em 
conter. Teria arranjado alguns argumentos para contrapor  vergonhosa 
vileza daquele homem. Preferiu continuar calada, sabendo que um ataque de 
fria no ia servir para nada, e esperou para saber de que forma a 
empresa tencionava saldar o dbito com ela. - Muito milanesa e muito 
britnica - repetiu o homem com uma cintilao de dentes de cartaz 
publicitrio.
- O senhor  uma pessoa fascinante, mas no precisa que lho digam. Por 
isso, estou pronta para o ouvir - disse.
O homem no pareceu aperceber-se nem da ironia, porque se considerava 
verdadeiramente irresistvel, nem da solicitao para concluir.
- Gostaria de a ter aqui, na casa-me - declarou.
- Mas... - disse Liliana, sem pacincia.

330

- Mas... Mas nunca se sabe... De uma coisa nasce outra. Para j tenho o 
prazer de lhe comunicar que foi nomeada chefe do pessoal da sede de 
Varese. Dizem-me que  uma rea muito importante, que compreende todo o 
territrio a oeste da Lombardia. Foi promovida, Dra. Corti - anunciou com 
solenidade.
O bom senso sugeria-lhe que demonstrasse um mnimo de entusiasmo 
relativamente quela promoo, embora o facto de andar de um lado para o 
outro todos os dias entre Milo e Varese lhe fosse tirar horas preciosas 
que poderia dedicar ao marido e ao filho, enquanto que o seu colega 
Maraschi ia ficar a trabalhar ao lado de casa. Decididamente, a grande 
Collenit, pela qual tinha arriscado a vida, no estava a ser muito mos-
largas. Ela aspirava  direco do pessoal na via Paleocapa, onde sabia 
que poderia ter um raio de aco muito mais vasto e que lhe permitiria 
maiores possibilidades de inovao.
- Devo aceitar? - perguntou, sem se descompor.
- E pergunta-me a mim?
- Pergunto-lhe, porque gostava de saber em que se traduz a minha 
promoo.
O homem dedicou-lhe mais um sorriso.
- Ordenado dobrado, uma bonificao sobre os dividendos ao fim do ano, 
todos os privilgios concedidos aos directores principais, viagens areas 
em primeira classe, e por a adiante - enumerou o director, que naquele 
momento se sentia ligeiramente intranquilo perante a impassibilidade de 
Liliana.
- com certeza que nas informaes que lhe foram fornecidas sobre mim no 
est escrito que, graas s minhas capacidades, a Collenit poupou muitos 
milhes. Nem sequer est escrito que a produtividade aumentou porque 
conheo os meus homens um a um e sei entend-los e fazer-me entender. 
Portanto, uma oferta adequada seria exactamente o dobro daquilo que me 
props. Para alm do mais, uma vez que conheo o director de Varese e sei 
como gosta de convocar reunies para depois do horrio do escritrio, 
quero um carro com motorista que me v buscar a casa e me leve de volta 
todos os dias. Sabe, eu tenho uma famlia que amo de todo o corao e 
gosto de estar na companhia do meu marido e do meu filho ao fim de um dia 
de trabalho - disparou com calma.

331

O director-geral fechou a boca sobre aquela dentadura resplandecente, 
baixou os olhos e comeou a torturar os botes de punho em ouro que 
trazia na camisa.
-  realmente uma mulher muito prtica e sabe aquilo que quer - disse, 
quase num sussurro.
- Quero gerir os meus empregados, contrat-los, transferi-los, promov-
los, remov-los, no em funo do carto do partido mas segundo critrios 
de justia.
- Vai ter aquilo que pede - concluiu o director-geral.
Liliana levantou-se, seguida por ele, e estendeu-lhe a mo.
- Agradeo-lhe - disse. E acrescentou: - Agora tenho de ir. O meu comboio 
parte daqui a uma hora e vou chegar a Milo demasiado tarde para dar um 
beijo de boas-noites ao meu filho.
Enquanto a acompanhava at  porta, o homem pareceu fazer-se muito 
pequeno. Liliana Corti tinha-o metido na ordem.
- Desculpe-me por a ter demorado com a minha conversa - disse.
- Foi um encontro muito interessante - respondeu ela,  porta. Depois 
acrescentou: - A propsito, eu nunca gravitei na rea socialista. Voto 
nos comunistas, mas tenho amigos em todo o lado, at entre os democratas 
cristos.
O homem encaixou o golpe e voltou a sorrir, enquanto a via afastar-se com 
o seu passo ligeiramente claudicante.
Liliana apanhou imediatamente um txi para a levar  estao e dali, 
pouco antes de apanhar o comboio, telefonou ao marido.
- Chego a Milo  meia-noite. Vais-me buscar? Tenho um monte de coisas 
para te contar. D um beijo por mim ao Stefano - disse, de um s flego.
Sandro no respondeu.
- Querido, ests a ouvir? - perguntou Liliana.
- Estou a ouvir e vou estar na estao  tua espera - disse o marido, com 
uma voz que ela no lhe conhecia.
- Sandro, ests bem? - insistiu.
- Estou, pequenina, eu e o Stefano estamos bem. Faz boa viagem.
Liliana pousou o auscultador e avanou pela longa plataforma onde o seu 
comboio estava quase a partir.

332

Quando chegou a Milo, para alm de Sandro estavam tambm pucci e 
Giuseppe  espera dela. Olhou para eles, desorientada.
- O que foi que aconteceu? - perguntou, com um fio de voz.
- Mataram o pai - disse Giuseppe.

333

Renato deixara h muito tempo de acreditar num mundo melhor. As tenses 
no interior da fbrica e no sindicato aumentavam constantemente e ele 
sentia-se cada vez mais sozinho. Tinham acabado os anos em que os 
companheiros o olhavam como um exemplo a seguir para alcanar a justia 
social.
Nunca tentou impor as suas ideias e confrontou-se mais do que uma vez com 
os extremistas que foram aparecendo no meio dos companheiros alegando que 
os problemas s se resolviam com o recurso  fora.
Dizia: - O terrorismo no tem nada a ver com o movimento operrio. A quem 
fomenta a poltica do terrorismo, devemos responder com a razoabilidade 
das nossas convices.
E  mulher, de vez em quando, sussurrava: - Acabou uma poca, minha 
querida Ernestina. Fiz uma boa viagem, mas chegou o momento de descer do 
comboio.
Na fbrica, escondido atrs da mquina do caf, encontrou um dia um 
panfleto das Brigadas Vermelhas. Conduziu um inqurito pessoal e por fim 
descobriu o autor. Era um companheiro, um militante comunista. Renato 
hesitou em denunci-lo. Depois percebeu que no se podia calar. Naquele 
dia assinou a sua condenao  morte.
Foi deixado s, no tribunal, a acusar o companheiro. O homem das Brigadas 
foi condenado por um juiz bastante cptico, que comentou: - Feitas as 
contas, trata-se de uma briga entre operrios.

334

- O sindicato optou por no tomar posio. Renato temia pela sua vida, 
mas guardou os seus receios para si. Quando regressou  fbrica, os 
amigos perceberam que tinham de se organizar sozinhos para o defender. De 
manh e  noite, havia quatro companheiros que o escoltavam de casa at 
ao trabalho e vice-versa. O resto do tempo, vivia blindado.
Ernestina ainda no tinha superado o pavor relativamente  histria de 
Liliana e agora andava aterrada com ele.
- Eu conheo-te, Renato, e sei que nunca te vi assim. Tu receias o pior - 
disse-lhe.
- Acaba com essas obsesses - respondeu. Depois falou com os 
companheiros. - A minha mulher anda aterrada. J chega. Se mostrarmos 
medo,  como admitirmos que os terroristas atingiram o seu objectivo. 
Logo  noite volto para casa sozinho.
Saiu da fbrica no fim do turno, atravessou o parque de estacionamento, 
aproximou-se do carro e, no momento em que se sentava ao volante, foi 
atingido por cinco tiros de pistola. Um deles trespassou-lhe o corao.
O seu corpo estava agora na mesa da morgue, no hospital. Liliana e o 
resto da famlia s o puderam ver no dia seguinte, quando foi metido num 
caixo.
Naquela noite, a casa de Porta Romana foi invadida por uma grande 
quantidade de amigos. O telefone no parava de tocar, chegaram telegramas 
de condolncias de polticos de todas as faces. Os Corti estavam 
atnitos relativamente quilo que tinha acontecido. Ernestina estava 
petrificada pela dor. Os companheiros de Renato, de acordo com a direco 
da empresa, decidiram instalar a cmara ardente no trio monumental da 
fbrica onde Renato tinha trabalhado uma vida inteira. Organizaram-se 
piquetes para velar o corpo, num silncio gelado, enquanto os operrios, 
os dirigentes e os polticos desfilaram durante horas para prestar 
homenagem ao homem que tinha travado tantas batalhas com f e humildade. 
As pessoas mobilizaram-se espontaneamente. Todas as famlias operrias se 
sentiram atingidas pela morte. No funeral, pago pelo Estado, Participou 
at o Presidente da Repblica. Eram cerca de trezentas mil pessoas as que 
participaram no cortejo que acompanhou Renato da fbrica at ao 
cemitrio. E, no fundo, ele obteve aquilo que sempre tinha desejado: o 
fim das lutas no interior da fbrica.

335

Passaram dias, semanas, meses. Por fim, os Corti acabaram por encontrar 
alguma serenidade. Ernestina, no entanto, no tinha paz. Fechada na sua 
dor, parecia no ter mais nenhum interesse pela vida. Isolou-se no grande 
apartamento do corso di Porta Romana, onde tinha vivido durante tantos 
anos com o marido. Sentia-se afogar na solido da grande cama de casal, 
que desde sempre dividira com Renato. Os filhos iam visit-la e ela 
recebia-os de m vontade. Eles falavam e ela no respondia. Era como se 
no os visse nem os ouvisse. Ariella deixava-lhe ficar os filhos durante 
algumas horas e ela tratava deles sem alegria. Nem sequer ia ao 
cemitrio. Dizia:
- Ele no est l em baixo. Ficou aqui, no meu corao.
Giuseppe era o nico com quem, s vezes, conseguia falar.
- O que estou eu a fazer neste mundo? - perguntou-lhe um dia.
- Tu no podes continuar a morar neste apartamento. Anda viver comigo - 
props-lhe.
- No percebes. No  um problema de casa. Sinto a falta dele, daquele 
sorriso. Faltam-me as discusses e as pazes. J no fala comigo, j no 
me toca. J no tenho as coisas dele para lavar e passar. Sento-me na 
cozinha a tomar caf e a fumar um cigarro e ele no est l para me 
dizer: Minha querida Ernestina, gosto muito de ti. O meu homem, agora, 
est no silncio e eu sei que se sente s, muito s sem mim - sussurrou.
- Mezinha, eu no tenho palavras para te consolar, mas gostava muito que 
sentisses o amor que ns temos por ti. Eu quero de volta a minha me 
activa e cheia de energia. Agora que o pai j c no est, os teus filhos 
precisam de ti - disse Giuseppe, com convico.
Ernestina lanou um olhar terno quele filho to diferente e, no entanto, 
to parecido com o seu Renato. Tinha-se tornado um costureiro famoso. A 
sua marca, a Corti Collection, conquistara o sucesso em todo o mundo. A 
casa da via Mrio Pagano era agora a sede da empresa, enquanto que ele 
morava num andar na via Borgospesso.
Ernestina no sabia bem se havia de se sentir feliz ou contrariada com 
aquele sucesso. Continuava a ter a sensao de que Giuseppe estava a 
edificar um imprio sobre o efmero. Pensava:  uma coisa que no vai 
durar, porque por baixo no h nada. E ainda: Esta

336

loucura dos vestidos, que est a contagiar toda a gente, tem em si 
qualquer coisa de inquietante. No  com a roupa que as pessoas podem dar 
um sentido  sua prpria vida.
Naquele dia, sorriu-lhe e disse: - Pareces-te tanto com ele! Referia-se a 
Renato.
- Todos ns nos parecemos com ele, at a Liliana e a Rosellina. E tambm 
nos parecemos contigo, me.
Ela abanou a cabea.
- A Liliana  uma neurtica, nunca est satisfeita com nada.
- Exactamente como tu, me.
- A Rosellina  uma borboleta. De vez em quando l pousa numa flor, mas 
anda quase sempre a esvoaar sem uma meta.
- A Rosellina  uma artista.
- Gostava muito que ela se arrumasse. Tem quase trinta anos e j era 
tempo de arranjar um marido - suspirou.
Giuseppe, por fim, conseguiu tir-la do seu silncio, arrancar-lhe um 
sorriso.
Antes de se ir embora, abraou-a.
- Sossega, me. Ho-de vir dias melhores - disse-lhe.
- Quem sabe... - sussurrou ela.
Tambm Pucci se foi despedir dela naquela tarde, com Ariella e os filhos. 
No dia seguinte iam partir para umas breves frias na montanha. Ela 
abraou-os.
 noite arranjou qualquer coisa para comer e depois foi logo para a cama. 
Sentia-se cansada, fatigada. Quando estava quase a adormecer, pensou com 
um suspiro: Preciso tanto de estar ao p de ti, Renato. E nunca mais 
acordou.

337

Liliana estava sentada aos ps da cama de Stefano, que lutava com todas 
as suas foras contra o sono porque gostava de ouvir a me que, com uma 
voz expressiva, lhe lia Alice no Pas das Maravilhas.
Passara quase um ano desde o dia em que Liliana sofrera o atentado, que 
lhe tinha sido escondido, e oito meses desde a morte do av. Agora, de 
repente, Stefano perguntou-lhe: - Me, diz-me a verdade. As balas magoam?
- Por que  que me fazes essa pergunta? - respondeu Liliana.
- Na escola, o meu colega Redaelli contou-me que tu coxeias um bocadinho, 
s um bocadinho, porque te entrou uma bala na perna. E tambm me disse 
que o av no morreu por ter tido um problema no corao, mas porque 
dispararam contra ele. Foi o pai dele que lhe disse.
Era intil negar. Se Stefano punha questes to importantes, era porque 
j estava capaz de aceitar a verdade, pensou Liliana.
- O teu colega tem razo. Dispararam contra mim e contra o av. Eu safei-
me, o av morreu - disse.
- As balas magoam? - perguntou outra vez.
- Depende do stio onde te atingem. O av no sofreu, porque foi atingido 
no corao e morreu imediatamente. Mas eu senti dor durante um bocado e 
depois desmaiei e no senti mais nada.
- Por que foi que toda a gente me contou que tinhas cado das escadas e 
que tinhas partido a perna?

338

- Porque era desagradvel contar-te que algum me queria to
mal, ao ponto de desejar matar-me - explicou.
- Foram as Brigadas Vermelhas, no foram?
- Foram.
- O av era comunista e tu tambm s um bocadinho. As Brigadas Vermelhas 
so comunistas. Por que  que vos odeiam?
- Porque acham que no estamos suficientemente zangados com aqueles que 
exploram o trabalho dos outros.
- Como quando os professores nos do uma m nota porque dizem que no 
fizemos o trabalho to bem como devamos?
- Mais ou menos.
- Ento as balas so como as notas ms.
- As notas ms no matam.
- Mas magoam.
-  verdade, magoam. Mas tu no tens esse problema. s muito bom aluno.
- Mas tu e o av tambm foram muito bons.
- Eu talvez no tenha sido, mas o teu av merecia distino e louvor, 
garanto-te.
- Ento isso quer dizer que as Brigadas Vermelhas no sabem quando uma 
pessoa faz bem e quando faz mal - observou Stefano.
-  isso mesmo, querido. Eles no sabem, mas pensam que sabem, e isso  
terrvel. Era como se os teus professores te ensinassem uma coisa errada 
e depois te dessem uma nota m no momento em que tu lhes demonstrasses 
que eles se tinham enganado.
- Est bem - disse Stefano, enterrando a cabea na almofada.
- O que  que est bem? - perguntou Liliana.
- J percebi. As Brigadas Vermelhas so ignorantes e a ignorncia, como 
diz o pai, anda de brao dado com a maldade. Os que dispararam contra ti 
e contra o av so ignorantes e malvados. Tanto  verdade que at esto 
na cadeia, assim j no fazem mal a ningum - afirmou, e suspirou 
profundamente. Bocejou, fechou os olhos e sussurrou: - Boa-noite, me.
Liliana beijou-o levemente na testa e ficou ali a olhar para ele, com o 
corao dilatado de comoo. Stefano adormeceu e ela saiu do quarto em 
bicos de ps.

339

Sandro estava na sala, enterrado na sua poltrona, a ver televiso. Ouviu-
a chegar e esticou um brao para a agarrar e a fazer sentar nos seus 
joelhos.
- Est a dormir? - perguntou, aludindo ao filho.
- Como um anjo - confirmou Liliana.
O marido abraou-a.
- Foi uma boa-noite mais longa do que o costume - disse ele, desligando a 
televiso.
- O Stefano fez-me umas perguntas.
- As exigncias dele so sempre mais importantes do que as minhas - 
protestou, insinuando uma mo no decote da blusa da mulher.
- Tambm tens cimes do nosso filho? - perguntou, a sorrir.
- E no devia ter? Nunca ests em casa e quando ests passas mais tempo 
com o Stefano do que comigo.
- Para ti tenho a noite toda - disse Liliana.
Estava muito cansada, mas tambm o marido tinha direito  sua dose de 
ternura.
- Ento vamos j para a cama - decidiu Sandro.
- vou tomar um duche rpido - disse Liliana.
Tinha tido um dia difcil, porque fora obrigada a suspender do trabalho 
dois operrios apanhados em flagrante a roubar material do armazm. 
Recusou-se a denunci-los e por isso entrou em conflito com o director e 
com o chefe do aprovisionamento. Interrogou os dois homens, que admitiram 
a culpa e declararam que aquele no era o primeiro furto. Liliana j 
sabia. J tinham desaparecido por vrias vezes cabos e ferramentas do 
armazm.
- Por que  que fazem isso? - perguntou-lhes.
- Diga-nos a doutora. Sabe melhor do que ns - respondeu o mais jovem dos 
dois, e acrescentou: -  uma maneira de arredondar o salrio.
No pareciam preocupados com o facto de terem sido apanhados com a mo na 
massa. Aquele comportamento surpreendeu-a.
- Se todos fizessem como vocs o armazm ficava vazio numa hora - 
sussurrou. - Eu acho que cada um de ns deve ser um bom exemplo para quem 
estiver ao lado. Vocs no deram um bom exemplo aos vossos companheiros.
- O bom exemplo, doutora, vem de cima. Nesta empresa, se olharmos para 
cima, o que  que vemos? - perguntou o homem.

340

- Diga-me voc.
- Isto aqui  s sacar. Os chefes enchem os bolsos, e o pessoal mido 
contenta-se com as migalhas.
Foi como se algum lhe desse um murro no estmago.
- Se sabem alguma coisa, este  o momento ideal para falarem - disse-
lhes.
- Olhe que ns no nascemos ontem. Quem fala est tramado, para sempre.
- Isso  um raciocnio mafioso que no me agrada nada.
- A doutora  filha do Renato Corti e ns devemos-lhe respeito, mas h 
outros que so uns ricos filhos da me. Investigue e vai descobrir das 
boas.
Liliana acreditou neles. Suspendeu-os por trs dias, mas recusou-se a 
denunci-los. Aqueles dois homens serviram-lhe um prato envenenado e ela 
precisava de descobrir quem tinha posto o veneno. A primeira pista a 
investigar era precisamente a do chefe do aprovisionamento e depois ia 
ter de espiolhar os processos do gabinete de compras. No gostava de 
fazer de polcia e nem sequer lhe competia a tarefa de investigar os 
colegas. Mas, tendo chegado quele ponto, tinha alguns deveres 
relativamente ao pessoal. Estava firmemente convencida de que os chefes 
deviam dar um bom exemplo. Podia ter passado a batata quente para o 
director, mas, sabe-se l porqu, o instinto dizia-lhe que ia criar 
inimizades. Desde que chegara a Varese no tinha uma vida fcil. Era a 
nica mulher na direco e era olhada com alguma desconfiana at pelas 
secretrias, que estavam dispostas a servir um homem, mas no uma mulher. 
Tinha de apurar a verdade com muita discrio e ia faz-lo num fim de 
tarde, quando se esvaziassem os escritrios.
- Mas hoje no - sussurrou para si prpria. Sentia vontade de estar com o 
filho e com o marido. Saiu do gabinete e, no corredor, chocou com um 
homem alto, magro, de rosto encovado e cabelos encaracolados e negros que 
lhe caam sobre as orelhas. Numa mo trazia uma pasta de pele e na outra 
tinha um cigarro enfiado entre o indicador e o mdio. Havia nele alguma 
coisa de familiar. Ele sorriu-lhe.
- Ol, Liliana - comeou, parado  frente dela. Foi um segundo murro no 
estmago.
- Danilo! - exclamou, num sussurro.

341

- Fizeste carreira - disse ele.
- O cigarro do costume para manter as mos ocupadas? - replicou, enquanto 
observava as rugas que lhe marcavam o rosto. Lembrou-se daquilo que lhe 
tinha contado Bruno D'Azaro: Danilo tinha deixado de dar aulas e fazia 
testes psicotcnicos.
- Pois, para manter as mos ocupadas - respondeu.
- O que  que ests aqui a fazer? - perguntou-lhe.
- No sabes? Fao testes ao pessoal que tu contratas depois. No leste as 
minhas fichas? - retorquiu, com uma sombra de arrogncia que ela conhecia 
bem.
- No sabia que aquelas informaes eram tuas - disse, quase como que a 
desculpar-se. E continuou: - Sabes, nunca dei muita importncia a essas 
extravagncias americanas. Contrato as pessoas ao perto, a olh-las nos 
olhos. - Os lbios bonitos de Danilo desenharam um sorriso ligeiramente 
desdenhoso. No tinha mudado. Ia dizer alguma coisa, mas ela antecipou-
se: -  um mtodo emprico, eu sei, mas infalvel. Olho nos olhos o meu 
interlocutor e percebo logo com quem estou a lidar. S me enganei uma 
vez, quando te encontrei a ti, mas era muito nova e muito ingnua.
Deixou-o sem sequer lhe estender a mo. Quando o motorista lhe abriu a 
porta do carro que a levaria de volta a Milo, Liliana j tinha esquecido 
aquele encontro.
Agora, enquanto estava a tomar um duche, pareceu-lhe ouvir o toque do 
telefone. Quem poderia ser, quela hora? De qualquer maneira, Sandro ia 
atender. Saiu da banheira e o marido abriu a porta da casa de banho. 
Estendeu-lhe a toalha, olhando para ela com uma expresso dolorosa.
- O que foi que aconteceu? - perguntou Liliana, subitamente alarmada.
- Seca-te e vem  cozinha. Pus a mquina de caf ao lume - disse, sem 
ouvir a resposta dela.
Liliana enfiou rapidamente o roupo e foi atrs do marido at  cozinha.
- Sandro, o que foi? - repetiu, preocupada.
Ele abraou-a e sussurrou: - Tens de ser forte, pequenina, porque a tua 
me j c no est. Partiu durante o sono, sem dar conta.

342

A grande villa Liberty da via Mrio Pagano albergava a direco e os 
escritrios da Corti Collection.
Liliana tocou  campainha do porto, que se abriu com um som metlico. 
Percorreu a curta alameda de basalto e entrou no trio, iluminado pelas 
grandes vidraas multicolores que, ao filtrar o sol, criavam jogos de luz 
sobre as paredes cobertas de frescos e sobre a madeira clara do cho. Era 
uma manh de sbado, j era tarde, e a villa estava mergulhada no 
silncio. Giuseppe debruou-se da balaustrada do primeiro andar e olhou 
para baixo.
- No posso acreditar! - exclamou. - s mesmo tu - acrescentou, enquanto 
descia rapidamente as escadas.
Liliana esperava no centro do trio e observava o irmo com um ar 
interrogativo. Trazia um tailleur cinzento-prola. Por baixo do casaco 
tinha uma blusa de seda azul-plido.
Giuseppe parou no ltimo degrau e observava-a com um olho profissional.
- Ento? - perguntou ela.
- s outra Liliana - concluiu ele.
- Outra para melhor ou para pior? - insistiu.
- D-me tempo para me habituar ao teu novo aspecto - disse Giuseppe. Foi 
ao encontro dela, deu-lhe o brao e saram para o jardim, onde floriam as 
rosas, as ris e o muguet.
- Ento? - repetiu ela.

343

- O cabelo loiro fica-te bem - disse ele, com um sorriso de aprovao.
Liliana acabava de sair do cabeleireiro, onde se tinha decidido por um 
corte drstico e uma mudana radical do seu aspecto.
- Mas ainda no ests convencido. A tua opinio  importante e, se esta 
Liliana platinada no te convence, posso voltar ao cabeleireiro antes de 
me apresentar ao meu marido. Quero que sejas impiedoso, por favor - 
disse-lhe.
- A me ia gostar - afirmou Giuseppe. E acrescentou: - Porqu esta 
mudana?
Sentaram-se num cadeiro de vime, enterrados nas almofadas forradas de 
tecido florido.
- Senti a necessidade de deitar para trs das costas um passado demasiado 
penoso e achei que, mudando de aspecto, talvez pudesse mudar ainda alguma 
coisa dentro de mim.
- Porqu?
- Quando era pequena, sentia uma pedrinha incomodativa no estmago. Ao 
crescer, a pedrinha tornou-se um calhau. Queria pegar nele e atir-lo 
para longe. Preciso de leveza, Giuseppe. O loiro  uma cor mais leve do 
que o castanho - explicou.
- No s a nica a ter um calhau no estmago. A sorte no nos deu muitos 
rebuados nestes ltimos anos, mas a vida compensou-nos por tantas 
contrariedades.
- No h um dia em que eu no pense na me e no pai. Era capaz de fazer 
qualquer coisa para voltar a t-los aqui, ao p de ns - sussurrou 
Liliana.
- Eles no se foram embora. Eu trago-os dentro de mim e falo com eles 
porque sei que me ouvem - disse Giuseppe. Os olhos encheram-se-lhe de 
lgrimas, abraou a irm e disse: - Lembras-te das bofetadas da me? E 
das gargalhadas do pai? E das canes dos anarquistas, e das terrinas de 
massa, e dos suspiros que vinham do quarto deles? Como se amaram, aqueles 
dois, e como trabalharam para nos dar o melhor! Foram magnficos. E a 
Rosellina tornou-se a vestal das lembranas deles. Ontem  noite fui 
jantar a casa dela. Mantm a casa de Porta Romana tal como a me a 
deixou. Os vestidos dela ainda esto no armrio. Na mesa-de-cabeceira do 
pai est o ltimo nmero do Unit com algumas frases de um discurso do 
Berlinguer que ele tinha sublinhado e o ltimo volume da Storia

344

del Partito Comunista Italiano de Paolo Spriano. Na da me ficaram os 
cigarros, o Ronson de prata que o pai lhe deu e o romance de Gavino 
Ledda, Padre Padrone. A Rosellina disse-me que o pai e a me haviam de 
ficar contentes se ns retomssemos o ritual do almoo de domingo no 
corso di Porta Romana.
- Achas que devamos fazer isso? - perguntou Liliana.
- Acho que j  tempo de sacudir o p aos bons velhos hbitos.
- Ento, vamos almoar  Rosellina, amanh?
- Assim toda a gente pode admirar a tua transformao radical. Ests 
mesmo bem. Pareces uma menina.
Passaram um excelente domingo. Ariella fez o almoo para todos. Liliana 
ps a mesa com a toalha de renda de Flandres que tinha sido o orgulho de 
Ernestina. Rosellina enfeitou-a com flores brancas. Giuseppe tratou do 
vinho e da sobremesa e Pucci seleccionou a msica de fundo, escolhendo o 
gnero que agradava aos pais: valsas de Strauss e tangos de Gardel e 
Piazzolla. As crianas, muito encostadas ao fundo da mesa, comiam, riam e 
brincavam. Ariella, de vez em quando, nos momentos em que a barulheira 
superava os limites da tolerncia, levantava-se e distribua sapatadas, 
como fazia Ernestina. Irmos e cunhados conversavam sem parar. Rosellina 
falava da etapa seguinte do seu trabalho. Ia fazer cinema, na Amrica. Um 
produtor de Los Angeles tinha-a admitido para o papel de protagonista num 
filme brilhante extrado de uma comdia do italo-americano Mike Brenner, 
anteriormente conhecido por Michele Brentano.
- vou ser a mulher de um gangster na poca da lei seca e vou morrer a 
escudar, com o meu corpo, a uma criana rf que se encontra por acaso no 
meio de um tiroteio entre bandos rivais.  claro que com este final vou 
redimir a minha vida libertina e a do Frank, o meu homem, que acaba por 
construir um orfanato para crianas abandonadas. Mas, antes de morrer, 
vou ser uma rapariga exuberante, vou danar e cantar vestida de 
lantejoulas, vou contar uma srie de piadas hilariantes e, com aquele 
fim, vou despedaar o corao do pblico todo. No vos parece uma 
aventura fantstica?
- O filme ou a tua viagem  Amrica? - perguntou Sandro, que ao fim de 
tantos anos ainda no tinha conseguido pr-se em sintonia com a jovem 
cunhada.
- Tu s mesmo um contabilista! - resmungou Rosellina.

345

- Realmente - sussurrou Pucci. E acrescentou: - Meu caro Sandro, tu ainda 
no percebeste que cada instante da vida da Rosellina  uma aventura 
fantstica. Ela consegue cobrir de ptalas de flores o caminho que vai 
daqui ao quiosque onde compra o jornal.
- E sou a tia predilecta dos meus sobrinhos - afirmou ela, para reforar 
a dose.
- Claro. Fazes-lhes as vontades todas - interveio Liliana.
- Olha quem fala! O facto de teres posto o cabelo loiro platinado no te 
adoou o temperamento - agrediu-a a irm.
- Eu tenho a cabea em cima dos ombros. A tua, pelo contrrio, est 
sempre nas nuvens - replicou Liliana.
- Tens inveja dos meus sucessos artsticos? - insinuou Rosellina.
- Apenas nutro a esperana de que tu consigas vir a ser uma pessoa 
adulta.
- Isso nunca vai acontecer. Eu no quero ficar como tu. Casa, trabalho, 
trabalho e casa. Ns, os Corti, somos pessoas criativas e tu s uma 
manager muito pedante. No basta pr o cabelo mais claro para enfrentar a 
vida com uma ponta de leveza. O problema  que tu saste em tudo  me, 
que no se ria nem quando lhe contavam uma anedota.
- No toques na me! Sempre foste a cruz que ela carregou.
- L por isso, teve outras cruzes. Ou no? - disse Rosellina, passando em 
revista os elementos da famlia.
As crianas tinham-se calado e seguiam o confronto das duas irms com 
muito interesse.
- Meninos, vo brincar - ordenou Pucci, mas nenhum lhe obedeceu.
- Que  para estas duas tontas se poderem pegar mais  vontade - precisou 
Giuseppe, acompanhando o comentrio com uma gargalhada.
Ariella aumentou o volume da aparelhagem. As notas de um tango argentino 
flutuaram na luz clara da sala de jantar.
- Vamos danar! - exclamou Pucci, agarrando Rosellina pela cintura.
Cristiano Montenero pegou em Ariella e obrigou-a a fazer uma pirueta 
antes de a conduzir num tango escaldante. Sandro olhou para a mulher.

346

- Vamos danar? - props-lhe.
Encostaram a mesa a uma parede para terem mais espao.
- E ns? - perguntou Giuseppe olhando para o companheiro.
- Arranja-te - disse ele, e agarrou na pequena Tina, que ficou 
felicssima por poder danar com o tio Rizio.
No fim, entre empurres e gargalhadas, danaram todos, grandes e 
pequenos. Aquele foi o primeiro domingo descontrado depois de tanta dor 
e foi a melhor maneira de recordar Ernestina e Renato.

347
Liliana retomou o fio das suas investigaes no interior da Collenit para 
averiguar a acusao dos dois operrios surpreendidos a roubar: Isto 
aqui  s sacar. Os chefes enchem os bolsos, e o pessoal mido contenta-
se com as migalhas.
Tinha espiolhado os arquivos do aprovisionamento e os do gabinete de 
compras e fotocopiado muitos processos para os poder estudar em casa, com 
tranquilidade.
- Ser possvel que tu tenhas de trabalhar tambm  noite? - protestou 
Sandro.
Acabou por lhe contar tudo.
- Mas por que  que no te metes na tua vida? - protestou o marido. - Os 
anos passam e tu continuas a ser a rapariguinha que queria mudar o mundo. 
Corres o risco de te meteres num mar de problemas. E depois, quem te 
disse que aqueles dois homens no estavam a mentir?
- Foram sinceros. Tenho a certeza. E eu tenho o dever de descobrir a 
verdade - disse.
- E depois? Quero dizer, se descobrires que os chefes metem ao bolso, o 
que vais fazer? Vais ter com eles e dizes-lhes que so feios e maus? Vais 
denunci-los?
- No sei - respondeu, com um ar pensativo.
- Olha que te arriscas a mexer num ninho de vespas. Depois, repito, vais 
fazer o qu?
- Eu no nasci ontem e sei muito bem que estes desvios fazem

348

parte do nosso sistema. Mas perante uma acusao, eu tenho o dever de 
investigar.
- No s juiz, nem sequer polcia. E depois, encontraste de facto alguma 
coisa de errado no meio desta papelada que trazes para casa e que te tira 
tempo e ateno  tua famlia?
- No encontrei nada, por enquanto. Meu Deus, tens razo, Sandro. No vou 
ser eu a mudar certos jogos sujos que fazem parte, desde sempre, de um 
determinado sistema - sussurrou, e pensou que, se o pai ainda fosse vivo, 
lhe contava tudo e ele lhe indicava o caminho a seguir. - E no voltes a 
dizer-me que eu me descuido em relao  minha famlia, porque isso  uma 
censura que me ofende - concluiu.
O marido afagou-lhe os cabelos e sorriu.
- No volto a dizer, at porque sei que fazes milagres para tratares de 
mim e do Stefano.
Liliana esperou que o marido se fosse deitar e depois telefonou para 
Roma, para o director da Collenit. Eram dez horas da noite e encontrou-o 
em casa. A nica maneira de passar uma noite tranquila era descarregar 
para cima do grande chefe as suas suspeitas.
O homem ouviu-a e depois disse: - Fique sossegada, doutora. Eu vou tratar 
pessoalmente desta histria e, se algum tiver errado, vai ter de pagar.
Os directores de Varese nunca tinham sido calorosos com ela. No se 
conformavam com a ideia de trabalhar ao mesmo nvel com uma mulher. Mas 
agora a falta de calor passou a hostilidade. No voltaram a conversar com 
ela, cumprimentavam-na por favor e, se pudessem, evitavam encontr-la. 
Poucos dias depois, no momento em que ia a entrar no gabinete, tocou o 
telefone directo.
- Parabns! - disse uma voz que reconheceu imediatamente. Era Bruno 
D'Azaro.
- Porqu? - perguntou, pondo-se na defensiva.
- Ainda no te comunicaram? - perguntou o amigo.
- No me ponhas em pulgas e, sobretudo, no te armes em esperto.
- Deves ter feito uma coisa muito especial, porque s a primeira mulher a 
ter a direco do pessoal na via Paleocapa. Um grande feito!

349

Liliana estava sem flego e levou alguns segundos a assimilar a notcia.
- Tens a certeza? - perguntou.
- A informao chegou-me h dez minutos. Ser possvel que no te tenha 
cheirado nada? - perguntou o poltico, espantado.
- Promoveatur ut amoveatur - sussurrou ela.
- Como dizes?
- Digo que j no me queriam aqui. Tornei-me incmoda - revelou. Era 
evidente que a direco central tinha decidido afast-la de Varese e, 
para evitar que viesse a criar problemas, tinha-a promovido, entregando-
lhe numa bandeja de prata um cargo de grande prestgio. Em vez de ficar 
feliz com a notcia, sentiu que tinha uma arma apontada contra ela.
Depois de ter falado com Bruno, o telefone tocou outra vez. O director-
geral estava a ligar-lhe de Roma para lhe comunicar a promoo.
- Absolutamente merecida, Dra. Corti - sublinhou. - Ganhou experincia em 
Varese e agora est pronta para dar o grande salto.
O telefone continuou a tocar durante toda a manh. Toda a gente lhe 
ligava, inclusivamente os conselheiros municipais, os assessores e os 
polticos de vrias faces. A notcia do seu novo cargo espalhara-se 
como uma mancha de leo e toda a gente queria agora felicitar a mulher a 
quem tinha sido atribudo um papel empresarial e poltico. Liliana sabia 
que a Collenit lhe tinha mandado uma mensagem precisa: Promovemos-te. 
Agora porta-te bem e aproveita essa honra. Ns tratamos do resto.
Voltou para casa e encontrou o filho s voltas com um problema de 
matemtica que no conseguia resolver.
Maddalena, que continuava a tratar de Stefano como se fosse uma av, 
disse-lhe: - Uma vez que ests aqui, eu vou-me embora para casa. O teu 
marido ligou a dizer que hoje vai chegar tarde. O problema do teu filho  
superior s minhas capacidades. Desculpa a minha ignorncia. Vemo-nos 
amanh. - Quando ia a sair, observou: - No me pareces muito bem. O que 
tens?
- Nada de especial - respondeu, tentando sorrir.
- Tal e qual a tua me: nunca ests satisfeita - resmungou, e foi-se 
embora.
350
Liliana ajudou o filho a fazer os deveres, jantaram juntos e ela 
perguntou-lhe como tinha corrido o dia.
- s sempre tu que fazes perguntas. Por que  que eu no te posso 
interrogar tambm?
- Senta-te aqui. O que queres saber?
- Por que  que ests to nervosa?
- Nota-se?
- Esmigalhaste os grissinos todos em cima da toalha e no comeste nem um 
bocadinho - observou Stefano.
- Tudo bem, estou nervosa. Queres saber porqu? Porque me promoveram e 
vou trabalhar outra vez em Milo - explicou, acendendo um cigarro.
- Eu acho isso fantstico, mam. Assim, a partir de agora, s tu que vais 
falar com os professores, em vez de ir a Maddalena. Alguns deles acham 
que tu s um fantasma - contou o rapaz.
Stefano no perdia uma ocasio de a fazer sentir-se culpada. Ela decidiu 
no reagir  provocao.
- Mas finalmente vo-me conhecer. Agora vemos o telejornal e depois vamos 
a correr para a cama - disse.
Em frente ao televisor, Stefano encostou-se muito a ela, que saboreou o 
prazer de o ter to prximo.
Sandro chegou a casa e encontrou-os abraados. Sorriu.
- A me foi promovida e vai voltar para Milo. Mas est nervosa, j a 
conheces - disse Stefano.
- Conheo-a e quero saber mais - comentou o marido, enquanto observava a 
expresso tensa da mulher.
- Depois eu conto-te - disse ela, levantando-se para acompanhar o filho 
ao quarto. - Entretanto come. O jantar est na mesa.
Depois de ter metido Stefano na cama, Liliana encontrou o marido na sala 
de estar. Saboreava um whisky enquanto via televiso.
- Estava a lembrar-me de quando te conheci. Andavas atrs de um trabalho 
digno. E eu queria ajudar-te. Fizeste tudo sozinha e chegaste ao topo da 
carreira, s com a ajuda da tua inteligncia. Percorreste um longo 
caminho, pequenina.
- Mas no estou satisfeita - replicou Liliana.
- Isso faz parte do guio.
- No me tinham oferecido a direco do pessoal na via Paleocapa se no 
me temessem. Mas eu preferia ser amada - explicou.

351

- Podes sempre recusar a promoo.
- S se fosse doida!  aquilo que eu sempre quis. Mas no me chega.
Sandro apagou a televiso, levantou-se do sof e explicou: - O teu pai 
tinha razo. s insuportvel. O que mais querias?
Liliana fez uma careta, que exprimia um acto de contrio.
- No te zangues, Sandro. J sabes que eu a ti conto tudo. Quero realizar 
um projecto que estou a elaborar h meses e que  muito importante para 
mim. Quero renovar a Collenit e aligeirar aquela imagem demasiado pesada. 
Quero tratar das mulheres, dos direitos que lhes so negados demasiadas 
vezes. Escolheram uma mulher para um lugar importante e eu vou revelar s 
mulheres as grandes potencialidades que elas tm, para que acreditem mais 
nelas mesmas. Passam a vida nos bastidores e, no entanto, podem 
transformar-se em protagonistas fantsticas.
Sandro pegou-lhe nas mos e, olhando-a com ternura, perguntou: - O que  
que te aflige, pequenina?
Liliana retirou as mos e escondeu-as atrs das costas.
- Por que  que me fazes essa pergunta? - disse, hesitante.
- Se no tivesses alguma coisa a afligir-te, estavas mais tranquila. 
Acabas de ser promovida e j tens um novo projecto em mente. O que tens 
no te chega. Por isso te pergunto o que mais queres, porque  evidente 
que te falta alguma coisa - disse ele, falando-lhe com doura.
Liliana sentou-se no sof e olhou para o marido com um ar preocupado.
- Achas mesmo? - perguntou.
- Durante muito tempo pensei que quisesses um segundo filho, que no 
veio. A seguir convenci-me de que te falta alguma coisa diferente, alguma 
coisa que nunca vais encontrar fora de ti. Construste a tua vida como um 
belo mosaico: famlia, trabalho, afectos e sucesso. Mas ficaram alguns 
vazios entre o corao e a mente. Faltam algumas peas para fazer de ti 
uma mulher completa. Encontra-as, Liliana.
- No estou a perceber - sussurrou.
- No faz mal. Hs-de perceber.

352

- Eu tenho tudo aquilo que uma mulher pode desejar. Se elaboro projectos, 
 porque aprendi que, na vida, nunca devemos pensar que j fizemos tudo.
- Ento vive, Liliana e completa o teu mosaico. Agora estou cansado e vou 
dormir.

353

ROMA

Liliana subiu at ao ltimo andar de um edifcio renascentista, em Roma, 
que dava para a piazza di Spagna. Atravessou um vasto patamar, delimitado 
por uma balaustrada de mrmore, e parou  entrada do apartamento. A porta 
estava aberta de par em par e ela observou a sucesso de salas de onde 
provinha um rumor de vozes, pelo meio do tilintar dos copos. Estava muito 
tensa, porque as festas mundanas a punham pouco  vontade.
O director-geral da Collenit e a mulher, a condessa Doralice Marescotti, 
tinham-na convidado para aquela festa porque a queriam apresentar aos 
expoentes da finana, da poltica e do mundo empresarial. Para a ocasio, 
Giuseppe ofereceu-lhe um vestido em georgette de seda vermelho coral. 
Disse-lhe: - Tens os cabelos platinados e uma pele de alabastro. Esta cor 
vai exaltar a tua beleza. Ela no se considerava bonita e agora sentia-se 
assustada, porque sabia que ia estar no centro das atenes de muitas 
personagens que a adulavam ostensivamente, mas na realidade a 
consideravam apenas uma provinciana de origem proletria. Quando 
trabalhava sentia-se muito segura de si e foi assim que ganhou coragem, 
pensando que, no fundo, se tratava apenas de um encontro de trabalho. E 
entrou.
Foi imediatamente notada por um pequeno grupo de mulheres cheias de jias 
que emanavam eflvios de perfumes caros. Algum sussurrou: - Chegou a 
vermelha - aludindo s suas simpatias polticas.

357

Os donos da casa aproximaram-se rapidamente para a receber.
- Dra. Corti, estvamos  sua espera - disseram em coro o director-geral 
e a sua nobre consorte.
Dois empregados, com fardas de general da marinha, ofereceram-lhe 
champanhe e canaps coloridos enquanto a condessa, que insistia em que 
ela a tratasse simplesmente por Doralice, a apresentava a convidados que 
lhe apertavam a mo e a cumprimentavam efusivamente.
Doralice repetia a cada um deles: - A advogada Liliana Corti, presidente 
da comisso feminina da Collenit. - Liliana, com efeito, conseguira obter 
fundos e permisso para realizar o seu projecto sob a gide da empresa. 
Dera entrevistas aos jornais e  televiso e tornara-se uma personagem de 
referncia para as mulheres. Os altos quadros da Collenit tinham 
percebido a importncia da sua iniciativa e quiseram apoi-la.
Assim, naquele momento, os convidados estavam em volta dela, prontos para 
oferecer e pedir favores, por trs do florilgio de muitas palavras 
banais.
- A Dra. Corti nega-o, mas todos ns sabemos que goza da considerao de 
D'Azaro - comentou Doralice, para satisfao dos convidados. D'Azaro 
estava muito na moda, no s no parlamento mas tambm nos sales de Milo 
e de Roma, e associ-la quele poltico brilhante era uma credencial. - 
Para alm disso,  a irm de Giuseppe Corti, o criador da Corti 
Collection, e de Rosellina Corti, a actriz.
A condessa insistia nas apresentaes e Liliana olhava em volta  procura 
de uma escapatria.
- Vimo-la na televiso. Parabns, doutora - diziam as mulheres, 
carregadas de adereos, como se aparecer na televiso fosse um mrito.
- Jovem, determinada, lindssima. Representa o sonho de qualquer mulher - 
disse, lisonjeira, uma mulher que se obstinava h sculos a parecer 
jovem.  medida que ia entrando naquele amplo apartamento, Liliana ia 
apanhando excertos reais e inventados da sua biografia.
Parecia-lhe estar no meio de um pesadelo. Sorria, agradecia, voltava a 
sorrir, e ia perguntando a si mesma quando acabaria aquela espcie de 
exame que a fazia sentir-se um animal em exposio.

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O director-geral ia atrs dela, contando-lhe a histria daquele palcio, 
referindo os prelados que ali tinham morado e os artistas que tinham 
pintado tectos e paredes. Ela anua e aborrecia-se. Por fim, conduziu-a 
at um grande terrao de onde se via toda a cidade. Soprava uma brisa 
leve e Liliana aproveitou um momento em que ficou s para se sentar numa 
cadeira estofada, no meio de dois viosos oleandros floridos. Olhou para 
baixo, para as pernas enfiadas numas meias muito finas. A ferida era uma 
risca plida que mal se notava.
- Posso oferecer-lhe champanhe?  o nico vinho que no engorda - disse 
uma voz masculina de sotaque tipicamente lombardo. Ela levantou os olhos 
devagar e viu em primeiro lugar os sapatos ingleses e as calas escuras 
sem dobra, depois o casaco que parecia desenhado sobre um trax amplo e 
forte e, finalmente, o rosto jovem e franco de Srgio Branduani, o 
ministro do Trabalho.
- Obrigada - respondeu Liliana.
Levantou-se e pegou no copo que ele lhe estendia.
- Estou a observ-la h algum tempo. Conheo a sua histria e fico 
contente por estar aqui - disse ele.
- Obrigada - respondeu Liliana, fitando-o nos olhos escuros e profundos. 
Depois encostou-se ao parapeito da varanda e observou a extenso 
avermelhada dos telhados, enquanto se esforava por controlar o batimento 
apressado do corao. O que lhe estava a acontecer? Procurou uma 
explicao para aquela perturbao no cansao e na tenso que tinha 
acumulado durante o sero.
Tambm ele pousou os braos no parapeito, ao lado dela. Por um brevssimo 
instante desapareceram os telhados, a varanda e as conversas dos 
convidados e Liliana sentiu-se sozinha com ele, isolada do resto do 
mundo, suspensa entre o cu e a terra.
- No me parece muito  vontade nesta casa - disse Srgio Branduani. - 
Venha comigo, vou lev-la embora daqui - acrescentou.

359

Liliana sentiu no brao a tepidez da mo de Srgio, que a conduzia por 
uma escada de pedra que descia da varanda at um pequeno terrao mais em 
baixo.
Era evidente que ele conhecia bem o percurso.
- Este  o apartamento privado dos donos da casa - explicou, enquanto 
atravessavam rapidamente uma srie de salas onde alguns empregados 
preparavam tabuleiros de canaps e bebidas.
Um deles acompanhou-os ao elevador. Desceram at ao trio do rs-do-cho 
e dali saram para a praa.
- Livres! - exclamou ele.
Liliana, que at quele momento no tinha ousado falar, disse-lhe: - 
Ajude-me a perceber. Estou um bocado baralhada.
- O que  que quer perceber?
- No sei por que razo me tirou daquela espcie de festa. O que  que 
vo pensar da nossa fuga?
- No se preocupe, Liliana. Est to na moda neste momento que vo 
interpretar a sua fuga como uma estratgia para se fazer notar - garantiu 
ele.
Avanaram pela via Condotti.
- No me respondeu - sublinhou Liliana, que tinha recuperado o seu 
autodomnio.
- Tirei-a de l porque no se sentia bem no meio daquela gente. Para alm 
do mais, gostava de a convidar para jantar, ns os dois, sozinhos, longe 
daquela confuso - confessou, candidamente.

360

Eram aquelas as palavras que ela queria ouvir. No entanto, ainda 
perguntou: - Porqu?
- Quer uma resposta de circunstncia ou devo ser sincero?
- As duas coisas - respondeu ela, a sorrir.
As lojas estavam a fechar e a rua era um rio de carros e motorizadas. 
Tinha-se esquecido do casaco em casa do director e agora sentia frio. 
Srgio apercebeu-se. Tirou o blazer e pousou-lho nos ombros.
- A resposta de circunstncia  que li o programa da sua comisso e 
fiquei desconcertado com a ideia de atribuir um ordenado s donas de 
casa. A verdadeira  que depois de a ter ouvido na televiso e de ter 
lido algumas das suas declaraes aos jornais decidi que ia conhec-la.
Entraram num restaurante. Srgio disse qualquer coisa ao empregado, que 
os conduziu a uma pequena sala  parte, com uma nica mesa. Liliana 
restituiu-lhe o blazer, sentou-se em frente a ele e observou-o, 
pensativa. Desde que ele lhe aparecera pela frente sentia-se numa nuvem e 
era uma sensao que nunca tinha experimentado.
- Meu Deus, s to jovem - sussurrou Liliana, tratando-o por tu, enquanto 
observava a cara daquele homem, sem uma ruga. Estava habituada aos sulcos 
que marcavam o rosto do marido.
- Nem por isso. S tenho menos dois anos do que tu - disse ele.
O empregado serviu umas entradas pequenas, que eles mal provaram, 
enquanto bebiam um vinho branco, fresco.
- Onde  que ests hospedada? - perguntou-lhe.
- No Hotel d'Inghilterra.  um hotel confortvel e sossegado. Mas vou ter 
de arranjar uma soluo mais econmica para a empresa, uma vez que, por 
causa da comisso, vou estar em Roma trs dias por semana - explicou.
Srgio contou-lhe que morava num edifcio que era propriedade da sua 
famlia, na via Frattina. Tambm ele se dividia entre Roma e Milo, onde 
ensinava Direito do Trabalho na universidade.
- O que  que fazes  noite? - perguntou Liliana.
- Trabalho,  a nica coisa que sei fazer. s vezes vou a casa do teu 
director-geral para uma partida de bridge. E s vezes vou ao teatro. A 
propsito, vi a tua irm no Sistina. Ela  fantstica. Li

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num stio qualquer que tens uma famlia grande e bonita - disse-lhe.
- E eu li num stio qualquer que ests separado da tua mulher - respondeu 
ela.
Acabaram de jantar e, quando saram do restaurante, caminharam lentamente 
pelas ruas estreitas do centro. Deram um longo passeio a falar sobre 
tudo, como se se conhecessem desde sempre.
Quando chegaram em frente  porta do Hotel d'Inghilterra, Liliana disse: 
- Temos de nos despedir.
- Tenho pena de te deixar - sussurrou ele.
Estavam um em frente ao outro. Se naquele momento Srgio a tivesse 
beijado, Liliana teria retribudo. Mas disse apenas: - Boa-noite - e 
afastou-se.
Ela entrou no hotel e o porteiro deu-lhe a chave do quarto e uma srie de 
mensagens. Subiu ao primeiro andar, entrou no quarto, tirou os sapatos e 
sentou-se na beira da cama. Sentiu-se envolvida por uma emoo de 
adolescente que no conseguia controlar. Onde andaria a mulher 
inquebrvel com a qual sempre tinha convivido? Sentiu-se frgil, indefesa 
e, facto ainda mais espantoso, no queria reagir. Pelo contrrio, 
desejava abandonar-se totalmente s suas emoes. Deitou-se na cama, 
apagou a luz e deixou-se embalar docemente na recordao de Srgio. 
Depois adormeceu. Sonhou que estavam a fazer amor e que aquela relao 
era perfeita.
Foi bruscamente acordada pelo som do telefone.
Levantou o auscultador e ouviu a voz do marido.
- Esta noite no me telefonaste. Como ests? - perguntou-lhe.
- Que horas so?
-  meia-noite. Tens a voz empastada de sono.
- Estava a dormir - sussurrou. E o seu pensamento correu para Stefano. - 
Como  que est o meu filho?
- Quis ficar em casa do Pucci, com os primos. Eu jantei fora, com uns 
amigos, mas vim para casa cedo. Como correu a festa?
- Acho que correu bem - respondeu Liliana.
- No tens a certeza?
- Pus-me a andar, ao fim de algum tempo.
Calaram-se os dois por uns instantes. Depois Liliana continuou: - No  o 
nosso mundo. No sei se farei bem em passar

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tanto tempo em Roma. - Esperou que Sandro lhe dissesse para regressar a 
Milo e no teria hesitado em partir.
Mas Sandro replicou: - No me perguntes isso a mim. Houve outro silncio. 
Depois ela sussurrou: - Boa-noite. - E desligou o telefone.
Levantou-se da cama, despiu-se e entrou na casa de banho. Tomou um duche, 
vestiu a camisa de noite e voltou ao quarto. Tinha perdido o sono e 
comeou a ver as mensagens que o porteiro lhe entregara. Eram telefonemas 
de trabalho. No dia seguinte pensaria naquilo. Abriu a janela e ficou ali 
a olhar para o cu, a fumar um cigarro. Depois voltou para a cama. Ligou 
para a recepo, pediu o despertador para as sete e adormeceu finalmente.
Na manh seguinte, s oito horas, quando ia a sair do quarto, tocou o 
telefone.
- Liliana Corti - disse, quando atendeu.
- Srgio Branduani - anunciou uma voz com um tom de brincadeira. - 
Procurei mais do que um pretexto para te ligar a esta hora, mas no 
arranjei um nico. O porteiro disse-me que pediste o despertador para as 
sete. Vais trabalhar?
- Daqui a meia hora tenho de estar no escritrio - respondeu Liliana.
- Daqui a uma hora estou no ministrio - disse ele, e acrescentou: - 
Vemo-nos logo  noite?
- vou apanhar o avio das sete para Milo.
Despediram-se com a promessa de se falarem na semana seguinte.
Liliana chegou ao aeroporto  ltima hora, a correr, como sempre. Tinham-
lhe marcado o lugar do costume, junto  janela, na primeira fila.
O lugar ao lado do dela j estava ocupado.
- Desculpe - disse ao homem, que estava a ler o jornal.
- Ia fazer uma viagem para nada, se perdesses este avio - disse Srgio, 
baixando o jornal.
- Uma viagem para nada? - repetiu Liliana, nas nuvens.
- Apanhei este voo s para ir contigo. Vamos estar juntos durante 
cinquenta minutos. Volto para Roma no avio das dez.
Liliana apertou o cinto e ele pegou-lhe na mo e levou-a aos lbios, 
murmurando: - Apaixonei-me por ti.

363

Sandro estava  espera dela no aeroporto. Viu-o imediatamente, do outro 
lado da grade. Sorria-lhe, com aquela expresso habitual que lhe dava 
segurana. Liliana abraou-o com fora, como se no o visse h semanas, 
apesar de ter estado fora apenas dois dias.
- E o Stefano? - perguntou-lhe. O filho apareceu atrs do pai.
- Surpresa - anunciou o menino.
Liliana apertou-o nos braos, enquanto os olhos se enchiam de lgrimas.
- Est tudo bem? - perguntou o marido, quando se deitaram. Liliana anuiu.
- No te queixaste do cansao, deixaste o telefone tocar sem atenderes, 
foste de uma ternura no habitual comigo e com o Stefano e, para acabar, 
ests quase a chorar. Isso no  nada teu, Liliana - observou Sandro, que 
olhava para ela com ternura.
- Estou bem, a srio - replicou ela. E, aps um instante, acrescentou: - 
Sinto-me um pouco estranha,  s isso. - No conseguia deixar de pensar 
em Srgio e, no entanto, dizia a si prpria que tinha a situao sob 
controlo e que nunca ningum a poderia afastar dos seus afectos 
familiares.
Ia esperar para ver o que ia acontecer a seguir, porque ao abrigo da 
famlia sentia-se dentro de um barril de ferro. Os colegas da Collenit 
contavam-lhe que ela estava sempre  cabea na classificao das mulheres 
mais desejveis na empresa. Lisonjeava-a o facto

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de se sentir admirada, mas bastava-lhe o amor do marido, apesar de agora, 
de repente, o mecanismo da indiferena parecer no funcionar.
- Estou bem, a srio - repetiu a Sandro, e a si prpria. Apagou a luz. 
Ele tocou-lhe na anca e ela esticou um brao por cima do peito dele. 
Fizeram amor e depois o marido abraou-a para a adormecer.
No dia seguinte foi para o escritrio e mergulhou no trabalho, resolvida 
a no pensar em mais nada. Tinha-se sentado  secretria h pouco tempo 
quando chegou o telefonema do director-geral.
- Tenho uma boa notcia para si. O Ministrio do Trabalho vai financiar 
uma parte do seu projecto.
- E a outra parte? - perguntou Liliana, enquanto pensava que Srgio no 
tinha perdido tempo para lhe fazer um favor.
- A empresa vai ao seu encontro, mas s dentro de certos limites. O seu 
plano est a ter um ptimo resultado para a imagem da Collenit, mas do 
ponto de vista econmico  completamente improdutivo - disse, com 
frontalidade.
- Eu c me hei-de arranjar, como sempre - replicou ela. Sabia 
perfeitamente que no ia arranjar defensores para uma estratgia que se 
propunha ajudar as mulheres a fazer carreira.
- Obrigada pelo convite do outro dia e desculpe-me mais uma vez por me 
ter vindo embora to depressa, mas estava terrivelmente cansada - 
explicou, esperando que o director no associasse  sua fuga a do 
ministro do Trabalho. No o fez.
- A minha mulher e eu agradecemos-lhe o seu presente - disse ele. E 
acrescentou: - Gostmos imenso. - Antes de partir para Milo, descobriu 
num alfarrabista um belo livro sobre a histria do golfe e um outro, do 
sculo XVIII, sobre a histria de Roma. Mandou-os com um bilhete de 
desculpas por se ter eclipsado sem se despedir.
Liliana estava convencida de que o director-geral a considerava como uma 
espcie de inimigo em casa. No s por causa da investigao que tinha 
realizado no interior da Collenit, mas tambm porque a considerava como 
uma protegida de Bruno D'Azaro, que se estava a tornar cada vez mais 
poderoso na esfera do governo. Liliana no se preocupava em desmentir 
aquele equvoco, sabendo

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que as pessoas raramente acreditam na verdade. Despediu-se do director e 
telefonou para a secretaria do Ministrio do Trabalho.
- Fala Liliana Corti, da Collenit. A direco acaba de me comunicar a 
notcia de um financiamento para a minha comisso feminina.
- vou passar o Sr. Ministro - disse um funcionrio muito prestvel.
- No vale a pena incomod-lo. Basta-me que lhe agradea do corao em 
meu nome. - Apressou-se a desligar, porque temia ouvir a voz de Srgio. 
Agora estava em Milo, em segurana entre as paredes do gabinete e as da 
sua casa. Reuniu com os colaboradores e recebeu um delegado do comit da 
fbrica. Depois chegou a notcia do sequestro de Aldo Moro, o presidente 
da Democracia Crist. O trabalho na Collenit parou. Liliana falou 
rapidamente com os representantes dos sindicatos, que j tinham recebido 
as directrizes das vrias sedes. Era greve geral. Liliana regressou a 
casa. Sandro estava  espera dela e Stefano chegou pouco depois. Tambm a 
escola tinha fechado as portas.
Passaram o dia colados ao televisor e o sero em casa de Giuseppe, na via 
Borgospesso, com o resto da famlia. Rosellina telefonou de Los Angeles. 
A notcia chegara imediatamente ao outro lado do Atlntico e ela queria 
saber mais coisas.
- O que  que essa gente das Brigadas quer? - perguntou. Estava a chorar, 
porque aquele atentado ao corao da democracia renovava a dor pela perda 
do pai e pelo ferimento de Liliana. Seguiram-se dias e depois semanas 
frenticos. Liliana cancelou todos os encontros em Roma. Podia igualmente 
trabalhar em Milo no programa da sua comisso, mas sobretudo havia agora 
problemas mais graves, porque mais uma vez a violncia se opunha  
legalidade.
Depois Moro foi assassinado e o clima de terror agudizou-se.
Chegou o Vero e Liliana foi a Roma. Rosellina tinha regressado exultante 
da sua experincia californiana. O filme que protagonizara ia ser 
apresentado no Festival de Cinema de Veneza. Tinha-se tornado uma diva 
tambm do outro lado do oceano. Durante a rodagem do filme, teve uma 
histria sentimental com o protagonista masculino. A aventura foi 
conhecida e Cristiano Montenero ficou furioso. Rosellina estava em Roma 
para tentar acalmar o companheiro e telefonou a Liliana.

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- Vamos almoar, s ns as duas? - props.
Combinaram encontrar-se num restaurante perto da Baslica de Massenzio, 
que Rosellina conhecia bem. O matre acompanhou-as  mesa. Na mesa ao 
lado estava Srgio Branduani. Estava com um poltico de uma certa idade, 
estimado por toda a gente pela sua honestidade. Liliana viu-o e o seu 
corao deu um salto. Quando Srgio olhou para ela, os olhos escuros 
dirigiram-lhe um lampejo de alegria. Depois recomeou a falar em voz 
baixa com o colega, ignorando-a.
Nunca mais se tinham encontrado. Ele ligara-lhe duas vezes para Milo, 
mas ela recusara-se a falar com ele, com receio daquilo que poderia 
acontecer se conversassem. Tinha decidido que preferia sentir-se um 
mosaico com algumas peas a menos do que complicar a vida. Ele nunca mais 
a procurou depois disso.
- O que foi? - perguntou Rosellina.
- Porqu?
- Ests mais vermelha que um pimento.
- Foi uma onda de calor - respondeu, tentando no dar importncia.
A irm comeou imediatamente a descrever a sua imensa dor pelo 
desentendimento com o nico amor da sua vida.
- A questo  que o Cristiano  um homem  moda antiga e no me quer 
compreender.  verdade que o tra, mas s um bocadinho. Aquele Jim 
Qualquercoisa foi s uma distraco para o tdio de Hollywood. Se a coisa 
no se tivesse sabido, se as pessoas se metessem na vida delas, eu agora 
estava perfeitamente com o Cristiano. Sabes que ele ameaou deixar-me? 
Sem ele, eu ia envelhecer no deserto da minha solido e no ia deixar 
nenhum vestgio de mim. Ests a ouvir?
Liliana no ousava levantar os olhos do prato de salada de polvo com 
rcula, porque temia no conseguir controlar a sua emoo se cruzasse 
outra vez os seus olhos com os de Srgio.
- Claro que estou a ouvir - respondeu  irm. E depois perguntou-lhe: - 
Era mesmo preciso vencer o tdio com uma traio? No  justo fazer 
sofrer o companheiro. - Pensava nela prpria e no marido.
- A culpa  toda deste ambiente de fofoca. Ele no devia ter sabido. Quem 
no sabe, no sofre. No achas?

367

- O que eu acho  que tu continuas a ser a menina de sempre. Em qualquer 
caso, o Cristiano vai-te desculpar, porque te ama de verdade.
- Tu achas? Esperemos. Se ao menos ele entendesse que, de vez em quando, 
eu tenho necessidade de uma pequena transgresso...
- Comportas-te como uma criatura ftil e vazia - lamentou.
- No te fica bem dizeres-me essas coisas. Tu nunca tiveste uma aventura 
pequenina? - perguntou.
Depois mediu o absurdo daquela pergunta e apressou-se a dizer: -  uma 
pergunta idiota, tratando-se de ti. Esquece. Tu tens umas palas como os 
cavalos e no vs nada para alm do teu marido e do teu trabalho.
Liliana absteve-se de a corrigir, ainda que Rosellina a estivesse a 
provocar, sem o saber.
- O facto  que tu nunca sonhaste com uma grande paixo, daquelas que 
fazem perder a noo da realidade e se alimentam de desejo e nos fazem 
sentir vivos. Eu vivi essa paixo com o Cristiano. s vezes ainda a vivo 
com ele. Nos intervalos, porque preciso de fogo, acendo uma chama noutro 
lugar. A paixo  como um rio, vive enquanto dura a nascente que a 
alimenta. O Cristiano  o rio, eu sou a nascente. Nunca poder passar sem 
mim, ainda que, de vez em quando, eu tenha de o trair. S um bocadinho, 
s para enganar a espera do regresso da chama - explicou.
Um empregado aproximou-se da mesa e sussurrou a Rosellina que a tinham 
chamado ao telefone.
- Prefere falar no escritrio ou quer que lhe traga o telefone  mesa? - 
perguntou-lhe.
-  mesa, muito obrigada. - Depois dirigiu a Liliana um olhar malicioso.
- J sei quem  que anda  minha procura.  o Marco Taddei. Era o mais 
importante produtor cinematogrfico do momento. O empregado levou o 
telefone para a mesa e Rosellina sussurrou algumas palavras, aps o que 
desligou. O seu rosto era a imagem da felicidade. - Sabes, vou ter de ir 
embora a correr. J me esquecia de te dizer que andamos juntos h algum 
tempo, com muita discrio, porque no queremos mexericos.  
absolutamente adorvel e tambm est loucamente apaixonado por mim. Est 
no carro, mesmo aqui em frente ao restaurante. Disse-lhe que tinha 
absolutamente

368

de almoar contigo. Agora vou-te deixar, mana - concluiu, enquanto se 
inclinava sobre ela para lhe dar um beijo na face.
Liliana agarrou-a por um brao. - H pouco estavas morta de consumio - 
murmurou com um ar irritado.
- Mas ser que tu acreditas sempre em tudo o que eu conto? - brincou 
Rosellina, enquanto se preparava para sair. Por pouco no chocou com o 
poltico que estava na mesa de Srgio. Tambm o velho deputado se ia 
embora. Liliana e Srgio ficaram nas suas mesas.
Ele levantou-se, deu dois passos e sentou-se  frente dela.
- E agora? - perguntou Srgio, que a olhava com ternura.
- Agora estamos sozinhos - respondeu Liliana, e sorriu-lhe.

369

Saram juntos do restaurante. Srgio deu-lhe o brao e disse: - Vs como 
? Estava escrito que no podamos escapar. - E acrescentou: - Nestas 
ltimas semanas pensei muito em ti.
- No te quero ouvir - reagiu ela.
- No ando  procura de aventuras. Apaixonei-me por ti.
- Cala-te, por favor - sussurrou Liliana. - Tenho de ir para o escritrio 
a correr. vou ter um encontro com o deputado Qualquercoisa para discutir 
j no sei o qu. Oh, meu Deus, Srgio, estou muito confusa.
Olhou para ele, desesperada. Ele calou-se. Depois pousou as mos nos 
ombros dela e disse baixinho: - S te peo que penses nisso. Tu s 
importante para mim e vais continuar a ser, acontea o que acontecer 
entre ns.
Despediram-se com a inteno de se falarem ao fim da tarde para jantarem 
juntos.
Liliana chegou  sede da Collenit e a secretria informou-a de que o seu 
encontro tinha sido adiado.
Aproveitou para ligar a Sandro, que j no ouvia desde a vspera.
- O Stefano est com bastante febre, tem a garganta inflamada e no 
consegue engolir - disse o marido.
- Chamaste o mdico?
- Estava  espera de ouvir a tua opinio. Se calhar devia dar-lhe o 
antibitico do costume.

370

- Eu vou chamar o mdico agora mesmo. Depois apanho o primeiro avio para 
Milo - decidiu ela.
- Talvez no valha a pena - observou Sandro.
- Vale a pena, sim - replicou Liliana, que se sentia culpada a pensar no 
marido, sozinho em casa, com o filho doente.
No aeroporto telefonou a Srgio para o avisar de que no se iam encontrar 
naquela noite.
- Fica sossegada. O teu filho vai ficar bom num instante - respondeu. E 
no acrescentou mais nada.
O avio levantou num cu transparente como uma placa de cristal e aterrou 
em Milo dentro do horrio.
Quando chegou a casa, o mdico estava a acabar de ver o filho e 
diagnosticou uma simples amigdalite.
- Talvez fosse de tirar estas amgdalas. Esto em mau estado e inflamam 
por uma coisa de nada - concluiu, antes de ir embora.
Liliana abraou o seu menino febril, Maddalena foi a correr  farmcia 
comprar o antibitico do costume e Sandro saiu de casa, dizendo que 
voltaria  hora de jantar. Me e filho ficaram sozinhos.
- Como  que te sentes? - perguntou Liliana, sentada na beira da cama.
- Pssimo. - Custava-lhe falar por causa das dores de garganta. - Hoje 
havia teste de matemtica e eu corro o risco de no ter nota na pauta 
porque tambm faltei ao do ms passado - disse-lhe.
- Por que  que faltaste? - perguntou Liliana.
- Me, no te lembras? Houve uma missa por alma do av - respondeu ele, 
com um ar complacente.
Tinha-se esquecido completamente, mas reagiu de imediato: - No me 
lembrava de que havia teste nesse dia.
- Ests cada vez mais esquisita, me. Alis, regressar precipitadamente 
de Roma por causa de uma amigdalite no  nada teu.
- Mentira. Sempre que ficas doente eu estou ao p de ti. Lembras-te 
daquelas otites terrveis, quando eras pequeno? Eu embalava-te durante 
horas. E quando deitavas sangue pelo nariz? Eu vinha a correr para casa 
para estar junto de ti. Portanto, hoje no fiz nada mais do que aquilo 
que habitualmente fao. E no me digas que estou esquisita - ralhou.

371

Maddalena voltou com os remdios. Liliana foi  cozinha preparar um creme 
de baunilha para o filho. Ao fim da tarde estava quase sem febre. Quando 
Sandro chegou, jantaram os trs na cozinha.
Liliana tinha preparado papas de milho, tarte de batatas e fruta passada.
- O que vem a ser esta papinha toda? - perguntou Sandro. Tinha um ar 
contrariado e no o escondia.
- O Stefano tem dificuldade em engolir - explicou Liliana.
- Mas eu no! - protestou.
Levantou-se da mesa e foi para a sala. Depois de comer, Stefano voltou 
para a cama e Liliana foi ter com o marido. Ele estava sentado no sof a 
assistir a uma partida de tnis na televiso. Ela agarrou no comando, 
desligou a televiso e disse-lhe: - Vamos conversar.
- Por onde comeamos? - perguntou Sandro, olhando-a com severidade.
- Pelos teus ataques de fria - afirmou ela.
- E por que no pelo facto de eu no saber nada sobre a maneira como 
vives quando ests em Roma?
- Pelo contrrio, sabes tudo. Trabalho, trabalho e volto a trabalhar. Em 
qualquer caso, diz-me o que queres saber. Tu fazes as perguntas e eu 
respondo. - Falou com tranquilidade e com firmeza.
Sandro abanou a cabea, baixou os olhos e sussurrou: - Tenho cimes desta 
minha mulher lindssima.
Ela ficou comovida. Olhou para aquele homem que sempre a tinha amado, 
ajudado, respeitado, que sempre se tinha mantido de lado para que ela 
pudesse emergir e fazer carreira, que sempre a enchera de atenes e que 
estava sempre pronto para a ouvir e para a orientar.
Sentou-se ao lado dele, abraou-o e disse: - No aguento que tu sofras 
por minha causa. s o meu marido, o pai do meu filho, s o homem mais 
importante da minha vida.

372

Stefano melhorou rapidamente e Liliana tinha de voltar para Roma. Mas 
queria clarificar as suas emoes. Naqueles dias sentia-se vulnervel, 
porque gostava muito de Srgio e receava abandonar-se a uma histria que 
lhe iria transtornar a vida. Por isso decidiu ficar em Milo tambm na 
semana seguinte, esperando, com o decorrer dos dias, reencontrar o seu 
autodomnio.
No domingo, a famlia reuniu-se toda em casa de Rosellina, na Porta 
Romana.
Ela andava continuamente entre Roma e Milo e estava outra vez feliz ao 
lado de Cristiano.
Giuseppe, ajudado pela clarividncia de Pucci, tinha edificado um imprio 
empresarial, e a Corti Collection tornara-se um dos colossos italianos da 
moda.
Pucci e Ariella tinham uma vida muito equilibrada. Ela ia pondo filhos c 
fora, porque aquele papel a satisfazia plenamente. Apreciava tambm 
aquilo que definia como uma vergonhosa riqueza, que suscitava a inveja 
do cunhado de Bolonha e que se tornara o orgulho do pai ferrovirio que, 
de vez em quando, repetia: Quem havia de dizer que aquele meu genro, para 
alm de ser bonito, tambm era um gnio?
- Toda a gente, menos um estpido como tu e aquele arrogante de Bolonha 
que agora se gaba de um parentesco que queria evitar - respondia-lhe a 
signora Spada.

373

Agora a famlia Corti estava reunida  volta da mesa. S faltavam 
Ernestina e Renato. Nos seus lugares sentava-se a ninhada de netos, aos 
quais os tios contavam uma histria que comeava sempre assim: - Os 
vossos avs criaram-nos a batatas, massa e sapatadas.
As crianas mais velhas corrigiam: - Na verdade, s a av  que tinha a 
mo ligeira. O av brincava connosco, estava sempre a sorrir e cantava-
nos as canes dos anarquistas.
Estavam  mesa, com um grande tabuleiro de lasanha com molho de carne na 
frente. Liliana observava Sandro, Stefano e aquela grande famlia que 
tinha enfrentado e superado tantas dificuldades e dores. Pensou que nunca 
poderia renunciar a eles porque eram a parte mais concreta, mais slida e 
mais feliz da sua vida.
No fim do almoo, Rosellina disse-lhe: - Anda ao meu quarto num instante. 
Quero mostrar-te um vestido da me.
Era apenas um pretexto. De facto, assim que ficaram sozinhas, contou-lhe: 
- Ouvi uns rumores, em Roma. J sabes como naquela cidade gostam de 
mexericos. Consta que tu fugiste de uma festa com o ministro Branduani 
que, por acaso,  um belo homem.
Liliana deitou-se na cama, cruzou as mos atrs da cabea e perguntou 
despreocupadamente: - Quem foi que te disse?
- Fica sossegada,  uma pessoa pouco credvel, e por isso ningum agarrou 
o comentrio. At porque o Branduani passa por ser um sujeito solitrio e 
tu uma mulher de carreira pouco dada a frivolidades - explicou Rosellina. 
E continuou: - Ento,  verdade?
Liliana sorriu: - Sabes que  muito estranho ser submetida por ti a um 
interrogatrio deste gnero?
- Pois , os papis inverteram-se e agora ests tu sob inqurito - disse 
a irm, divertida. - Ento? - incitou-a.
-  verdade, mas fugimos de uma festa aborrecidssima s para irmos 
jantar os dois. Mais nada.
- Que pena! - exclamou Rosellina, desiludida. - Esperava que tivesses 
deixado de representar o papel da mulher forte para te deixares arrastar 
por uma paixo louca. E ento a tua irmzinha tonta podia-te ajudar.
- Serias mesmo capaz de me dar um bom conselho? - perguntou Liliana, 
incrdula.

374

Evidentemente. Dizia-te: ouve o teu corao - afirmou,
com um tom melodramtico.
- Eu sabia. No podias dizer nada de diferente - exclamou Liliana, ao 
mesmo tempo que se levantava da cama e dava uma gargalhada que acabou por 
contagiar tambm Rosellina. No entanto, enquanto ria, deixou escapar um 
soluo. Continuava a combater contra o desejo de se deixar envolver numa 
histria exaltante com o fantstico professor Branduani.
375

Mais do que uma vez, durante a manh, a secretria apareceu  porta do 
gabinete para lhe lembrar o encontro com um jornalista que escrevia sobre 
economia para um jornal importante. Liliana estava sem vontade de dar 
entrevistas.
- Pede-lhe desculpa por mim e pergunta se podemos adiar o encontro - 
disse.
- Eu conheo a personagem.  mais susceptvel do que uma gata a tomar 
conta da ninhada. No vale a pena criar inimizades com a imprensa. Foste 
tu que me ensinaste isso - recordou a mulher.
- Ento convidamo-lo para almoar - decidiu Liliana.
- Onde marco?
- No tenho tempo para sair. Almoamos aqui, no meu gabinete. Sanduches, 
gelado, gua mineral e um caf, aquele especial que s tu sabes fazer - 
pediu  secretria.
- A propsito de sanduches, no te esqueas que amanh, s nove da 
manh, tens um encontro com o deputado Tardini. Marquei-te lugar no avio 
das sete - comunicou-lhe.
O deputado Tardini tinha a alcunha de sanduche porque andava desde 
sempre encaixado entre dois partidos rivais que o empurravam de um lado 
para o outro, conforme as necessidades.
- Desmarca esse encontro, por favor. No posso ir a Roma, neste momento - 
disse Liliana, que remetia para o tempo e para o silncio a resposta que 
Srgio esperava dela.
- A desculpa do costume? A Dra. Corti tem um problema

376

pessoal e no pode ausentar-se de Milo? - perguntou a secretria. 
Liliana anuiu e sorriu, pensando que nunca uma desculpa tinha sido to 
verdadeira.
Depois recebeu o jornalista. A entrevista era sobre os diferentes mtodos 
de contratao de licenciados nas empresas do Norte e nas do Sul de 
Itlia.
- No Norte privilegiamos as conversas, no Sul fazem anncios de concurso. 
Aqui, o mercado do trabalho absorve uma grande parte dos licenciados. De 
Roma para baixo, para um lugar de engenheiro h mil pretendentes, por 
isso o concurso  inevitvel - declarou Liliana, dissertando tambm sobre 
o sistema crnico das recomendaes e do proteccionismo.
- As suas declaraes, doutora, no so declaraes polticas - observou 
o jornalista, que entretanto apreciava a deliciosa macieza de uma 
sanduche de salmo.
- Sou uma empresria e s tenho dois interesses: o lucro da empresa e o 
bem-estar dos trabalhadores.
- Dois interesses que podem estar em conflito - afirmou o homem.
- So convergentes, se ao conduzir uma empresa se tiver semIpre presente 
o interesse de cada funcionrio, desde o estafeta ao director-geral.
- Mas as Brigadas Vermelhas deram-lhe um tiro e mataram o seu pai. O que 
lhe ensinaram estas experincias dramticas?
- Que as regras se mudam com o confronto dialctico, no com a violncia. 
J alguma vez perguntou a si prprio por que razo a nossa economia est 
estagnada? O clima de terror e de intimidao no a ajudou a crescer.
- Mas a senhora, Dra. Corti, de que lado est?
- com os trabalhadores, enquanto as suas reivindicaes no prejudicarem 
a empresa. Se uma empresa  obrigada a fechar por falta de lucros, o 
proprietrio pode contar com os ganhos acumulados, enquanto que os 
operrios ficam sem trabalho e sem dinheiro.
-  como juntar o diabo e a gua benta.
- O diabo nunca  to mau como se pensa e a gua benta s vezes est um 
pouco suja. Posso junt-los, sim. Juntos poderiam at chegar ao paraso.
- No acha que est a exagerar?

377

- Claro que sim. Cada um tem os seus sonhos. Este  o meu - concluiu.
- Como  a sua relao com os funcionrios da Collenit?
- Pergunte-lhes a eles. Fale com quem quiser, quando quiser. A Collenit 
tem a mxima transparncia no que diz respeito  gesto do pessoal.
A entrevista foi publicada no dia seguinte e desencadeou uma grande 
confuso. Um conhecido jornalista da televiso partiu ao ataque a Liliana 
numa estao nacional, acusando-a de racismo. A senhora de Milo seria 
capaz de requerer tambm uma anlise de sangue aos licenciados do Sul, 
enquanto que para os do Norte lhe basta um olhar para perceber se sabem 
da sua profisso.  uma vergonha! At porque toda a gente sabe que a dita 
senhora tende h muito tempo a privilegiar as mulheres em detrimento dos 
pais de famlia. Alguns jornais atiraram-se  Collenit, que permitia a 
uma mulher feita homem exercer o seu poder no interior de uma empresa na 
qual, contrariamente quilo que ela defendia, o conflito entre empregados 
e classe dirigente estava largamente documentado. A presidncia da 
Collenit, submersa em cartas insultuosas, manteve-se a alguma distncia 
dela. O director-geral, quando Liliana lhe telefonou, negou-se a atend-
la. Foi abandonada por toda a gente.
- Hoje, quando desci  cantina, ningum se sentou na minha mesa - 
confessou ao marido, amargurada. - At os operrios se mantm longe de 
mim.
- O que  que tu querias? A economia est em crise, h muitos 
despedimentos e muita gente no fundo de desemprego. Entretanto, a balana 
de pagamentos com o estrangeiro  fortemente passiva, cresce a dvida 
pblica e tu declaras um idlio entre a direco e os operrios, quando 
toda a gente sabe que o que prospera  uma economia subterrnea e o 
mercado negro. Mas onde  que tu tens a cabea, Liliana?
Depois, inesperadamente, no mais importante jornal dirio de economia 
saiu um artigo na primeira pgina, assinado pelo Prof. Srgio Branduani. 
Era uma defesa implacvel das palavras de Liliana. O professor de Direito 
do Trabalho defendia com franqueza que a directora do pessoal da Collenit 
funcionava precisamente com base nas exigncias do mercado e que tivera a 
honestidade de o admitir, que era tempo de acabar com as mentiras, as 
confuses e os

378

proteccionismos, que para fazer avanar as empresas e incrementar a 
produtividade era preciso gente de grande profissionalismo, que cada 
empresa tinha o direito de escolher os candidatos mais idneos e que a 
idoneidade se estabelecia melhor nas conversas do que atravs de 
concursos, muitas vezes manipulados. Com a autoridade da sua voz, 
respeitada pelas correntes de todos os partidos, o ministro aplaudia a 
coragem de uma directora que at tinha a fora de acreditar num sonho.
Liliana telefonou a Srgio e emocionou-se ao ouvir a sua voz.
- Obrigada - disse-lhe.
- Escrevo aquilo que penso - respondeu ele. Houve um instante de 
silncio.
- Sugeriram-me que fizesse umas frias, at para deixar passar esta 
confuso toda - disse ela, por fim.
- ptima deciso. Umas frias vo ajudar-te a reencontrar a serenidade. 
Nunca mais nos vimos nem falmos mas, como vs, podes sempre contar 
comigo.
- Eu sei, obrigada - respondeu, comovida.
Tinha os olhos cheios de lgrimas quando pousou o auscultador. Estava 
certa de que, se estivesse  frente dele, lhe tinha cado nos braos.
Liliana foi para a Sua, para o lago de Lugano, com Sandro, Stefano e os 
filhos mais velhos de Pucci. Escolheram um hotel muito confortvel, com 
um campo de golfe privado. As crianas iam ter lies de golfe, Sandro ia 
encontrar-se com alguns colegas suos com os quais mantinha relaes de 
trabalho, enquanto que ela queria apenas dormir e reflectir serenamente.
O artigo de Srgio Branduani invertera a situao. O director-geral 
telefonou-lhe para lhe desejar boas frias. Bruno D'Azaro mandou-lhe um 
ramo de flores com um bilhete: Preciso de pessoas como tu no meu 
partido. Anda ter comigo. A secretria informava-a diariamente sobre as 
mensagens de solidariedade que continuavam a chegar ao gabinete dela.
- vou  cidade - disse-lhe um dia o marido, quando acabaram de almoar. 
Sabia que Liliana ia para o jardim ler um livro, enquanto que as crianas 
passariam a tarde na piscina.
- Vemo-nos mais tarde - disse Liliana.
Com um romance e um monte de revistas, foi sentar-se numa 
espreguiadeira, por baixo da sombra generosa de um velho pltano.

379

O sol, fendendo os espaos exguos entre as folhas, criava jogos de luz e 
sombra. De longe, chegavam as vozes das crianas que mergulhavam da 
prancha para a piscina. O zumbido estival dos insectos conciliava-lhe o 
sono e Liliana adormeceu. Foi acordada pelas crianas. A sua sobrinha 
Tina estava com um corte profundo no antebrao. Tinha-se magoado enquanto 
andava a brincar com Stefano, ao bater contra o arame farpado da vedao.
O porteiro do hotel prestou-lhe os primeiros socorros, mas Liliana 
decidiu que era melhor descer  cidade e consultar um mdico.
Foi de txi at  urgncia do hospital. No era realmente nada de grave, 
disse o mdico, que voltou a limpar a ferida e lhe deu uma injeco 
antitetnica. Mas Tina pediu para telefonar imediatamente  me, para lhe 
contar o acidente.
Liliana no queria que a cunhada se afligisse e por isso disse-lhe: - 
Tina, no gostavas de ir ao cinema ver Os Salteadores da Arca Perdida e 
telefonar  tua me logo  noite, como fazes normalmente?
O filme de Spielberg era decididamente aliciante.
Levou Stefano e os primos ao cinema, comprou os bilhetes para eles e 
disse: - Eu vou aproveitar para dar uma volta pelas lojas. Venho buscar-
vos no fim do filme.
- Tia, deixas-nos dinheiro para as pipocas? - perguntou Tina, que j se 
tinha esquecido da ferida.
Ela foi passear por baixo do prtico da praa que dava para o lago, 
admirando o florescimento dos gernios nas janelas dos edifcios onde 
ficavam os bancos e os escritrios das multinacionais. No resistiu ao 
desejo de comprar uma carteira desenhada pelo irmo, na loja Corti 
Collection. Custava uma fortuna, como todas as roupas e acessrios 
assinados por Giuseppe.
Preparava-se para atravessar a praa invadida pelas mesinhas dos bares 
repletos de turistas quando viu Sandro. Estava sentado a uma mesa na 
companhia de uma mulher muito bonita, j no muito jovem, elegantssima.
A sua primeira reaco foi de espanto. Mas o que  que o meu marido anda 
a tramar?, pensou. Depois reconheceu a mulher, de quem tinha visto, no 
passado, algumas fotografias.

380

Aquela mulher bonita era Denise, que Sandro deixara muitos anos antes, 
depois de ter comeado a andar com ela. Liliana sabia que, entre os dois, 
permanecera uma amizade importante da qual no sentia cimes, mas tinha 
preferido que o marido lhe dissesse que aproveitava aquelas frias para 
se encontrar com ela. Depois considerou que no tinha nenhum direito de 
interferir na vida de Sandro, nem de exprimir juzos.
No entanto, quando  noite se sentaram  mesa na sala de jantar do hotel, 
ela anunciou: - Na prxima semana recomeo a trabalhar. Vou imediatamente 
para Roma.
- Acho boa ideia - disse Sandro. E acrescentou: - Hoje estive a tomar um 
ch com a Denise.
- Quem  a Denise? - perguntou Stefano.
- Uma velha amiga - respondeu Sandro.
Liliana encaixou a lio e no fez comentrios. Mas mais tarde, deitados 
nas grandes camas do quarto, perguntou-lhe: - Como  que est a Denise?
- Anda permanentemente aflita com um mar de problemas e para ela  
importante desabafar comigo.
- A Denise sofreu quando a vossa histria acabou - observou.
- Tambm eu sofri um pouco, no por mim, por ela. Mas tu entraste como um 
ciclone no meu corao e na minha vida - respondeu Sandro.

381

- E se me acontecesse a mim a mesma coisa? - perguntou-lhe. Sandro tirou 
os culos, dobrou o jornal que estava a ler e virou-se a olhar para ela.
- Que coisa?
- Se de repente perdesse a cabea por outro homem? - disse. Sandro 
acariciou-lhe o rosto e olhou para ela com ternura.
- Talvez eu no seja exactamente o homem dos teus sonhos, mas amo-te como 
no primeiro dia em que te conheci.
Como sempre, Sandro deixava-a livre para escolher, sem recorrer a 
chantagens emocionais ou familiares. Liliana sorriu-lhe e abraou-o.
Os anos passaram depressa. Uma manh Liliana foi acordada pelo telefone.
Eram oito horas e, quela hora, s podia ser algum da famlia.
- Atende tu, por favor - pediu, com uma voz ensonada. Sandro levantou o 
auscultador, atendeu e depois disse-lhe: -  uma chamada do Palazzo 
Chigi. Parece que o Rosrio Armati quer falar contigo - disse, passando-
lhe o telefone.
Liliana cumprimentou, ouviu e depois respondeu: - Ora essa, no incomoda 
nada. Sim, estou de frias com a minha famlia, mas amanh de manh s 
dez horas estou a. Apesar de recear no ser a pessoa ideal para esse 
cargo.
Desligou a chamada e voltou-se para o marido, que a observava com um ar 
interrogativo.
- Diz-te alguma coisa a Comisso para a Igualdade de Oportunidades da 
Presidncia do Conselho de Ministros? - perguntou. E prosseguiu: - 
Propuseram-me fazer parte dela.
- Tem cuidado. Tu no tens grande familiaridade com as instituies do 
Estado nem com os seus rituais - observou Sandro.
- vou ver se percebo alguma coisa.
- Isso quer dizer que amanh de manh partimos de madrugada - suspirou 
Sandro.
No dia seguinte, Liliana estava em Roma, no gabinete de Rosrio Armati.
- Em questes de igualdade de oportunidades,  uma especialista, Dra. 
Corti. Para alm disso, tem um forte ascendente sobre as

382

mulheres. Por isso no se faa de esquisita e aceite - disse Armati, com 
o tom despachado que o caracterizava.
- Essa esquisitice  uma componente do fascnio feminino. Tome nota desta 
no seu caderno, porque pode vir a ser-lhe til - replicou Liliana.
Ele respondeu-lhe com uma gargalhada franca e depois disse:
- Pobres de ns se, no futuro, tivermos de lidar com um exrcito de 
mulheres como voc.
- Ao nosso fascnio, os homens contrapem a arte subtil da intriga e 
semeiam armadilhas no nosso caminho. Durma um sono tranquilo, senhor 
deputado, porque no nosso pas as mulheres vo continuar a contentar-se 
com pouco, e ainda por muito tempo.
Liliana acabou por aceitar e ficou a saber por Armati que tinham sido 
algumas mulheres empresrias a prop-la para a comisso.
- Antes assim - disse. E explicou: - No gostaria nada de saber que havia 
pelo meio um membro de algum partido.
Depois daquele encontro no Palazzo Chigi foi para o escritrio. Ali soube 
que os operrios das centrais elctricas ligados aos turnos da noite 
ameaavam fazer greve se no fossem satisfeitas as suas reivindicaes 
para a renovao do contrato e nesse caso iam bloquear no s a Collenit 
mas todas as indstrias do pas.
Liliana telefonou para a sua secretria em Milo e disse: Chego  via 
Paleocapa antes da noite, para participar na assembleia dos funcionrios 
de turno.

383

Antes de partir para Milo, Liliana pediu um encontro com o director-
geral da Collenit.
- Eu vou dialogar com os operrios do turno da noite, mas preciso de 
saber quanto  que a empresa est disposta a oferecer pela renovao do 
contrato - comeou, sem demasiados prembulos.
- Dez por cento - respondeu ele. Ela abanou a cabea.
- Pedem quinze. Dez  muito pouco.
- No podemos oferecer mais. Isto  mesmo o mximo - retorquiu o 
director.
- A Collenit pode oferecer mais. No me diga que no  assim, porque 
conheo os nmeros at ao centsimo. E no me venha falar no capital 
necessrio para a reestruturao, que est programada h anos e que ainda 
no foi feita. Mas isso no me diz respeito - afirmou ela, com um ar 
decidido.
- Exactamente, no lhe diz respeito - sublinhou o director.
- Ainda que a reestruturao das velhas instalaes se traduzisse numa 
melhor preveno dos acidentes de trabalho. De qualquer maneira, eu no 
vou dialogar com os sindicatos para conceder apenas dez por cento. Sei 
que quinze  realmente de mais, para ns. Doze parece-me aceitvel para 
toda a gente - declarou.
- Nem pensar. Onze  o mximo - interveio o director.

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- Ento prepare-se para uma greve que lhe vai custar muito mais - avisou-
o.
- Dra. Corti, posso lembrar-lhe que se concedermos doze por cento aos 
operrios do turno da noite vamos ter em cima de ns os outros operrios, 
que vo avanar com propostas anlogas? No percebe que isso seria como 
dar um sinal de fraqueza? - respondeu o director-geral, veemente.
-  esse o erro dos patres e dos operrios. Mostrar os punhos para ver 
quem os tem mais robustos. Se eu propusesse os seus dez por cento, a 
questo no se resolvia.
- Conto com o seu fascnio, doutora. Sabe muito bem como lidar com aquela 
gente!
- Aquela gente  a nossa gente. Trabalham para ns, aleijam-se por ns, 
s vezes morre algum por ns. No estou a fazer um comcio comunista, 
estou apenas a dizer que, se no demonstrarmos a nossa vontade de 
perceber, vamos ter de fazer contas s consequncias de uma greve 
incontrolvel e, nesse momento, teremos a interveno do governo que, por 
autoridade, pode impor um aumento mais alto do que quinze por cento.
Depois prosseguiu: - As negociaes com os operrios so um passeio no 
parque, se as compararmos com as discusses que sistematicamente sou 
obrigada a ter consigo.
- De acordo quanto aos doze por cento - condescendeu o director-geral, 
intimamente convencido de que os operrios no iam aceitar.
Regressou a Milo e foi a correr a casa abraar o filho, que se preparava 
para partir para Oxford. Ia frequentar um colgio interno durante dois 
meses. Liliana e Sandro tinham decidido ir lev-lo e projectaram uma 
breve estadia em Inglaterra, os dois sozinhos.
Deveriam partir do aeroporto de Malpensa s oito horas da manh seguinte. 
Ela suplicou ao marido que tratasse das malas.
- vou imediatamente  empresa tratar de uma negociao com os sindicatos. 
Espero termin-la antes da noite. Se, pelo contrrio, as coisas se 
arrastarem, partam sem mim. vou ter convosco depois
- disse.
Na sala de reunies da Collenit a discusso estava a marcar passo. Os 
dirigentes comearam a dar sinais de cansao, enquanto

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os operrios, habituados a trabalhar de noite, estavam bem acordados e 
determinados a no ceder.
- Em que ponto estamos? - perguntou Liliana a um colega, antes de entrar 
na sala.
- Parmos nos dez por cento e eles no querem aceitar - respondeu o 
homem. Ela entrou na sala com um sorriso radioso e foi recebida por um 
coro de aplausos.
- Falei com a direco, em Roma, e j lhes digo que no vos vo dar o 
aumento que pediram, porque  demasiado elevado - comeou.
- Buuuh! - entoou a sala. E choveram contestaes e comentrios para 
demonstrar at que ponto os operrios estavam informados sobre a 
consistncia real do patrimnio da empresa, o que se desperdiava, 
quantas e quais as operaes erradas. Por fim, um dos sindicalistas 
levantou-se e disse: - Dra. Corti, quando chegou aqui dentro j sabia 
quanto  que a empresa est disposta a conceder. Portanto, tire l o 
aumento da cartola.
- Doze - respondeu Liliana.
Fez-se silncio. Ela continuou: - Este aumento, traduzido em dinheiro, 
representa quatro pares de sapatos novos para a famlia, a prestao da 
casa, cinco dias de frias na praia e ainda mais alguma coisa - explicou 
Liliana.
quela hora, os directores de Milo esperavam sonolentos nos seus 
gabinetes e os de Roma compilavam uma lista de possveis candidatos para 
substituir Liliana Corti que, tinham a certeza, desta vez ia ser um 
fiasco, porque os operrios no iam ficar satisfeitos com aquele aumento.
Liliana ligou ao director-geral s duas horas da manh.
- J est - disse-lhe.
- No h greve? - perguntou ele. Parecia quase desiludido, porque tinha 
muita vontade de se livrar daquela directora vermelha.
- Assinaram - respondeu ela. Depois desligou o telefone.
Quando voltou a entrar na sala, os operrios tinham feito aparecer em 
cima da mesa garrafas de vinho gasoso. Liliana brindou com eles.

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Instalaram-se num pequeno hotel que tinha como insgnia uma bandeirinha 
de ferro esmaltado com as palavras FOX INN e o perfil de uma raposa com 
uma cauda soberba.
Rosellina tinha aparecido de surpresa no embarque para Londres com uma 
bagagem considervel e uma roupa de adolescente: jeans muito apertados, 
T-shirt justa e uns grandes culos de sol para esconder a ausncia de 
maquilhagem.
- Tambm sou dos vossos - anunciou, com o seu trinado cristalino.
Stefano deu-lhe um abrao que quase a derrubou.
- A minha tia predilecta - exclamou.
- Cheira-me a esturro - sussurrou Sandro ao ouvido de Liliana.
Quando entraram no avio, as duas irms sentaram-se uma ao lado da outra. 
Liliana estava a morrer de sono, mas a irm tinha muita vontade de 
conversar.
- Est bem, mas conta-me tudo em voz baixa, que  para eu adormecer 
melhor - disse Liliana.
- O Cristiano est a ficar cada vez mais chato. Est a envelhecer, diz 
que tem problemas de colesterol e que no consegue andar sempre atrs de 
mim. Eu andava a precisar de uma lufada de ar fresco. Tenho uns guies 
para ler e preciso de escolher uma comdia para a prxima temporada. 
Decidi regressar ao teatro. Sabes, o cinema paga melhor, mas falta-me o 
contacto com o pblico. No

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vs como estou em baixo? Um ms em Londres vai-me levantar o moral - 
sussurrou.
- Mas pensas que ests a contar essa histria a quem? - disse Liliana, 
enquanto o avio levantava.
- s muito maliciosa. No h nada entre mim e o tom Hagen, pelo menos 
ainda. Sabes,  um actor do London Theatre. Um estrondo de um escocs, 
juro-te. Foi o Taddei que mo apresentou, em Roma. Vamos dar uma volta 
pela Esccia. Nunca l estive, mas parece que  uma terra lindssima. S 
que antes vou convosco a Oxford. Aquele querido do Cristiano marcou-me um 
quarto no Fox Inn, onde vocs vo estar. Diz que j l esteve e que ns 
vamos gostar imenso. Portanto, como te estava a dizer, estou decidida a 
passar algum tempo com o tom. No que eu queira trair o Cristiano. Ele  
o homem da minha vida. Sim, se calhar vou acabar por o trair, mas s um 
bocadinho, e ele nem sequer vai dar conta. Liliana, ests a ouvir? - 
perguntou.
A irm j tinha adormecido e dormiu at ao momento em que o avio aterrou 
em Heathrow.
Alugaram um carro para ir at Oxford. Sandro conduzia, Stefano tirava 
fotografias pela janela, Liliana voltara a adormecer e Rosellina falava 
em roda livre, apesar de ningum a ouvir.
Foram umas belas frias. Stefano telefonava  noite para informar os pais 
sobre as actividades do college. Liliana e o marido davam uns passeios 
pelo campo ingls, metiam-se pelas ruelas das cidades pequenas onde 
adquiriam objectos de pouco valor, escolhiam os restaurantes mais 
caractersticos e caminhavam de mos dadas.
Quando regressaram a Itlia, Liliana foi convocada a Roma pelo director-
geral da Collenit. No voltara a falar com ele desde a noite em que tinha 
sido assinado o novo contrato com os operrios do turno da noite.
Encontrou-se com ele  mesa de um restaurante.
- A Collenit tenciona mandar a Bruxelas,  Comunidade Europeia, algum 
que a represente condignamente - anunciou-lhe.
- Por que  que me est a dizer isso a mim? - perguntou Liliana, que j 
temia a sequncia do discurso.
- Porque pensei em si, Dra. Corti. Conhece bem os problemas da empresa, 
fala correctamente ingls e francs e j deu provas,

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mais do que uma vez, de saber fazer frente at ao diabo - explicou ele.
Era evidente que queriam mant-la afastada dos problemas operativos da 
Collenit.
- Por que razo deveria aceitar a sua proposta? - perguntou-lhe.
- Porque lhe convm, quer profissionalmente quer economicamente - 
respondeu ele, enquanto trincava um grissino.
- Algum me quer tirar a direco do pessoal? - perguntou, sem perder a 
calma.
- Doutora, no tire ilaes inteis.  verdade que  conhecida pela sua 
franqueza, mas a minha pacincia tem limites - respondeu ele, aborrecido.
- Muito bem. Ento aceito o novo encargo, que vou acumular com a direco 
do pessoal e com os trabalhos da comisso de que me ocupo - concluiu, 
serfica.
Na pequena sala do restaurante, frequentado por polticos e empresrios, 
toda a gente reparara em Liliana. Os mais prximos daquela mesa tinham 
inutilmente tentado interceptar o dilogo cerrado entre ela e o director-
geral da Collenit. Uma mo veio tocar-lhe no ombro. Liliana virou-se de 
repente e viu ao seu lado Bruno D'Azaro, que perguntou, com um ar 
divertido: - Prepara-se algum complot!
- Como sempre, quando algum se encontra a estas mesas - replicou 
Liliana.
O director levantou-se para apertar a mo ao parlamentar que, de seguida, 
se inclinou sobre ela para lhe dar um beijo no cabelo.
- Portem-se bem com esta rapariga. Vale quanto pesa, em ouro - disse 
Bruno. Depois afastou-se. Um instante depois voltou atrs e sussurrou: - 
Vou-me retirar da poltica. Amanh vais ler a notcia nos jornais.
O director da Collenit no tinha ouvido aquele sussurro, mas pouco depois 
disse: - Ento sempre  verdade que  amiga dos socialistas.
- S do Bruno e a nossa amizade no tem nada a ver com a poltica - 
explicou Liliana. Era verdade, apesar de nunca ningum ter acreditado 
nisso.

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Quando se encontrou com Sandro, estava preparada para enfrentar outra 
tempestade. Mas ele desconcertou-a.
-  uma ptima notcia. vou contigo para Bruxelas. No te deixo sozinha 
naquela cidade que no conheces. O Stefano j  grande e eu posso 
dedicar-me um pouco menos a ele e um pouco mais a ti, pequenina - disse-
lhe.
Foram anos de grande trabalho e relativa serenidade. Sandro tinha j 
passado o seu escritrio, um pouco pela idade e um pouco porque chegara  
concluso de que j havia na famlia uma mulher que trabalhava por 
quatro, e preparava-se agora para aliviar o seu cansao.
Depois chegou o dia em que prenderam o presidente de uma instituio de 
beneficncia em Milo. Era um socialista que ia metendo algum dinheiro ao 
bolso.
Liliana telefonou a Bruno. Queria saber mais.
Bruno D'Azaro, depois de se ter demitido da sua carreira de subsecretrio 
e de ter sado do partido, tinha voltado a ocupar-se do seu escritrio de 
advocacia, que era agora um dos mais importantes da cidade.
Uma vez tinha-lhe dito: - Liliana, fizeste bem em ficar longe da 
poltica.
Agora disse-lhe: - Aguenta-te bem, porque a priso deste homem marca o 
incio de um escndalo que vai mexer em todo o nosso sistema poltico e 
econmico. Aproximam-se tempos durssimos.
E assim foi. Milo foi considerada a ptria da corrupo. Quando Liliana 
ia a Roma, os amigos sorriam-lhe, davam-lhe uma pancadinha no ombro e 
diziam: - Vocs, os de Milo, com toda essa mania de que so gente de 
bem, esto a receber uma lio memorvel. Afinal no  Roma que rouba!
Com efeito, as prises estavam na ordem do dia. Jornais e televiso no 
falavam de outra coisa. Era como se, de repente, se tivesse destapado um 
poo do qual saa um cheiro insuportvel. Na Collenit rolaram muitas 
cabeas, ao mesmo tempo que as de muitos polticos de quase todos os 
quadrantes. Ela nunca foi envolvida e, no entanto, quando terminou o seu 
mandato na comisso feminina no lho renovaram.

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- Antes assim - sentenciou Sandro. - Os anos tambm passam para ti. A 
Comisso Europeia e a direco do pessoal so mais do que suficientes.
Mas Liliana aceitou mal essa situao. Tinha trabalhado muito no projecto 
a favor das mulheres e agora receava que algum menos experiente do que 
ela pudesse estragar todo o seu esforo.
Depois os acontecimentos precipitaram-se.  Collenit chegou um novo 
presidente e um administrador delegado que gozava da fama de cortar 
cabeas. Nos corredores da sede da via Paleocapa corria o rumor de que 
todos os chefes, dos cinquenta e cinco anos para cima, iam ser 
despedidos. Tambm Liliana pertencia  velha guarda.
Um dia encontrou na via Veneto, em Roma, o ex-director-geral. Estava a 
ser alvo de um inqurito, como outros do seu poderoso partido. Convidou-a 
para tomar um aperitivo no bar do Excelsior.
- Cara Dra. Corti, os bons tempos acabaram - lamentou-se.
- At a sua cadeira est a vacilar - revelou-lhe, e parecia lamentar o 
facto de lhe transmitir aquela informao.
- Sr. Director, na Collenit as mudanas no topo nunca assustaram ningum. 
Eu estou um degrau mais abaixo e sinto-me protegida.
- No tenha iluses, doutora. Estas novas personagens cortam os ramos 
velhos sem sequer saberem quem so, nem o que fizeram. Tambm a vo 
ceifar a si - disse brutalmente e, pela primeira vez em tantos anos, 
olhou-a com simpatia. - Agora j no tenho nada a perder e posso dizer-
lhe que uma chata como voc incomodou toda a gente dentro da empresa. Mas 
eu admirava-a pela sua rectido moral. Foi um prazer discutir consigo. 
Venha fazer-nos uma visita, quando passar a tempestade. A minha mulher 
tambm vai ficar feliz por estar outra vez consigo - acrescentou.
Acabou algemado no dia seguinte.
No fim do ano, Liliana foi convocada pelo novo director-geral.
Era um homem magro, de rosto seco e sorriso desagradvel. Recebeu-a em 
mangas de camisa. O casaco e a gravata tinham passado de moda. Nem sequer 
a convidou a sentar-se.
- Ento, doutora, quando pensa despedir-se de ns? - comeou.

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Liliana observou o panorama, para l das grandes janelas que se abriam 
sobre a piazza Venezia. As luzes de Natal e o som de uma gaita-de-foles 
chegavam at ao gabinete. Por mais do que uma vez, durante aqueles meses, 
tinha pensado em demitir-se, solicitada tambm por Sandro, que lhe dizia: 
- Temos com que viver desafogadamente at ao fim dos nossos dias. Sai 
dessa confuso.
- No estou a pensar nisso - respondia ela.
- Seria um bonito gesto relativamente aos novos patres.
- Nem sequer iam entender. So arrogantes e sequiosos de poder. No vem 
a hora de eu me pr a mexer. Mas a minha gente, os meus operrios, as 
minhas empregadas, iam ficar muito mal.
- Tu  que vais ficar muito mal - avisava-a. E naquele momento sentiu-se 
mal, de facto.
- Por que havia de os deixar? - perguntou ao novo director-geral. E 
acrescentou: - Estou a realizar um bom trabalho para a empresa quer em 
Bruxelas quer a nvel da direco de pessoal - explicou. J sabia que 
tinha perdido a partida, mas queria uma explicao plausvel.
- Aqui j deu o mximo. Agora precisamos de gente jovem. E depois dizem-
me que a doutora esteve muito prxima dos socialistas. Agora, por azar, 
os socialistas foram parar atrs das grades - disse-lhe, com um sorriso 
odioso.
- Forneceram-lhe informaes incorrectas. Avancei apesar dos meus amigos 
socialistas que, aqui dentro, nunca tiveram nenhum peso. E, com todo o 
respeito, tambm o senhor deve ter algum santo no paraso - replicou, com 
um tom acutilante.
O homem levantou-se de um salto. O sorriso odioso tinha desaparecido e 
olhou para ela como se quisesse pegar-lhe fogo.
- Se no for a senhora a fazer as malas, vai-me obrigar a despedi-la - 
vociferou.
Liliana j tinha encaixado o golpe e reencontrou o seu habitual 
autodomnio. Sorriu e disse: - No me pode despedir, porque o meu 
contrato acaba daqui a cinco anos. Mas sou eu que me vou embora, porque 
uma pessoa deve entender quando chegou o momento de se render. No 
entanto, no precisa de ser to rude, Sr. Director.  um conselho para o 
futuro: aprenda a ter um mnimo de classe, ainda que o resultado seja o 
mesmo. Este conselho  grtis.
- Dirigiu-se  porta com um passo altivo. Depois virou-se e voltou

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para trs. Disse: -  uma pena separarmo-nos assim, porque voc  uma 
pessoa inteligente. Se nos tivssemos conhecido em circunstncias 
diferentes, talvez at pudssemos ter sido amigos.
Deu-se ento uma espcie de milagre. O homem sorriu, deu a volta  
secretria e estendeu-lhe a mo.
- Tambm voc  uma mulher inteligente. Sabe o que lhe digo? No a 
despeo, pelo menos no completamente. Deixo-lhe o cargo de Bruxelas. 
Veja l o que consegue trazer para casa. Por que no deixamos o voc?
- Porque eu sou uma senhora de idade, ancorada aos valores do passado. 
Agradeo-lhe por me ter oferecido a possibilidade de continuar a 
trabalhar para a Comisso Europeia. Apreciei muitssimo, acredite. No 
entanto, a minha resposta  no. Quero o despedimento e uma indemnizao 
substancial, porque dei muito dinheiro a ganhar  Collenit e agora tenho 
a certeza de que a empresa me vai agradecer convenientemente.
Liliana regressou ao gabinete, encheu um caixote com todas as suas 
coisas, apanhou o avio e regressou a casa. Refugiou-se nos braos do 
marido e, lavada em lgrimas, disse-lhe: - Acabou.

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SITO DELLA GUASTALLA

Estava uma bela tarde de Maio, em Milo, com um cu transparente, um sol 
quente e um ar que cheirava a tlia. Tinha explodido a Primavera depois 
de muitos dias de chuva.
No consultrio do professor De Vito as janelas estavam abertas e as 
persianas parcialmente descidas para evitar a entrada do sol. Liliana 
estava sentada na poltrona do costume, em frente ao psiquiatra.
- Sempre vivi a correr e, de um dia para o outro, achei-me sem mais nada 
que fazer. Foi terrvel, professor - disse.
- Mas j passou algum tempo e agora parece que rejuvenesceu - observou 
Nelson.
- Est a falar a srio? - perguntou, a sorrir.
- Nunca a vi to jovem e to bonita - confirmou o mdico, observando-a 
com ateno.
-  verdade, sinto-me realmente bem. Acha que  para durar?
- Eu sou optimista e a senhora tambm deve ser.
- Pois. Acabo de fazer sessenta e dois anos. Tinha de chegar a esta idade 
para deixar de viver quele ritmo e conseguir olhar em volta, apreciando 
as pequenas alegrias de todos os dias. Fez um bom trabalho.
- A senhora  que fez. Eu limitei-me a ouvi-la.
- Talvez. De qualquer maneira, j me esqueci do estado em que estava 
quando me apresentei aqui, da primeira vez. Reviver os dramas, as emoes 
e os acontecimentos da minha vida foi um

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caminho difcil e cansativo, mas fez-me muito bem. Ajudou-me a melhorar 
da minha ansiedade, a encontrar uma serenidade que eu no conhecia - 
afirmou, e acrescentou: - No sei se lhe disse que as minhas duas netas, 
as filhas do Stefano, quando eram mais pequenas me olhavam com 
desconfiana e me chamavam a av nova, porque quase nunca me viam? 
Agora quero passar a ser a av predilecta. Tenho de recuperar com elas 
todo o tempo perdido.
- Parece-me um bom projecto. E o seu marido, que gnero de av  ele?
- As meninas chamam-lhe av resmungo e no digo mais nada - brincou. 
Depois acendeu um cigarro, enquanto Nelson limpava o seu cachimbo.
- E o Srgio Branduani? No se voltaram a encontrar?
- Cruzmo-nos uma vez, em Bruxelas. Foi no aeroporto. Ainda era um homem 
espantoso, de cortar a respirao. Tommos um caf juntos. Confessou-me 
que, de vez em quando, lhe acontecia marcar o meu nmero de telefone, mas 
que parava antes do ltimo algarismo. Queramos parecer os dois muito 
desenvoltos, a falar do nosso encontro como se de uma paixo juvenil se 
tratasse. Depois, antes de nos despedirmos, ele disse: Foste muito 
sensata, Liliana. Nunca teramos sido felizes os dois juntos. Tinha os 
olhos brilhantes e eu tambm estava comovida.
- Foi realmente muito sensata, tomou a deciso certa.
- Devo-o ao meu marido,  sua cena de cimes - admitiu Liliana, com um 
sorriso. E acrescentou: - Devo dizer-lhe tambm que o meu trabalho na 
Collenit e na Comisso para a Igualdade de Oportunidades, a estes anos de 
distncia, ainda d muitos frutos. As minhas mulheres ainda me telefonam 
a pedir conselhos. No semeei ao vento.  uma grande satisfao. Tambm 
os meus operrios se lembram de mim no Natal. Mandam-me cartes de boas-
festas. Sabem que estive sempre do lado deles.
- Projectos para o futuro? - perguntou Nelson.
- Uma viagem pelo Danbio, com a famlia toda. A Rosellina e o Cristiano, 
o Giuseppe e o Rizio, o Pucci e a Ariella e, obviamente, eu e o meu 
marido. Os filhos ficam em casa. E o senhor, professor De Vito?
- Comprei uma casa em Barrows, na Cornualha. A minha mulher j l est h 
um ms para acompanhar as obras de restauro.

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A minha me, que ainda est como uma rocha, d-lhe uma mo. Deixo a 
Itlia e vou-me reformar no nico lugar em que sempre desejei viver - 
disse.
- E os nossos encontros? - perguntou Liliana, aflita.
- A Dra. Corti j no precisa de mim - constatou.
Era verdade. J no precisava dele. Os tempos em que se sentia um barco  
deriva no meio da tempestade tinham passado.
Liliana saiu para a rua cheia de sol. Decidiu regressar a casa a p, 
porque gostava de andar e queria saborear aquele belo dia de Maio. Na rua 
olhou para a sua imagem reflectida numa montra. Era ainda uma mulher 
bonita e o tailleur cinza-prola da Corti Collection adaptava-se 
fantasticamente ao seu corpo. Telefonou  nora e disse: - Eu vou buscar 
as meninas  ginstica. vou lev-las ao Sant'Ambroeus a lanchar uma 
grande chvena de chocolate.

Fim
